Davi e a Casa de Saul (Parte 3/6)

Por Caramuru A. Francisco
II – DAVI E MICAL

Na sequência do estudo do relacionamento com Davi com a casa de Saul, veremos, ainda que sucintamente, o relacionamento de Davi com a filha de Saul, Mical, sua primeira mulher.

Como já vimos, Davi recebeu Mical como sua mulher, pelo dote de cem prepúcios de filisteus (na verdade, ele entregou duzentos). Saul, sabendo que Mical amava Davi, procurou, com astúcia, fazer com que o jovem, em luta contra os filisteus para conseguir este dote, morresse neste embate, o que, porém, não teve o resultado pretendido por Saul (I Sm.18:20-28).

O texto sagrado faz questão de dizer que Mical amava Davi, mas nada fala sobre o sentimento de Davi para com Mical. Não podemos especular a respeito disto, mas Davi não se esforçaria tanto se não viesse, pelo menos, com simpatia Mical, se não gostasse dela, até porque demonstrou, desde o episódio do gigante, que tinha interesse em se casar.

Quando Davi fugiu para não ser morto por Saul, avisado por Mical, que demonstrou seu amor para com Davi avisando-o da armadilha de Saul, ainda que corresse risco de morte com isto, Saul deu Mical como mulher a outro homem, Palti, filho de Laís (I Sm.25:44).

Durante a guerra civil com Isbosete, Davi pediu ao seu oponente que lhe fosse devolvida Mical, sendo, surpreendentemente, atendido pelo filho de Saul, que, com este gesto, mostrava não querer entrar em atrito com Davi (II Sm.3:13-15). O texto sagrado diz-nos que Paltis saiu atrás de Mical, chorando atrás dela, prova de que muito a amava, mas nada fala sobre o comportamento de Mical, que, de qualquer maneira, voltava ao convívio do que homem que amava e que estava em posição de proeminência.

Todavia, Davi não soube cultivar este amor de Mical por ele. Na verdade, Davi, embora tenha pedido de volta a Mical, não devotou nenhum cuidado nem proeminência a Mical, que, inclusive, não tinha filhos de Davi, a indicar que Davi nem ao menos tinha intimidade sexual com a filha de Saul. Entendeu Davi que, ao restituir Mical a sua condição de mulher de Davi, tinha cumprido o seu papel.

Mical, como toda mulher, sentiu-se desprezada e o seu amor se tornou em rancor, em amargura. Tal situação atingiu seu clímax quando Mical, ao ver Davi cantando e dançando com o povo na cerimônia de trazida da arca do testemunho para Jerusalém, ter desprezado Davi em seu coração e, por causa de tal desprezo, acabar repreendendo publicamente o rei, o que era uma falta extremamente grave, seja para uma mulher, seja para um súdito (II Sm.6:16,20-22; I Cr.15:29).

Como resultado desta repreensão pública, Davi a repreendeu, lembrando que era o escolhido de Deus em lugar de Saul, pai de Mical, para reinar sobre Israel, algo, aliás, que Mical sabia muito bem, pois havia vivenciado o início da perseguição que Saul empreendera contra Davi. Entretanto, em vez de reconhecer a unção de Davi e a sua dignidade, Mical o desprezara, o menosprezara e, num instante, em que demosntrava toda sua alegria perante o Senhor. Mical mostrava, assim, que preferia que Davi fosse seu marido do que rei sobre Israel, que achava que Davi devia antes se submeter a ela do que ao Senhor, o que era inadmissível. Davi disse que seu desprezo não retiraria a honra que tinha, da parte de Deus, diante do povo e, ante esta atitude tresloucada de Mical, ficou ela estéril e não teve filhos até o dia da sua morte (II Sm.6:23).

Neste episódio, temos importantes lições espirituais e familiares. Por primeiro, vemos que o marido não deve negligenciar o amor de sua mulher. Mical tinha um amor muito grande por Davi, a ponto de ter arriscado sua vida para proteger a de seu marido, mas este amor, não tendo sido cultivado, tornou-se em desprezo de coração. O amor conjugal não é divino, por isso não é eterno, depende de ser cultivado dia após dia pelos cônjuges. Como costuma dizer um pastor conhecido nosso, o amor conjugal é como uma planta que temos em casa, que precisa ser regada todos os dias para se manter viva e atraente.

Por segundo, aprendemos que um relacionamento conjugal não se sustenta por força da manutenção das aparências ou por interesses humanos. O retorno de Davi e de Mical não foram obra de uma dedicação ou de uma demonstração de amor, como havia sido o casamento de ambos, mas fruto exclusivo do interesse. Davi quis Mical de volta para se “redimir” diante do povo de Israel, para mostrar que até a mulher que Saul lhe havia tirado ele estava a recuperar, era um “troféu” a apresentar em seu embate político-militar com Isbosete. Mical tornou-se, assim, uma cláusula do acordo de paz que se esboçava em Israel, um “negócio de Estado”, nada mais que isto.

Por outro lado, para Mical, o retorno ao convívio de Davi era também um excelente negócio. Deixaria de ser marido de um homem que, bem ou mal, era vinculado ao rei morto e retornaria ao palácio real. Apesar da mudança dinástica na monarquia de Israel, Mical recuperaria a sua posição social, voltando não só a ser princesa, mas, sim, rainha de Israel e, pensava ela, a principal mulher de Davi, pois era filha de Saul e representaria a unificação de ambas as famílias reais. Certamente, de suas entranhas sairia o terceiro rei de Israel…

Os interesses não podem sustentar um casamento, mesmo quando os interesses parecem ser vantajosos para ambos os cônjuges. Somente o amor desinteressado, que é o amor “agape” (I Co.13:5), dado por Deus, tem condições de fazer superar as divergências e manter unido um casal apesar das adversidades (Ct.8:7).

Por terceiro, aprendemos que, mesmo na vida conjugal, a adoração ao Senhor, a vida espiritual tem proeminência. Não pode o cônjuge querer impedir o seu companheiro de ter uma vida de comunhão com Deus. Deus está acima até do nosso cônjuge. Se o cônjuge é a pessoa que mais amamos nesta vida debaixo do sol, se é alguém com quem nos tornamos um, isto cessa com a morte física de um dos dois ou com o arrebatamento da Igreja (Gn.2:24; Mt.22:30; Mc.12:25; Rm.7:2,3). O casamento não é eterno, está preso a esta dimensão, enquanto que a vida com Deus é eterna, não tem fim (Jo.3:16; I Ts.4:17).

Isto não significa, entretanto, que a vida ministerial esteja acima da vida familiar, como muitos ministros e oficiais das igrejas locais têm equivocadamente achado. Nossa vida espiritual está acima da vida familiar, mas nossa vida familiar está acima de nossa vida eclesiástica ou ministerial. Davi errou muito ao negligenciar Mical e, por isso, foi desprezado no coração por Mical. O erro de Mical foi desonrar o rei publicamente, mas a Bíblia não a censura por ter desprezado Davi em seu coração. Ademais, a vida familiar desastrosa de Davi comprometeu, inclusive, o seu ministério, a sua imagem como homem de Deus, de modo que não há como deixarmos de reconhecer que a família ocupa o segundo lugar, em nossas vidas, depois da vida com Deus.

Por quarto, aprendemos com Mical que não podemos, de forma alguma, deixar esfriar o amor que temos pelo Senhor. Falando agora alegoricamente, vemos em Mical a figura do salvo que deixa que seu amor a Deus se esfrie, por causa da iniquidade, enquanto que Davi, o “amado”, representa aqui o próprio Deus.

Mical amou Davi, quando este era apenas um jovem na corte real, um jovem que já não era bem visto pelo rei Saul. O amor de Mical era genuíno, autêntico, desinteressado, sincero. Quantos crentes não amam assim a Jesus e, por Ele, inclusive, chegam mesmo a arriscar suas vidas!

No entanto, as circunstâncias da vida fazem com que estes deixem que seu amor pelo Senhor arrefeça. Contrariedades na vida, falta de diálogo e de convivência com o “amado” fizeram com que Mical se tornasse insensível, não mais demonstrasse amor por Davi.

Quando indagada por seu pai porque deixara Davi fugir, Mical mentiu, dizendo que havia sido ameaçada por Davi. Teve vergonha de declarar o seu amor por Davi diante de Saul. Ora, Saul bem sabia que Mical amava a Davi, era fato público e notório. A atitude de Mical, ainda que buscando sua sobrevivência, revela que preferiu ganhar a sua vida do que manter o amor por Davi. Muitos crentes assim procedem: preferem ganhar a sua vida do que perdê-la por amor ao Senhor e, como disse Jesus, quem ganha a sua vida, perdê-la-á (Mt.10:39; 16:25; Mc.8:35; Lc.9:24).

Quando a pessoa começa a dar mais valor ao seu bem-estar que à fidelidade a Jesus, busca satisfazer seus prazeres, sonhos e desejos, em vez de seguir a Cristo, começa a caminhada rumo ao arrefecimento do amor a Deus, caminho perigoso e que quase todos estão a trilhar nestes dias finais da dispensação da graça (Mt.24:12; Ap.2:4). É o “abandono do primeiro amor” que Jesus denunciou à igreja de Éfeso e que tem verificado na vida de muitos. Tomemos cuidado!

Mical, buscando resguardar sua própria vida, mentiu, o que, sejamos justos e imparciais, fez também Davi, quase que na mesma época, diante do sumo sacerdote Aimeleque. Entretanto, Davi se arrependeu, como vemos nos salmos compostos quando esteve em Gate, enquanto que Mical perseverou em sua mentira, aceitando casar-se com Paltis, segundo a ordem de Saul.

Dirá alguém que Mical não tinha como recusar-se a aceitar este casamento, que corria risco de morte. No entanto, não arriscou porventura Mical sua vida quando arquitetou a fuga de Davi? Ao aceitar o casamento com Paltis (ou Paltiel), mostrou que seu amor por Davi se havia esfriado e podemos afirmar isto diante da reação de Paltis quando lhe tomaram Mical, a demonstrar que Mical lhe havia sido uma boa mulher, de que ela realmente assumiu seu papel de mulher de outro homem, desistindo de Davi.

Este arrefecimento do amor chegou ao desprezo de coração. Ao ver Davi bailando e saltando na entrada de Jerusalém, quando acompanhava a arca, da janela de sua casa, Mical desprezou Davi em seu coração. Este é o caminho daquele que se envergonha do Senhor, que não mais O ama: chega o instante em que despreza a presença de Deus, em que as coisas de Deus lhe trazem mal-estar, em que a alegria do Senhor lhe causa náuseas, lhe causa ódio e rancor.

Mical desprezou Davi no seu coração, não lhe agradou a adoração que se fazia ao Senhor, não teve nenhum temor de fazê-lo quando a arca do testemunho entrava na cidade. Mical, inclusive, estava em sua casa, não saía do palácio, porque estava presa à posição social, às coisas desta vida, não queria se misturar com a plebe, não queria sequer prestigiar e homenagear a arca, símbolo da presença de Deus no meio de Israel.

Assim se portam os crentes frios, que não mais amam a Deus. Para eles, as coisas terrenas têm mais valor que os cultos ao Senhor. Para eles, a liturgia é “maçante”, “chata”, “rotineira”. Eles querem viver das ilusões do mundo, das aparências, do luxo, do consumismo desenfreado. Desprezam as coisas do Senhor, as bênçãos espirituais, estão voltados única e exclusivamente para o mundo e o que ele oferece. Tomemos cuidado!

Por quarto, vemos que Mical, já tendo desprezado Davi em seu coração, insulta-o publicamente, desonra-o. Este é o estágio final daquele que abandona o Senhor. O limite da desobediência é o insulto ao Senhor, a apostasia, o desrespeito, a blasfêmia contra a divindade. Se a blasfêmia for contra o Espírito Santo, aí estaremos diante do “pecado para a morte”, que não tem perdão. Mical, ao insultar o ungido de Deus, foi duramente repreendida e ficou estéril, levou sobre si uma maldição.

Que despropósito. Enquanto toda a casa de Davi foi abençoada pelo rei após o término da festividade da vinda da arca para Jerusalém (I Cr.16:43), Mical, aquela que deveria ser a mais proeminente, aquela que era das poucas mulheres de Davi que tinha sido princesa antes de ser rainha, e a única princesa de Israel, recebia, pela perda do amor, da parte do Senhor a pior das maldições que uma mulher poderia ter — a esterilidade. Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo!

Davi havia sido bondoso para com Mical e a havia restituído à vida palaciana, mas Deus não Se agradou de seu comportamento, de modo que a tornou estéril, impedindo-a de dar uma descendência que fosse, simultaneamente, da casa de Davi e da casa de Saul. Na linhagem messiânica, não se teria, de forma alguma, semente daquele que ousou apostatar da fé.

IMAGEM:"Davi mostra a Saul que havia poupado sua vida" Gustave Doré (1832-1883).
Disponível em http://www.creationism.org/images/DoreBibleIllus/dore_pt.htm.

4 comentários:

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    Graça e Paz!

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    Fique na paz!

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  3. bom, mical ficou esteril por ter repreendido Davi. e Bateseba a adultera se tornou a preferida de Davi e seu filho o terceiro rei de Israel. não consigo entender porque para Mical Deus foi severo a ponto de humilha-la para sempre, não deixando-a ter filhos, enquanto Bateseba a adultera e motivo de um assassinato covarde, ficou com tudo.

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  4. MICAL JÁ ERA ESTERIL . DE QUANDO SE CASOU COM DAVI ATE A DATA QUE DAVI MANDOU BUSCÁ-LA , PASSARAM -SE EM TORNO DE 12 ANOS, TEMPO EM QUE ELA TEVE UM MARIDO, PELTIS, E NÃO ENGRAVIDOU ? QDO ELA FALOU AQUILO PARA DAVI, PARA DEUS ELA PASSOU TODOS OS LIMITES, APENAS CONCRETIZOU O QUE ELA JA VINHA PLANTANDO. TBME ME PERGUNTO PQ. ESSE TRAATAMENTO DIFERENCIADO ENTRE ELA E BATE SEBA. MICAL ERA IDOLATRA ALEM DE SER RAIZ DE SAUL, E TUDO INDICA QUE DEUS NÃO QUERIA DEIXAR SEMENTE DE SAUL QUE PUDESSE CHEGAR AO TRONO.

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