John Stott Fala das Pessoas do Nosso Tempo

Uma das coisas mais difíceis que há é definir ( no sentido vulgar da palavra) as pessoas do nosso tempo, porém, o teólogo J. Stott faz isso de maneira clara , concisa e magistral. Diz ele:

"Acredito que essas pessoas [do séc. XXI] que taxamos como seculares se lançam à busca de pelo menos três coisas. A primeira é transcendência. Cada vez mais gente procura alguma coisa além do que vive e vê. A segunda é a busca de significado. Quase todo mundo procura sua identidade pessoal, quer encontrar o sentido da vida. Isso desafia a qualidade de nosso ensino cristão de que os humanos são criados à imagem de Deus. E a terceira coisa que todos andam buscando é comunhão, relacionamentos de amor. Gosto muito do que está escrito em I João 4.12: 'Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor está aperfeiçoado em nós'".[1]

Fonte
[1]Cristianismo Hoje.http://cristianismohoje.com.br/ch/o-perigo-do-orgulho/ Acesso em 12 nov. 2009.

Davi e a Casa de Saul (Parte 6/6)

Por Caramuru A. Francisco
V – DAVI E OS DEMAIS FILHOS DE SAUL

Neste estudo do relacionamento de Davi com a casa de Saul, resta-nos, tão somente, falarmos do episódio que envolveu o enforcamento de alguns descendentes de Saul, mencionado em II Sm.21.

Diz-nos o texto sagrado que sobreveio uma fome de três anos sobre Israel. Davi, então, consultou ao Senhor qual o motivo daquela situação e o Senhor lhe disse que a fome havia sobrevindo sobre Israel por causa de Saul e da sua casa sanguinária, porque haviam matado os gibeonitas (II Sm.21:1).

- Este curto relato bíblico traz-nos importantíssimas lições. Por primeiro, mostra-nos que Deus está no absoluto controle de todas as coisas. Esta matança dos gibeonitas por Saul não foi sequer relatada na Bíblia nas passagens referentes ao reinado de Saul, ou seja, foi algo que passou despercebido dos escritores sagrados, mas não do Senhor. Deus bem observou o que Saul havia feito e, diante da total indiferença de Israel para que se fizesse justiça, agiu trazendo fome sobre a terra.

Por segundo, vemos que Deus cuida de todos os homens, mesmo os mais humildes e simples. Os gibeonitas, sabemos todos, haviam enganado o povo de Israel e se infiltrado no meio do povo de Deus. No entanto, havia um pacto entre Israel e os gibeonitas, que lhes preservava a vida e Deus não permite que Seu povo seja infiel nos compromissos assumidos. Ao mandar matar os gibeonitas, Saul estava violando o pacto firmado no tempo de Josué e isto era desagradável aos olhos do Senhor. Os gibeonitas foram mortos e o reinado de Saul terminou. Isbosete e, depois, Davi reinaram e nada havia sido feito para reparar este mal. No tempo certo, décadas depois do acontecido, Deus resolveu agir, ante a inércia dos homens, porque Ele cuidava também dos gibeonitas e zelava pela justiça no meio do Seu povo.

Não precisamos fazer revoluções, rebeliões ou motins em nossas igrejas locais por causa das injustiças cometidas, ainda que contra os mais pequenos, ainda que contra os “gibeonitas”, ou seja, aqueles que estão em nosso meio sem que, na verdade, pertençam a nós. O Justo Juiz tudo vê e não permitirá que a injustiça perdure. No tempo certo, tomará as devidas providências. Certo é que, como servos de Deus, não devemos folgar com a injustiça, nem aceitá-la, devemos denunciá-la, falar a verdade, mas não busquemos resolver com as nossas forças. Deixemos nas mãos do Senhor que, a Seu tempo, tudo fará e de modo perfeito.

Por terceiro, vemos que Deus tem, entre Suas formas de agir, o uso da natureza. Como a desmentir os “adoradores da natureza” dos nossos dias, o Senhor faz questão de mostrar que tem o absoluto controle das forças naturais, empregando-as para fazer justiça. Recentemente, aliás, o pastor Sebastião Rodrigues da Silva, presidente da AD em Cuiabá/MT, na 38ª Assembleia Geral Ordinária da CONFRADESP (Convenção Fraternal Interestadual das Assembléias de Deus – Ministério do Belém no Estado de São Paulo), fez questão de relatar uma série de visões e mensagens proféticas que tem recebido, entre as quais o Senhor nos faz lembrar que, neste período do “princípio de dores” em que vivemos, fará mostrar Seu poder sobre a natureza e, através dela, mostrar que Jesus está às portas, que é tempo de nos santificarmos e de nos prepararmos para o arrebatamento da Igreja, o que, aliás, está consonante com os sinais da vinda do Senhor relatados no sermão escatológico de Jesus.

Deus enviou a fome sobre Israel e foram necessários três anos para que Davi consultasse a Deus, percebesse que aquilo não era algo natural, mas, sim, uma iniciativa divina, um chamamento de atenção da parte de Deus. Deus não atua com juízos pela natureza porque queira ver a humanidade sofrer, mas, antes, para que o homem perceba que há um Deus nos céus e que é necessário obedecer-Lhe para que se alcance a vida eterna.

Por quarto, vemos, uma vez mais, que Davi nada fazia sem antes consultar ao Senhor. Se Saul matou os gibeonitas sem qualquer orientação divina e dentro de um espírito nacionalista, popular e simpático aos israelitas mas totalmente fora da vontade do Senhor, Davi consultou a Deus para saber qual o motivo da fome e como deveria agir para que a justiça se fizesse.

Davi, então, chamou os gibeonitas e disse o que desejariam para que se fizesse a devida reparação. Vemos, neste episódio, que Deus não é apenas Deus de amor, mas também é Deus de justiça. Faz-se absolutamente necessário que a justiça se realize. Não é à toa que o texto sagrado resume a administração de Davi como sendo o rei que fazia justiça (II Sm.8:15). Temos feito justiça nos lugares que ocupamos?

Os gibeonitas disseram que não queriam prata nem ouro, mas que se lhes dessem sete homens, a fim de que fossem eles enforcados em Gibeá, a cidade de Saul, para servirem de exemplo para todo o povo, a fim de que não mais houvesse perseguição em Israel contra os gibeonitas. Diante de tal pedido, Davi os atendeu, já que era esta a vontade de Deus, poupando, porém, a Mefibosete, filho de Jônatas, diante do pacto que havia feito com aquele filho de Saul, quando ainda vivia na corte de Saul.

Davi, então, entregou nas mãos dos gibeonitas, os filhos de Rizpa, a concubina de Saul, ou seja, Armoni e outro também chamado Mefibosete, como também os cinco filhos da irmã de Mical, quie tivera de Adriel, filho de Barzilai. Todos foram enforcados pelos gibeonitas (II Sm.21:4-9).

- Davi fez aquilo por ordem divina, não era da sua vontade que se derramasse sangue da casa de Saul, mas a casa de Saul havia sido sanguinária e Deus, então, não poderia deixar que isto ficasse impune. Não foi Davi quem os enforcou, mas, sim, os gibeonitas.

Numa clara demonstração de que Davi não se agradara desta situação, ao saber que Rizpa não permitiu que os corpos dos enforcados fossem atacados pelos abutres e por outros animais carniceiros (II Sm.21:10), resolveu dar uma sepultura digna não só aos enforcados mas a toda a casa de Saul, mandando que fossem desenterrados os ossos de Saul e de Jônatas e que, juntamente com os enforcados, fossem todos sepultados em Zela, na sepultura da família, pois ali estava sepultado Cis, o pai de Saul (II Sm.21:11-14).

Terminava assim a saga da casa de Saul na história de Israel. Davi levou os ossos de todos à sepultura de Cis, o pai de Saul. Este gesto representou o retorno da família ao seu “statu quo ante”. A casa de Saul passava para a história, retornando a ser uma simples família do povo de Israel. A descendência de Saul não se encerrou por causa de Mefibosete, filho de Jônatas, mas dela não se tem registro algum dali para a frente. Davi, porém, em sua fidelidade a esta casa , cumpriu o último dever que tinha para com eles: o de dar-lhes a devida e digna sepultura.

Que sejamos como Davi, cumpridores de todos os nossos deveres para com o próximo, deixando que a justiça de Deus se faça, não se substituindo ao Senhor e, ainda que o próximo rejeite a Deus e morra espiritualmente, tudo fazendo para lhes dar uma digna e devida sepultura. Amém.


IMAGEM:"Davi e Jonathan" de Gustave Doré (1832-1883). Disponível em
http://www.creationism.org/images/DoreBibleIllus/dore_pt.htm.

O Homem que Carregava Flores


Por Francikley Vito

Em um dia de sol causticante, lá vem ele; pernas firmes e resolutas, braços cansados, porém não desistentes. Caminhava com pressa, pois sabia que o tempo era, naquele momento, seu maior inimigo. Trazia consigo flores, muitas e de várias cores. Trazia consigo sentimentos, muitos e por várias causas.

Mas isso, ele não sabia.

Não sabia que levava consigo amor, alegria, perdão e saudade. Não, isso ele não sabia. Pois em seu pensamento, trazia nos braços as sementes dos frutos que viriam bem mais tarde. Seu trabalho, seu sustento.

Isso, ele sabia.

Dalí a poucos minutos, duas daquelas rosas iriam trazer sorrisos aos lábios de uma mão, que acabara de ganhar o seu primeiro filho; seriam levadas por um pai que, com palavras, não sabia expressar seu amor e gratidão pela mão do seu único filho.

Um punhado daquelas rosas traria alegria ao coração de uma secretária, que por trabalhar no dia do seu aniversário, estava muito triste e solitária. Um amigo, daqueles que se escrevem com “A”, seria responsável por tamanha alegria – alegria que era motivada por singelas rosas, amarelas.

Um grande buque daquelas rosas seria entregue por uma jovem que, por força do seu temperamento, brigara com seu amado e ajudador. Um pedido de reconciliação em forma de rosas champanhe.

No final daquele dia, um senhora, sendo assim chamada não pela idade, mas pelo semblante, seria presenteada com uma daquelas rosas; que por ser branca, lhe traria à lembrança sua mão morta há duas semanas. Era a sua flor preferida, dizia.

Isso, ninguém sabia.

Ao ser perguntado o que levava consigo, o homem respondeu: Nada, só flores.

Davi e a Casa de Saul ( Parte 5/6)

Por Caramuru A. Francisco
IV – DAVI E SIMEI

Outro episódio a envolver Davi com a casa de Saul é a que se refere a Simei, um homem da casa de Saul, que, em Baurim, pequena aldeia situada na estrada que levava Jerusalém a Jericó, onde, aliás, morara Mical com Paltis, quando Davi fugia de Absalão.

Ao passar por Baurim, Simei foi ao seu encontro e começou a apedrejá-lo, amaldiçoando a Davi, chamando-o de homem de sangue e homem de Belial, dizendo que o Senhor estava agora a dar o devido pagamento por todo o sangue da casa de Saul e que Davi perdera o reino para seu filho Absalão (II Sm.16:5-8).

Num momento de abatimento total, em plena fuga, Davi encontra o rancor de alguns da casa de Saul. Era evidente que muitos dos familiares de Saul não haviam se conformado com a perda do reino para a família de Davi, mas permaneciam enrustidos, visto que, embora Davi tivesse sido benevolente com a casa de Saul, certamente não toleraria uma oposição.

No entanto, diante da mudança das circunstâncias políticas, Simei não perdeu a oportunidade de insultar Davi e externar todo seu ódio e todo seu rancor. Isto nos mostra claramente que não devemos confiar nas pessoas nem nas circunstâncias que nos são favoráveis. Só Deus conhece o coração do homem (I Sm.16:7) e o silêncio ou até a proximidade de alguns não significa, em absoluto, que sejam nossos amigos e que estejam ao nosso lado. Devemos ter íntima comunhão com o Senhor, pois só o discernimento espiritual nos fará saber quem é por nós e quem não o é.

Simei aproveitou-se da situação adversa por que passava Davi e “foi à forra”. Começou a apedrejar Davi, um gesto insultante, porque assim eram tratados os criminosos. Não bastassem as pedras que eram atiradas, em cima de um fato verdadeiro, construiu uma série de mentiras. Disse que Davi era um homem de sangue, o que era verdade, tanto que, por este motivo, não pôde construir o templo, como afirma Flávio Josefo: “…Deus apareceu em sonhos a Natã e ordenou-lhe que dissesse a Davi que, ainda que louvasse a sua intenção, não queria que a executasse, porque suas mãos tinham sido muitas vezes manchadas de sangue dos seus inimigos…” (Antiguidades Judaicas VII, 4, 270. In: História dos hebreus. Trad. de Vicente Pedroso, v.1, p.154). O texto sagrado não é explícito mas dá a entender que foi por este motivo que o Senhor não permitiu que Davi construísse o templo (II Sm.7:8,9; I Cr.17:7,8).

As palavras de Simei mostram-nos como age o inimigo de nossas almas, que é o “diabo”, isto é, o acusador, o caluniador. A partir de uma verdade, que devia ser de todos conhecida, ou seja, de que Davi era um homem de sangue, construiu-se um edifício de mentiras. Por primeiro, Simei apedrejou Davi, transformando o rei em um criminoso da pior espécie, pois o apedrejamento era pena para os mais graves crimes na lei de Moisés.

Assim tem agido o adversário de nossas almas na atualidade. Tem transtornado todos os fundamentos morais, jurídicos, políticos e sociais no mundo para tornar os salvos em criminosos, para transformar a virtude em crime, para tornar o certo em errado. O relativismo moral vigente em nossos dias é a antessala para a completa inversão de valores, que já temos sentido, característica de uma sociedade dominada pelo pecado (Is.5:20).

Não bastasse isso, muitos, na atualidade, têm sido enganados pelo discurso que tornou Deus em criminoso. Não são poucos os que chamam o Deus da Bíblia de “carrasco”, “cruel” e outras coisas inomináveis. Este estado de coisas só tende a aumentar, pois, na Grande Tribulação, será a atitude dos seguidores da besta o blasfemar contra Deus, apesar de sofrerem na pele a demonstração do poder e da ira do Senhor (Ap.16:9).

O que é mais triste é verificar que, nos dias hodiernos, já são muitos os que cristãos se dizem ser que chamam o que a Bíblia ensina de “atraso”, de “crueldade”, de “absurdo”, indo atrás de outros evangelhos, onde a “dureza”, o “legalismo”, o “autoritarismo” são substituídos por “novas visões”, por “novidades”. Tal atitude nada mais é que repetir a mentira de Simei e apedrejar aquilo que é certo, considerar que Deus é mentiroso (I Jo.5:10).

Mas Simei não se limitou a apedrejar o rei mas, também, a partir da constatação de que Davi era homem de sangue, passou a dizer que Davi estava a pagar o preço pelo derramamento do sangue da casa de Saul. Ora, que mentira terrível a que era lançada por Simei. Como Davi poderia estar a pagar pelo derramamento do sangue da casa de Saul se nunca havia derramado o sangue de quem quer que fosse ligado a Saul? Vemos pelo texto sagrado que, bem ao contrário, Davi derramou o sangue daqueles que lhe foram comunicar que haviam matado Saul e seus filhos. Davi estava a pagar o preço pelo seu próprio pecado, estava a colher as consequências de seu erro, nada mais do que isto.

Simei chamou, também, a Davi de “homem de Belial”, ou seja, de “homem mau”, “homem perverso”. Que duro é recebermos ofensas como as que Davi estava recebendo. Davi sempre fora bondoso, leal e prudente. Havia, sim, errado e estava a pagar o preço de seu erro, mas daí a chamá-lo de “homem de Belial” era demais. No entanto, Davi nada respondia, prosseguindo seu caminho de aflição e de fuga.

Por fim, Simei lançou sobre Davi uma falsa profecia, dizendo que Deus havia tirado o reino de Davi e dado a Absalão. No momento em que esta profecia foi proferida, Davi estava em nítida situação de desvantagem e, mais do que isto, abalado física e psicologicamente. Devemos ter muito cuidado quando passamos por aflições e tribulações. Neste momento, devemos aumentar ainda mais nossa comunhão com Deus, pois o adversário não perderá oportunidade para levantar falsos profetas, para proferir “profetadas”, que podem nos gerar ainda mais fraqueza e desânimo espirituais.

Ao ouvir estas coisas, Abisai, irmão de Joabe, propôs ao rei que Simei fosse morto. Abisai, aqui, era mais um agente do inimigo de nossas almas. Diante de tanta calúnia e de tanto insulto, nada mais natural que Simei fosse morto. Mas Davi era um homem segundo o coração de Deus e sabia que, se autorizasse a morte de Simei, que não seria difícil de acontecer, pois Simei estava desarmado e Abisai era um dos valentes do rei, Davi tornaria verdade a falsa acusação: derramaria o sangue de alguém da casa de Saul.

Não podemos pagar o mal com o mal (Rm.12:21). Somente o bem vence o mal e, se praticarmos o mal, seremos vencidos, não alcançando a vitória. A prática do mal é pecado e, assim, estaremos nos escravizando em vez de nos livrando do problema.Diz Pedro que é melhor padecermos fazendo o bem do que fazendo o mal (I Pe.3:17).

Davi, apesar de toda a situação adversa, não se encontrava abalado espiritualmente naquele instante. Havia sido levado pelo impulso com Ziba, mas, agora, não permitiu que a carne falasse mais alto. Disse a Abisai que não se importasse com aquilo. Simei estava ali a mando do Senhor, era um instrumento de provação divina e, portanto, ele nada faria, deixando ao Senhor, que conhecia a sua miséria, o pagamento com bem da sua situação adversa (II Sm.16:7-12).

Davi prosseguiu seu caminho, não dando confiança às ofensas e calúnias de Simei, que continuou a atirar pedras e a levantar poeira (II Sm.16:13). Simei ia ao longe do monte e levantava poeira. Assim faz o inimigo de nossas almas: anda ao derredor, não se aproxima, se verdadeiramente estamos em comunhão com o Senhor, mas não deixa de atirar suas pedras e de “levantar poeira”. Precisamos, porém, diante desta situação, prosseguir o nosso caminho. O fato é que, na sequência do caminho, Davi e seus homens embora tivessem chegado cansados, alcançou o lugar de refrigério (II Sm.16:14).

Aprendamos esta lição. Não devemos dar confiança às calúnias do diabo ao longo de nossa jornada. Não podemos querer resolver as falsas acusações com a prática do mal, que é o que o diabo quer, pois, assim, pecaremos e perderemos a salvação. Prossigamos a nossa caminhada, confiando em Deus e deixando a Ele a solução dos nossos problemas. Apenas não deixemos de olhar para Jesus, o autor e consumador da nossa fé, correndo a carreira que nos está proposta (Hb.12:1-3). Ao final da nossa jornada, acharemos, juntamente com os irmãos, o descanso para as nossas almas, que não é aqui neste mundo (Mq.2:10).

O Senhor, assim como esperava Davi, olhou para a sua miséria e pagou com bem a maldição lançada por Simei. Davi retornou ao trono e, num gesto de que era realmente de coração que havia deixado a solução do problema para o Senhor, perdoou a Simei, que, incontinenti, prostrou-se diante do rei assim que ele passou o Jordão (II Sm.19:18-23).

Simei confessou o seu pecado diante do rei e lhe pediu perdão. Abisai, uma vez mais, quis que Davi mandasse matar o caluniador, mas Davi, fiel ao seu propósito inicial, perdoou a Simei, dizendo que ele não morreria e confirmando isto com juramento. Simei alcançou o perdão do rei e Davi cumpriu a sua promessa, não o matando. Antes, porém, de morrer, lembrou a Salomão o mal que Simei havia feito e Salomão lhe impôs a prisão domiciliar em Jerusalém. Simei acabou morto porque desobedeceu a Salomão, saindo de Jerusalém (I Rs.2:8,9; 36-46). Com Simei, temos a mesma lição que aprendemos com Davi: o pecado é perdoado mas as suas consequências nos seguem inevitavelmente.

IMAGEM:"Davi e Jonathan" de Gustave Doré (1832-1883). Disponível em
http://www.creationism.org/images/DoreBibleIllus/dore_pt.htm.

Luta-livre na Igreja?

Clubes de luta, reggae, campeonatos de surfe e até tatuadores estão atraindo cada vez mais jovens para as igrejas evangélicas do Brasil, afirma reportagem publicada jornal americano New York Times.

Sob o título "Noites de luta e reggae enchem as igrejas brasileiras", a reportagem descreve o recente crescimento das Igrejas Evangélicas no Brasil e a evasão de fiéis da Igreja Católica.

"(A igreja) Renascer em Cristo está entre o crescente número de igrejas evangélicas no Brasil que estão encontrando formas de se conectar com os jovens para aumentar seu rebanho de fiéis. De noites de luta a reggae, vídeo games e tatuadores no local, suas igrejas vêm ajudando a tornar o movimento evangélico o movimento espiritual que mais cresce no Brasil", diz a reportagem.[1]

O Pr. Dr. Augustus Nicodemus Lopes, presbiteriano, ao comentar a reportagem disse: Quando vejo hoje notícias como esta[...] percebo que criar novas igrejas fundadas em cima dos pressupostos, costumes e práticas de uma geração -- como por exemplo, o movimento das igrejas emergentes nos Estados Unidos e suas similares aqui no Brasil -- acaba levando a isto que estamos vendo, como a Renascer, tendo que promover sempre novidades, como luta livre, para atrair jovens e mantê-los na comunidade. Por outro lado, lamento que as igrejas tradicionais têm tido dificuldade em fazer adaptações mínimas que possam tornar mais fácil o ingresso desta geração em suas fileiras, como música contemporânea de boa qualidade e teologicamente sadia, liturgias centradas em Deus que ao mesmo tempo engagem o povo em adoração e reflexão, programações sociais e encontros atraentes e relevantes, com conteúdo e diversão, pontes para evangelização que nos coloquem em contato com esta geração e nos permitam levar-lhes de maneira relevante e significativa a mensagem sempre atual do Evangelho de Cristo.
Luta-livre em igrejas evangélicas como método de crescimento de igreja, embora nos choque, é a conclusão lógica da teologia pragmática que sustenta o movimento de crescimento de igrejas, que se pensava que estivesse defunto, mas eis que ressurge pelas pesadas portas abertas das igrejas emergentes. Nesta visão, vale tudo para encher igrejas. E aquelas que não estão dispostas a encher seus salões a qualquer preço, são vistas como retrógradas, sem o Espírito Santo, fechadas, etc.[2]

Fonte
[1]http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,noites-de-luta-e-reggae-enchem-igrejas-evangelicas-no-brasil-diz-nyt,435065,0.htm. Acesso em 03 de Nov. 2009.
[2] http://tempora-mores.blogspot.com/. Acesso em 03 de Nov. 2009

Davi e a Casa de Saul (Parte 4/6)

Por Caramuru A. Francisco
III – DAVI E MEFIBOSETE

Quando se fala da história de Davi e de Mefibosete, costuma-se tão somente contar a bondade demonstrada pelo rei ao neto de Saul e filho de Jônatas, de que já tratamos no primeiro item deste estudo. No entanto, existe outro episódio a envolver não só ambas as personagens, como também o servo de Saul, Ziba, que é relatado quando da revolta de Absalão e que também será objeto de nosso estudo, que trata de como Davi se relacionou com a casa de Saul.

Quando Davi recebeu a notícia de que Absalão se proclamara rei em Hebrom e que tinha a seu lado o povo, o rei, prudentemente, resolveu sair de Jerusalém, fugindo, a fim de que, se pudesse, organizasse a resistência contra o usurpador. Na sua fuga, levou seus familiares, deixando apenas dez concubinas para guardar o palácio real (II Sm.15:14-16).

Mefibosete, que era como se fosse um dos filhos do rei, pediu a Ziba que lhe albardasse um jumento, mas Ziba, vendo nesta situação uma oportunidade para ter aquilo que almejara e não conseguira antes, ou seja, os bens que haviam sido de Saul e agora eram de Mefibosete, saiu de Jerusalém e foi ao encontro de Davi, deixando Mefibosete em Jerusalém (II Sm.19:26).

Ziba encontrou Davi quando este descia do monte das Oliveiras (II Sm.15:30; 16:1), após ter se entrevistado com Husai, depois de ter adorado o Senhor. Davi estava psicológica e fisicamente abalado, sabia que Absalão tinha muito melhores condições de reinar e, deste modo, corria risco de morte. Estava, além disso, extremamente cansado, quase que esgotado fisicamente, até porque já não era um jovem.

Ao encontrar-se com Ziba que, astutamente, vinha com um par de jumentos albardados e sobre eles duzentos pães, com cem cachos de passas, com frutas de verão e com um odre de vinho, perguntou o rei qual era a pretensão do servo de Mefibosete. Ziba, então, disse que todo aquele mantimento era para o rei e seus homens.

Em seguida, Davi perguntou sobre o paradeiro de Mefibosete e Ziba, então, maldosamente, disse que Mefibosete ficara animado com a rebelião, achando que, com ela, ele se tornaria rei de Israel, pois haveria a restauração da casa de Saul. Davi, sem pensar duas vezes, sem se lembrar do comportamento e conduta exemplares que Mefibosete apresentava na corte, pois, afinal de contas, comia de contínuo da mesa do rei, era pessoa que desfrutava da intimidade de Davi e de sua família, irado, abalado pelos presentes trazidos por Ziba, sem que desse qualquer chance a Mefibosete, tomou tudo o que era de Mefibosete e o deu a Ziba que, radiante, inclinou-se diante de Davi (II Sm.16:3,4).

Davi fugiu, Husai conseguiu transtornar o conselho de Aitofel, que era o homem mais sábio daquele tempo e Davi acabou por vencer Absalão, recuperando o trono. Ao voltar para Jerusalém, Mefibosete foi encontrar-se com Davi, barbudo e mal-cheiroso, visto que não havia feito a barba nem lavado seus vestidos desde que Davi havia fugido de Jerusalém.

Davi, então, tardiamente, pergunta a Mefibosete porque ele não o havia acompanhado e Mefibosete contou-lhe a verdade, de como fora enganado por Ziba. Davi, então, caiu em si, pois viu que fora extremamente injusto com Mefibosete, que havia intercedido a Deus, a favor do rei durante todo o tempo da rebelião. Tentou, então, remediar a situação, dizendo que Ziba e Mefibosete repartissem o patrimônio meio a meio, ao que Mefibosete disse que tudo poderia ficar com Ziba, pois o que ele mais queria era o bem-estar do rei, a resposta às suas orações, o que ele havia alcançado (II Sm.19:24-30).

Neste episódio, temos muitas e importantes lições espirituais. A primeira delas é que não podemos decidir precipitadamente, máxime quando nos encontramos abalados psicológica, física e espiritualmente. O adversário de nossas almas sempre está à espreita, buscando a ocasião quando “descemos do cume do monte” para nos atacar e nos fazer errar.

Deus, quando dialogou com Caim, disse que o “pecado jaz à porta” (Gn.4:7), ou seja, está, como diz o povo do interior brasileiro, “de tocaia”, pronto para atacar e dominar o que primeiro aparecer desavisadamente no seu caminho. Como disse o apóstolo Pedro, o adversário anda em derredor, buscando a quem possa tragar (I Pe.5:8).

Davi havia acabado de adorar a Deus, pedido ao Senhor que o livrasse daquela situação, mas, depois de ter se entrevistado com Husai e recebido a orientação divina para que viesse a ter nova oportunidade de voltar ao trono de Israel, desceu do cume do monte das Oliveiras, desatento, sem a devida concentração espiritual e se tornou alvo fácil de Ziba que, com os presentes, com os mantimentos trazidos, conseguiu seu intento de tomar tudo quanto pertencia a Mefibosete.

Este erro lamentável de Davi, um dos maiores de sua vida, visto que aceitou peita contra um inocente, agiu por impulso, pensando única e exclusivamente na satisfação de suas necessidades imediatas, tem como contraponto a conduta de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo que, mesmo faminto após quarenta dias e quarenta noites de jejum, não se deixou levar pela oferta diabólica de satisfação de suas necessidades mediante um indevido e inadmissível exercício de Sua divindade (Mt.4:2-4).

Tomemos muito cuidado, amados irmãos, pois o adversário continua a se utilizar das mesmas armas, pois tudo o que há no mundo se reduz a três fatores: concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida (I Jo.2:16).

Davi, faminto, psicologicamente abatido, deixou-se levar pelo presente de Ziba e cometeu uma grande injustiça, tomando tudo quanto pertencia a Mefibosete e o entregando a Ziba, sem que pudesse sequer verificar se o que Ziba estava a falar era verdade. Esqueceu-se de que Mefibosete era aleijado de ambos os pés e, assim, jamais teria condições de reinar sobre Israel. Esqueceu-de de que o povo todo estava a apoiar Absalão e que não havia a mínima condição de Mefibosete se tornar rei de Israel por ser o herdeiro presuntivo da casa de Saul, casa esta que havia sido retirada do trono pelo próprio Deus. Davi de nada disso se lembrou e, movido pela paixão, cometeu tamanha injustiça.

Ziba aqui, como podemos ver, representa o adversário de nossas armas, a astuta serpente, que nunca deve ser subestimada. Com suas ofertas atraentes que, quase sempre, servem para saciar nossas necessidades imediatas, consegue fazer com que percamos o mais importante, que é a vida eterna, a comunhão com Deus. Pensemos nisto toda vez que formos tentados. Assim como Tamar fez com Judá (Gn.38), corremos o risco de sob um pretexto de termos de apenas pagar um cabrito, perder tudo quanto temos de mais importante, o selo (patrimônio), o lenço ou cordão (a autoridade moral e espiritual) e o cajado (a dignidade). Não nos iludamos: o salário do pecado é a morte (Rm.6:23).

Não podemos deixar o cume do monte, ou seja, não podemos sair da presença do Senhor. Temos de manter com Deus uma íntima comunhão, estar diante d’Ele todos os dias de nossa vida, a fim de que não sejamos enganados pelo inimigo de nossas almas. É no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente que encontramos descanso (Sl.91:1). Nas mãos do Senhor, ninguém poderá nos arrebatar (Jo.10:28). Quantos têm fracassado por fazerem como Davi: descer do cume do monte, ou seja, sair da presença de Deus.

Enquanto Davi tentava voltar ao trono, Mefibosete, que foi obrigado a ficar em Jerusalém, não teve medo de Absalão. Deixou de barbear-se e não lavou seus vestidos, numa prática de quem pedia a Deus incessantemente por algo. Sua forma de agir, pública e notória, mostrava que estava a pedir algo a Deus, a se sacrificar diante do Senhor, demonstrando toda a sua tristeza e toda a sua angústia pela situação. Intercedia em favor de Davi, porque o amava e era grato a tudo quanto Davi lhe havia feito, como, aliás, fez questão de ressaltar no reencontro com o rei.

Mefibosete simboliza o salvo que está em comunhão com o Senhor e que se aflige pela obra do Senhor, pelo nome do Senhor. Evidentemente que, na tipificação, não é caso de o salvo se mortificar por causa do Senhor, que vive e reina para sempre, mas pode e deve fazê-lo pelos seus irmãos, aqueles que, como ele, pertencem ao corpo de Cristo (I Co.12:27). Devemos orar uns pelos outros (Tg.5:16) e, por vezes, em momentos de angústia e grande aflição, jejuarmos como reforço à oração intercessória, já que o Senhor não está fisicamente mais conosco (Mt.9:15; Mc.2:20; Lc.5:35), algo tanto mais necessário nos dias trabalhosos pelos quais vivemos. O salvo deve alegrar-se com quem se alegra, mas também chorar com os que choram (Rm.12:15). Mefibosete comia de contínuo na mesa do rei, mas, quando o rei teve de fugir, passou a se afligir por ele.

Mefibosete, desta feita, foi ao encontro do rei. Na vez anterior, Davi o chamou, pois não tinha condições de se apresentar ao rei. Agora, é Mefibosete que vai ao seu encontro em Jerusalém. Este fato mostra-nos, por primeiro, que Mefibosete não saiu de seu lugar, estava em Jerusalém. Os salvos estão assentados nas regiões celestiais onde já foram abençoados com todas as bênçãos espirituais (Ef.1:3; 2:6). Este é o lugar em que Deus nos pôs, do qual não podemos jamais sair.

Mefibosete foi ao encontro do rei porque estava em comunhão com ele, não havia pecado e, por isso, podia chegar com ousadia no santuário (Hb.10:19). Se estamos em comunhão com o Senhor, i.e., um verdadeiro coração, inteira certeza de fé, os corações purificados da má consciência e o corpo lavado com água limpas, podemos nos apresentar diante do Rei, porque o Senhor Jesus, nosso grande sacerdote sobre a casa de Deus, já nos abriu um novo e vivo caminho (Hb.10:20-22). Aleluia!

Mefibosete, ao se apresentar diante de Davi, como tinha a consciência limpa, contou a verdade, dizendo ter sido enganado por Ziba, pois, ao esperar que o jumento fosse albardado pelo seu servo, foi deixado, não podendo caminhar por ser coxo de ambos os pés. Esta circunstância lembra-nos que dependemos única e exclusivamente do Senhor e que não podemos confiar no homem, pois maldito é o homem que confia no homem (Jr.17:5). Que é confiar no homem? É confiar em alguma pessoa, como Mefibosete em Ziba? Não, é confiar no ser humano, em nós mesmos, em vez de confiar no Senhor. Como diz Jeremias, é “fazer da carne o seu braço e apartar seu coração do Senhor”.

Mefibosete, ao ser traído por Ziba, confiou plenamente em Deus e pôde ver o livramento do Senhor. Continuou em Jerusalém e, publicamente, demonstrando sua tristeza pela saída de Davi. Correu sério risco de morte, mas Deus não permitiu que Absalão o matasse e ele pôde sentir a mão do Senhor lhe protegendo, enquanto que Davi, sem que ele o soubesse, o havia privado de todos os seus bens. Vale a pena confiar em Deus!

Mefibosete corria risco de morte quando se encontrou com Davi, mas não mentiu, como fez Mical ou o próprio Davi em situações similares. Jamais devemos mentir, devemos sempre falar a verdade (Ef.4:25). O resultado disto foi que saiu da situação com vida e numa situação moral e espiritual bem melhor que a do próprio rei Davi.

Mefibosete, depois de ter contado a verdade, nada pediu. Deixou que o rei, a quem chamou de “um anjo de Deus”, tomasse a decisão que lhe aprouvesse (II Sm.19:27). Que expressão de amor de Mefibosete: chamar de “anjo de Deus” aquele que lhe havia privado de todo o seu patrimônio injustamente. Mefibosete mostrava ter o verdadeiro amor, o amor desinteressado, como também sua profunda gratidão por todos os benefícios que Davi lhe havia feito. Comer de contínuo na mesa do rei era para Mefibosete muito mais importante do que todos os bens que possuía. Temos procedido do mesmo modo: temos nos satisfeito apenas com as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo ou queremos os bens do mundo?

Mefibosete, ainda, disse ao rei que, na sua situação, não tinha direitos a reclamar ao rei, pois era alvo da sua misericórdia. Quem é beneficiado pela misericórdia não cria direitos, tem de saber que tudo que tem decorre de favores imerecidos. Como faltam crentes como Mefibosete nos dias atuais, em que muitos estão a “exigir seus direitos” de Deus, como se tivessem algum mérito. Somos salvos pela graça (Ef.2:8) e não podemos nos gloriar pela salvação, nem tampouco, como muitos paroleiros em nossos dias, “reclamar direitos” ou “requerer” diante de Deus. Tomemos cuidado!

Davi, envergonhado, procurou remediar a situação. Vendo que Mefibosete lhe fora sempre leal e que Ziba havia mentido, tentou fazer uma média, mandando que Ziba e Mefibosete repartissem o patrimônio (II Sm.19:29).

Mefibosete, então, dá outra grande lição ao rei. Disse que o rei não precisava tentar solucionar o caso. Ele estava feliz com o retorno de Davi ao trono, com a resposta às suas orações, isto lhe bastava. Podia Ziba ficar com os bens materiais, pois Mefibosete preferia o bem-estar do rei e a continuidade da intimidade, da comunhão entre ele e o rei (II Sm.19:30). Que lição para os nossos dias. Para Mefibosete, a graça do rei lhe bastava. Será que a graça de Jesus nos basta?

O texto sagrado não nos diz se a ordem do rei Davi foi cumprida, com a repartição do patrimônio entre Ziba e Mefibosete, ou se Mefibosete passou a viver única e exclusivamente da mesa do rei. O certo é que Mefibosete não recuperou todo o patrimônio que tinha antes, o que mostra quão enganosos são os que usam Mefibosete como símbolo de enriquecimento e da “bênção de restituição”. Fujamos destes falsificadores da Palavra de Deus!

IMAGEM:"Davi mostra a Saul que havia poupado sua vida" Gustave Doré (1832-1883).
Disponível em http://www.creationism.org/images/DoreBibleIllus/dore_pt.htm.

A Limitação da Mente

Por Francikley Vito

A mente humana tem uma grande capacidade de percebimento e compreensão. Porém, temos que reconhecer suas limitações. É disso que fala Bernardo de Claraval nesta citação. Diz ele:

“A criatividade humana se apodera de tudo, não deixando nada para a fé. Enfrenta o que está acima dela, escruta o que lhe é superior, irrompe no mundo de Deus, altera os mistérios da fé, mais do que os ilumina; não abre o que está fechado e selado, mas o erradica; e o que não acha viável, considera como nada e rejeita crer nisso” (Epístola CLXXXVIII,1: PL 182, I, 353).

Bernardo de Claraval (1090-1153), canonizado em 1174, recebeu o título de doutor da Igreja em 1830.

Davi e a Casa de Saul (Parte 3/6)

Por Caramuru A. Francisco
II – DAVI E MICAL

Na sequência do estudo do relacionamento com Davi com a casa de Saul, veremos, ainda que sucintamente, o relacionamento de Davi com a filha de Saul, Mical, sua primeira mulher.

Como já vimos, Davi recebeu Mical como sua mulher, pelo dote de cem prepúcios de filisteus (na verdade, ele entregou duzentos). Saul, sabendo que Mical amava Davi, procurou, com astúcia, fazer com que o jovem, em luta contra os filisteus para conseguir este dote, morresse neste embate, o que, porém, não teve o resultado pretendido por Saul (I Sm.18:20-28).

O texto sagrado faz questão de dizer que Mical amava Davi, mas nada fala sobre o sentimento de Davi para com Mical. Não podemos especular a respeito disto, mas Davi não se esforçaria tanto se não viesse, pelo menos, com simpatia Mical, se não gostasse dela, até porque demonstrou, desde o episódio do gigante, que tinha interesse em se casar.

Quando Davi fugiu para não ser morto por Saul, avisado por Mical, que demonstrou seu amor para com Davi avisando-o da armadilha de Saul, ainda que corresse risco de morte com isto, Saul deu Mical como mulher a outro homem, Palti, filho de Laís (I Sm.25:44).

Durante a guerra civil com Isbosete, Davi pediu ao seu oponente que lhe fosse devolvida Mical, sendo, surpreendentemente, atendido pelo filho de Saul, que, com este gesto, mostrava não querer entrar em atrito com Davi (II Sm.3:13-15). O texto sagrado diz-nos que Paltis saiu atrás de Mical, chorando atrás dela, prova de que muito a amava, mas nada fala sobre o comportamento de Mical, que, de qualquer maneira, voltava ao convívio do que homem que amava e que estava em posição de proeminência.

Todavia, Davi não soube cultivar este amor de Mical por ele. Na verdade, Davi, embora tenha pedido de volta a Mical, não devotou nenhum cuidado nem proeminência a Mical, que, inclusive, não tinha filhos de Davi, a indicar que Davi nem ao menos tinha intimidade sexual com a filha de Saul. Entendeu Davi que, ao restituir Mical a sua condição de mulher de Davi, tinha cumprido o seu papel.

Mical, como toda mulher, sentiu-se desprezada e o seu amor se tornou em rancor, em amargura. Tal situação atingiu seu clímax quando Mical, ao ver Davi cantando e dançando com o povo na cerimônia de trazida da arca do testemunho para Jerusalém, ter desprezado Davi em seu coração e, por causa de tal desprezo, acabar repreendendo publicamente o rei, o que era uma falta extremamente grave, seja para uma mulher, seja para um súdito (II Sm.6:16,20-22; I Cr.15:29).

Como resultado desta repreensão pública, Davi a repreendeu, lembrando que era o escolhido de Deus em lugar de Saul, pai de Mical, para reinar sobre Israel, algo, aliás, que Mical sabia muito bem, pois havia vivenciado o início da perseguição que Saul empreendera contra Davi. Entretanto, em vez de reconhecer a unção de Davi e a sua dignidade, Mical o desprezara, o menosprezara e, num instante, em que demosntrava toda sua alegria perante o Senhor. Mical mostrava, assim, que preferia que Davi fosse seu marido do que rei sobre Israel, que achava que Davi devia antes se submeter a ela do que ao Senhor, o que era inadmissível. Davi disse que seu desprezo não retiraria a honra que tinha, da parte de Deus, diante do povo e, ante esta atitude tresloucada de Mical, ficou ela estéril e não teve filhos até o dia da sua morte (II Sm.6:23).

Neste episódio, temos importantes lições espirituais e familiares. Por primeiro, vemos que o marido não deve negligenciar o amor de sua mulher. Mical tinha um amor muito grande por Davi, a ponto de ter arriscado sua vida para proteger a de seu marido, mas este amor, não tendo sido cultivado, tornou-se em desprezo de coração. O amor conjugal não é divino, por isso não é eterno, depende de ser cultivado dia após dia pelos cônjuges. Como costuma dizer um pastor conhecido nosso, o amor conjugal é como uma planta que temos em casa, que precisa ser regada todos os dias para se manter viva e atraente.

Por segundo, aprendemos que um relacionamento conjugal não se sustenta por força da manutenção das aparências ou por interesses humanos. O retorno de Davi e de Mical não foram obra de uma dedicação ou de uma demonstração de amor, como havia sido o casamento de ambos, mas fruto exclusivo do interesse. Davi quis Mical de volta para se “redimir” diante do povo de Israel, para mostrar que até a mulher que Saul lhe havia tirado ele estava a recuperar, era um “troféu” a apresentar em seu embate político-militar com Isbosete. Mical tornou-se, assim, uma cláusula do acordo de paz que se esboçava em Israel, um “negócio de Estado”, nada mais que isto.

Por outro lado, para Mical, o retorno ao convívio de Davi era também um excelente negócio. Deixaria de ser marido de um homem que, bem ou mal, era vinculado ao rei morto e retornaria ao palácio real. Apesar da mudança dinástica na monarquia de Israel, Mical recuperaria a sua posição social, voltando não só a ser princesa, mas, sim, rainha de Israel e, pensava ela, a principal mulher de Davi, pois era filha de Saul e representaria a unificação de ambas as famílias reais. Certamente, de suas entranhas sairia o terceiro rei de Israel…

Os interesses não podem sustentar um casamento, mesmo quando os interesses parecem ser vantajosos para ambos os cônjuges. Somente o amor desinteressado, que é o amor “agape” (I Co.13:5), dado por Deus, tem condições de fazer superar as divergências e manter unido um casal apesar das adversidades (Ct.8:7).

Por terceiro, aprendemos que, mesmo na vida conjugal, a adoração ao Senhor, a vida espiritual tem proeminência. Não pode o cônjuge querer impedir o seu companheiro de ter uma vida de comunhão com Deus. Deus está acima até do nosso cônjuge. Se o cônjuge é a pessoa que mais amamos nesta vida debaixo do sol, se é alguém com quem nos tornamos um, isto cessa com a morte física de um dos dois ou com o arrebatamento da Igreja (Gn.2:24; Mt.22:30; Mc.12:25; Rm.7:2,3). O casamento não é eterno, está preso a esta dimensão, enquanto que a vida com Deus é eterna, não tem fim (Jo.3:16; I Ts.4:17).

Isto não significa, entretanto, que a vida ministerial esteja acima da vida familiar, como muitos ministros e oficiais das igrejas locais têm equivocadamente achado. Nossa vida espiritual está acima da vida familiar, mas nossa vida familiar está acima de nossa vida eclesiástica ou ministerial. Davi errou muito ao negligenciar Mical e, por isso, foi desprezado no coração por Mical. O erro de Mical foi desonrar o rei publicamente, mas a Bíblia não a censura por ter desprezado Davi em seu coração. Ademais, a vida familiar desastrosa de Davi comprometeu, inclusive, o seu ministério, a sua imagem como homem de Deus, de modo que não há como deixarmos de reconhecer que a família ocupa o segundo lugar, em nossas vidas, depois da vida com Deus.

Por quarto, aprendemos com Mical que não podemos, de forma alguma, deixar esfriar o amor que temos pelo Senhor. Falando agora alegoricamente, vemos em Mical a figura do salvo que deixa que seu amor a Deus se esfrie, por causa da iniquidade, enquanto que Davi, o “amado”, representa aqui o próprio Deus.

Mical amou Davi, quando este era apenas um jovem na corte real, um jovem que já não era bem visto pelo rei Saul. O amor de Mical era genuíno, autêntico, desinteressado, sincero. Quantos crentes não amam assim a Jesus e, por Ele, inclusive, chegam mesmo a arriscar suas vidas!

No entanto, as circunstâncias da vida fazem com que estes deixem que seu amor pelo Senhor arrefeça. Contrariedades na vida, falta de diálogo e de convivência com o “amado” fizeram com que Mical se tornasse insensível, não mais demonstrasse amor por Davi.

Quando indagada por seu pai porque deixara Davi fugir, Mical mentiu, dizendo que havia sido ameaçada por Davi. Teve vergonha de declarar o seu amor por Davi diante de Saul. Ora, Saul bem sabia que Mical amava a Davi, era fato público e notório. A atitude de Mical, ainda que buscando sua sobrevivência, revela que preferiu ganhar a sua vida do que manter o amor por Davi. Muitos crentes assim procedem: preferem ganhar a sua vida do que perdê-la por amor ao Senhor e, como disse Jesus, quem ganha a sua vida, perdê-la-á (Mt.10:39; 16:25; Mc.8:35; Lc.9:24).

Quando a pessoa começa a dar mais valor ao seu bem-estar que à fidelidade a Jesus, busca satisfazer seus prazeres, sonhos e desejos, em vez de seguir a Cristo, começa a caminhada rumo ao arrefecimento do amor a Deus, caminho perigoso e que quase todos estão a trilhar nestes dias finais da dispensação da graça (Mt.24:12; Ap.2:4). É o “abandono do primeiro amor” que Jesus denunciou à igreja de Éfeso e que tem verificado na vida de muitos. Tomemos cuidado!

Mical, buscando resguardar sua própria vida, mentiu, o que, sejamos justos e imparciais, fez também Davi, quase que na mesma época, diante do sumo sacerdote Aimeleque. Entretanto, Davi se arrependeu, como vemos nos salmos compostos quando esteve em Gate, enquanto que Mical perseverou em sua mentira, aceitando casar-se com Paltis, segundo a ordem de Saul.

Dirá alguém que Mical não tinha como recusar-se a aceitar este casamento, que corria risco de morte. No entanto, não arriscou porventura Mical sua vida quando arquitetou a fuga de Davi? Ao aceitar o casamento com Paltis (ou Paltiel), mostrou que seu amor por Davi se havia esfriado e podemos afirmar isto diante da reação de Paltis quando lhe tomaram Mical, a demonstrar que Mical lhe havia sido uma boa mulher, de que ela realmente assumiu seu papel de mulher de outro homem, desistindo de Davi.

Este arrefecimento do amor chegou ao desprezo de coração. Ao ver Davi bailando e saltando na entrada de Jerusalém, quando acompanhava a arca, da janela de sua casa, Mical desprezou Davi em seu coração. Este é o caminho daquele que se envergonha do Senhor, que não mais O ama: chega o instante em que despreza a presença de Deus, em que as coisas de Deus lhe trazem mal-estar, em que a alegria do Senhor lhe causa náuseas, lhe causa ódio e rancor.

Mical desprezou Davi no seu coração, não lhe agradou a adoração que se fazia ao Senhor, não teve nenhum temor de fazê-lo quando a arca do testemunho entrava na cidade. Mical, inclusive, estava em sua casa, não saía do palácio, porque estava presa à posição social, às coisas desta vida, não queria se misturar com a plebe, não queria sequer prestigiar e homenagear a arca, símbolo da presença de Deus no meio de Israel.

Assim se portam os crentes frios, que não mais amam a Deus. Para eles, as coisas terrenas têm mais valor que os cultos ao Senhor. Para eles, a liturgia é “maçante”, “chata”, “rotineira”. Eles querem viver das ilusões do mundo, das aparências, do luxo, do consumismo desenfreado. Desprezam as coisas do Senhor, as bênçãos espirituais, estão voltados única e exclusivamente para o mundo e o que ele oferece. Tomemos cuidado!

Por quarto, vemos que Mical, já tendo desprezado Davi em seu coração, insulta-o publicamente, desonra-o. Este é o estágio final daquele que abandona o Senhor. O limite da desobediência é o insulto ao Senhor, a apostasia, o desrespeito, a blasfêmia contra a divindade. Se a blasfêmia for contra o Espírito Santo, aí estaremos diante do “pecado para a morte”, que não tem perdão. Mical, ao insultar o ungido de Deus, foi duramente repreendida e ficou estéril, levou sobre si uma maldição.

Que despropósito. Enquanto toda a casa de Davi foi abençoada pelo rei após o término da festividade da vinda da arca para Jerusalém (I Cr.16:43), Mical, aquela que deveria ser a mais proeminente, aquela que era das poucas mulheres de Davi que tinha sido princesa antes de ser rainha, e a única princesa de Israel, recebia, pela perda do amor, da parte do Senhor a pior das maldições que uma mulher poderia ter — a esterilidade. Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo!

Davi havia sido bondoso para com Mical e a havia restituído à vida palaciana, mas Deus não Se agradou de seu comportamento, de modo que a tornou estéril, impedindo-a de dar uma descendência que fosse, simultaneamente, da casa de Davi e da casa de Saul. Na linhagem messiânica, não se teria, de forma alguma, semente daquele que ousou apostatar da fé.

IMAGEM:"Davi mostra a Saul que havia poupado sua vida" Gustave Doré (1832-1883).
Disponível em http://www.creationism.org/images/DoreBibleIllus/dore_pt.htm.

Por Que os Evangélicos Não Usam a Cruz em Seus Templos?

A cruz, desde os primórdios, foi o símbolo maior do cristianismo; ainda que considerada, em alguns momentos, negativamente, ou seja, como sinônimo de maldição. Ainda durante o primeiro século, a cruz se firmou como símbolo da fé no crucificado – Jesus.

No Brasil, porém, a coisa não se deu de maneira tão harmonioso. Segundo o historiador R. J. Sturz, o evangelho entrou na América Latina, e principalmente no Brasil, de maneira lenta e conturbada. Depois de algumas tentativas frustradas, os primeiros evangélicos conseguiram autorização para erguerem seus templos nas terras de santa cruz (comandada religiosamente pelo catolicismo romano). A permissão veio por meio de um acordo firmado entre Portugal e Inglaterra.

O historiador conta que “uma das cláusulas do tratado comercial, assinado com a Inglaterra em 1810, foi que Portugal permitiria a construção de casas de adoração para os estrangeiros, contanto que não tivessem a aparência de igrejas. O uso da cruz na parte exterior dos prédios foi expressamente proibido”, e completa lembrando que “um ponto interessante a ser notado na história é que muitos evangélicos no Brasil continuam inflexivelmente opostos ao uso da cruz em seus templos”.[1]

Assim, o autor mostra que o não uso da cruz em templos evangélico não é uma questão doutrinária, mas uma questão histórica. Esse quadro tem sido mudado pelos movimentos neo-pentecostais, que já usam a cruz em seus templos, internamente.

Nota
[1] STURZ, Richard J. A Implantação do Cristianismo na América Latina (In:CAIRNS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos:Uma história da Igreja Cristã. 2ª Ed. São Paulo: Vida Nova, 1995, p.361)
IMAGEM: Google Imagem

Davi e a Casa de Saul (Parte 2/6)

Por Caramuru A. Francisco

Mefibosete, que simboliza o ser humano, estava em Lo-Debar, ou seja, no lugar chamado “nada”. Quem está separado de Deus, quem se esconde de Deus, e nos escondemos do Senhor quando pecamos (Gn.3:8), está no “nada”, visto que sem Deus nada podemos fazer (Jo.15:5 “in fine”). Somos uma nulidade, um verdadeiro “cão morto”, como se expressou Mefibosete ao rei Davi, que nada merecíamos da parte do Senhor. Como diz o próprio Davi no Salmo 8:4, “que é o homem mortal para que Te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites?” ou, ainda, no Salmo 144:3, “Senhor, que é o homem para que o conheças, e o filho do homem, para que o estimes? O homem é semelhante à vaidade; os seus dias são como a sombra que passa”.

Não podemos nos iludir. Deus ama o homem porque é misericordioso, porque é amor, não porque o homem mereça qualquer demonstração de amor da parte do Senhor. Os dias em que vivemos são dias de um falso humanismo, de uma indevida exaltação do ser humano, tornado medida de todas as coisas. O homem nada é sem Deus e se não fosse o amor e a misericórdia divinas, nada nos estaria assegurado senão o justo tormento eterno pelos nossos delitos e pecados. Mas a mensagem do Evangelho é uma mensagem de boas novas precisamente porque nos faz saber que Deus é bom e que o homem, esta nulidade, tem oportunidade, pela misericórdia divina, de voltar a ter comunhão com o Senhor e ser alguma coisa, mesmo sendo menos que nada (Is.40:17).

O próprio nome de Mefibosete tem um significado que demonstra a lamentável condição do ser humano diante de Deus. “Mefibosete” significa “ele espalha, “ele extermina” ou, ainda, “vergonha”. Esta é a situação do ser humano sem Deus e sem salvação: nada ajunta, só espalha, está em constante inimizade com o Criador de todas as coisas (Mt.12:30; Lc.11:23). Sem Deus, o homem não tem vida nem constrói coisa alguma, só “extermina”, só produz morte, ou seja, tudo quanto faz é separado de Deus, visto que seus pecados o separam da bondade e da misericórdia divinas (Is.59:1,2). Por fim, é ele uma “vergonha”, ou seja, possui um sentimento de inferioridade, de indignidade, porque deixou de ocupar a posição para a qual foi criado, que era em comunhão com Deus, para dele viver separado, num destino que não é o seu, num futuro que não foi o reservado para ele. Afinal, vergonha é opróbrio e a Bíblia diz que “…o pecado é o opróbrio dos povos”(Pv.14:34b).

Davi convocou Mefibosete para que comparecesse a Jerusalém. Mefibosete não tinha condição alguma de se apresentar diante do rei. Corria risco de morte, visto que era o representante da dinastia derrotada, tinha de viver escondido para o resto de sua vida, mas o rei quis saber de seu paradeiro, quis trazê-lo à sua presença. A salvação não tem qualquer iniciativa humana, pois o homem, por si só, não tem como comparecer à presença de Deus. Entretanto, Deus chamou o homem à salvação, convoca-o a se apresentar diante do Senhor e a reconhecer o seu pecado e, através da fé em Cristo Jesus, ter a oportunidade de recuperar a sua posição espiritual perdida por causa do pecado.

Mefibosete aceitou o convite do rei e foi até a sua presença. Lá chegando, prostrou-se diante do rei e se disse seu servo. Para que o homem alcance a salvação é preciso reconhecer o senhorio de Deus, fazer-se Seu servo e adorá-lO na beleza da Sua santidade. Sem arrependimento dos pecados, sem submissão à vontade de Deus não há salvação. Somos salvos? Temos realmente nos prostrado diante do Senhor e aceito a Sua vontade?

Mefibosete apresentou-se ao rei em Jerusalém. Foi o rei quem o chamou, mas ele teve de sair de Lo-Debar, da “nulidade”, do “lugar dos oráculos”, pois Lo-Debar também era conhecida como “Debir” e era tido como um lugar onde os cananeus tinham lugares de adoração antes da conquista por Israel da região. Para o homem alcançar a salvação, é preciso que deixe o pecado, que deixe os ídolos, que abandone a vã maneira de viver que recebeu por tradição de seus pais e parta para Jerusalém, para a cidade da presença de Deus, para a “cidade fundada em paz”, ou seja, corra em direção a Jesus Cristo, o “Príncipe da Paz”, o único caminho que leva ao Pai (Jo.14:6).

Mefibosete foi para Jerusalém e lá chegou porque tomou o caminho certo. Somente alcançaremos a salvação se tomarmos o caminho certo, que é Jesus Cristo, o único que nos leva até a presença do Pai, a fim de que, ali, possamos nos arrepender dos nossos pecados e assumir o compromisso de obedecer-Lhe.

Diante do arrependimento, da adoração e da confiança demonstrada, Mefibosete encontrou o favor do rei. Davi disse que nada temesse e que haveria de recuperar a posição que antes detinha. Como herdeiro de Saul, receberia todos os bens de seu avô e, como se isto fosse pouco, também passaria a comer de contínuo na mesa do rei, como um verdadeiro príncipe, retomando, assim, mesmo sendo outra a dinastia reinante, a posição que lhe cabia por direito antes da morte de seu avô e da qual nem chegou a desfrutar, em virtude de sua tenra idade.

A salvação proporciona o mesmo para o homem. Uma vez salvo, o homem recupera a posição que havia perdido no Éden, ou seja, passa a ter comunhão com Deus, a ter uma vida de contínuo na mesa do rei, a desfrutar da intimidade, da orientação, da companhia e do amor do Senhor. Esta é a “restituição” simbolizada aqui no episódio de Mefibosete. Muitos, na atualidade, têm se aproveitado desta passagem bíblica para defender uma suposta “prosperidade material” do crente, dizendo que, uma vez alcançada a salvação, o cristão irá ter a fartura material de Mefibosete, os bens de Mefibosete e ainda sentar-se com os “grandões” da sociedade, assim como o neto de Saul. Que pobreza de interpretação, que mostra, aliás, que tais pregadores são os mais miseráveis de todos os homens, já que esperam em Cristo apenas para as coisas desta vida (I Co.15:19).

A “restituição” que se tipifica aqui é única e tão somente de ordem espiritual. Mefibosete voltou ao seu “status” de neto de Saul e de príncipe de Israel. No episódio, sem dúvida alguma, isto representava benesses de ordem material e uma posição social proeminente, mas o ensino escriturístico aqui tem a ver com a nossa posição espiritual. No pecado, estávamos num lago horrível, num charco de lodo (Sl.40:2) e o Senhor dali nos tirou, quando nos arrependemos dos nossos pecados, pondo nossos pés numa rocha, firmando nossos passos e nos pondo na boca um cântico novo (Sl.40:3). De perdidos, mortos, agora fomos vivificados em Cristo (Ef.2:1-5), temos comunhão com Deus, passamos da morte para a vida (Jo.5:24).

Saímos da cidade da miséria do pecado, de “Lo-Debar”, para irmos para Jerusalém, a cidade santa, a cidade da presença de Deus, onde, de contínuo, gozamos da comunhão com o Senhor, comunhão esta que é demonstrada visivelmente na celebração da ceia do Senhor, a “mesa do Senhor” (I Co.10:21). Pouco importa se temos, ou não, bens materiais, até porque o texto sagrado, como veremos, dá a entender que Mefibosete, no mínimo, só ficou com metade de seu patrimônio após o término da rebelião de Absalão.

IMAGEM:"Saul Tenta Matar Davi" de Gustave Doré (1832-1883).
Disponível em http://www.creationism.org/images/DoreBibleIllus/dore_pt.htm.

É tudo a mesma Coisa?

No último dia 05 de Outubro, a Rede Globo de televisão lançou um programa que tem como principal objetivo "delimitar o lugar das religiões no mundo" conteporâneo. O programa, denominado "Sagrado", exibiu em seu primeiro episódio a opinião da representante das "religiões afro-brasileiras". Que disse:

"Quando você tem uma fé, quando você tem uma crença, quando você é espiritualizado; você está aberto para se aproximar do outro[...]você conseque ver no outro aquele que abriga o ser supremo...não importa[como o chamemos]o que importa é crer em algo."(grifo meu)[1]

Será que o mais importante é "crer em algo", não importando o quê? O escritor G.K. Chesterton, já dizia que:
"Não existe uma possibilidade real de extrair do panteísmo nenhum impulso especial para ações morais. Pois o panteísmo implica, por sua natureza, que uma coisa é tão boa quanto outra; ao passo que a ação implica, por sua natureza, que uma coisa é muito preferível a outra.
Com certeza os credos mais sagazes podem sugerir que deveríamos buscar a Deus em círculos cada vez mais profundos do labirinto do nosso ego. Mas somente nós do cristianismo temos dito que deveríamos buscar a Deus como uma águia no alto das montanhas: e nós matamos todos os monstros nesta busca.
”[2]

Fonte
[1] http://video.globo.com/Videos/Busca/0,,7959,00.html?b=Sagrado%20Primeiro%20episódio. Acesso em 08 out. 2009. Também da IMAGEM.
[2] CHESTERTON, G.K. Ortodoxia. São Paulo:Mundo Cristão, 2008, pp.220,221.

Davi e a Casa de Saul (Parte 1/6)

Por Caramuru A. Francisco

INTRODUÇÃO
O relacionamento de Davi com a casa de Saul mostra o seu coração misericordioso, que tem, porém, como limite, a justiça de Deus.

“E disse Davi: Há ainda alguém que ficasse da casa de Saul, para que lhe faça bem por amor de Jônatas?” (II Sm.9:1)

Iniciaremos este [...] estudo a respeito do relacionamento de Davi com a casa de Saul, episódios que mostram o coração bondoso que Davi possuía, mas que também ilustra que Deus é justo e que ninguém é bom senão Deus (Mt.19:17; Mc.10:18; Lc.18:19).

I – A BONDADE DE DAVI PARA COM MEFIBOSETE

Como uma prática costumeira e encontradiça na história de todos os povos, era comum que, uma vez entronizado um rei que não pertencesse à família do rei anterior, fossem os familiares do rei substituído mortos, visto que, certamente, seriam um natural foco de oposição ao novo governante. Era costume, pois, na mudança de uma dinastia (isto é, da família reinante), que todos os integrantes da dinastia substituída fossem mortos.

Davi assumiu o reino, após vencer uma guerra civil com Isbosete, o único filho de Saul que havia sobrevivido à batalha de Gilboa (I Sm.31). Assim, era natural que quisesse o extermínio da família de Saul, como forma de se confirmar no reino.

No entanto, Davi era um homem segundo o coração de Deus, um governante diferente, que sabia que havia sido escolhido por Deus e que devia o trono à ação divina. Sendo assim, ao contrário do que todos costumavam fazer, não quis a destruição da casa de Saul, seu antecessor. Pelo contrário, quando Isbosete ainda vivia, conseguiu que este lhe devolvesse sua ex-mulher Mical, que Saul havia dado a outro homem, restaurando-lhe a dignidade de sua mulher e, por conseguinte, como uma das rainhas do país, após subir ao trono.

Logo após a morte de Saul e de seus filhos, entre eles Jônatas, Davi mostrou que seria um governante diferente. Ungido como rei de Judá, Davi fez questão de mandar elogios aos moradores de Jabes-Gileade por terem providenciado sepultura aos corpos de Saul e de Jônatas, tornado “troféus” nas mãos dos filisteus e exibidos em suas cidades, numa clara demonstração de que não tinha qualquer sentimento vingativo contra a casa de Saul (II Sm.2:5-7).

Uma vez confirmado no reino, Davi, não contente com o fato de ter trazido Mical para o palácio, lembrou-se do pacto que havia feito com Jônatas, filho de Saul, segundo o qual cada um prometera ao outro que não permitiria que as respectivas descendências se extinguissem (I Sm.20:11-17). Uma vez no trono, mesmo tendo Jônatas morrido, Davi sabia que, como servo de Deus, tinha de cumprir o que havia jurado, de forma que indagou seus súditos a respeito de alguém ter restado da descendência de Saul, mui especialmente da descendência de Jônatas.

Nos dias de Davi, quando se estava na dispensação da lei, era imperioso ao homem honrar os juramentos que tivesse feito (Nm.30:2; Mt.5:33). Davi sabia que, embora não houvesse quem da casa de Saul pudesse cobrar seu juramento, e fosse até esperado que exterminasse a toda a descendência de Saul e isto fosse visto como absolutamente natural entre os israelitas, havia um Deus nos céus que a tudo havia presenciado, de forma que não poderia Davi fugir ao juramento feito.

Em nossos dias, dias da dispensação da graça, não devemos jurar (Mt.5:34-36), mas nosso falar deve ser sim, sim, não, não, pois o que passa disto é de procedência maligna (Mt.5:37). Nossa responsabilidade, portanto, é bem maior que as dos homens da época da lei, e, lamentavelmente, muitos são os que cristãos se dizem ser mas cuja palavra nada vale, que não sustentam o que falam, o que prometem. Que Deus nos guarde e que, com Davi, aprendamos a cumprir a nossa palavra, ainda que isto possa aparentemente trazer transtornos e incompreensões na nossa vida terrena.

Davi estava disposto a cumprir o juramento que fizera a Jônatas e, então, busca saber se ainda havia alguém da casa de Saul que ele pudesse beneficiar, por amor a Jônatas. Foi, então, chamado, um servo da casa de Saul, chamado Ziba, a fim de que informasse o rei se restara alguém da casa de Saul (II Sm.9:1-3).

Ziba, que, embora fosse servo da casa de Saul, estava praticamente livre, vez que não havia mais a quem servir, muito provavelmente imaginando que Davi iria pôr fim a todos os descendentes de Saul e disto ele tiraria proveito, indicou a Davi que ainda havia restado um filho de Jônatas, chamado Mefibosete, aleijado de ambos os pés, que estava na casa de Maquir, em Lo-Debar.

O texto sagrado diz-nos que, quando da batalha de Gilboa, assim que as novas chegaram a Jizreel, onde estava o filho de Jônatas, Mefibosete, então com cinco anos de idade, sua ama fugiu e tomou o menino e, na fuga, o menino caiu e ficou coxo (II Sm.4:4). Sua ama o levou até Lo-Debar, onde ficou morando na casa de Maquir. Lo-Debar, cujo nome significa “nada” (Am.6:13, que, na Versão Almeida Revista e Corrigida, traduz ‘Lo-Debar” por “nada”), era uma cidade em Gileade, perto do Jordão (Js.13:26), local bem distante do centro das decisões políticas do país, onde Mefibosete estava escondido, precisamente para que tivesse sua vida poupada, já que era o herdeiro presuntivo da coroa, por parte da descendência de Saul.

Ao saber da existência deste filho de Jônatas, Davi manda que ele fosse trazido até Jerusalém. Mefibosete chegou e, naturalmente, temendo por sua vida, prostrou-se diante de Davi, como a pedir clemência, dizendo-se servo de Davi. O rei, porém, disse a Mefibosete que não temesse e que, ao contrário do que se imaginava, o havia chamado para lhe fazer bem, restituindo tudo que era de Saul e, ainda, dizendo que, de contínuo, Mefibosete comeria pão na mesa do rei, tendo, pois, “status” de príncipe, de filho do rei (II Sm.9:4-7).

Mefibosete, demonstrando toda a sua humildade, perguntou, então, a Davi quem era para que tivesse tamanha honra, já que se considerava um cão morto, mas Davi chamou Ziba e lhe comunicou que Mefibosete passava a ser dono de tudo quanto era de Saul e que Ziba deveria tornar a servir a casa de Saul, agora a Mefibosete, juntamente com seus quinze filhos e vinte servos. Ziba, sem outra alternativa, prometeu cumprir a ordem do rei, tornando a ser servo quando achava que se tornaria senhor de tudo quanto havia sido de Saul, como costumava ocorrer. Mefibosete tinha então um filho, Mica, e Ziba e todos os seus passaram a servir a Mefibosete, que morava em Jerusalém e de contínuo comia à mesa do rei (II Sm.9:8-13).

Neste episódio de Davi e Mefibosete, temos algumas lições importantes do ponto-de-vista espiritual. Davi, aqui, tipifica o nosso Deus, o Soberano do Universo, que, podendo executar justiça contra o homem que Lhe desobedeceu, prefere, porém, usar de misericórdia, permitindo-lhe uma nova oportunidade para ter comunhão com Ele.

IMAGEM:"Saul Tenta Matar Davi" de Gustave Doré (1832-1883).
Disponível em http://www.creationism.org/images/DoreBibleIllus/dore_pt.htm.

Vídeo - O Evangelho em Seis Minutos

Sobre a oração de um pecador que não quer deixar o pecado (Parte 5/5)

João Maria Batista Vianney
(Trad. do francês Caramuru Afonso Francisco)


Sobre a esperança de um pecador, não nos é necessário falar, pois, a esperança de um animal e a sua são a mesma coisa: examinai a conduta de um e a do outro, não há diferença. Um animal faz consistir toda sua felicidade no beber e no comer, nos prazeres da carne, e vós não encontrais outra coisa em um pecador que vive no pecado. Mas — dir-me-eis — ele vai à missa, ele faz ainda algumas orações. E por quê? Não é nem pelo desejo de agradar a Deus e de salvar a sua alma que ele pratica tais ações, mas pelo hábito e pela rotina que ele adquiriu desde sua juventude. Se não houvesse domingos todos os anos ou décadas, ele não viria todos os anos nem ainda meses. Ele o faz porque os outros o fazem. Vede bem a maneira como ele se comporta em tudo aquilo e vereis que não se trata de outra coisa, ou, para melhor vos fazer conhecer o que é a esperança de um cristão pecador, digo-vos que não tem uma esperança diferente da de um animal de carga, pois estamos perfeitamente convencidos que um animal só espera o que pode desfrutar sobre a terra. Um pecador endurecido que não pensa em deixar o prazer, que não quer sair do pecado, não tem outra coisa a esperar, já que, pelo que ele diz e pensa, ao menos é necessário estar persuadido de que tudo termina com a morte. É em vão, meu Deus, que morreste por estes pecados! Ah, meu amigo, crendo que se tem espírito, tu te degradas tanto, já que tu te pões ao nível das bestas e dos animais mais vis.

3º Dissemos também que a oração de um cristão deve ser animada do amor, isto é, do amor de Deus que nos leva a amar a Deus de todo o coração e a odiar e detestar soberanamente o pecado como o maior de todos os males, com um desejo sincero de não mais cometê-lo e de combatê-lo e esmagá-lo onde quer que nós o encontremos. Vereis ainda que isto não se encontra nas orações de um pecador que não se entristece de ter ofendido o bom Deus, já que ele O tem pregado sobre a cruz de seu coração e isto durante todo o tempo em que o pecado ali reina. Quereis ainda escutar um instante este mentiroso, vede e ouvi-o na sequência de seu ato de contrição. Se vós já vistes alguma vez uma representação de uma peça de comédia ou de teatro, sabereis que tudo o que eles fazem é mentira e engano. Pois bem, prestai atenção os vossos ouvidos, por um momento, à oração deste pecador e vereis que não faz ele outra coisa senão mentira e falsidade. Seria impossível de ouvi-lo dizer o que diz durante seu ato de contrição sem que sintais compaixão: “Meu Deus — começa ele — que vês meus pecados, vê também a dor de meu coração”. Ó meu Deus, pode-se pronunciar uma tal abominação? Sim, sem dúvida, pobre cego, Ele vê bem teus pecados, vê-os demasiados, infelizmente. Mas, a tua dor, onde ela está? Dizes então rapidamente: “Meu Deus, que vês meus pecados, vê também a dor dos santos solitários nas selvas, onde eles passam a noite chorando seus pecados”. Mas, para ti, vejo bem que tu não os choras. Bem longe de ter a dor de teus pecados, tu queres tê-los, já que neles permaneces, sem querer deixá-los. “Meu Deus — continua este mentiroso — estou extremamente arrependido de Te ofender”. Mas é possível pronunciar tais impiedades e blasfêmias? Se tu estivesses desta maneira, extremamente arrependido, poderias permanecer um mês, dois, três, talvez dez ou vinte anos com o pecado em teu coração? Ainda uma vez, se estivesses aborrecido em ter ofendido a Deus, seria necessário que o ministro do Senhor se ocupasse continuamente a descrever o castigo que Deus reserva ao pecado, para te trazer horror? Seria necessário te arrastar, por assim dizer, até os pés do teu Salvador para te fazer deixar o pecado? “Perdoa-me, meu Deus — diz ele — porque Tu és infinitamente bom e amável, e o pecado Te desagrada”. Cala-te, meu amigo, que tu não sabes o que dizes. Certamente, Ele é bom. Se só a Sua justiça te tivesse escutado, há um bom tempo tu já estarias a arder no inferno! “Meu Deus — diz ele — perdoa meus pecados pelos méritos da morte e paixão de Jesus Cristo, Teu querido Filho”. Ai de ti, meu amigo, pois todo o sofrimento que Jesus teve por Te amar não será capaz de tocar teu coração, demasiadamente endurecido. “Dá-me — diz ele — a graça de cumprir a resolução que tomo agora de fazer penitência e de nunca mais Te ofender”. Mas, meu amigo, podes bem raciocinar desta maneira? Onde está, então, esta resolução que tomaste de não mais ofender o bom Deus, já que tu amas o pecado e, bem longe de querer dele sair, procuras o lugar e as pessoas que podem to trazer? Digo logo, meu amigo, que tu estarias bem aborrecido se o bom Deus te concedesse a graça de não mais pecar, já que tu te agradas tanto de rolar na imundície e no vício. Creio, meu amigo, que seria muito melhor nada dizer do que falar desta maneira.
Mas andemos um pouco mais adiante. Lemos no Evangelho que os soldados que levaram Jesus Cristo para o pretório, estando todos reunidos ao Seu redor, tiraram Suas vestes, lançaram sobre Seus ombros um manto de escarlata, coroaram-nO de espinhos, espancaram sua cabeça com uma cana, deram-lhe bofetadas, cuspiram em Seu rosto e, depois de tudo isso, ajoelharam diante d’Ele e O adoraram. Pode-se encontrar um ultraje mais terrível? Pois bem, pasmem, é só ver a conduta de um cristão que está no pecado e que não pensa em dele sair, nem o quer. Digo mais, que ele sozinho faz tudo os que os judeus fizeram todos juntos, já que são Paulo nos diz que a cada pecado que cometemos, nós fazemos morrer o Salvador do mundo (Hb.6:6), isto é, que nós fazemos tudo o que era necessário para O fazer morrer, se Ele fosse ainda capaz de morrer uma segunda vez. Enquanto o pecado reinar em nosso coração, nós temos, como os judeus, Jesus Cristo pregado sobre a cruz. Com eles, nós O insultamos quando nos ajoelhamos diante d’Ele, parecendo que oramos a Ele.
Mas – dir-me-eis — “não era esta a minha intenção, já que faço a minha oração. Deus me guarde de fazer este horror!”. Boa desculpa, meu amigo! Aquele que comete o pecado não tem intenção de perder a graça, entretanto ele só tem a perdê-la. É ele menos culpado? Não, sem dúvida, porque ele sabe bem que não se pode fazer tal ação ou dizer tal coisa sem se tornar culpado de um pecado mortal. Se averiguardes a intenção de todos os perdidos que hoje ardem no inferno, não era ela certamente a de se perder, mas eles são menos culpados por causa disso? Não, sem dúvida, porque eles sabiam que eles se perderiam vivendo como eles viveram. Um pecador que ora com o pecado no seu coração não tem a intenção de zombar de Jesus Cristo, nem de insultá-lO? Não é menos verdadeiro que ele zomba d’Ele porque ele sabe que se zomba de Deus quando se Lhe diz: Meu Deus, eu Te amo, enquanto se ama o pecado, ou, eu me confessarei brevemente. Escutai esta última mentira! Ele não pensa nem em se confessar nem em se converter. Mas — dize-me — qual é a tua intenção quando vens à igreja ou fazes o que chamas de tua oração? É — talvez me dirás, se ousas todavia dizê-lo — de fazer um ato de religião, de render a Deus a honra e a glória que a Ele pertencem. Ó horror! Ó cegueira! Ó impiedade! Querer honrar a Deus por meio de mentiras, isto é, querer honrá-lO pelo ultraje! Ó abominação que é ter Jesus Cristo na boca e tê-lO crucificado no coração, juntar Aquele que é mais santo com o que há de mais detestável a serviço do demônio! Ó que horror é oferecer a Deus uma alma que foi mil vezes prostituída pelo demônio! Ó meu Deus, como o pecador é cego e tanto mais cego que não se conhece nem mesmo procura se conhecer!
Não tinha eu bem razão, no começo, quando vos disse que a oração de um pecador outra coisa não é senão um entrelaçamento de mentiras e de contradição? Isto é tão verdade que o Espírito Santo nos diz, Ele mesmo, que a oração de um pecador que não quer sair do pecado é uma abominação aos olhos do Senhor (Pv. 28:9). Este estado — direis comigo — é bem terrível e digno de compaixão. Pois bem, vede como o pecado vos cega! Entretanto eu o disse sem receio de exagerar, ao menos metade dos que estão aqui, que me escutam dentro desta igreja, são deste número. Não é que isto não vos toca, ou logo isto passou a vos chatear pelo tempo que já dura? Vê, meu amigo, o infeliz abismo a que o pecado conduz o pecador. Em primeiro lugar, sabe que há seis meses, um ano ou mais, estás no pecado, e não é que estás tranquilo? É sim — dir-me-ás. Não é difícil de crê-lo, porque o pecado tirou teus olhos, tu não vês coisa alguma e ele endureceu teu coração a fim de que nada sintas e estou certo de que tudo o que te disse não te fará fazer nenhuma reflexão. Ó meu Deus, a que abismo conduz o pecado!
Mas — dir-me-eis — não é mais necessário orar, já que nossas orações não são senão insultos que fazemos a Deus? Não é isto que quis vos dizer ao dizer que vossas orações só são mentiras. Mas, em vez de dizerdes: “Meu Deus, eu Te amo”, dizei: “Meu Deus, eu não Te amo, mas faze-me a graça de Te amar”. Em vez de Lhe dizerdes: “Meu Deus, estou extremamente arrependido de Te ofender”, dizei: “Meu Deus, não sinto arrependimento algum dos meus pecados, dá-me toda a dor que eu devo ter pelo meu pecar”. Bem longe de dizer: “Eu quero me confessar de meus pecados”, dizei: “Meu Deus, sinto-me preso a meus pecados, parece-me que não quero jamais deixá-los, dá-me este horror que devo sentir, a fim de que eu os aborreça, os deteste e os confesse, a fim de que jamais eu venha a ser novamente preso por eles. Ó meu Deus, dá-nos, se Te agradas, este horror eterno do pecado, já que ele é nosso inimigo e é ele que nos faz morrer, que nos tira a Tua amizade, que nos separa de Ti! Ah, faz, Divino Salvador, que todas as vezes que viermos orar, façamo-lo com um coração desligado do pecado, com um coração que Te ama e que — diante do que se lhe dirá — só diga a verdade!”. É a graça, meus irmãos, que vos desejo.
Fonte
Acesso em 30 jun. 2009.

Os números da Marcha para Jesus

No último dia 02 de novembro, aconteceu em São Paulo a chamada “Marcha para Jesus”. Como o próprio nome diz é uma “caminhada a pé” que passa por importantes avenidas da capital paulista; com o intuito de, segundo a bispa Sônia Hernandes, “anunciar a Jesus”. Sem entrar no mérito da questão, passamos a mostrar o número de pessoas que participaram da marcha, segundo algumas das principais agências de notícia do país.
Cabe esclarecer que: para se manter a coerência, todas as fontes usadas são online.

 Para o G1(portal de notícia da Globo): “Uma multidão acompanha a ‘Marcha para jesus’(sic), em São Paulo”. Para reportagem os fiéis ouviram “discursos e participaram de shows”.[1]

 Para o R7(portal de notícia da Record): “A Marcha para Jesus reuniu cerca de 3 milhões pessoas nesta segunda-feira.E ressalta que “o evento, organizado desde 1993 pela Igreja Renascer em Cristo, é uma das maiores festas evangélicas do mundo”.[2]

 Para o estadão.com (do jornal O Estado de São Paulo): “Mais de 1 milhão de fiéis participam da Marcha para Jesus, na zona norte de São Paulo, na tarde de hoje, segundo contagem da Polícia Militar. A previsão dos organizadores do evento é de que 5 milhões de pessoas passem pela marcha”.[3]

 Pra folha online(do jornal Folha de São Paulo): “A 17ª edição da Marcha para Jesus, realizada das 10h às 20h desta segunda-feira em São Paulo, atraiu mais de 1 milhão de pessoas, segundo balanço da Polícia Militar. Sob o forte sol e com muito calor, a multidão de fiéis acompanhou diversos shows ao longo do dia”. Ainda para publicação, a polícia “chegou a informar” que seria 3 milhões os participantes.[4]

O intuito aqui não é mostrar quem está certo ou errado; também não é refletir sobre os méritos – ou não méritos – dos organizadores. É apenas pensar a respeito das seguintes indagações: será que devemos confiar em tudo que a mídia mostra? O que a rege é o princípio da imparcialidade? Pensemos!

Fontes
[1]http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1152522-7823-GLOBO+NOTICIA+PARA+O+G+EDICAO+DE,00.html. Acesso em 03 de nov. 2009.
[2]http://noticias.r7.com/sao-paulo/noticias/marcha-para-jesus-reune-3-milhoes-de-pessoas-em-sp-diz-organizacao-20091102.html. Acesso em 03 de nov. 2009.
[3]http://www.estadao.com.br/noticias/geral,mais-de-1-milhao-participam-da-marcha-para-jesus,460078,0.htm. Acesso em 03 de nov. 2009.
[4] http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u646739.shtml. Acesso em 03 de Nov. 2009.
IMAGEM: Almeida Rocha/Folha Imagem
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