Sobre a oração de um pecador que não quer deixar o pecado (Parte 5/5)

João Maria Batista Vianney
(Trad. do francês Caramuru Afonso Francisco)


Sobre a esperança de um pecador, não nos é necessário falar, pois, a esperança de um animal e a sua são a mesma coisa: examinai a conduta de um e a do outro, não há diferença. Um animal faz consistir toda sua felicidade no beber e no comer, nos prazeres da carne, e vós não encontrais outra coisa em um pecador que vive no pecado. Mas — dir-me-eis — ele vai à missa, ele faz ainda algumas orações. E por quê? Não é nem pelo desejo de agradar a Deus e de salvar a sua alma que ele pratica tais ações, mas pelo hábito e pela rotina que ele adquiriu desde sua juventude. Se não houvesse domingos todos os anos ou décadas, ele não viria todos os anos nem ainda meses. Ele o faz porque os outros o fazem. Vede bem a maneira como ele se comporta em tudo aquilo e vereis que não se trata de outra coisa, ou, para melhor vos fazer conhecer o que é a esperança de um cristão pecador, digo-vos que não tem uma esperança diferente da de um animal de carga, pois estamos perfeitamente convencidos que um animal só espera o que pode desfrutar sobre a terra. Um pecador endurecido que não pensa em deixar o prazer, que não quer sair do pecado, não tem outra coisa a esperar, já que, pelo que ele diz e pensa, ao menos é necessário estar persuadido de que tudo termina com a morte. É em vão, meu Deus, que morreste por estes pecados! Ah, meu amigo, crendo que se tem espírito, tu te degradas tanto, já que tu te pões ao nível das bestas e dos animais mais vis.

3º Dissemos também que a oração de um cristão deve ser animada do amor, isto é, do amor de Deus que nos leva a amar a Deus de todo o coração e a odiar e detestar soberanamente o pecado como o maior de todos os males, com um desejo sincero de não mais cometê-lo e de combatê-lo e esmagá-lo onde quer que nós o encontremos. Vereis ainda que isto não se encontra nas orações de um pecador que não se entristece de ter ofendido o bom Deus, já que ele O tem pregado sobre a cruz de seu coração e isto durante todo o tempo em que o pecado ali reina. Quereis ainda escutar um instante este mentiroso, vede e ouvi-o na sequência de seu ato de contrição. Se vós já vistes alguma vez uma representação de uma peça de comédia ou de teatro, sabereis que tudo o que eles fazem é mentira e engano. Pois bem, prestai atenção os vossos ouvidos, por um momento, à oração deste pecador e vereis que não faz ele outra coisa senão mentira e falsidade. Seria impossível de ouvi-lo dizer o que diz durante seu ato de contrição sem que sintais compaixão: “Meu Deus — começa ele — que vês meus pecados, vê também a dor de meu coração”. Ó meu Deus, pode-se pronunciar uma tal abominação? Sim, sem dúvida, pobre cego, Ele vê bem teus pecados, vê-os demasiados, infelizmente. Mas, a tua dor, onde ela está? Dizes então rapidamente: “Meu Deus, que vês meus pecados, vê também a dor dos santos solitários nas selvas, onde eles passam a noite chorando seus pecados”. Mas, para ti, vejo bem que tu não os choras. Bem longe de ter a dor de teus pecados, tu queres tê-los, já que neles permaneces, sem querer deixá-los. “Meu Deus — continua este mentiroso — estou extremamente arrependido de Te ofender”. Mas é possível pronunciar tais impiedades e blasfêmias? Se tu estivesses desta maneira, extremamente arrependido, poderias permanecer um mês, dois, três, talvez dez ou vinte anos com o pecado em teu coração? Ainda uma vez, se estivesses aborrecido em ter ofendido a Deus, seria necessário que o ministro do Senhor se ocupasse continuamente a descrever o castigo que Deus reserva ao pecado, para te trazer horror? Seria necessário te arrastar, por assim dizer, até os pés do teu Salvador para te fazer deixar o pecado? “Perdoa-me, meu Deus — diz ele — porque Tu és infinitamente bom e amável, e o pecado Te desagrada”. Cala-te, meu amigo, que tu não sabes o que dizes. Certamente, Ele é bom. Se só a Sua justiça te tivesse escutado, há um bom tempo tu já estarias a arder no inferno! “Meu Deus — diz ele — perdoa meus pecados pelos méritos da morte e paixão de Jesus Cristo, Teu querido Filho”. Ai de ti, meu amigo, pois todo o sofrimento que Jesus teve por Te amar não será capaz de tocar teu coração, demasiadamente endurecido. “Dá-me — diz ele — a graça de cumprir a resolução que tomo agora de fazer penitência e de nunca mais Te ofender”. Mas, meu amigo, podes bem raciocinar desta maneira? Onde está, então, esta resolução que tomaste de não mais ofender o bom Deus, já que tu amas o pecado e, bem longe de querer dele sair, procuras o lugar e as pessoas que podem to trazer? Digo logo, meu amigo, que tu estarias bem aborrecido se o bom Deus te concedesse a graça de não mais pecar, já que tu te agradas tanto de rolar na imundície e no vício. Creio, meu amigo, que seria muito melhor nada dizer do que falar desta maneira.
Mas andemos um pouco mais adiante. Lemos no Evangelho que os soldados que levaram Jesus Cristo para o pretório, estando todos reunidos ao Seu redor, tiraram Suas vestes, lançaram sobre Seus ombros um manto de escarlata, coroaram-nO de espinhos, espancaram sua cabeça com uma cana, deram-lhe bofetadas, cuspiram em Seu rosto e, depois de tudo isso, ajoelharam diante d’Ele e O adoraram. Pode-se encontrar um ultraje mais terrível? Pois bem, pasmem, é só ver a conduta de um cristão que está no pecado e que não pensa em dele sair, nem o quer. Digo mais, que ele sozinho faz tudo os que os judeus fizeram todos juntos, já que são Paulo nos diz que a cada pecado que cometemos, nós fazemos morrer o Salvador do mundo (Hb.6:6), isto é, que nós fazemos tudo o que era necessário para O fazer morrer, se Ele fosse ainda capaz de morrer uma segunda vez. Enquanto o pecado reinar em nosso coração, nós temos, como os judeus, Jesus Cristo pregado sobre a cruz. Com eles, nós O insultamos quando nos ajoelhamos diante d’Ele, parecendo que oramos a Ele.
Mas – dir-me-eis — “não era esta a minha intenção, já que faço a minha oração. Deus me guarde de fazer este horror!”. Boa desculpa, meu amigo! Aquele que comete o pecado não tem intenção de perder a graça, entretanto ele só tem a perdê-la. É ele menos culpado? Não, sem dúvida, porque ele sabe bem que não se pode fazer tal ação ou dizer tal coisa sem se tornar culpado de um pecado mortal. Se averiguardes a intenção de todos os perdidos que hoje ardem no inferno, não era ela certamente a de se perder, mas eles são menos culpados por causa disso? Não, sem dúvida, porque eles sabiam que eles se perderiam vivendo como eles viveram. Um pecador que ora com o pecado no seu coração não tem a intenção de zombar de Jesus Cristo, nem de insultá-lO? Não é menos verdadeiro que ele zomba d’Ele porque ele sabe que se zomba de Deus quando se Lhe diz: Meu Deus, eu Te amo, enquanto se ama o pecado, ou, eu me confessarei brevemente. Escutai esta última mentira! Ele não pensa nem em se confessar nem em se converter. Mas — dize-me — qual é a tua intenção quando vens à igreja ou fazes o que chamas de tua oração? É — talvez me dirás, se ousas todavia dizê-lo — de fazer um ato de religião, de render a Deus a honra e a glória que a Ele pertencem. Ó horror! Ó cegueira! Ó impiedade! Querer honrar a Deus por meio de mentiras, isto é, querer honrá-lO pelo ultraje! Ó abominação que é ter Jesus Cristo na boca e tê-lO crucificado no coração, juntar Aquele que é mais santo com o que há de mais detestável a serviço do demônio! Ó que horror é oferecer a Deus uma alma que foi mil vezes prostituída pelo demônio! Ó meu Deus, como o pecador é cego e tanto mais cego que não se conhece nem mesmo procura se conhecer!
Não tinha eu bem razão, no começo, quando vos disse que a oração de um pecador outra coisa não é senão um entrelaçamento de mentiras e de contradição? Isto é tão verdade que o Espírito Santo nos diz, Ele mesmo, que a oração de um pecador que não quer sair do pecado é uma abominação aos olhos do Senhor (Pv. 28:9). Este estado — direis comigo — é bem terrível e digno de compaixão. Pois bem, vede como o pecado vos cega! Entretanto eu o disse sem receio de exagerar, ao menos metade dos que estão aqui, que me escutam dentro desta igreja, são deste número. Não é que isto não vos toca, ou logo isto passou a vos chatear pelo tempo que já dura? Vê, meu amigo, o infeliz abismo a que o pecado conduz o pecador. Em primeiro lugar, sabe que há seis meses, um ano ou mais, estás no pecado, e não é que estás tranquilo? É sim — dir-me-ás. Não é difícil de crê-lo, porque o pecado tirou teus olhos, tu não vês coisa alguma e ele endureceu teu coração a fim de que nada sintas e estou certo de que tudo o que te disse não te fará fazer nenhuma reflexão. Ó meu Deus, a que abismo conduz o pecado!
Mas — dir-me-eis — não é mais necessário orar, já que nossas orações não são senão insultos que fazemos a Deus? Não é isto que quis vos dizer ao dizer que vossas orações só são mentiras. Mas, em vez de dizerdes: “Meu Deus, eu Te amo”, dizei: “Meu Deus, eu não Te amo, mas faze-me a graça de Te amar”. Em vez de Lhe dizerdes: “Meu Deus, estou extremamente arrependido de Te ofender”, dizei: “Meu Deus, não sinto arrependimento algum dos meus pecados, dá-me toda a dor que eu devo ter pelo meu pecar”. Bem longe de dizer: “Eu quero me confessar de meus pecados”, dizei: “Meu Deus, sinto-me preso a meus pecados, parece-me que não quero jamais deixá-los, dá-me este horror que devo sentir, a fim de que eu os aborreça, os deteste e os confesse, a fim de que jamais eu venha a ser novamente preso por eles. Ó meu Deus, dá-nos, se Te agradas, este horror eterno do pecado, já que ele é nosso inimigo e é ele que nos faz morrer, que nos tira a Tua amizade, que nos separa de Ti! Ah, faz, Divino Salvador, que todas as vezes que viermos orar, façamo-lo com um coração desligado do pecado, com um coração que Te ama e que — diante do que se lhe dirá — só diga a verdade!”. É a graça, meus irmãos, que vos desejo.
Fonte
Acesso em 30 jun. 2009.

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