Sobre a oração de um pecador que não quer deixar o pecado (Parte 2/5)

João Maria Batista Vianney
(Trad. do francês Caramuru Afonso Francisco)


1º Digo, em primeiro lugar, que é necessário que tenhamos uma fé viva – E por quê? — dir-me-eis. Meu amigo, ei-lo: é que a fé é o fundamento e a base de todas as nossas boas obras, e sem esta fé, todas as nossas ações, ainda que boas em si mesmas, não são senão obras sem mérito. Devemos estar também tão compenetrados da presença de Deus, diante de quem temos a felicidade de existir, como um doente que uma febre violenta fez cair no delírio e ”viajar”: seu espírito, uma vez fixado em algum objeto, ainda que nada haja de visível, está tão convencido de sua existência que ele deseja tocá-lo e, ainda que nos esforcemos a lhe dizer o contrário, ele não quer crer. Sim, meus irmãos, foi com esta fé violenta, se posso ousar dizer assim, que santa Madalena procurou o Salvador, não O tendo encontrado em Seu sepulcro. Ela estava tão compenetrada do objeto que ela procurava, que Jesus Cristo, para experimentá-la, ou melhor, não podendo mais se esconder ao seu amor que ela Lhe dedicara, apareceu-lhe sob a forma de um jardineiro e lhe perguntou porque ela chorava e a quem ela procurava. Sem lhe dizer que ela procurava o Salvador, ela exclamou: “Ah, se tu O tomaste, dize-me onde O puseste, a fim de que eu vá levá-lO (Jo.20:15)”. Sua fé era tão viva, tão ardente, ouso dizê-lo, que, quando Ele teria estado no seio de são Pedro, ela O teria forçado a descer à Terra. Sim, meus irmãos, veja a fé de que um cristão deve estar animado, quando se tem a felicidade de estar na presença de Deus, a fim de que Deus nada lhe possa recusar.

2º Em segundo lugar, digo que à fé é preciso acrescentar a esperança, quer dizer, uma esperança firme e constante de que Deus pode e quer consentir com aquilo que nós pedimos. Querem ver um modelo? Veja a Cananéia (Mt.15): sua oração era animada de uma fé tão viva, de uma esperança tão firme que o bom Deus poderia consentir com o que ela pedia, mas ela não deixou de orar, de pressionar, ou ouso dizer, de fazer violência a Jesus Cristo. Podemos bem rejeitá-la, e mesmo Jesus Cristo. Não sabendo de que maneira se poderia “tomá-lO”, ela se lança aos Seus pés e Lhe suplica: “Senhor, ajude-me” e estas palavras pronunciadas com tanta fé subjugaram a própria vontade de Deus. O Salvador totalmente surpreendido exclamou: “Ó mulher, quão grande é a tua fé! Vá, tudo te é concedido.” (1)

Sim, meus irmãos, esta fé, esta esperança nos faz triunfar sobre todos os obstáculos que se opõem à nossa salvação (A-1). Veja a mãe de são Sinfrônio. Seu filho ia para o martírio: “Ah, meu filho, coragem! Mais um momento de paciência e o céu será a tua recompensa!”. Dizei-me, meus irmãos, o que sustentava todos os santos mártires no meio de seus tormentos? Não era esta feliz esperança? Vede a calma de que são Lourenço desfrutava sobre sua grelha de fogo. Que podia sustentá-lo? A graça — dir-me-eis. Isto é verdade, mas esta graça não é a esperança de uma recompensa eterna? Vede ainda são Vicente, quando lhe arrancavam as entranhas com ganchos de ferro: quem lhe deu a força para sofrer tormentos tão extraordinários e terríveis? Não era esta feliz esperança? Pois bem, meus irmãos, é esta esperança que deve portar um cristão que se põe na presença de Deus, rejeitando todas estas distrações que o demônio se esforça de lhe dar durante as suas orações e superando o respeito pelo homem! Não é este o pensamento que Deus quer que, se sua oração for bem feita, o cristão será recompensado com uma felicidade eterna?

3º Em terceiro lugar, disse que a oração de um cristão deve ter o amor, quer dizer, que ele deve amar o bom Deus de todo o seu coração e odiar o pecado com todas as suas forças. E por quê? — dir-me-eis. Meu amigo, ei-lo: é que um cristão pecador que ora deve sempre ter o arrependimento de seus pecados e o desejo de amar a Deus mais e mais. Santo Agostinho dá-nos um exemplo bem sensível. No momento em que ele ia orar no jardim, ele cria estar verdadeiramente na presença de Deus. Ele esperava que, apesar de ser o grande pecador que era, Deus teria piedade dele. Ele se arrependia da sua vida passada, prometia ao bom Deus mudar de vida e de fazer, com a ajuda da Sua graça, tudo que pudesse para amá-lO (Conf. Liv. VIII, cap. VIII). Com efeito, como poder amar a Deus e ao pecado? Não, meus irmãos, não, jamais isto pode ocorrer. Um cristão que ama verdadeiramente o bom Deus, ama aquilo que Deus ama, odeia aquilo que Deus odeia. Com isto, eu concluo que a oração de um pecador que não quer deixar o pecado não é nada mais do que o que nós haveremos de dizer daqui por diante.

Fonte
Acesso em 30 jun. 2009.

Nota
(1) “Deixai de me importunar”. ‘Meu amigo, dá-me o pão, um de meus amigos acaba de chegar, não tenho coisa alguma para lhe receber” (Nota do Cura d’Ars). Estas palavras são tiradas da palavra dos dois amigos (Lc.11).
A-1 – Os fatos mencionados pelo pregador dizem respeito às tradições relacionadas aos mártires que mencionou.

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