Sobre a oração de um pecador que não quer deixar o pecado (Parte 1/5)

João Maria Batista Vianney
(Trad. do francês Caramuru Afonso Francisco)

“Ora, descendo ele do monte, grandes multidões O seguiram. E eis que um leproso, tendo-se aproximado, adorou-O, dizendo: Senhor, se quiseres, podes purificar-me. “(Mt.8:1,2)


Lendo estas palavras, meus irmãos, eu vejo o dia de uma grande festa quando a multidão vem a nossas igrejas, para perto de Jesus Cristo, não descendo de uma montanha, mas sobre nossos altares, onde nós, uma vez, O descobrimos como um rei no meio de seu povo, como um pai rodeado de seus filhos, como um médico cercado de seus doentes. Uns adoram este Deus, que os céus e a terra não podem conter a imensidão, com uma consciência pura, como um Deus que reina em seus corações: é só o amor que os traz aqui para que ofereçam um sacrifício de louvores e de ações de graças. Eles estão certos de não sair de perto deste Deus amoroso sem ser cheios de toda sorte de bênçãos. Outros comparecem diante deste Deus tão puro e santo com uma alma toda coberta de pecados, mas eles caíram em si mesmos, abriram seus olhos para seu estado infeliz, tomaram consciência do horror da sua vida passada desregrada e, resolvidos a mudar de vida, vêm a Jesus Cristo cheios de confiança, lançam-se aos pés do melhor de todos os pais, apresentando-lhe o sacrifício de um coração contrito e humilhado. Assim que eles saem de lá, o céu se lhes abre e inferno se lhes fecha. Mas, além destes dois tipos de adoradores, vem ainda um terceiro, a saber, os cristãos todos cobertos da imundície do pecado e adormecidos pelo mal, que não pensam em absoluto em dele sair, mas que, apesar disso, fazem como os outros dois, vêm adorar e orar, pelo menos na aparência. Não vos falarei dos que vêm com uma alma pura e agradável a seu Deus; só lhes tenho uma coisa a dizer-lhes: perseverai. Aos segundos, dir-lhes-ei que devem redobrar suas orações, lágrimas e penitências, mas que pensem que, além da promessa de Deus mesmo, de que todo pecador que vem a Ele com um coração contrito e humilhado é certo de encontrar Seu perdão (Sl. 51:19), estejam certos, diz Jesus Cristo, de terem reconquistado a amizade de seu Deus e o direito que sua qualidade de filhos de Deus lhes dá no céu. Eu não vou falar hoje senão a estes pecadores que parecem viver, mas que já estão mortos. Comportamento estranho, meus irmãos, sobre a qual não ousaria dizer meu pensamento, se o Espírito Santo já não o tivesse dito, desde o começo do mundo, e em termos apropriados: a oração de um pecador que não quer sair do seu pecado e nada faz para dele sair é uma abominação aos olhos do Senhor (Pv.28:9). Acresçamos ainda a esta insensibilidade, o desprezo de todas as graças que o céu lhe oferece. Meu intento é, então, de vos mostrar que a oração de um pecador que não quer sair do pecado não é outra coisa senão uma ação ridícula, cheia de contradição e de mentira, se nós a considerarmos, seja pela relação com a disposição do pecador que a faz, seja, ainda, se nós a considerarmos pela relação com Jesus Cristo a quem ela se dirige. Falemos mais claramente, dizendo que a oração de um pecador que permanece no pecado não é outra coisa senão a mais insultante e ímpia ação de alguém. Escutai-me bem um instante e vós não só ficareis infelizes, mas também bastante convencidos disto.

I. Meu intento, caros irmãos, não é de vos falar longamente das qualidades que deve ter uma oração para ser agradável a Deus e como isto é vantajoso para quem o faz; também não vos direi nem um pouco a respeito de seu poder; dir-vos-ei somente, de passagem, que é uma doce entrevista da alma com seu Deus, que nos faz reconhecê-lO como nosso Criador, Soberano Bem e Último Fim; é um comércio do céu com a terra: nós enviamos nossas orações e nossas boas obras ao céu e o céu nos envia as graças que nos são necessárias para nos santificar. Dir-vos-ei ainda que é a oração que eleva nossa alma e nossa coração até ao céu e nos faz desprezar o mundo com todos os seus prazeres. É ainda a oração que faz descer Deus até nós. Digamos ainda melhor: a oração bem feita penetra e atravessa a abóbada dos céus e chega mesmo ao trono de Jesus Cristo, desarma a justiça de Seu Pai, excita e comove Sua misericórdia, abre os tesouros das graças do Senhor, toma-os e os arrebata, se posso ousar falar assim, e regressa carregada de toda a sorte de bênçãos em direção àquele que a enviara. Se me fosse necessário provar isto, não teria senão que abrir os livros do Antigo e do Novo Testamento. Ali nós veríamos que Deus jamais pôde deixar de atender àquele que lhe pediu por uma oração feita como é necessário. Ali, vejo trinta mil homens sobre os quais Deus resolvera descarregar o peso de Sua justa ira, para os destruir em punição de seus crimes. Moisés sozinho vai pedir a Sua graça e se prostra diante do Senhor. Apenas começa a sua oração e o Senhor, que tinha resolvido a perdição deles, muda Seu decreto, restitui-lhes Sua amizade, promete-lhes Sua proteção e toda sorte de bênçãos e tudo isto pela oração de um só homem (Ex. 32:28-34). Lá também vejo um Josué que, achando que o sol se punha rapidamente, e crendo que não teria tempo de se vingar de seus inimigos, põe sua face no pó e ora ao Senhor, manda ao sol que se detivesse e, por um milagre que nunca havia antes ocorrido e que provavelmente nunca mais ocorrerá, o sol, digo eu, parou seu curso para proteger Josué e lhe dar o tempo de perseguir e de destruir seu inimigo (Jos.10). Um pouco mais adiante, eu vejo ainda Jonas, que o Senhor enviou à grande cidade de Nínive, aquela cidade tão pecadora, já que o Senhor, que é a justiça e a bondade mesma, tinha resolvido puni-la e destruí-la. Jonas percorreu esta grande cidade e lhe anunciou, da parte de Deus, que sua destruição se daria em quarenta dias. A esta triste e desoladora notícia, todos se lançaram com o rosto em terra, todos recorreram à oração. Logo o Senhor revoga Seu decreto e lhes vê com bondade. Bem longe de os punir, Ele os ama e os preenche com toda a sorte de benfeitorias (Jn.1-4). Se eu me viro para o outro lado, vejo o profeta Elias que, para punir os pecadores de seu povo, ora a Deus para que não lhes dê mais chuva. Durante dois [três, observação nossa] anos e meio, o céu prontamente lhe obedece e a chuva não caiu senão quando o mesmo profeta Lho pediu pela oração (I Rs.17:44).

Se passo do Antigo Testamento para o Novo, nele veremos que a oração, bem longe de perder a sua força, torna-se mesmo mais poderosa sob a lei da graça. Vede Madalena: desde que ela ora, lançando-se aos pés do Salvador, seus pecados lhe são perdoados e sete demônios saem de seu corpo (Lc.7:47; 8:2) (A-2). Vede são Pedro que, depois de ter negado seu Deus, recorreu à oração e logo o Salvador lançou Seus olhos sobre ele e lhe perdoou (Lc. 22:61,62). Vede, ainda, o bom ladrão (Lc. 23:42,43). Se Judas, o traidor Judas, em lugar de se desesperar, tivesse pedido a Deus de lhe perdoar seu pecado, o Senhor teria remido sua falta. Sim, meus irmãos, o poder da oração bem feita é tão poderoso que, quando todo o inferno, todas as crianças do céu e da terra pedirem vingança, e Deus mesmo esteja armado com todos os raios para esmagar o pecador, e se o pecado se lançar aos pés orando para que Ele tenha misericórdia, arrependido de tê-lO ofendido e com desejo de amá-lO, esteja ele certo do Seu perdão, conforme a promessa que Ele mesmo nos fez, dizendo que Ele promete consentir com tudo aquilo que pedirmos ao Seu Pai em Seu nome (Jo.16:13,14). Meu Deus, que é doce e consolador de cada cristão, deixa-nos certos de obter tudo o que pedimos a Ti pela oração!

Mas — dir-me-eis talvez — o que é preciso para esta oração seja feita de modo a se ela tenha este poder junto a Deus? Meu amigo, de forma objetiva: nossa oração, para ter este poder, deve ser animada de uma fé viva, de uma esperança firme e constante, que nos leve a crer que, pelos méritos de Jesus Cristo, tenhamos a certeza de obter aquilo que estamos a pedir, e, ainda, de um amor ardente.

Fonte
Acesso em 30 jun. 2009.

Um comentário:

  1. Vim conhecer seu blog depois de receber seu pedido de amizade na CNB.Parabéns!Graça e paz.

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