Sobre a oração de um pecador que não quer deixar o pecado (Parte 4/5)

João Maria Batista Vianney
(Trad. do francês Caramuru Afonso Francisco)


Quereis que vo-lo mostre de uma maneira mais clara? Escutai-me. Durante a Santa Missa(A-4), ou durante as vossas orações, vem a vós um pensamento de ódio ou de vingança. Se amais melhor o bom Deus do que aqueles objetos, vós os expelireis prontamente, mas se vós não o fazeis, mostrareis que os preferis a Deus e que os pondes em lugar de Deus mesmo por lhes dar o vosso coração: “Meu Deus, sai de minha presença e me deixa pôr, em Teu lugar aquele demônio para que eu lhe dê as afeições de meu coração”. Vós haveis de convir comigo, meus irmãos, que quase nunca é o bom Deus que adorais em vossas orações, mas cada uma destas inclinações, isto é, destas paixões e nada mais. Isto — dir-me-eis — é um pouco forte. Isto é um pouco forte, meu amigo? Pois bem, mostrar-vos-ei que é a verdade, com toda a evidência. Dize-me, meu irmão, ou tu, minha irmã, quando tu te confessas(A-6), teu confessor não te diz: “Se deixares estes desejos, pensamentos, ou se cessares estes maus hábitos, estes cabarés, dar-te-ei teu Deus, terás a felicidade de recebê-lO hoje dentro de teu coração?”. “Não, meu padre — dizes-lhe — ainda não; não me sinto com coragem de fazer este sacrifício, quer dizer, de deixar estas danças, estes jogos, estas más companhias.” Não é que preferis que o demônio reine em vossa alma em lugar do bom Deus? O confessor dirá a este vingativo: “Meu amigo, se tu não perdoas àquele que te ultrajou, não terás a felicidade de possuir o Deus dos cristãos”. “Não, meu padre — dizes-lhe — prefiro não receber o bom Deus”. “Meu amigo — dirá ainda o confessor a um avaro — se não devolveres aquele bem que não te pertence, serás indigno de receber teu Deus”. “Meu padre, não tenho a intenção de devolvê-lo tão cedo”. E assim de todos os outros pecados. Isto é tão verdade que, se o que nós amamos aparece visivelmente, cada um teria diante de si um ramo de sete pecados capitais e Deus estaria somente para os seus anjos.

Mas andemos mais adiante e veremos, e ouviremos este charlatão, este cristão mentiroso.

E, em primeiro lugar, vejamos sua fé. Dizemos que é a fé que nos descobre a grandeza da majestade de Deus diante do qual temos a felicidade de existir. É esta fé, reunida à esperança, que sustentou os mártires no meio dos mais terríveis tormentos. Dizei-me, este pecador pode ter o pensamento, pode crer, ao começar a sua oração, que ela será respondida? Uma oração repleta de toda sorte de coisas com a única exceção de Deus, uma oração feita no vestir ou no trabalho, o coração ocupado de seu trabalho, talvez mesmo de ódio e de vingança, ou quem sabe, de maus pensamentos? Uma oração feita com gritos e imprecações a seus filhos ou seus empregados domésticos? Se isto fosse assim, não seria forçoso reconhecer que Deus recompensaria o mal?

2º Digo que o pecador não tem senão uma esperança ao fazer sua oração, a saber: a de que a terminará logo. Vê em que se baseia toda a sua esperança. Mas — dir-me-eis — este pecador, por mais pecador que seja, não espera algo de bom? Pois bem, para mim, um pecador que não crê em coisa alguma não espera coisa alguma, pois se cresse que haveria um julgamento e, por conseguinte, um Deus a quem deverá prestar contas de todos os minutos e segundos de sua vida e que estas contas se prestarão num momento em que não pensa, se cresse que um só pecado mortal vai lhe fazer digno de uma eternidade de infelicidade, se pensasse bem que não há uma oração de sua vida, nem um desejo, nem uma ação, nem um movimento de seu coração que não esteja escrito no livro deste Soberano Juiz, se ele visse sua consciência carregada de crimes, talvez os mais terríveis e que, talvez nele só, escondam-se tantos pecados que seriam suficientes para condenar ao fogo ardente toda uma cidade de cem mil almas, poderia bem permanecer neste estado? Não, sem dúvida, se cresse verdadeiramente que, após este julgamento, há para os seus pecados um inferno eterno, para o qual é suficiente um só pecado mortal, se ele morrer neste estado; se cresse verdadeiramente que a cólera de Deus o esmagará durante toda a eternidade e que os pecadores ali caem aos milhares continuamente, não tomaria ele outras precauções para que evitasse esta infelicidade para si? Se cresse verdadeiramente que há um céu, quer dizer, uma felicidade eterna para todos aqueles que terão praticado fielmente o que a religião lhes ordena, poderia se comportar como ele o faz? Não, sem dúvida! Se, no momento em que ele está pronto a pecar, cresse que Deus o vê, que ele perde o céu e se atira a toda sorte de males por este via e não por outra, teria ele a coragem de fazer o que o demônio lhe inspira? Não, meu amigo, não, isto não seria possível. Daí concluo que um cristão que pecou e que fica em seu pecado tem perdido a fé inteiramente. É um pobre homem a quem os demônios têm tirado os olhos, que está suspenso por uma pequena corda sobre o mais terrível abismo. Eles o impedem, tanto quanto podem, de ver os horrores que lhe estão preparados. Digamos melhor, suas feridas são tão profundas e seu mal tão inveterado que ele nem sente mais seu estado: é um prisioneiro, condenado a perder a vida sobre o cadafalso, que se diverte esperando o momento da execução. Dizemos bem que sua sentença está pronunciada, que dentro de pouco tempo ele não mais estará neste mundo. Ao vê-lo e à maneira com que ele se conduz, direis que se lhe anuncia o que lhe está destinado. Ó meu Deus, como é triste o estado de um pecador!

Fonte
Acesso em 30 jun. 2009.
Nota
A-4 – O prregador, como é católico romano, refere-se à Missa. Isto não nos impede de aplicar seu pensamento aos nossos cultos.
A-6 – O pregador faz uma ilustração com a “confissão auricular”, ou seja, a confissão feita ao padre para absolvição dos pecados, algo que não está de acordo com as Escrituras. No entanto, a ilustração não deixa de ter seu valor, pois, se, como se demonstra no sermão, a confissão a um homem já se apresenta uma mentira, que dirá uma suposta confissão feita a Deus (Cf. Rm.10:10)!

2 comentários:

  1. sou o Lucas Augusto de Paula Alves , to passando e vendo seu blog, ehehe, legal kara que Deus te abençoe,

    esse é ,meu blog :http://www.tribodenaftali.blogspot.com/

    depois te passo meu msn para nos trocar um papo beleza abraços amigo

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  2. Lucas, é sempre um praser vê pessoas que são edificadas pelo nosso trabalho. Que o Senhor te faça prosperar Nele.

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