Sobre a oração de um pecador que não quer deixar o pecado (Parte 3/5)


João Maria Batista Vianney
(Trad. do francês Caramuru Afonso Francisco)

II. Agora, ireis ver comigo que, considerando a oração do pecador em relação a suas disposições, não é ela outra coisa senão um ato ridículo, cheio de contradição e de mentira. Sigamo-lo por um instante, este cristão pecador que ora, digo por um instante, porque, ordinariamente, suas orações terminam logo depois que se iniciam. Escutemos este pobre cego, este pobre surdo: digo cego em relação aos bens que ele perde e pelos males que ele prepara para si mesmo; e surdo, em relação à voz da sua consciência que grita, à voz de Deus que o chama com grandes clamores. Entremos no conteúdo desta oração, estou certo de que desejareis saber que nada mais que aborreça e ofenda a Deus do que a oração de um pecador que não quer deixar o pecado. Escutai. A primeira palavra que ele diz, ao começar sua oração é uma mentira, ele entra em contradição consigo mesmo: “No nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Meu amigo, para um instante. Tu dizes que começas tua oração em o nome das três Pessoas da Santíssima Trindade. Mas, então, tens esquecido que não faz oito dias, tu estavas com uma companhia que te dizia que quando se morre, tudo acaba, e que isto é assim, que não há nem Deus, nem inferno, nem paraíso? Sim, meu amigo, em teu endurecimento, creste nisto e, por isso, não vieste para orar, mas somente para te entreter e divertir. Ah, — dir-me-ás — os que mantêm esta linguagem são bem raros. Entretanto, há, entre eles aqueles que não deixam de fazer algumas orações de tempos em tempos. E vos mostrarei ainda, se quiser, que três quartos dos que estão aqui na igreja, não importa que não o digam com sua boca, dizem-no por sua conduta e sua maneira de viver, pois, se um cristão pensasse verdadeiramente o que é pronunciar os nomes das três Pessoas da Santíssima Trindade, seria tomado de temor até o desespero, considerando a imagem do Pai que ele desfigura de uma maneira tão terrível, a imagem do Filho que está em sua alma, arrastada e rolada no lodo do vício, e a imagem do Espírito Santo, cujo coração é o templo e o tabernáculo e que ele tem enchido de imundície e de sujeira. Sim, meus irmãos, estas três palavras somente, se este pecador tivesse o conhecimento do que ele diz e do que ele é, poderia pronunciá-las sem morrer de horror por ele próprio? Escutai este mentiroso: “Meu Deus, eu creio firmemente que Tu estás presente aqui”. O que, meu amigo, tu crês na presença de Deus diante do qual os anjos, que são sem mancha, tremem e não ousam levantar seus olhos, diante de quem eles se cobrem com suas asas, porque não podem suportar o brilho da majestade que os céus e a terra não podem conter? E tu, todo coberto de crimes, estás ali com um joelho em terra e o outro no ar. Ousas abrir bem a boca para deixar sair uma tal abominação! Dize então melhor que tu fazes como os macacos, que fazes o que vês os outros fazer, ou melhor, que estás em um momento de entretenimento onde aparentas que estás a orar.

Um cristão que se põe na presença de seu Deus, que percebe que, ao orar, fala com o autor mesmo da sua existência, não é tomado de temor em ver, de um lado, sua indignidade de comparecer diante de um Deus tão grande e temível e, de outro, sua ingratidão? Não lhe parece, a cada instante, que a terra vá se abrir sob seus pés para engoli-lo? Não se vê como entre a vida e a morte? Seu coração não é devorado pelo arrependimento e cheio de reconhecimento? Digo de arrependimento, pensando como ele se encontra triste de ter ofendido a um Deus tão bom, e de reconhecimento, pensando como é necessário que Deus seja paciente e amoroso de lhe permitir estar em Sua presença santa, apesar de sua ingratidão e de todos os ultrajes com os quais se tornou culpado em todos os momentos. Mas, para vós que oreis e que não quereis deixar o pecado, pelo menos ainda não, dizei-me, com que diferença estais presentes em uma igreja e em um baile, se ouso fazer esta comparação terrível, já que uma é a morada de Deus, e a outra, do demônio? Se vós não sabeis qual é a diferença, ensinar-vo-la-ei, ei-la. Indo ao baile, de que vos ocupeis? Sem dúvida, das pessoas que esperais encontrar ali. Vossa primeira preocupação, ao entrar, é o de passear vossos olhares para ver se as notais, é de considerar a maneira como o salão é construído, as tapeçarias que a decoram, de saudar as pessoas que conheceis, de rapidamente vos assentar e conversar. Não vou mais longe: não falarei de todos os maus pensamentos, maus desejos, maus olhares, deixemos tudo isto de lado, e me dizes francamente, tu, meu amigo, que deves estar o tempo todo entregue ao desespero, sabendo o estado terrível em que estás, já que estás carregado de pecados, não é esta a conduta que tens ao vir à casa do Senhor? Digo que, quando uma pessoa vai com prazer a um baile ou uma dança, ela se ocupa apenas de coisas indiferentes, ou de prazeres, e nunca do bom Deus: quando vindes à igreja, pensais diante de quem vós estais e a quem vós ireis falar? Vós haveis de convir comigo que vossa conduta é precisamente esta. Digo que, ao entrar, uma de vossas primeiras preocupações é considerar como o salão está ornado: bem, não é isto que fazeis quando chegais à casa do Senhor? Olhais de alto a baixo, de uma esquina da igreja à outra (1). Digo ainda que um de vossas primeiras preocupações é de examinar as pessoas que conheceis e de lhes saudar: não é isto que fazeis, vendo uma pessoa ou um amigo que não tínheis visto há alguns dias? Não tereis dificuldade de lhes falar, de lhes saudar neste lugar, de lhes cumprimentar com um bom dia na presença do bom Deus que está em corpo e alma sobre o altar, que vos ama, que só vos chama a Sua santa presença para lhes perdoar e vos cobrir das maiores bênçãos. Uma outra ocupação deste tipo de gente é a de examinar a maneira como as pessoas se vestem e a sua beleza: daí nascem os maus olhares, os maus pensamentos, os maus desejos.

Pois bem, meu amigo, dize-me que isto não ocorre contigo? Isto não ocorre mesmo durante a Santa Missa (A-2)? Enquanto um Deus Se imola à justiça de Seu Pai para satisfazer teus pecados (A-3), passeias teus olhos para ver como este ou aquele está vestido e a sua beleza. Não é esta a causa de te fazer nascer um número quase infinito de pensamentos e de maus desejos que não devias ter? Abre então os olhos, meu amigo, e verás que tudo isto que dizes a Deus não é outra coisa senão mentira e engano.

Andemos mais adiante. “Meu Deus — dizes — eu Te adoro e Te amo de todo o meu coração”. Tu te enganas, meu amigo, não é preciso dizer o bom Deus, mas o teu deus. E qual é o teu deus? Ei-lo: é aquela jovem a quem deste teu coração, que te ocupas continuamente. E tu, minha irmã, quem é teu deus? Não é aquele jovem cuja tua única preocupação é tudo fazer para agradá-lo, talvez mesmo dentro da igreja, onde devas vir unicamente para chorar teus pecados e pedir a Deus a tua conversão? Não é verdade que, enquanto oras, os objetos que amas ocupam o teu espírito e se apresentam diante de ti para que se façam adorar em lugar de teu Deus? Não é verdade que, esta tarde, o deus da glutonaria não se apresenta diante de ti para se fazer adorar, quando pensas naquilo que comerás quando estiveres em casa? Ou, ainda uma vez, o deus da vaidade, que toma prazer em ti mesmo, considerando-te como digno de merecer a adoração dos homens? Sabes que dizes a Deus? Ei-lo: “Senhor — dizes — desce de Teu trono, dê-me o Teu lugar.” Meu Deus, que horror e que abominação! E, entretanto, tu dizes isto todas as vezes que desejas agradar alguém. Ainda uma vez, é o deus da avareza, da vaidade, do orgulho, ou mesmo da impudicícia que vieram diante de ti para se fazer adorar e amar em lugar do Deus verdadeiro.

Fonte
Acesso em 30 jun. 2009.

Nota
(1) Há esta diferença que, num baile, não se queira sair e que, em uma igreja, há logo a vontade de ir embora (Nota do Cura d’ Ars).
A-2 – O prregador, como é católico romano, refere-se à Missa. Isto não nos impede de aplicar seu pensamento aos nossos cultos.
A-3 – Aqui o pregador usa da doutrina romanista da transubstanciação, segundo a qual, na missa, reproduz-se o sacrifício de Jesus, o que não tem qualquer base bíblica. Isto, porém, não diminui o sentido do que está o pregador a dizer, pois sabemos que, em qualquer culto, onde estiverem dois ou três reunidos, o Senhor Jesus ali está (Mt.18:20), ou seja, a ideia da irreverência trazida pelo pregador está, sim, presente.

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