Davi e a Casa de Saul ( Parte 5/6)

Por Caramuru A. Francisco
IV – DAVI E SIMEI

Outro episódio a envolver Davi com a casa de Saul é a que se refere a Simei, um homem da casa de Saul, que, em Baurim, pequena aldeia situada na estrada que levava Jerusalém a Jericó, onde, aliás, morara Mical com Paltis, quando Davi fugia de Absalão.

Ao passar por Baurim, Simei foi ao seu encontro e começou a apedrejá-lo, amaldiçoando a Davi, chamando-o de homem de sangue e homem de Belial, dizendo que o Senhor estava agora a dar o devido pagamento por todo o sangue da casa de Saul e que Davi perdera o reino para seu filho Absalão (II Sm.16:5-8).

Num momento de abatimento total, em plena fuga, Davi encontra o rancor de alguns da casa de Saul. Era evidente que muitos dos familiares de Saul não haviam se conformado com a perda do reino para a família de Davi, mas permaneciam enrustidos, visto que, embora Davi tivesse sido benevolente com a casa de Saul, certamente não toleraria uma oposição.

No entanto, diante da mudança das circunstâncias políticas, Simei não perdeu a oportunidade de insultar Davi e externar todo seu ódio e todo seu rancor. Isto nos mostra claramente que não devemos confiar nas pessoas nem nas circunstâncias que nos são favoráveis. Só Deus conhece o coração do homem (I Sm.16:7) e o silêncio ou até a proximidade de alguns não significa, em absoluto, que sejam nossos amigos e que estejam ao nosso lado. Devemos ter íntima comunhão com o Senhor, pois só o discernimento espiritual nos fará saber quem é por nós e quem não o é.

Simei aproveitou-se da situação adversa por que passava Davi e “foi à forra”. Começou a apedrejar Davi, um gesto insultante, porque assim eram tratados os criminosos. Não bastassem as pedras que eram atiradas, em cima de um fato verdadeiro, construiu uma série de mentiras. Disse que Davi era um homem de sangue, o que era verdade, tanto que, por este motivo, não pôde construir o templo, como afirma Flávio Josefo: “…Deus apareceu em sonhos a Natã e ordenou-lhe que dissesse a Davi que, ainda que louvasse a sua intenção, não queria que a executasse, porque suas mãos tinham sido muitas vezes manchadas de sangue dos seus inimigos…” (Antiguidades Judaicas VII, 4, 270. In: História dos hebreus. Trad. de Vicente Pedroso, v.1, p.154). O texto sagrado não é explícito mas dá a entender que foi por este motivo que o Senhor não permitiu que Davi construísse o templo (II Sm.7:8,9; I Cr.17:7,8).

As palavras de Simei mostram-nos como age o inimigo de nossas almas, que é o “diabo”, isto é, o acusador, o caluniador. A partir de uma verdade, que devia ser de todos conhecida, ou seja, de que Davi era um homem de sangue, construiu-se um edifício de mentiras. Por primeiro, Simei apedrejou Davi, transformando o rei em um criminoso da pior espécie, pois o apedrejamento era pena para os mais graves crimes na lei de Moisés.

Assim tem agido o adversário de nossas almas na atualidade. Tem transtornado todos os fundamentos morais, jurídicos, políticos e sociais no mundo para tornar os salvos em criminosos, para transformar a virtude em crime, para tornar o certo em errado. O relativismo moral vigente em nossos dias é a antessala para a completa inversão de valores, que já temos sentido, característica de uma sociedade dominada pelo pecado (Is.5:20).

Não bastasse isso, muitos, na atualidade, têm sido enganados pelo discurso que tornou Deus em criminoso. Não são poucos os que chamam o Deus da Bíblia de “carrasco”, “cruel” e outras coisas inomináveis. Este estado de coisas só tende a aumentar, pois, na Grande Tribulação, será a atitude dos seguidores da besta o blasfemar contra Deus, apesar de sofrerem na pele a demonstração do poder e da ira do Senhor (Ap.16:9).

O que é mais triste é verificar que, nos dias hodiernos, já são muitos os que cristãos se dizem ser que chamam o que a Bíblia ensina de “atraso”, de “crueldade”, de “absurdo”, indo atrás de outros evangelhos, onde a “dureza”, o “legalismo”, o “autoritarismo” são substituídos por “novas visões”, por “novidades”. Tal atitude nada mais é que repetir a mentira de Simei e apedrejar aquilo que é certo, considerar que Deus é mentiroso (I Jo.5:10).

Mas Simei não se limitou a apedrejar o rei mas, também, a partir da constatação de que Davi era homem de sangue, passou a dizer que Davi estava a pagar o preço pelo derramamento do sangue da casa de Saul. Ora, que mentira terrível a que era lançada por Simei. Como Davi poderia estar a pagar pelo derramamento do sangue da casa de Saul se nunca havia derramado o sangue de quem quer que fosse ligado a Saul? Vemos pelo texto sagrado que, bem ao contrário, Davi derramou o sangue daqueles que lhe foram comunicar que haviam matado Saul e seus filhos. Davi estava a pagar o preço pelo seu próprio pecado, estava a colher as consequências de seu erro, nada mais do que isto.

Simei chamou, também, a Davi de “homem de Belial”, ou seja, de “homem mau”, “homem perverso”. Que duro é recebermos ofensas como as que Davi estava recebendo. Davi sempre fora bondoso, leal e prudente. Havia, sim, errado e estava a pagar o preço de seu erro, mas daí a chamá-lo de “homem de Belial” era demais. No entanto, Davi nada respondia, prosseguindo seu caminho de aflição e de fuga.

Por fim, Simei lançou sobre Davi uma falsa profecia, dizendo que Deus havia tirado o reino de Davi e dado a Absalão. No momento em que esta profecia foi proferida, Davi estava em nítida situação de desvantagem e, mais do que isto, abalado física e psicologicamente. Devemos ter muito cuidado quando passamos por aflições e tribulações. Neste momento, devemos aumentar ainda mais nossa comunhão com Deus, pois o adversário não perderá oportunidade para levantar falsos profetas, para proferir “profetadas”, que podem nos gerar ainda mais fraqueza e desânimo espirituais.

Ao ouvir estas coisas, Abisai, irmão de Joabe, propôs ao rei que Simei fosse morto. Abisai, aqui, era mais um agente do inimigo de nossas almas. Diante de tanta calúnia e de tanto insulto, nada mais natural que Simei fosse morto. Mas Davi era um homem segundo o coração de Deus e sabia que, se autorizasse a morte de Simei, que não seria difícil de acontecer, pois Simei estava desarmado e Abisai era um dos valentes do rei, Davi tornaria verdade a falsa acusação: derramaria o sangue de alguém da casa de Saul.

Não podemos pagar o mal com o mal (Rm.12:21). Somente o bem vence o mal e, se praticarmos o mal, seremos vencidos, não alcançando a vitória. A prática do mal é pecado e, assim, estaremos nos escravizando em vez de nos livrando do problema.Diz Pedro que é melhor padecermos fazendo o bem do que fazendo o mal (I Pe.3:17).

Davi, apesar de toda a situação adversa, não se encontrava abalado espiritualmente naquele instante. Havia sido levado pelo impulso com Ziba, mas, agora, não permitiu que a carne falasse mais alto. Disse a Abisai que não se importasse com aquilo. Simei estava ali a mando do Senhor, era um instrumento de provação divina e, portanto, ele nada faria, deixando ao Senhor, que conhecia a sua miséria, o pagamento com bem da sua situação adversa (II Sm.16:7-12).

Davi prosseguiu seu caminho, não dando confiança às ofensas e calúnias de Simei, que continuou a atirar pedras e a levantar poeira (II Sm.16:13). Simei ia ao longe do monte e levantava poeira. Assim faz o inimigo de nossas almas: anda ao derredor, não se aproxima, se verdadeiramente estamos em comunhão com o Senhor, mas não deixa de atirar suas pedras e de “levantar poeira”. Precisamos, porém, diante desta situação, prosseguir o nosso caminho. O fato é que, na sequência do caminho, Davi e seus homens embora tivessem chegado cansados, alcançou o lugar de refrigério (II Sm.16:14).

Aprendamos esta lição. Não devemos dar confiança às calúnias do diabo ao longo de nossa jornada. Não podemos querer resolver as falsas acusações com a prática do mal, que é o que o diabo quer, pois, assim, pecaremos e perderemos a salvação. Prossigamos a nossa caminhada, confiando em Deus e deixando a Ele a solução dos nossos problemas. Apenas não deixemos de olhar para Jesus, o autor e consumador da nossa fé, correndo a carreira que nos está proposta (Hb.12:1-3). Ao final da nossa jornada, acharemos, juntamente com os irmãos, o descanso para as nossas almas, que não é aqui neste mundo (Mq.2:10).

O Senhor, assim como esperava Davi, olhou para a sua miséria e pagou com bem a maldição lançada por Simei. Davi retornou ao trono e, num gesto de que era realmente de coração que havia deixado a solução do problema para o Senhor, perdoou a Simei, que, incontinenti, prostrou-se diante do rei assim que ele passou o Jordão (II Sm.19:18-23).

Simei confessou o seu pecado diante do rei e lhe pediu perdão. Abisai, uma vez mais, quis que Davi mandasse matar o caluniador, mas Davi, fiel ao seu propósito inicial, perdoou a Simei, dizendo que ele não morreria e confirmando isto com juramento. Simei alcançou o perdão do rei e Davi cumpriu a sua promessa, não o matando. Antes, porém, de morrer, lembrou a Salomão o mal que Simei havia feito e Salomão lhe impôs a prisão domiciliar em Jerusalém. Simei acabou morto porque desobedeceu a Salomão, saindo de Jerusalém (I Rs.2:8,9; 36-46). Com Simei, temos a mesma lição que aprendemos com Davi: o pecado é perdoado mas as suas consequências nos seguem inevitavelmente.

IMAGEM:"Davi e Jonathan" de Gustave Doré (1832-1883). Disponível em
http://www.creationism.org/images/DoreBibleIllus/dore_pt.htm.

Um comentário:

  1. Obrigado pela lembrança de meu aniversário, Deus lhe abençõe, o seu blog possui sempre excelente assuntos abordados com bastante coerencia.
    www.vivendoteologia.blogspot.com

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