Por Que os Homens Escrevem?

Por Francikley Vito

Derrepente atiramo-nos em um espaço vazio. Sem letras, sem falas, sem gestos, sem cor. Sem nada! Apenas nós e o vazio de uma tela em branco e uma idéia que precisa, a todo o custo, se manifestar. Idéias que, em nós, há muito tempo vivem. Atiramo-nos no ar como aranhas que sabe que o vazio não ficará assim por muito tempo, e queremos a todo o custo tecer.

Alguns tecem enciclopédias, outros tecem livros, outros tecem versos, outros ainda, aforismos. Tecem suas teias, há muito demarcado. Tecem com o furor de preencher o vazio; afinal, sabemos que “a aranha vive do que tece”. Tecem até blogs! (mas isso, é uma outra teia!).

Por que os homens escrevem? Já disseram que “falando o homem não manifesta somente aquilo que pensa, mas procura traduzir o seu estado de alma e, mais ainda, procura emocionar os outros” [1]. Mas não é só isso. Queremos animar, assolar, converter, consolar. De ande vem essa inquietude que nos leva sempre a querer tecer mais uma teia, mais uma frase, mais uma crase?

Queremos tecer o não dito, o não quisto, o não pensado, o não visto. Queremos, a todo o custo, tecer o futuro, o presente e o passado. Ah! Sim, como galos que cantam como que chamando o dia, tecemos linhas. Afinal,

O galo sozinho não tece um amanhã
Ele precisa sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito [...]
E o lance a outro; de um outro galo [...]
Pra que o amanhã, desde uma teia tênue,
Se vá tecendo, entre todos os galos. [2]

Como seres incompletos, queremos nos completar; como seres sonhadores, queremos realizar; como seres impacientes, queremos nos saciar. E assim tecemos teias, cânticos, palavras... blogs!

Lembremo-nos, porém, que “os leitores são, por natureza, dorminhocos. Gostam de ler dormindo”.[3] Portanto, esforcemo-nos para despertá-los para o amanhã que virá. Em breve.


NOTA
[1] TERSARIOL, Alpheu. Biblioteca Moderna de Língua Portuguesa. São Paulo:Tese Editora, 1978, p. 135.
[2] MELO NETO, João Cabral de. A Educação pela Pedra, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996, p.35.
[3] QUINTANA, Mário. Citado por TERRA, Ernani e NICOLA, José de. Pratica de Linguagem. São Paulo: Scipione, 2001, p.11.

Sobre a oração de um pecador que não quer deixar o pecado (Parte 4/5)

João Maria Batista Vianney
(Trad. do francês Caramuru Afonso Francisco)


Quereis que vo-lo mostre de uma maneira mais clara? Escutai-me. Durante a Santa Missa(A-4), ou durante as vossas orações, vem a vós um pensamento de ódio ou de vingança. Se amais melhor o bom Deus do que aqueles objetos, vós os expelireis prontamente, mas se vós não o fazeis, mostrareis que os preferis a Deus e que os pondes em lugar de Deus mesmo por lhes dar o vosso coração: “Meu Deus, sai de minha presença e me deixa pôr, em Teu lugar aquele demônio para que eu lhe dê as afeições de meu coração”. Vós haveis de convir comigo, meus irmãos, que quase nunca é o bom Deus que adorais em vossas orações, mas cada uma destas inclinações, isto é, destas paixões e nada mais. Isto — dir-me-eis — é um pouco forte. Isto é um pouco forte, meu amigo? Pois bem, mostrar-vos-ei que é a verdade, com toda a evidência. Dize-me, meu irmão, ou tu, minha irmã, quando tu te confessas(A-6), teu confessor não te diz: “Se deixares estes desejos, pensamentos, ou se cessares estes maus hábitos, estes cabarés, dar-te-ei teu Deus, terás a felicidade de recebê-lO hoje dentro de teu coração?”. “Não, meu padre — dizes-lhe — ainda não; não me sinto com coragem de fazer este sacrifício, quer dizer, de deixar estas danças, estes jogos, estas más companhias.” Não é que preferis que o demônio reine em vossa alma em lugar do bom Deus? O confessor dirá a este vingativo: “Meu amigo, se tu não perdoas àquele que te ultrajou, não terás a felicidade de possuir o Deus dos cristãos”. “Não, meu padre — dizes-lhe — prefiro não receber o bom Deus”. “Meu amigo — dirá ainda o confessor a um avaro — se não devolveres aquele bem que não te pertence, serás indigno de receber teu Deus”. “Meu padre, não tenho a intenção de devolvê-lo tão cedo”. E assim de todos os outros pecados. Isto é tão verdade que, se o que nós amamos aparece visivelmente, cada um teria diante de si um ramo de sete pecados capitais e Deus estaria somente para os seus anjos.

Mas andemos mais adiante e veremos, e ouviremos este charlatão, este cristão mentiroso.

E, em primeiro lugar, vejamos sua fé. Dizemos que é a fé que nos descobre a grandeza da majestade de Deus diante do qual temos a felicidade de existir. É esta fé, reunida à esperança, que sustentou os mártires no meio dos mais terríveis tormentos. Dizei-me, este pecador pode ter o pensamento, pode crer, ao começar a sua oração, que ela será respondida? Uma oração repleta de toda sorte de coisas com a única exceção de Deus, uma oração feita no vestir ou no trabalho, o coração ocupado de seu trabalho, talvez mesmo de ódio e de vingança, ou quem sabe, de maus pensamentos? Uma oração feita com gritos e imprecações a seus filhos ou seus empregados domésticos? Se isto fosse assim, não seria forçoso reconhecer que Deus recompensaria o mal?

2º Digo que o pecador não tem senão uma esperança ao fazer sua oração, a saber: a de que a terminará logo. Vê em que se baseia toda a sua esperança. Mas — dir-me-eis — este pecador, por mais pecador que seja, não espera algo de bom? Pois bem, para mim, um pecador que não crê em coisa alguma não espera coisa alguma, pois se cresse que haveria um julgamento e, por conseguinte, um Deus a quem deverá prestar contas de todos os minutos e segundos de sua vida e que estas contas se prestarão num momento em que não pensa, se cresse que um só pecado mortal vai lhe fazer digno de uma eternidade de infelicidade, se pensasse bem que não há uma oração de sua vida, nem um desejo, nem uma ação, nem um movimento de seu coração que não esteja escrito no livro deste Soberano Juiz, se ele visse sua consciência carregada de crimes, talvez os mais terríveis e que, talvez nele só, escondam-se tantos pecados que seriam suficientes para condenar ao fogo ardente toda uma cidade de cem mil almas, poderia bem permanecer neste estado? Não, sem dúvida, se cresse verdadeiramente que, após este julgamento, há para os seus pecados um inferno eterno, para o qual é suficiente um só pecado mortal, se ele morrer neste estado; se cresse verdadeiramente que a cólera de Deus o esmagará durante toda a eternidade e que os pecadores ali caem aos milhares continuamente, não tomaria ele outras precauções para que evitasse esta infelicidade para si? Se cresse verdadeiramente que há um céu, quer dizer, uma felicidade eterna para todos aqueles que terão praticado fielmente o que a religião lhes ordena, poderia se comportar como ele o faz? Não, sem dúvida! Se, no momento em que ele está pronto a pecar, cresse que Deus o vê, que ele perde o céu e se atira a toda sorte de males por este via e não por outra, teria ele a coragem de fazer o que o demônio lhe inspira? Não, meu amigo, não, isto não seria possível. Daí concluo que um cristão que pecou e que fica em seu pecado tem perdido a fé inteiramente. É um pobre homem a quem os demônios têm tirado os olhos, que está suspenso por uma pequena corda sobre o mais terrível abismo. Eles o impedem, tanto quanto podem, de ver os horrores que lhe estão preparados. Digamos melhor, suas feridas são tão profundas e seu mal tão inveterado que ele nem sente mais seu estado: é um prisioneiro, condenado a perder a vida sobre o cadafalso, que se diverte esperando o momento da execução. Dizemos bem que sua sentença está pronunciada, que dentro de pouco tempo ele não mais estará neste mundo. Ao vê-lo e à maneira com que ele se conduz, direis que se lhe anuncia o que lhe está destinado. Ó meu Deus, como é triste o estado de um pecador!

Fonte
Acesso em 30 jun. 2009.
Nota
A-4 – O prregador, como é católico romano, refere-se à Missa. Isto não nos impede de aplicar seu pensamento aos nossos cultos.
A-6 – O pregador faz uma ilustração com a “confissão auricular”, ou seja, a confissão feita ao padre para absolvição dos pecados, algo que não está de acordo com as Escrituras. No entanto, a ilustração não deixa de ter seu valor, pois, se, como se demonstra no sermão, a confissão a um homem já se apresenta uma mentira, que dirá uma suposta confissão feita a Deus (Cf. Rm.10:10)!

Teólogo ataca decisão de Bento XVI

O teólogo suíço Hans Küng atacou publicamente decisão de Bento XVI de acolher Anglicanos no seio da Igreja Católica.

Segundo o Jornal O Estado de São Paulo (online), o “teólogo dissidente” falou contra o Papa Bento XVI em um artigo públicado em dois grandes jornais da Europa (The Ruardian e La Repubblica do Reino Unido e Itália, respectivamente).

Para reportagem, que passamos a citar literalmente abaixo, o teólogo teria dito que a decisão do Papa seria uma “tragédia”, e completa: ”a fome de Roma divide o cristianismo e danifica a sua igreja”. A publicação continua:

Para o teólogo dissidente, as consequências da "estratégia" de Roma são três: "o enfraquecimento da Igreja Anglicana, a desorientação dos fiéis dessa confissão e a indignação do clero e o povo católico", que veem - diz - como se aceitam sacerdotes casados enquanto se insiste, de maneira "teimosa", no celibato dos padres católicos.

Para o Vaticano as acusações do teólogo estão “muito longe da verdade”.

Fonte
Reportagem:http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,teologo-ataca-assimilacao-de-anglicanos-pelo-vaticano,457889,0.htm. Acesso em 28 de Out. 2009.

Sobre a oração de um pecador que não quer deixar o pecado (Parte 3/5)


João Maria Batista Vianney
(Trad. do francês Caramuru Afonso Francisco)

II. Agora, ireis ver comigo que, considerando a oração do pecador em relação a suas disposições, não é ela outra coisa senão um ato ridículo, cheio de contradição e de mentira. Sigamo-lo por um instante, este cristão pecador que ora, digo por um instante, porque, ordinariamente, suas orações terminam logo depois que se iniciam. Escutemos este pobre cego, este pobre surdo: digo cego em relação aos bens que ele perde e pelos males que ele prepara para si mesmo; e surdo, em relação à voz da sua consciência que grita, à voz de Deus que o chama com grandes clamores. Entremos no conteúdo desta oração, estou certo de que desejareis saber que nada mais que aborreça e ofenda a Deus do que a oração de um pecador que não quer deixar o pecado. Escutai. A primeira palavra que ele diz, ao começar sua oração é uma mentira, ele entra em contradição consigo mesmo: “No nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Meu amigo, para um instante. Tu dizes que começas tua oração em o nome das três Pessoas da Santíssima Trindade. Mas, então, tens esquecido que não faz oito dias, tu estavas com uma companhia que te dizia que quando se morre, tudo acaba, e que isto é assim, que não há nem Deus, nem inferno, nem paraíso? Sim, meu amigo, em teu endurecimento, creste nisto e, por isso, não vieste para orar, mas somente para te entreter e divertir. Ah, — dir-me-ás — os que mantêm esta linguagem são bem raros. Entretanto, há, entre eles aqueles que não deixam de fazer algumas orações de tempos em tempos. E vos mostrarei ainda, se quiser, que três quartos dos que estão aqui na igreja, não importa que não o digam com sua boca, dizem-no por sua conduta e sua maneira de viver, pois, se um cristão pensasse verdadeiramente o que é pronunciar os nomes das três Pessoas da Santíssima Trindade, seria tomado de temor até o desespero, considerando a imagem do Pai que ele desfigura de uma maneira tão terrível, a imagem do Filho que está em sua alma, arrastada e rolada no lodo do vício, e a imagem do Espírito Santo, cujo coração é o templo e o tabernáculo e que ele tem enchido de imundície e de sujeira. Sim, meus irmãos, estas três palavras somente, se este pecador tivesse o conhecimento do que ele diz e do que ele é, poderia pronunciá-las sem morrer de horror por ele próprio? Escutai este mentiroso: “Meu Deus, eu creio firmemente que Tu estás presente aqui”. O que, meu amigo, tu crês na presença de Deus diante do qual os anjos, que são sem mancha, tremem e não ousam levantar seus olhos, diante de quem eles se cobrem com suas asas, porque não podem suportar o brilho da majestade que os céus e a terra não podem conter? E tu, todo coberto de crimes, estás ali com um joelho em terra e o outro no ar. Ousas abrir bem a boca para deixar sair uma tal abominação! Dize então melhor que tu fazes como os macacos, que fazes o que vês os outros fazer, ou melhor, que estás em um momento de entretenimento onde aparentas que estás a orar.

Um cristão que se põe na presença de seu Deus, que percebe que, ao orar, fala com o autor mesmo da sua existência, não é tomado de temor em ver, de um lado, sua indignidade de comparecer diante de um Deus tão grande e temível e, de outro, sua ingratidão? Não lhe parece, a cada instante, que a terra vá se abrir sob seus pés para engoli-lo? Não se vê como entre a vida e a morte? Seu coração não é devorado pelo arrependimento e cheio de reconhecimento? Digo de arrependimento, pensando como ele se encontra triste de ter ofendido a um Deus tão bom, e de reconhecimento, pensando como é necessário que Deus seja paciente e amoroso de lhe permitir estar em Sua presença santa, apesar de sua ingratidão e de todos os ultrajes com os quais se tornou culpado em todos os momentos. Mas, para vós que oreis e que não quereis deixar o pecado, pelo menos ainda não, dizei-me, com que diferença estais presentes em uma igreja e em um baile, se ouso fazer esta comparação terrível, já que uma é a morada de Deus, e a outra, do demônio? Se vós não sabeis qual é a diferença, ensinar-vo-la-ei, ei-la. Indo ao baile, de que vos ocupeis? Sem dúvida, das pessoas que esperais encontrar ali. Vossa primeira preocupação, ao entrar, é o de passear vossos olhares para ver se as notais, é de considerar a maneira como o salão é construído, as tapeçarias que a decoram, de saudar as pessoas que conheceis, de rapidamente vos assentar e conversar. Não vou mais longe: não falarei de todos os maus pensamentos, maus desejos, maus olhares, deixemos tudo isto de lado, e me dizes francamente, tu, meu amigo, que deves estar o tempo todo entregue ao desespero, sabendo o estado terrível em que estás, já que estás carregado de pecados, não é esta a conduta que tens ao vir à casa do Senhor? Digo que, quando uma pessoa vai com prazer a um baile ou uma dança, ela se ocupa apenas de coisas indiferentes, ou de prazeres, e nunca do bom Deus: quando vindes à igreja, pensais diante de quem vós estais e a quem vós ireis falar? Vós haveis de convir comigo que vossa conduta é precisamente esta. Digo que, ao entrar, uma de vossas primeiras preocupações é considerar como o salão está ornado: bem, não é isto que fazeis quando chegais à casa do Senhor? Olhais de alto a baixo, de uma esquina da igreja à outra (1). Digo ainda que um de vossas primeiras preocupações é de examinar as pessoas que conheceis e de lhes saudar: não é isto que fazeis, vendo uma pessoa ou um amigo que não tínheis visto há alguns dias? Não tereis dificuldade de lhes falar, de lhes saudar neste lugar, de lhes cumprimentar com um bom dia na presença do bom Deus que está em corpo e alma sobre o altar, que vos ama, que só vos chama a Sua santa presença para lhes perdoar e vos cobrir das maiores bênçãos. Uma outra ocupação deste tipo de gente é a de examinar a maneira como as pessoas se vestem e a sua beleza: daí nascem os maus olhares, os maus pensamentos, os maus desejos.

Pois bem, meu amigo, dize-me que isto não ocorre contigo? Isto não ocorre mesmo durante a Santa Missa (A-2)? Enquanto um Deus Se imola à justiça de Seu Pai para satisfazer teus pecados (A-3), passeias teus olhos para ver como este ou aquele está vestido e a sua beleza. Não é esta a causa de te fazer nascer um número quase infinito de pensamentos e de maus desejos que não devias ter? Abre então os olhos, meu amigo, e verás que tudo isto que dizes a Deus não é outra coisa senão mentira e engano.

Andemos mais adiante. “Meu Deus — dizes — eu Te adoro e Te amo de todo o meu coração”. Tu te enganas, meu amigo, não é preciso dizer o bom Deus, mas o teu deus. E qual é o teu deus? Ei-lo: é aquela jovem a quem deste teu coração, que te ocupas continuamente. E tu, minha irmã, quem é teu deus? Não é aquele jovem cuja tua única preocupação é tudo fazer para agradá-lo, talvez mesmo dentro da igreja, onde devas vir unicamente para chorar teus pecados e pedir a Deus a tua conversão? Não é verdade que, enquanto oras, os objetos que amas ocupam o teu espírito e se apresentam diante de ti para que se façam adorar em lugar de teu Deus? Não é verdade que, esta tarde, o deus da glutonaria não se apresenta diante de ti para se fazer adorar, quando pensas naquilo que comerás quando estiveres em casa? Ou, ainda uma vez, o deus da vaidade, que toma prazer em ti mesmo, considerando-te como digno de merecer a adoração dos homens? Sabes que dizes a Deus? Ei-lo: “Senhor — dizes — desce de Teu trono, dê-me o Teu lugar.” Meu Deus, que horror e que abominação! E, entretanto, tu dizes isto todas as vezes que desejas agradar alguém. Ainda uma vez, é o deus da avareza, da vaidade, do orgulho, ou mesmo da impudicícia que vieram diante de ti para se fazer adorar e amar em lugar do Deus verdadeiro.

Fonte
Acesso em 30 jun. 2009.

Nota
(1) Há esta diferença que, num baile, não se queira sair e que, em uma igreja, há logo a vontade de ir embora (Nota do Cura d’ Ars).
A-2 – O prregador, como é católico romano, refere-se à Missa. Isto não nos impede de aplicar seu pensamento aos nossos cultos.
A-3 – Aqui o pregador usa da doutrina romanista da transubstanciação, segundo a qual, na missa, reproduz-se o sacrifício de Jesus, o que não tem qualquer base bíblica. Isto, porém, não diminui o sentido do que está o pregador a dizer, pois sabemos que, em qualquer culto, onde estiverem dois ou três reunidos, o Senhor Jesus ali está (Mt.18:20), ou seja, a ideia da irreverência trazida pelo pregador está, sim, presente.

Seita marca o retorno do Anticristo

Site Marca o Dia da Vinda do Anticristo

Na internet, um site [1] mostra na primeira página um grande relógio digital que conta, em ordem regressiva, os dias, horas, minutos e segundos que faltam para o aparecimento do Anticristo. De acordo com o mesmo, a revelação foi dada em uma “reunião” por São Miguel [?]. Diz o texto que Miguel falou: “em 13 de Setembro anotai:

"É o Terceiro dia dos 1.260... Quanto aos profetas atuais, anotai: Revelações, no Capítulo 10, na palavra 4 e na palavra 11... Portanto, já vivereis o que vos foi profetizado... Amém!”(sic). Portanto, o Anticristo se manifestaria em “15 de fevereiro de 2012”.

Para o Teólogo Stanley M. Hortos, “Jesus não disse exatamente o tempo de sua volta (Mt 24.30,36; Mc 13.32,33). É possível que Deus tenha mantido essa informação em sigilo a fim de reduzir ao mínimo os perigos da demora” e “É melhor que não saibamos a data da segunda vinda de Jesus. Deus quer que realizemos a Sua obra.”[2]
Nota
[1] http://fimdostempos.net/ Acesso em 26/10/09.
[2]HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática. Rio de Janeiro:CPAD, 1996, p.612.
INAGEM: Google Imagem

Sobre a oração de um pecador que não quer deixar o pecado (Parte 2/5)

João Maria Batista Vianney
(Trad. do francês Caramuru Afonso Francisco)


1º Digo, em primeiro lugar, que é necessário que tenhamos uma fé viva – E por quê? — dir-me-eis. Meu amigo, ei-lo: é que a fé é o fundamento e a base de todas as nossas boas obras, e sem esta fé, todas as nossas ações, ainda que boas em si mesmas, não são senão obras sem mérito. Devemos estar também tão compenetrados da presença de Deus, diante de quem temos a felicidade de existir, como um doente que uma febre violenta fez cair no delírio e ”viajar”: seu espírito, uma vez fixado em algum objeto, ainda que nada haja de visível, está tão convencido de sua existência que ele deseja tocá-lo e, ainda que nos esforcemos a lhe dizer o contrário, ele não quer crer. Sim, meus irmãos, foi com esta fé violenta, se posso ousar dizer assim, que santa Madalena procurou o Salvador, não O tendo encontrado em Seu sepulcro. Ela estava tão compenetrada do objeto que ela procurava, que Jesus Cristo, para experimentá-la, ou melhor, não podendo mais se esconder ao seu amor que ela Lhe dedicara, apareceu-lhe sob a forma de um jardineiro e lhe perguntou porque ela chorava e a quem ela procurava. Sem lhe dizer que ela procurava o Salvador, ela exclamou: “Ah, se tu O tomaste, dize-me onde O puseste, a fim de que eu vá levá-lO (Jo.20:15)”. Sua fé era tão viva, tão ardente, ouso dizê-lo, que, quando Ele teria estado no seio de são Pedro, ela O teria forçado a descer à Terra. Sim, meus irmãos, veja a fé de que um cristão deve estar animado, quando se tem a felicidade de estar na presença de Deus, a fim de que Deus nada lhe possa recusar.

2º Em segundo lugar, digo que à fé é preciso acrescentar a esperança, quer dizer, uma esperança firme e constante de que Deus pode e quer consentir com aquilo que nós pedimos. Querem ver um modelo? Veja a Cananéia (Mt.15): sua oração era animada de uma fé tão viva, de uma esperança tão firme que o bom Deus poderia consentir com o que ela pedia, mas ela não deixou de orar, de pressionar, ou ouso dizer, de fazer violência a Jesus Cristo. Podemos bem rejeitá-la, e mesmo Jesus Cristo. Não sabendo de que maneira se poderia “tomá-lO”, ela se lança aos Seus pés e Lhe suplica: “Senhor, ajude-me” e estas palavras pronunciadas com tanta fé subjugaram a própria vontade de Deus. O Salvador totalmente surpreendido exclamou: “Ó mulher, quão grande é a tua fé! Vá, tudo te é concedido.” (1)

Sim, meus irmãos, esta fé, esta esperança nos faz triunfar sobre todos os obstáculos que se opõem à nossa salvação (A-1). Veja a mãe de são Sinfrônio. Seu filho ia para o martírio: “Ah, meu filho, coragem! Mais um momento de paciência e o céu será a tua recompensa!”. Dizei-me, meus irmãos, o que sustentava todos os santos mártires no meio de seus tormentos? Não era esta feliz esperança? Vede a calma de que são Lourenço desfrutava sobre sua grelha de fogo. Que podia sustentá-lo? A graça — dir-me-eis. Isto é verdade, mas esta graça não é a esperança de uma recompensa eterna? Vede ainda são Vicente, quando lhe arrancavam as entranhas com ganchos de ferro: quem lhe deu a força para sofrer tormentos tão extraordinários e terríveis? Não era esta feliz esperança? Pois bem, meus irmãos, é esta esperança que deve portar um cristão que se põe na presença de Deus, rejeitando todas estas distrações que o demônio se esforça de lhe dar durante as suas orações e superando o respeito pelo homem! Não é este o pensamento que Deus quer que, se sua oração for bem feita, o cristão será recompensado com uma felicidade eterna?

3º Em terceiro lugar, disse que a oração de um cristão deve ter o amor, quer dizer, que ele deve amar o bom Deus de todo o seu coração e odiar o pecado com todas as suas forças. E por quê? — dir-me-eis. Meu amigo, ei-lo: é que um cristão pecador que ora deve sempre ter o arrependimento de seus pecados e o desejo de amar a Deus mais e mais. Santo Agostinho dá-nos um exemplo bem sensível. No momento em que ele ia orar no jardim, ele cria estar verdadeiramente na presença de Deus. Ele esperava que, apesar de ser o grande pecador que era, Deus teria piedade dele. Ele se arrependia da sua vida passada, prometia ao bom Deus mudar de vida e de fazer, com a ajuda da Sua graça, tudo que pudesse para amá-lO (Conf. Liv. VIII, cap. VIII). Com efeito, como poder amar a Deus e ao pecado? Não, meus irmãos, não, jamais isto pode ocorrer. Um cristão que ama verdadeiramente o bom Deus, ama aquilo que Deus ama, odeia aquilo que Deus odeia. Com isto, eu concluo que a oração de um pecador que não quer deixar o pecado não é nada mais do que o que nós haveremos de dizer daqui por diante.

Fonte
Acesso em 30 jun. 2009.

Nota
(1) “Deixai de me importunar”. ‘Meu amigo, dá-me o pão, um de meus amigos acaba de chegar, não tenho coisa alguma para lhe receber” (Nota do Cura d’Ars). Estas palavras são tiradas da palavra dos dois amigos (Lc.11).
A-1 – Os fatos mencionados pelo pregador dizem respeito às tradições relacionadas aos mártires que mencionou.

José Saramago "Fala" da Bíblia

O Prêmio Nobel de Literatura de 1998, o escritor português José Saramago, lançando o seu novo livro, numa entrevista dada uma agência de Portugal, aproveitou para sublinhar suas idéias sobre Deus e particularmente sobre a Bíblia.

Para José Saramago, “A Bíblia passou mil anos, dezenas de gerações, a ser escrita, mas sempre sob a dominante de um Deus cruel, invejoso e insuportável. É uma loucura”.
E completa:“O Corão, que foi escrito só em 30 anos, é a mesma coisa. Imaginar que o Corão e a Bíblia são de inspiração divina? Francamente! Como? Que canal de comunicação tinham Maomé ou os redactores da Bíblia com Deus, que lhes dizia ao ouvido o que deviam escrever? É absurdo. Nós somos manipulados e enganados desde que nascemos!”

Ao comentar a entrevista Fernando Ventura (capuchino português) afirmou:
“A Bíblia pode ser lida por alguém que não tem fé, mas supõe alguma honestidade intelectual de quem o lê”, afirmou, acusando Saramago de “uma falta gigantesca” dessa honestidade.

E para João Pereira Coutinho, da Folha de São Paulo: Deus, como sempre, é o supremo criminoso. A atitude [de Saramago] é profundamente religiosa. E Saramago é, ironia, a criatura mais religiosa da literatura contemporânea. Não somos religiosos apenas porque amamos Deus. Somos religiosos até quando O detestamos: o nosso ódio, como Graham Greene mostrou no magistral “Fim de Caso”, é também uma forma de afirmação. De afirmação pela negação [...].

Fontes
Comentários: http://www.abiblia.org/newsView.asp?id=134. Acesso em 23 de Outubro de 2009.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2710200919.htm. Acesso em 28 de Outubro de 2009.
IMAGEM: Site Terra: http://diversao.terra.com.br/interna/0,,OI4077497-EI3615,00-Saramago+lanca+livro+em+Madri+e+fala+sobre+proximo+romance.html . Acesso em 03 de nov. 2009.

Sobre a oração de um pecador que não quer deixar o pecado (Parte 1/5)

João Maria Batista Vianney
(Trad. do francês Caramuru Afonso Francisco)

“Ora, descendo ele do monte, grandes multidões O seguiram. E eis que um leproso, tendo-se aproximado, adorou-O, dizendo: Senhor, se quiseres, podes purificar-me. “(Mt.8:1,2)


Lendo estas palavras, meus irmãos, eu vejo o dia de uma grande festa quando a multidão vem a nossas igrejas, para perto de Jesus Cristo, não descendo de uma montanha, mas sobre nossos altares, onde nós, uma vez, O descobrimos como um rei no meio de seu povo, como um pai rodeado de seus filhos, como um médico cercado de seus doentes. Uns adoram este Deus, que os céus e a terra não podem conter a imensidão, com uma consciência pura, como um Deus que reina em seus corações: é só o amor que os traz aqui para que ofereçam um sacrifício de louvores e de ações de graças. Eles estão certos de não sair de perto deste Deus amoroso sem ser cheios de toda sorte de bênçãos. Outros comparecem diante deste Deus tão puro e santo com uma alma toda coberta de pecados, mas eles caíram em si mesmos, abriram seus olhos para seu estado infeliz, tomaram consciência do horror da sua vida passada desregrada e, resolvidos a mudar de vida, vêm a Jesus Cristo cheios de confiança, lançam-se aos pés do melhor de todos os pais, apresentando-lhe o sacrifício de um coração contrito e humilhado. Assim que eles saem de lá, o céu se lhes abre e inferno se lhes fecha. Mas, além destes dois tipos de adoradores, vem ainda um terceiro, a saber, os cristãos todos cobertos da imundície do pecado e adormecidos pelo mal, que não pensam em absoluto em dele sair, mas que, apesar disso, fazem como os outros dois, vêm adorar e orar, pelo menos na aparência. Não vos falarei dos que vêm com uma alma pura e agradável a seu Deus; só lhes tenho uma coisa a dizer-lhes: perseverai. Aos segundos, dir-lhes-ei que devem redobrar suas orações, lágrimas e penitências, mas que pensem que, além da promessa de Deus mesmo, de que todo pecador que vem a Ele com um coração contrito e humilhado é certo de encontrar Seu perdão (Sl. 51:19), estejam certos, diz Jesus Cristo, de terem reconquistado a amizade de seu Deus e o direito que sua qualidade de filhos de Deus lhes dá no céu. Eu não vou falar hoje senão a estes pecadores que parecem viver, mas que já estão mortos. Comportamento estranho, meus irmãos, sobre a qual não ousaria dizer meu pensamento, se o Espírito Santo já não o tivesse dito, desde o começo do mundo, e em termos apropriados: a oração de um pecador que não quer sair do seu pecado e nada faz para dele sair é uma abominação aos olhos do Senhor (Pv.28:9). Acresçamos ainda a esta insensibilidade, o desprezo de todas as graças que o céu lhe oferece. Meu intento é, então, de vos mostrar que a oração de um pecador que não quer sair do pecado não é outra coisa senão uma ação ridícula, cheia de contradição e de mentira, se nós a considerarmos, seja pela relação com a disposição do pecador que a faz, seja, ainda, se nós a considerarmos pela relação com Jesus Cristo a quem ela se dirige. Falemos mais claramente, dizendo que a oração de um pecador que permanece no pecado não é outra coisa senão a mais insultante e ímpia ação de alguém. Escutai-me bem um instante e vós não só ficareis infelizes, mas também bastante convencidos disto.

I. Meu intento, caros irmãos, não é de vos falar longamente das qualidades que deve ter uma oração para ser agradável a Deus e como isto é vantajoso para quem o faz; também não vos direi nem um pouco a respeito de seu poder; dir-vos-ei somente, de passagem, que é uma doce entrevista da alma com seu Deus, que nos faz reconhecê-lO como nosso Criador, Soberano Bem e Último Fim; é um comércio do céu com a terra: nós enviamos nossas orações e nossas boas obras ao céu e o céu nos envia as graças que nos são necessárias para nos santificar. Dir-vos-ei ainda que é a oração que eleva nossa alma e nossa coração até ao céu e nos faz desprezar o mundo com todos os seus prazeres. É ainda a oração que faz descer Deus até nós. Digamos ainda melhor: a oração bem feita penetra e atravessa a abóbada dos céus e chega mesmo ao trono de Jesus Cristo, desarma a justiça de Seu Pai, excita e comove Sua misericórdia, abre os tesouros das graças do Senhor, toma-os e os arrebata, se posso ousar falar assim, e regressa carregada de toda a sorte de bênçãos em direção àquele que a enviara. Se me fosse necessário provar isto, não teria senão que abrir os livros do Antigo e do Novo Testamento. Ali nós veríamos que Deus jamais pôde deixar de atender àquele que lhe pediu por uma oração feita como é necessário. Ali, vejo trinta mil homens sobre os quais Deus resolvera descarregar o peso de Sua justa ira, para os destruir em punição de seus crimes. Moisés sozinho vai pedir a Sua graça e se prostra diante do Senhor. Apenas começa a sua oração e o Senhor, que tinha resolvido a perdição deles, muda Seu decreto, restitui-lhes Sua amizade, promete-lhes Sua proteção e toda sorte de bênçãos e tudo isto pela oração de um só homem (Ex. 32:28-34). Lá também vejo um Josué que, achando que o sol se punha rapidamente, e crendo que não teria tempo de se vingar de seus inimigos, põe sua face no pó e ora ao Senhor, manda ao sol que se detivesse e, por um milagre que nunca havia antes ocorrido e que provavelmente nunca mais ocorrerá, o sol, digo eu, parou seu curso para proteger Josué e lhe dar o tempo de perseguir e de destruir seu inimigo (Jos.10). Um pouco mais adiante, eu vejo ainda Jonas, que o Senhor enviou à grande cidade de Nínive, aquela cidade tão pecadora, já que o Senhor, que é a justiça e a bondade mesma, tinha resolvido puni-la e destruí-la. Jonas percorreu esta grande cidade e lhe anunciou, da parte de Deus, que sua destruição se daria em quarenta dias. A esta triste e desoladora notícia, todos se lançaram com o rosto em terra, todos recorreram à oração. Logo o Senhor revoga Seu decreto e lhes vê com bondade. Bem longe de os punir, Ele os ama e os preenche com toda a sorte de benfeitorias (Jn.1-4). Se eu me viro para o outro lado, vejo o profeta Elias que, para punir os pecadores de seu povo, ora a Deus para que não lhes dê mais chuva. Durante dois [três, observação nossa] anos e meio, o céu prontamente lhe obedece e a chuva não caiu senão quando o mesmo profeta Lho pediu pela oração (I Rs.17:44).

Se passo do Antigo Testamento para o Novo, nele veremos que a oração, bem longe de perder a sua força, torna-se mesmo mais poderosa sob a lei da graça. Vede Madalena: desde que ela ora, lançando-se aos pés do Salvador, seus pecados lhe são perdoados e sete demônios saem de seu corpo (Lc.7:47; 8:2) (A-2). Vede são Pedro que, depois de ter negado seu Deus, recorreu à oração e logo o Salvador lançou Seus olhos sobre ele e lhe perdoou (Lc. 22:61,62). Vede, ainda, o bom ladrão (Lc. 23:42,43). Se Judas, o traidor Judas, em lugar de se desesperar, tivesse pedido a Deus de lhe perdoar seu pecado, o Senhor teria remido sua falta. Sim, meus irmãos, o poder da oração bem feita é tão poderoso que, quando todo o inferno, todas as crianças do céu e da terra pedirem vingança, e Deus mesmo esteja armado com todos os raios para esmagar o pecador, e se o pecado se lançar aos pés orando para que Ele tenha misericórdia, arrependido de tê-lO ofendido e com desejo de amá-lO, esteja ele certo do Seu perdão, conforme a promessa que Ele mesmo nos fez, dizendo que Ele promete consentir com tudo aquilo que pedirmos ao Seu Pai em Seu nome (Jo.16:13,14). Meu Deus, que é doce e consolador de cada cristão, deixa-nos certos de obter tudo o que pedimos a Ti pela oração!

Mas — dir-me-eis talvez — o que é preciso para esta oração seja feita de modo a se ela tenha este poder junto a Deus? Meu amigo, de forma objetiva: nossa oração, para ter este poder, deve ser animada de uma fé viva, de uma esperança firme e constante, que nos leve a crer que, pelos méritos de Jesus Cristo, tenhamos a certeza de obter aquilo que estamos a pedir, e, ainda, de um amor ardente.

Fonte
Acesso em 30 jun. 2009.

Vídeo - C.S. Lewis Fala de Deus e o Tempo

Não Deixe Que o Fulgor da Revelação Ofusque o Brilho da Humildade

Por Francikley Vito

A Nossa sociedade, chamada por alguns de “pós-moderna”, tem vivido momentos conturbados; em que valores antes tidos como intocáveis são, dia a dia, desprezados ou mesmo negados. Resultado direto do chamado relativismo.
Para os que pensam assim tudo é relativo, até mesmo a “idéia” de um Deus pessoal.
Dois movimentos ilustram de maneira satisfatória aquilo que afirmei acima, a saber: a divinização do homem e a consequente “desdivinização de Deus”. Posições que contrariam tudo aquilo que o “Deus revelado” disse de nós e para nós.

Pensemos, por exemplo, no conceito Revelação. Em todos os sentidos que pensarmos, essa palavra traz consigo a idéia de um Deus que se mostra aos homens. Revelação é, portanto, a ação de Deus no esforço de se fazer conhecido ao homem.
O problema é que alguns têm tomado a revelação, que lhe é dada por Deus, como um meio de mostrar a eles mesmos, e não como um recurso da graça para que nós outros “conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor”(Os 6.3). Invertendo, assim, um dos valores mais demonstrados na Bíblia
Se há um homem que entendeu qual o propósito da Revelação, ele atende pelo nome de João, o batista.

João foi um profeta que viveu no tempo de Jesus, uma época, assim como a nossa, em que as pessoas não sabiam muito bem em que – ou em quem - acreditar. Pregava na região do Jordão uma mensagem... digamos... pouco amistosa (Mt 3.7-10). O João, amado por poucos, é chamado por Jesus de o “maior profeta” nascido de mulher.

João, o batista, teve a maior revelação que alguém poderia ter (Jo 1.33) a respeito do Espírito Santo – ele O viu. Contudo, o coração do jovem profeta não se ensoberbeceu; muito pelo contrário, ele expressou verbalmente a sua alegria e humildade em ser achado digno de ter recebido de Deus tamanho privilégio. Tanto é que, ao ver que o ministério de Jesus estava crescendo ente as pessoas, ele exclama com a autoridade de um profeta e ternura de criança: “é necessário que Ele cresça e eu diminua” e “eu não sou digno de desatar as correias de suas sandálias” (Jo 3.30 e 1.27).
Não é interessante que aquele que recebe a maior revelação é aquele que mais se humilha?
João entendeu um princípio basilar da vida cristã, ou seja, que “o homem só pode receber aquilo que lhe for dado do céu” (Jo 3.27). Maior Revelação, maior humilhação.

O reformado João Calvino, ao comentar a expressão “santificado seja o Teu nome”, diz: “E como Deus se nos manifestou, parte em sua Palavra, e parte eu suas obras, não é santificado por nós como convém, se em algum de ambos os aspectos o que é seu e desta maneira compreendemos tudo o que temos recebido dEle [...] pois, que na variedade de suas obras imprimiu por todas as partes vestígios claríssimos de sua glória[...] e aconteça o que acontecer, nada impedirá que Deus seja glorificado, como se deve, em todo o curso do governo do mundo”.
Deus será sempre glorificado, resta-nos saber se nós seremos ou não instrumentos para que isso aconteça. E isto é escolha nossa, só nossa!
O reformador continua dizendo que essa expressão também significa que “Deus, reprimindo e pondo sob seus pés todo gênero de sacrilégio, [fará] que sua majestade e excelência cresça dia a dia”.[1]
Em resumo, podemos dizer que não é o tamanho da revelação que é me dada o que importa, em última análise (cf. Mt 7.15-23), mas como eu responderei perante Deus por tal revelação; se com soberba ou com humildade. Afina, Deus exalta o humilde.

NOTA
[1] Calvino, João. O Livro de Ouro da Oração. São Paulo: Novo Século, 2003, p. 139-140.

IMAGEM: João Batista Pregando no Deserto de Gustave Doré (1832-1883).
Disponivel em http://www.creationism.org/images/DoreBibleIllus/dore_pt.htm

Deus, Socorro em Tempos de Crise

Por Francikley Vito

Verdadeiramente, somos como ilhas cercadas de crises por todos os lados. E isso incomoda.

No mundo conturbado como o que estamos, podemos perceber facilmente que muito entre nós estão vivendo em busca de alguma coisa que os faça esquecer que estão no meio do oceano das crises; e essas pessoas, para não perceberem o que as cerca, vivem aquilo que poderíamos chamar de “um não ser”, ou seja, queremos viver vidas que não são suas, sonhar sonhos que não são seus; viver como que uma realidade paralela, uma vida ilusória que só existe nelas mesmas – um mundo separado da vida real, fictício por natureza. Não que isso seja de todo errado; o problema é quando fazemos deste mundo o único aceitável, e nos recusamos a lidar com a realidade. Podemos imitar o poeta Fernando Pessoa quando conclama: “agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?”. Podemos dizer, então, que o agir muda o nosso presente e transforma o nosso futuro. Não esconder-se, enfrentar. Não fugir, ficar.

E por mais absurdo que possa parecer, isso também acontece com aqueles que tentam a todo custo “buscar a ajuda de Deus”. Quando pedimos o socorro de Deus não deveríamos pensar que o Senhor fará tudo por nós, desconsiderando a nossa livre vontade; devemos pensar nisso como um apelo dependente de pessoas que reconhecem que o seu Deus pode ajudá-las mesmo nas piores situações da suas vidas.

Uma das figuras mais usadas no Novo Testamento para descrever os filhos de Deus é a do servo; e o “escravo” é aquele que ouve a voz do seu senhor e age depois de ouvi-la. Portanto, quando Deus diz que irá “diante” (Is 45) de nós devemos segui-lo; quando fala que abrirá uma “porta” (Ap 3.8) à nossa frente devemos entrar por ela; quando manda pegar a nossa “cama” (Jo 5.9) e andar devemos obedecer. Isso é o que podemos chamar de ação “dual”, isto é, Deus faz a sua parte e nós a nossa.

Sei que há muitas outras implicações nestas afirmações, mas todas as vezes que penso nesse princípio recordo-me da pergunta perturbadora do escritor americano Ron Mehl, que indaga: “A vida cristã não se resume realmente em Deus nos segurar e nós nos agarrarmos a Ele?”[1]. Isso é ação dual!

Nota
[1]Mehl, Ron. Deus Trabalha no Turno da Noite. São Paulo: Pub. Quadrangular, 1995.p.62

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