Não Deixe Que o Fulgor da Revelação Ofusque o Brilho da Humildade

Por Francikley Vito

A Nossa sociedade, chamada por alguns de “pós-moderna”, tem vivido momentos conturbados; em que valores antes tidos como intocáveis são, dia a dia, desprezados ou mesmo negados. Resultado direto do chamado relativismo.
Para os que pensam assim tudo é relativo, até mesmo a “idéia” de um Deus pessoal.
Dois movimentos ilustram de maneira satisfatória aquilo que afirmei acima, a saber: a divinização do homem e a consequente “desdivinização de Deus”. Posições que contrariam tudo aquilo que o “Deus revelado” disse de nós e para nós.

Pensemos, por exemplo, no conceito Revelação. Em todos os sentidos que pensarmos, essa palavra traz consigo a idéia de um Deus que se mostra aos homens. Revelação é, portanto, a ação de Deus no esforço de se fazer conhecido ao homem.
O problema é que alguns têm tomado a revelação, que lhe é dada por Deus, como um meio de mostrar a eles mesmos, e não como um recurso da graça para que nós outros “conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor”(Os 6.3). Invertendo, assim, um dos valores mais demonstrados na Bíblia
Se há um homem que entendeu qual o propósito da Revelação, ele atende pelo nome de João, o batista.

João foi um profeta que viveu no tempo de Jesus, uma época, assim como a nossa, em que as pessoas não sabiam muito bem em que – ou em quem - acreditar. Pregava na região do Jordão uma mensagem... digamos... pouco amistosa (Mt 3.7-10). O João, amado por poucos, é chamado por Jesus de o “maior profeta” nascido de mulher.

João, o batista, teve a maior revelação que alguém poderia ter (Jo 1.33) a respeito do Espírito Santo – ele O viu. Contudo, o coração do jovem profeta não se ensoberbeceu; muito pelo contrário, ele expressou verbalmente a sua alegria e humildade em ser achado digno de ter recebido de Deus tamanho privilégio. Tanto é que, ao ver que o ministério de Jesus estava crescendo ente as pessoas, ele exclama com a autoridade de um profeta e ternura de criança: “é necessário que Ele cresça e eu diminua” e “eu não sou digno de desatar as correias de suas sandálias” (Jo 3.30 e 1.27).
Não é interessante que aquele que recebe a maior revelação é aquele que mais se humilha?
João entendeu um princípio basilar da vida cristã, ou seja, que “o homem só pode receber aquilo que lhe for dado do céu” (Jo 3.27). Maior Revelação, maior humilhação.

O reformado João Calvino, ao comentar a expressão “santificado seja o Teu nome”, diz: “E como Deus se nos manifestou, parte em sua Palavra, e parte eu suas obras, não é santificado por nós como convém, se em algum de ambos os aspectos o que é seu e desta maneira compreendemos tudo o que temos recebido dEle [...] pois, que na variedade de suas obras imprimiu por todas as partes vestígios claríssimos de sua glória[...] e aconteça o que acontecer, nada impedirá que Deus seja glorificado, como se deve, em todo o curso do governo do mundo”.
Deus será sempre glorificado, resta-nos saber se nós seremos ou não instrumentos para que isso aconteça. E isto é escolha nossa, só nossa!
O reformador continua dizendo que essa expressão também significa que “Deus, reprimindo e pondo sob seus pés todo gênero de sacrilégio, [fará] que sua majestade e excelência cresça dia a dia”.[1]
Em resumo, podemos dizer que não é o tamanho da revelação que é me dada o que importa, em última análise (cf. Mt 7.15-23), mas como eu responderei perante Deus por tal revelação; se com soberba ou com humildade. Afina, Deus exalta o humilde.

NOTA
[1] Calvino, João. O Livro de Ouro da Oração. São Paulo: Novo Século, 2003, p. 139-140.

IMAGEM: João Batista Pregando no Deserto de Gustave Doré (1832-1883).
Disponivel em http://www.creationism.org/images/DoreBibleIllus/dore_pt.htm

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