Davi e a Casa de Saul (Parte 2/6)

Por Caramuru A. Francisco

Mefibosete, que simboliza o ser humano, estava em Lo-Debar, ou seja, no lugar chamado “nada”. Quem está separado de Deus, quem se esconde de Deus, e nos escondemos do Senhor quando pecamos (Gn.3:8), está no “nada”, visto que sem Deus nada podemos fazer (Jo.15:5 “in fine”). Somos uma nulidade, um verdadeiro “cão morto”, como se expressou Mefibosete ao rei Davi, que nada merecíamos da parte do Senhor. Como diz o próprio Davi no Salmo 8:4, “que é o homem mortal para que Te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites?” ou, ainda, no Salmo 144:3, “Senhor, que é o homem para que o conheças, e o filho do homem, para que o estimes? O homem é semelhante à vaidade; os seus dias são como a sombra que passa”.

Não podemos nos iludir. Deus ama o homem porque é misericordioso, porque é amor, não porque o homem mereça qualquer demonstração de amor da parte do Senhor. Os dias em que vivemos são dias de um falso humanismo, de uma indevida exaltação do ser humano, tornado medida de todas as coisas. O homem nada é sem Deus e se não fosse o amor e a misericórdia divinas, nada nos estaria assegurado senão o justo tormento eterno pelos nossos delitos e pecados. Mas a mensagem do Evangelho é uma mensagem de boas novas precisamente porque nos faz saber que Deus é bom e que o homem, esta nulidade, tem oportunidade, pela misericórdia divina, de voltar a ter comunhão com o Senhor e ser alguma coisa, mesmo sendo menos que nada (Is.40:17).

O próprio nome de Mefibosete tem um significado que demonstra a lamentável condição do ser humano diante de Deus. “Mefibosete” significa “ele espalha, “ele extermina” ou, ainda, “vergonha”. Esta é a situação do ser humano sem Deus e sem salvação: nada ajunta, só espalha, está em constante inimizade com o Criador de todas as coisas (Mt.12:30; Lc.11:23). Sem Deus, o homem não tem vida nem constrói coisa alguma, só “extermina”, só produz morte, ou seja, tudo quanto faz é separado de Deus, visto que seus pecados o separam da bondade e da misericórdia divinas (Is.59:1,2). Por fim, é ele uma “vergonha”, ou seja, possui um sentimento de inferioridade, de indignidade, porque deixou de ocupar a posição para a qual foi criado, que era em comunhão com Deus, para dele viver separado, num destino que não é o seu, num futuro que não foi o reservado para ele. Afinal, vergonha é opróbrio e a Bíblia diz que “…o pecado é o opróbrio dos povos”(Pv.14:34b).

Davi convocou Mefibosete para que comparecesse a Jerusalém. Mefibosete não tinha condição alguma de se apresentar diante do rei. Corria risco de morte, visto que era o representante da dinastia derrotada, tinha de viver escondido para o resto de sua vida, mas o rei quis saber de seu paradeiro, quis trazê-lo à sua presença. A salvação não tem qualquer iniciativa humana, pois o homem, por si só, não tem como comparecer à presença de Deus. Entretanto, Deus chamou o homem à salvação, convoca-o a se apresentar diante do Senhor e a reconhecer o seu pecado e, através da fé em Cristo Jesus, ter a oportunidade de recuperar a sua posição espiritual perdida por causa do pecado.

Mefibosete aceitou o convite do rei e foi até a sua presença. Lá chegando, prostrou-se diante do rei e se disse seu servo. Para que o homem alcance a salvação é preciso reconhecer o senhorio de Deus, fazer-se Seu servo e adorá-lO na beleza da Sua santidade. Sem arrependimento dos pecados, sem submissão à vontade de Deus não há salvação. Somos salvos? Temos realmente nos prostrado diante do Senhor e aceito a Sua vontade?

Mefibosete apresentou-se ao rei em Jerusalém. Foi o rei quem o chamou, mas ele teve de sair de Lo-Debar, da “nulidade”, do “lugar dos oráculos”, pois Lo-Debar também era conhecida como “Debir” e era tido como um lugar onde os cananeus tinham lugares de adoração antes da conquista por Israel da região. Para o homem alcançar a salvação, é preciso que deixe o pecado, que deixe os ídolos, que abandone a vã maneira de viver que recebeu por tradição de seus pais e parta para Jerusalém, para a cidade da presença de Deus, para a “cidade fundada em paz”, ou seja, corra em direção a Jesus Cristo, o “Príncipe da Paz”, o único caminho que leva ao Pai (Jo.14:6).

Mefibosete foi para Jerusalém e lá chegou porque tomou o caminho certo. Somente alcançaremos a salvação se tomarmos o caminho certo, que é Jesus Cristo, o único que nos leva até a presença do Pai, a fim de que, ali, possamos nos arrepender dos nossos pecados e assumir o compromisso de obedecer-Lhe.

Diante do arrependimento, da adoração e da confiança demonstrada, Mefibosete encontrou o favor do rei. Davi disse que nada temesse e que haveria de recuperar a posição que antes detinha. Como herdeiro de Saul, receberia todos os bens de seu avô e, como se isto fosse pouco, também passaria a comer de contínuo na mesa do rei, como um verdadeiro príncipe, retomando, assim, mesmo sendo outra a dinastia reinante, a posição que lhe cabia por direito antes da morte de seu avô e da qual nem chegou a desfrutar, em virtude de sua tenra idade.

A salvação proporciona o mesmo para o homem. Uma vez salvo, o homem recupera a posição que havia perdido no Éden, ou seja, passa a ter comunhão com Deus, a ter uma vida de contínuo na mesa do rei, a desfrutar da intimidade, da orientação, da companhia e do amor do Senhor. Esta é a “restituição” simbolizada aqui no episódio de Mefibosete. Muitos, na atualidade, têm se aproveitado desta passagem bíblica para defender uma suposta “prosperidade material” do crente, dizendo que, uma vez alcançada a salvação, o cristão irá ter a fartura material de Mefibosete, os bens de Mefibosete e ainda sentar-se com os “grandões” da sociedade, assim como o neto de Saul. Que pobreza de interpretação, que mostra, aliás, que tais pregadores são os mais miseráveis de todos os homens, já que esperam em Cristo apenas para as coisas desta vida (I Co.15:19).

A “restituição” que se tipifica aqui é única e tão somente de ordem espiritual. Mefibosete voltou ao seu “status” de neto de Saul e de príncipe de Israel. No episódio, sem dúvida alguma, isto representava benesses de ordem material e uma posição social proeminente, mas o ensino escriturístico aqui tem a ver com a nossa posição espiritual. No pecado, estávamos num lago horrível, num charco de lodo (Sl.40:2) e o Senhor dali nos tirou, quando nos arrependemos dos nossos pecados, pondo nossos pés numa rocha, firmando nossos passos e nos pondo na boca um cântico novo (Sl.40:3). De perdidos, mortos, agora fomos vivificados em Cristo (Ef.2:1-5), temos comunhão com Deus, passamos da morte para a vida (Jo.5:24).

Saímos da cidade da miséria do pecado, de “Lo-Debar”, para irmos para Jerusalém, a cidade santa, a cidade da presença de Deus, onde, de contínuo, gozamos da comunhão com o Senhor, comunhão esta que é demonstrada visivelmente na celebração da ceia do Senhor, a “mesa do Senhor” (I Co.10:21). Pouco importa se temos, ou não, bens materiais, até porque o texto sagrado, como veremos, dá a entender que Mefibosete, no mínimo, só ficou com metade de seu patrimônio após o término da rebelião de Absalão.

IMAGEM:"Saul Tenta Matar Davi" de Gustave Doré (1832-1883).
Disponível em http://www.creationism.org/images/DoreBibleIllus/dore_pt.htm.

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