Davi e a Casa de Saul (Parte 1/6)

Por Caramuru A. Francisco

INTRODUÇÃO
O relacionamento de Davi com a casa de Saul mostra o seu coração misericordioso, que tem, porém, como limite, a justiça de Deus.

“E disse Davi: Há ainda alguém que ficasse da casa de Saul, para que lhe faça bem por amor de Jônatas?” (II Sm.9:1)

Iniciaremos este [...] estudo a respeito do relacionamento de Davi com a casa de Saul, episódios que mostram o coração bondoso que Davi possuía, mas que também ilustra que Deus é justo e que ninguém é bom senão Deus (Mt.19:17; Mc.10:18; Lc.18:19).

I – A BONDADE DE DAVI PARA COM MEFIBOSETE

Como uma prática costumeira e encontradiça na história de todos os povos, era comum que, uma vez entronizado um rei que não pertencesse à família do rei anterior, fossem os familiares do rei substituído mortos, visto que, certamente, seriam um natural foco de oposição ao novo governante. Era costume, pois, na mudança de uma dinastia (isto é, da família reinante), que todos os integrantes da dinastia substituída fossem mortos.

Davi assumiu o reino, após vencer uma guerra civil com Isbosete, o único filho de Saul que havia sobrevivido à batalha de Gilboa (I Sm.31). Assim, era natural que quisesse o extermínio da família de Saul, como forma de se confirmar no reino.

No entanto, Davi era um homem segundo o coração de Deus, um governante diferente, que sabia que havia sido escolhido por Deus e que devia o trono à ação divina. Sendo assim, ao contrário do que todos costumavam fazer, não quis a destruição da casa de Saul, seu antecessor. Pelo contrário, quando Isbosete ainda vivia, conseguiu que este lhe devolvesse sua ex-mulher Mical, que Saul havia dado a outro homem, restaurando-lhe a dignidade de sua mulher e, por conseguinte, como uma das rainhas do país, após subir ao trono.

Logo após a morte de Saul e de seus filhos, entre eles Jônatas, Davi mostrou que seria um governante diferente. Ungido como rei de Judá, Davi fez questão de mandar elogios aos moradores de Jabes-Gileade por terem providenciado sepultura aos corpos de Saul e de Jônatas, tornado “troféus” nas mãos dos filisteus e exibidos em suas cidades, numa clara demonstração de que não tinha qualquer sentimento vingativo contra a casa de Saul (II Sm.2:5-7).

Uma vez confirmado no reino, Davi, não contente com o fato de ter trazido Mical para o palácio, lembrou-se do pacto que havia feito com Jônatas, filho de Saul, segundo o qual cada um prometera ao outro que não permitiria que as respectivas descendências se extinguissem (I Sm.20:11-17). Uma vez no trono, mesmo tendo Jônatas morrido, Davi sabia que, como servo de Deus, tinha de cumprir o que havia jurado, de forma que indagou seus súditos a respeito de alguém ter restado da descendência de Saul, mui especialmente da descendência de Jônatas.

Nos dias de Davi, quando se estava na dispensação da lei, era imperioso ao homem honrar os juramentos que tivesse feito (Nm.30:2; Mt.5:33). Davi sabia que, embora não houvesse quem da casa de Saul pudesse cobrar seu juramento, e fosse até esperado que exterminasse a toda a descendência de Saul e isto fosse visto como absolutamente natural entre os israelitas, havia um Deus nos céus que a tudo havia presenciado, de forma que não poderia Davi fugir ao juramento feito.

Em nossos dias, dias da dispensação da graça, não devemos jurar (Mt.5:34-36), mas nosso falar deve ser sim, sim, não, não, pois o que passa disto é de procedência maligna (Mt.5:37). Nossa responsabilidade, portanto, é bem maior que as dos homens da época da lei, e, lamentavelmente, muitos são os que cristãos se dizem ser mas cuja palavra nada vale, que não sustentam o que falam, o que prometem. Que Deus nos guarde e que, com Davi, aprendamos a cumprir a nossa palavra, ainda que isto possa aparentemente trazer transtornos e incompreensões na nossa vida terrena.

Davi estava disposto a cumprir o juramento que fizera a Jônatas e, então, busca saber se ainda havia alguém da casa de Saul que ele pudesse beneficiar, por amor a Jônatas. Foi, então, chamado, um servo da casa de Saul, chamado Ziba, a fim de que informasse o rei se restara alguém da casa de Saul (II Sm.9:1-3).

Ziba, que, embora fosse servo da casa de Saul, estava praticamente livre, vez que não havia mais a quem servir, muito provavelmente imaginando que Davi iria pôr fim a todos os descendentes de Saul e disto ele tiraria proveito, indicou a Davi que ainda havia restado um filho de Jônatas, chamado Mefibosete, aleijado de ambos os pés, que estava na casa de Maquir, em Lo-Debar.

O texto sagrado diz-nos que, quando da batalha de Gilboa, assim que as novas chegaram a Jizreel, onde estava o filho de Jônatas, Mefibosete, então com cinco anos de idade, sua ama fugiu e tomou o menino e, na fuga, o menino caiu e ficou coxo (II Sm.4:4). Sua ama o levou até Lo-Debar, onde ficou morando na casa de Maquir. Lo-Debar, cujo nome significa “nada” (Am.6:13, que, na Versão Almeida Revista e Corrigida, traduz ‘Lo-Debar” por “nada”), era uma cidade em Gileade, perto do Jordão (Js.13:26), local bem distante do centro das decisões políticas do país, onde Mefibosete estava escondido, precisamente para que tivesse sua vida poupada, já que era o herdeiro presuntivo da coroa, por parte da descendência de Saul.

Ao saber da existência deste filho de Jônatas, Davi manda que ele fosse trazido até Jerusalém. Mefibosete chegou e, naturalmente, temendo por sua vida, prostrou-se diante de Davi, como a pedir clemência, dizendo-se servo de Davi. O rei, porém, disse a Mefibosete que não temesse e que, ao contrário do que se imaginava, o havia chamado para lhe fazer bem, restituindo tudo que era de Saul e, ainda, dizendo que, de contínuo, Mefibosete comeria pão na mesa do rei, tendo, pois, “status” de príncipe, de filho do rei (II Sm.9:4-7).

Mefibosete, demonstrando toda a sua humildade, perguntou, então, a Davi quem era para que tivesse tamanha honra, já que se considerava um cão morto, mas Davi chamou Ziba e lhe comunicou que Mefibosete passava a ser dono de tudo quanto era de Saul e que Ziba deveria tornar a servir a casa de Saul, agora a Mefibosete, juntamente com seus quinze filhos e vinte servos. Ziba, sem outra alternativa, prometeu cumprir a ordem do rei, tornando a ser servo quando achava que se tornaria senhor de tudo quanto havia sido de Saul, como costumava ocorrer. Mefibosete tinha então um filho, Mica, e Ziba e todos os seus passaram a servir a Mefibosete, que morava em Jerusalém e de contínuo comia à mesa do rei (II Sm.9:8-13).

Neste episódio de Davi e Mefibosete, temos algumas lições importantes do ponto-de-vista espiritual. Davi, aqui, tipifica o nosso Deus, o Soberano do Universo, que, podendo executar justiça contra o homem que Lhe desobedeceu, prefere, porém, usar de misericórdia, permitindo-lhe uma nova oportunidade para ter comunhão com Ele.

IMAGEM:"Saul Tenta Matar Davi" de Gustave Doré (1832-1883).
Disponível em http://www.creationism.org/images/DoreBibleIllus/dore_pt.htm.

2 comentários:

  1. Obrigado pela visita no meu blog e o comentário no post. Deus o abençoe!!!!!
    Gosto muito desta passagem biblica, já trabalhei muito questões da a´rea da autoestima com esse trecho.

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  2. Marilene, eu acridito que crescemos quando compartilhamos experiências, por meio escrito ou quasquer que sejam.Paz.

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