A importância de disciplinar os filhos 3/3

Por Julio Severo

O que Deus fala aos pais através de Provérbios
Nas muitas orientações que escreveu sobre correção de filhos, Salomão não foi influenciado por costumes de sua família nem pela cultura ao seu redor. Ele estava sem condições de escrever com base na própria experiência, pois ele e seus irmãos não sabiam o que era receber disciplina do pai. Foi a inspiração direta de Deus que o levou a sustentar a posição não de seu pai nem de sua cultura nem de seu próprio coração, mas de Deus na questão da disciplina física. A sabedoria de Deus o capacitou a entender e ver o que mesmo seu pai e Samuel não viam. Deus, através da sabedoria de Salomão em Provérbios, ensina:

"Aquele que poupa a vara odeia seu filho, mas aquele que o ama tem o cuidado de discipliná-lo". (Provérbios 13:24 NIV)

"Quem se recusa a surrar seu filho o odeia, mas quem ama seu filho o disciplina desde cedo". (Provérbios 13:24 GW)

"Aquele que poupa sua vara [de disciplina] odeia seu filho, mas aquele que o ama o disciplina com diligência e o castiga desde cedo". (Provérbios 13:24 Bíblia Ampliada)

"Os açoites que ferem, purificam o mal; E as feridas alcançam o mais íntimo do corpo." (Provérbios 20:30 TB)

"Os castigos curam a maldade da gente e melhoram o nosso caráter." (Provérbios 20:30 NTLH)

"Os golpes e os ferimentos eliminam o mal; os açoites limpam as profundezas do ser". (Provérbios 20:30 NVI)

"É natural que as crianças façam tolices, mas a correção as ensinará a se comportarem." (Provérbios 22:15 NTLH)

"A estultícia está ligada ao coração do menino, mas a vara da correção a afugentará dele." (Provérbios 22:15 RC)

"A insensatez está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina a livrará dela". (Provérbios 22:15 NVI)

"Todas as crianças são sem juízo, mas correção firme as fará mudar". (Provérbios 22:15 CEV)

"A crianças por natureza fazem coisas tolas e indiscretas, mas uma boa surra as ensinará como se comportar". (Provérbios 22:15 GNB)

"Não retires a disciplina da criança, porque, fustigando-a com a vara, nem por isso morrerá. Tu a fustigarás com a vara e livrarás a sua alma do inferno." (Provérbios 23:13-14 RC)

"Não evite disciplinar a criança; se você a bater nela e castigá-la com a vara [fina], ela não morrerá. Você a surrará com a vara e livrará a alma dela do Sheol (Hades, o lugar dos mortos)". (Provérbios 23:13-14 Bíblia Ampliada)

"Não retires da criança a disciplina, pois, se a fustigares com a vara, não morrerá. Tu a fustigarás com a vara e livrarás a sua alma do inferno". (Provérbios 23:13-14 RA)

"Não deixe de corrigir a criança. Umas palmadas não a matarão. Para dizer a verdade, poderão até livrá-la da morte". (Provérbios 23:13-14 NTLH)

"Não evite disciplinar a criança; se você a castigar com a vara, ela não morrerá. Castigue-a, você mesmo, com a vara, e assim a livrará da sepultura". (Provérbios 23:13-14 NVI)

"É bom corrigir e disciplinar a criança. Quando todas as suas vontades são feitas, ela acaba fazendo a sua mãe passar vergonha". (Provérbios 29:15 NTLH)

"A vara e a disciplina dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma vem a envergonhar a sua mãe". (Provérbios 29:15 RA)

"A vara e a repreensão dão sabedoria, mas o rapaz entregue a si mesmo envergonha a sua mãe". (Provérbios 29:15 RC)

"Uma surra e um aviso produzem sabedoria, mas uma criança sem disciplina envergonha sua mãe". (Provérbios 29:15 GW)

Contudo, embora favoreça surras com vara, a Palavra de Deus não apóia o excesso e a violência:

"Corrija os seus filhos enquanto eles têm idade para aprender; mas não os mate de pancadas". (Provérbios 19:18 NTLH)

"Castiga teu filho enquanto há esperança, mas para o matar não alçarás a tua alma". (Provérbios 19:18 RC)

"Castiga a teu filho, enquanto há esperança, mas não te excedas a ponto de matá-lo". (Provérbios 19:18 RA)

"Corrija seus filhos antes que seja tarde demais; se você não castigá-los, você os está destruindo". (Provérbios 19:18 CEV)

"Discipline seus filhos enquanto você ainda tem a chance; ceder aos desejos deles os destrói". (Provérbios 19:18 MSG)

Portanto, a Palavra de Deus não aceita nenhum tipo de excesso — nem falta de disciplina, nem surras violentas que colocam a vida da criança em risco.

A falta de disciplina pode representar derrota em muitas áreas para pais cristãos negligentes, que abrem a boca para repreender e mais nada. Embora os meios de comunicação freqüente e insistentemente destaquem os abusos de pais que utilizam a violência no lugar da disciplina, não há espaço igual para alertar o público sobre os perigos da falta de disciplina. Aliás, a elite liberal e esquerdista — dona dos meios de comunicação — escolheu o radicalismo no lugar do bom senso, preferindo apoiar esforços para proibir toda forma de castigo físico em crianças, tornando a falta de disciplina a norma em toda a sociedade.

O ponto preocupante é que se a falta de disciplina em lares cristãos fortes pode provocar grandes prejuízos, o que poderia ocorrer então a uma sociedade inteira que se deixou seduzir pela propaganda enganadora de que toda disciplina física equivale à violência? A Palavra de Deus pode não ter sido escrita por especialistas em psicologia, mas uma Mente Sábia está por traz de sua orientações. Trocar essas orientações por conselhos e leis da moda podem trazer alívio e acomodação no presente, mas também o espectro de um futuro incerto e sombrio, pois não há indivíduo ou sociedade que tenha experimentado sucesso rejeitando as orientações da Palavra de Deus.

Certos entendidos da Bíblia gostam de afirmar que algumas passagens da Bíblia não são mais válidas, porque na opinião deles sua aplicação só tem relevância para a cultura e sociedade do passado. Por exemplo, se Eli e Davi utilizassem a vara para disciplinar seus filhos, esses entendidos concluiriam, conforme seus próprios desejos, que o uso da vara como instrumento de correção no lar tinha uma aplicação cultural para aquela época que hoje não mais tem. Mas a realidade é bem outra, de modo que seria muito interessante ver esses estudiosos se contorcendo para interpretar, contra seus próprios gostos, que a falta de disciplina é uma prática cultural do antigo Israel sem valor para os dias de hoje! Mas esses estudiosos não agem assim. Só quando lhes é conveniente é que eles reinterpretam a Bíblia utilizando o argumento cultural.

A disciplina e os castigos fazem parte da família espiritual e humana
Assim como Deus disciplina seus próprios filhos espirituais, ele também quer que os pais aqui na terra disciplinem seus próprios filhos.

Embora as medidas de Deus contra a teimosia, rebelião e desobediência de seu povo sejam extremamente enérgicas e duras, ele limitou as ações enérgicas dos pais à utilização da vara em casos de necessidade.

No Novo Testamento, o Senhor Jesus se utiliza de repreensões e castigos para lidar com a desobediência de algumas igrejas. Uma das igrejas recebeu a seguinte censura do Senhor:

"No entanto, contra você tenho isto: você tolera Jezabel, aquela mulher que se diz profetisa. Com os seus ensinos, ela induz os meus servos à imoralidade sexual e a comerem alimentos sacrificados aos ídolos. Dei-lhe tempo para que se arrependesse da sua imoralidade sexual, mas ela não quer se arrepender. Por isso, vou fazê-la adoecer e trarei grande sofrimento aos que cometem adultério com ela, a não ser que se arrependam das obras que ela pratica. Matarei os filhos dessa mulher. Então, todas as igrejas saberão que eu sou aquele que sonda mentes e corações, e retribuirei a cada um de vocês de acordo com as suas obras". (Apocalipse 2:20-23 NVI)

Deus cuida de sua família espiritual, educando-a, treinando-a e castigando-a, e ele nos deixou o Livro de Provérbios a fim de que também eduquemos, treinemos e castiguemos nossos filhos. A educação de crianças de Provérbios pode ser resumida num só versículo:

"Eduque a criança no caminho em que deve andar, e até o fim da vida não se desviará dele". (Provérbios 22:6 NTLH)

Com os conselhos sábios de Provérbios, os pais podem treinar seus filhos a andar no caminho do comportamento bom e certo, e até o fim da vida eles praticarão o que aprenderam e evitarão os maus comportamentos.

Ninguém é mais sábio do que Deus em matéria de criação de filhos. Nenhum livro da Bíblia fala tanto de sabedoria quanto Provérbios. E ninguém na terra foi mais sábio do que Salomão, pois sua sabedoria vinha de Deus. Assim, a sabedoria de Deus juntamente com a sabedoria de seu servo Salomão produziram os conselhos mais sábios que os pais precisam para desempenhar a responsabilidade de treinar seus filhos no bom caminho.

Os "sábios" deste mundo — que são verdadeiros tolos diante de Deus — só aceitam o que seus amigos "sábios" ensinam. Mas os verdadeiros sábios aceitam o que a Mente mais sábia do universo ensina em Provérbios.

"O tolo pensa que sempre está certo, mas os sábios aceitam conselhos." (Provérbios 12:15 NTLH)

"Quem anda com os sábios será sábio, mas quem anda com os tolos acabará mal." (Provérbios 13:20 NTLH)

Educação sem castigo físico: na moda desde os tempos de Eli
A propaganda da moda, que segue o método de Eli de conversar e repreender sem usar uma vara, prega que a disciplina física leva a violência aos lares e à vida dos filhos. Hofni, Finéias, Amnom, Absalão e Adonias — onde quer que eles estejam hoje — jamais concordariam com esse tipo de opinião! Eles se tornaram maus e violentos e agora estão pagando um elevado preço, sofrendo castigo eterno. Quem acha que o método de criação e educação de filhos sem castigo físico é invenção moderna superando práticas passadas, não conhece a vida de Eli e Davi. Esse método não foi inventado pelos especialistas de psicologia de hoje. Foi inspirado no coração humano e está em vigor há milhares de anos.

Assim como no caso de Salomão, que não escreveu sobre disciplina baseado nas experiências de infância que teve na casa de seu pai, o autor deste artigo e sua esposa vêm de lares onde os pais não acreditavam na eficácia dos castigos físicos. Acreditavam apenas no método de Eli, jamais tolerando que uma criança levasse uma palmadinha para corrigir atos de teimosia e rebelião. Aliás, num de nossos lares, além de abundantes revistas "especializadas" em criação de filhos com abundantes conselhos psicológicos à la Eli, havia também um manual do Dr. Benjamin Spock, responsável pela moderna rejeição em massa ao uso da disciplina física. Os livros do Dr. Spock são vendidos há mais de meio século — criando pelo menos três gerações inteiras de pais que amam e seguem suas teorias como se fossem tão ou mais sagradas do que todas as orientações do Livro de Provérbios.

Hoje, apesar de toda essa tradição em nossas famílias, acreditamos na Palavra de Deus, que está acima das experiências, tradições, modismos e opiniões humanas — até mesmo de cristãos bem intencionados que são uma bênção em muitas áreas, mas seguem os passos de Davi e Eli quando falam e ensinam sobre criação de filhos. O melhor manual de criação de filhos sempre foi e sempre será a Bíblia, e o maior mestre não é o Dr. Benjamin Spock. É o Autor da Bíblia.

É claro que Deus não aceita abusos de autoridade, porém não é certo utilizar os casos de violência e excessos para anular as orientações do Livro de Provérbios para os pais, pois a Palavra de Deus é clara que é justamente a falta da aplicação de castigos físicos que pode levar as famílias e seus filhos a destinos trágicos. Essas tragédias poderão ter um grande aumento em toda a sociedade, pois a meta do governo é proibir os pais de disciplinar os filhos. Essa proibição inevitavelmente tornará ilegal e crime obedecer às orientações de Deus em Provérbios.

Eli morreu há mais de três mil anos, mas seus seguidores hoje são muitos, principalmente entre educadores, psicólogos e defensores dos "direitos" das crianças. Se estivesse vivo, ele exigiria sua marca registrada do método que muitos psicólogos hoje arrogantemente atribuem a seus próprios conceitos. Ele diria o que é muito comum em nossos dias: "Quero meus direitos! Eu sou o pai desse método! Essa invenção pertence a mim!" Ele poderia até processar os psicólogos por lhe terem roubado a invenção da "disciplina sem castigo físico". Bom então para os psicólogos que Eli não esteja vivo!

Brincadeiras de lado, Eli e seus filhos podem estar sofrendo castigo eterno por não reconhecerem o valor do castigo físico aqui na terra. Pai e filhos podem estar pagando o mesmo preço, por causa de seus pecados. Bem que a Palavra de Deus avisa:

"Não fique com medo de corrigir seus filhos; uma surra não os matará. Uma boa surra, aliás, pode salvá-los de algo pior do que a morte." (Provérbios 23:13-14 MSG)


Fonte
www.juliosevero.com
Publicado anteriormente com o título:
Quando um pai não disciplina o próprio filho

Pregação e Responsabilidade

Por Francikley Vito

É sabido que Homilética, em sua definição mais simples, é “a arte de preparação e apresentação do sermão”; que por sua vez é o “discurso de caráter religioso”. Portanto, quando usamos de técnicas para preparação e entrega do sermão estamos fazendo uso da Homilética. Assim, a Homilética como arte depende da inspiração, ou sensibilidade. Cabe dizer, porém, que sensibilidade ou inspiração nada tem a ver com “inspiração plenária”, que é a inspiração dada por Deus para composição de Sua Palavra. Falando da inspiração de maneira comum, ou seja, a inspiração que nos leva a produzir Arte. O filosofo Mikhail Bakhtin (1895-1975) nos adverte dizendo:

“O indivíduo deve tornar-se inteiramente responsável [...] e nada de citar a ‘inspiração’ para justificar a irresponsabilidade. A inspiração que ignora a vida e é ela mesma ignorada pela vida não é inspiração mas obsessão. Arte e vida não são a mesma coisas, mas devem tornar-se algo singular em mim, na unidade da minha responsabilidade”.[1]

É claro que o filosofo alemão nos fala de Arte entendida como “habilidade humana de pôr em prática uma idéia”[2], especialmente a Literatura, que era uma dos alvos dos seus estudos.

Mas nós, penso, podemos usar este texto, e os conceitos nele apresentados, para reflexão da nossa prática como pregadores da Palavra de Deus, que fomos escolhidos para “proclamação das Boas Novas”. Portanto, o filosofo nos lembra que nós (1) não devemos usar da nossa inspiração para desculpar a nossa irresponsabilidade, tanto no estudo quanto na pregação da Palavra de Deus; e também que (2) a nossa pregação (isso trazendo para nosso co-texto) não pode ignorar a realidade, nossa e dos outros. Uma pregação que ignora o real é, no mínimo, fantasiosa.

Notas
[1]BAKHTIN, Mikhail. Arte e Responsabilidade.
(In: Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. XXXIV).
[2]Minidicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

A importância de disciplinar os filhos 2/3

Por Julio Severo
Conseqüências da negligência de um pai
Eli evitou sua responsabilidade de castigar, e as maldições sobre Hofni e Finéias se cumpriram, atingindo muito mais do que suas próprias vidas — afetando a nação inteira de Israel. Quando Israel enfrentou seus terríveis inimigos filiteus em batalha — sob a liderança "espiritual" de Hofni e Finéias —, houve grande derrota. Os israelitas descobriram, da pior forma, que estavam sem proteção espiritual:

" — O povo de Israel fugiu dos filisteus! — respondeu o mensageiro. — Foi uma terrível derrota para nós. Além de tudo, os seus filhos Hofni e Finéias foram mortos, e os filisteus tomaram a arca da aliança. Quando ouviu falar na arca, Eli caiu da cadeira para trás, perto do portão da cidade. Ele estava muito velho e gordo. Por isso, quando caiu, quebrou o pescoço e morreu. Eli foi o líder do povo de Israel quarenta anos." (1 Samuel 4:17-18 NTLH)

Eli não se preocupou muito com a morte dos filhos, pois ele já sabia que não havia outro destino para eles. Ele se preocupou mais com o destino da arca. Contudo, se ele tivesse agido energicamente, sua família não receberia maldição nem a arca seria tomada.

Poucos anos depois, praticamente toda a família sacerdotal de Eli foi brutalmente assassinada pelo rei Saul (cf. 1 Samuel 22), cumprindo-se assim a palavra profética dirigida a Eli: "E todos os seus outros descendentes morrerão de morte violenta". (1 Samuel 2:33b). A teimosia de um pai em não punir a teimosia e maldade dos próprios filhos removeu a segurança espiritual que poderia proteger os netos, bisnetos e outros familiares de Eli contra a fúria cega e assassina de Saul anos depois.

O profeta Samuel, em sua infância e juventude, viu tudo o que aconteceu com Eli e seus filhos. Ele viveu no ambiente sacerdotal de Eli, mas a diferença é que Samuel não era filho de Eli.

Ana, uma esposa israelita estéril, havia orado muito a Deus pedindo um filho. Deus respondeu dando-lhe a bênção de conceber Samuel em seu ventre. Depois do nascimento de Samuel, Ana o levou à casa de Deus — onde Eli ocupava a função de supremo sacerdote — e o entregou e consagrou ao serviço de Deus, separando-se fisicamente dele. (Veja 1 Samuel 1)

Do ponto de vista humano, o menino Samuel corria o risco de sofrer o mesmo tipo de deficiência educativa que Eli havia dado a seus próprios filhos — pois os filhos de Eli não sabiam o que era castigo físico. Do ponto de vista divino, tudo o que Ana e seu marido não podiam fazer por seu filho Samuel, Deus daria. Aliás, Deus soberanamente preencheu com sua maravilhosa graça toda a deficiência e má influência de Eli na criação e educação de Samuel.

A graça de Deus não é automática
Mesmo sendo criado sem nenhum castigo físico, Samuel milagrosamente não se tornou o tipo de adulto que eram os filhos de Eli. Samuel viu que a graça de Deus que estava sobre ele o tinha livrado de toda contaminação e dano. Daí ele pode ter concluído que é possível educar crianças sem a aplicação da disciplina física. Sem dúvida alguma, a falta de dano foi obra exclusiva da graça de Deus, porém Samuel pode bem ter pensado que ele poderia "sustentar" essa obra em sua família, sem jamais precisar recorrer a uma surra. A Palavra de Deus fala muito sobre Samuel e sua integridade, mas não fala muito sobre seus filhos, e o pouco que fala revela que eles não herdaram a integridade do pai. Tudo o que a Palavra de Deus diz sobre os filhos de Samuel é:

"Quando envelheceu, Samuel nomeou seus filhos como líderes de Israel. Seu filho mais velho chamava-se Joel e o segundo, Abias. Eles eram líderes em Berseba. Mas os filhos dele não andaram em seus caminhos. Eles se tornaram gananciosos, aceitavam suborno e pervertiam a justiça". (1 Samuel 8:1-3 NVI)

Samuel só tinha dois filhos, e eles eram corruptos — provavelmente porque o pai lhes deu a mesma educação (humanamente deficiente) que recebeu. A graça de Deus que trabalhou na vida de Samuel — sem a necessidade do uso da disciplina física — não trabalhou na vida de seus filhos. A graça de Deus não é uma bênção que nós escolhemos, nem é automática. Deus é que soberanamente escolhe e dá.

Samuel deve ter agido como sua mãe Ana, entregando seus filhos para a graça de Deus, achando que somente isso bastava. O que ele fez não é errado, mas as situações eram distintas. Na criação de Samuel, não havia um pai para discipliná-lo. Na criação dos filhos de Samuel, havia um pai para discipliná-los, porém esse pai tentou um caminho de fé que acabou não funcionando. Seu exemplo serve de lição para nós hoje. Os pais podem e devem entregar seus filhos a Deus e depender da graça de Deus, mas jamais podem deixar de cumprir os mandamentos específicos de Deus sobre educação e correção de filhos. Usar a graça de Deus como desculpa para evitar a responsabilidade da disciplina física é dar um salto no escuro — arriscando mandar os filhos para o mesmo destino e abismo de corrupção dos filhos de Samuel!

O mesmo Deus que em situações especiais concede soberanamente sua graça também orienta o seu povo sobre o método divino de castigo físico para a educação das crianças. A graça de Deus pode agir em situações em que a criança por um motivo ou outro não recebe castigo físico, principalmente na ausência dos pais, mas é arriscado e errado fechar deliberadamente os ouvidos para as orientações de Provérbios e "deixar para a graça de Deus" um trabalho e responsabilidade que Deus deu diretamente aos pais. Deus pode trabalhar quando os pais não estão presentes, exatamente como aconteceu na infância de Samuel, mas quando os pais estão presentes, eles devem agir conforme já está bem claro na Palavra de Deus.

Enquanto formos seres humanos, temos necessidades humanas. Uma dessas necessidades é disciplina, correção e castigo, que fazem parte tanto da família natural quanto da família espiritual. Para ajudar os pais na importante e difícil tarefa da disciplina, Deus nos deixou o Livro de Provérbios, que contém muitas passagens sobre o assunto.

O que a sabedoria de Deus ensinou a Salomão
O Livro de Provérbios na Bíblia foi, em grande parte, escrito por Salomão, filho de Davi. Sendo então o autor principal de Provérbios, como foi então que Salomão conseguiu escrever tanto sobre disciplina física de crianças? Foi por causa do exemplo de seu pai? Foi com o que aprendeu em seu lar na infância?

Salomão não aprendeu princípios de disciplina por experiência própria nem com o que via ao seu redor, pois no próprio lar em que cresceu ele nunca levou uma surra corretiva do pai. Por algum motivo, Davi nunca corrigia a teimosia e desobediência de seus filhos. Ele falhou nessa área. Ele foi um homem justo em muitas áreas, porém a Palavra de Deus mostra seu fracasso no desempenho de seu papel como pai. Quando seu filho Amnom estuprou a própria irmã, a maioria das versões bíblicas se limita a dizer que Davi ficou furioso quando soube da violência sexual, porém a Septuaginta revela muito mais:

"Quando soube disso, o Rei Davi ficou muito irado. Mas Davi não castigou seu filho Amnom. Ele favorecia Amnom porque ele era seu filho mais velho". (2 Samuel 13:21 GW)

"Quando soube do que havia acontecido com Tamar, Davi ficou muito irado. Mas Amnom era seu filho mais velho e também o seu favorito, e Davi não queria fazer nada que deixasse Amnom infeliz". (2 Samuel 13:21 CEV)

Outra passagem da Bíblia revela como Davi agia com seu filho Adonias:

Ora, toda a sua vida seu pai nunca havia sido contra ele ou lhe dito, Por que é que você fez isso? (1 Reis 1:6a BBE)

Mas seu pai nunca, nem uma só vez, o repreendeu dizendo: "Por que você agiu desse jeito?" (1 Reis 1:6a HCSB)

Seu pai o estragou na infância, jamais lhe dando, nem uma só vez, uma bronca. (1 Reis 1:6a MSG)

Talvez Davi não tenha sofrido castigos divinos tão fortes quanto os castigos que Eli recebeu porque Davi estava casado com várias mulheres e não tinha, como rei, tempo para administrar sua imensa família. Tal fraqueza pode não lhe ter custado as maldições que Eli colheu, porém não o livrou de problemas sérios com seus filhos. Seu filho Absalão, que nunca apanhou, tomou o seu trono e quase o matou, agindo com extrema violência, estuprando as concubinas do próprio pai! O caso de Absalão mostra o engano dos que acreditam que só as crianças criadas com disciplina se tornam violentas. O oposto foi verdade no caso de Absalão. Seu irmão Amnom, criado sem nunca levar uma surra, cometeu um ato violento, estuprando a própria irmã!

A chave então para não sofrer problemas semelhantes na família não é seguir a moda de hoje de evitar a disciplina física, mas adotar uma postura equilibrada: uma criança criada de modo violento ou sem castigo físico pode acabar cometendo violências, mas uma criança criada com o uso sábio da disciplina física terá muito mais chance de levar uma vida marcada por um comportamento bom e correto.

Passando toda a sua infância no lar de Davi, vendo Amnom, Absalão e Adonias em seus maus comportamentos, Salomão sabia o que era a falta de disciplina por experiência própria. Aliás, ele sofreu na própria pele as conseqüências da falta de disciplina do lar de seu pai, pois seu mimado irmão Adonias tentou tomar o governo das mãos de Salomão, e papai Davi não fez nada. O mimado Adonias estava disposto a matar Salomão para ficar com o trono.

Salomão também conhecia o caso trágico de Eli, através do que seu pai Davi lhe contava. Davi soube dos problemas internos da família de Eli através do próprio profeta Samuel, que era seu amigo. Assim, através de Davi Salomão conhecia até a situação dos filhos de Samuel.

Talvez seu pai Davi não tenha se importado muito com a falta de castigo físico com que Eli, Samuel e ele mesmo criaram seus filhos porque aquelas gerações de modo geral não educavam crianças de outro jeito. Pelo fato de que grandes líderes espirituais daquela época como Eli, Samuel e Davi não viam nada de errado com a falta de disciplina física na educação de filhos, é bem possível que em Israel a educação sem castigo físico fosse bem mais comum do que se poderia imaginar.

Provavelmente, o próprio Salomão nunca colocou em prática os princípios de disciplina de filhos que ele escreveu em Provérbios quando ele ainda era jovem, muito temente a Deus e não tinha esposa e filhos. Provérbios orienta os homens a ter somente uma esposa[1], porém Salomão teve muitas.[2] Ele desobedeceu.[3] Provérbios é o livro da Bíblia que mais ensina sobre disciplina, porém Roboão, filho de Salomão, seguiu a tradição da família de Davi de filhos mimados e maus.

Mas só porque Salomão não conseguiu obedecer significa que todos os homens de Deus também não conseguirão ter somente uma esposa e educar e corrigir os filhos conforme os excelentes princípios de Provérbios?

Fonte
www.juliosevero.com
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Quando um pai não disciplina o próprio filho

[A Importância da Doutrina]

Houve um tempo em que doutrina era sinônimo de algo exterior, sem mensão direta à Palavra de Deus. Mas Doutrina, em sentido específico, é bem mais que isso, como mostra James Orr.

"Se há uma religião neste mundo que dê relevância ao ensino, sem dúvida essa religião é a de Jesus Cristo. Com freqüência já se tem destacado o fato de que a doutrina tem uma mínima importância nas religiões não-cristãs; nelas o destaque está na realização de um ritual. Mas é precisamente nisto que o cristianismo se diferencia das demais religiões: ele tem doutrina. Ele se apresenta aos homens com um ensinamento definido, positivo; declara-se ser a verdade; nele o conhecimento dá suporte à religião, conquanto seja um conhecimento somente acessível sob condições morais [...] uma religião divorciada do pensamento dirigente e elevado tem tido, através de toda a história da Igreja, a tendência de se tornara fraca, estéril e nociva [...]".
Fonte
Orr, James. Citado por Stott, John. Crer é Também Pensar.São Paulo: ABU, 2001, p. 19.

A importância de disciplinar os filhos 1/3

Por Julio Severo

A questão da disciplina dentro da família encontra-se bem tratada na Palavra de Deus. E o Novo Testamento até a utiliza para demonstrar como Deus não age diferente dentro de sua própria família espiritual:

Vocês se esqueceram da palavra de ânimo que ele lhes dirige como a filhos: "Meu filho, não despreze a disciplina do Senhor, nem se magoe com a sua repreensão, pois o Senhor disciplina a quem ama, e castiga todo aquele a quem aceita como filho". Suportem as dificuldades, recebendo-as como disciplina; Deus os trata como filhos. Ora, qual o filho que não é disciplinado por seu pai? Se vocês não são disciplinados, e a disciplina é para todos os filhos, então vocês não são filhos legítimos, mas sim ilegítimos. Além disso, tínhamos pais humanos que nos disciplinavam, e nós os respeitávamos. Quanto mais devemos submeter-nos ao Pai dos espíritos, para assim vivermos! Nossos pais nos disciplinavam por curto período, segundo lhes parecia melhor; mas Deus nos disciplina para o nosso bem, para que participemos da sua santidade. Nenhuma disciplina parece ser motivo de alegria no momento, mas sim de tristeza. Mais tarde, porém, produz fruto de justiça e paz para aqueles que por ela foram exercitados. (Hebreus 12:5-11 NVI, o destaque é meu.)

Esse simples texto da Bíblia que lida com a questão da repreensão e castigo resume muito bem a essência da disciplina. O texto inteiro foi baseado no seguinte versículo de Provérbios: "Meu filho, não despreze a disciplina do SENHOR nem se magoe com a sua repreensão". (Provérbios 3:11 NVI) O Novo Testamento fez assim uma referência bem relevante, pois não há livro em toda a Bíblia que contenha mais orientação sobre disciplina de filhos do que Provérbios.

Um pai da Bíblia que corrigia os filhos — só com palavras
Se Provérbios é um livro que explica muito bem o que é a disciplina, então todos os pais mencionados na Palavra de Deus sabiam aplicá-la? Não. Nem todos os pais da Bíblia corrigiam seus filhos. Alguns escolhiam simplesmente a correção verbal, e nada mais. O sacerdote Eli, por exemplo, criou os filhos no sacerdócio e, quando se tornaram homens, eles cometiam freqüentemente pecados contra Deus. Eles estavam até violando os sacrifícios oferecidos a Deus na casa de Deus:

Os filhos do sacerdote Eli não prestavam e não se importavam com Deus, o SENHOR. Eles não obedeciam aos regulamentos a respeito daquilo que os sacerdotes tinham o direito de exigir do povo. Assim os filhos de Eli tratavam com muito desprezo as ofertas trazidas a Deus, o SENHOR. E para o SENHOR o pecado desses moços era muito grave. (1 Samuel 2:12,13a,17 NTLH)

Eli via os pecados de seus filhos e, como todo pai bonzinho, não ficava em silêncio. Ele sempre abria a boca para dar uma bronca neles.

"Eli já estava muito velho. Ele ouvia falar de tudo o que os seus filhos faziam aos israelitas e também que eles estavam tendo relações com as mulheres que trabalhavam na entrada da Tenda Sagrada. Então Eli disse: — Por que é que vocês estão fazendo essas coisas? Todos me falam do mal que vocês estão praticando. Parem com isso, meus filhos! Eu estou ouvindo o povo do SENHOR Deus dizer coisas terríveis a respeito de vocês! Se uma pessoa peca contra outra, o SENHOR pode defendê-la. Mas quem pode defender aquele que peca contra Deus?" (1 Samuel 2:22-24,25a NTLH, o destaque é meu.)

Há pais que se calam diante de pecados horríveis dos próprios filhos, nem ousando mencionar para eles que parem seu comportamento sexual errado, mas essa fraqueza Eli não tinha. Ele apontava os erros no nariz dos filhos. No entanto, a Palavra de Deus revela claramente a reação dos filhos de Eli às repreensões do pai e a reação do Senhor à desobediência e teimosia deles: "Mas eles não ouviram o pai, pois o SENHOR havia resolvido matá-los." (1 Samuel 2:25b NTLH)

Deus, em seu amor, faz visitações proféticas a Eli
Como sacerdotes do Senhor, tanto Eli quanto seus filhos conheciam muito bem a Palavra de Deus. Mas mesmo assim, os filhos de Eli estavam decididos a desobedecer à Palavra de Deus e ao seu próprio pai, e Eli estava decidido a não disciplinar ninguém — limitando-se no máximo a passar um sermão. Já que todos estavam assim decididos contra as ordens e conselhos da Palavra de Deus, Deus também resolveu decidir: ele decidiu que a solução para os filhos de Eli era a pena de morte.

Apesar de que Eli estava entristecendo muito a Deus pela sua falta de ação, Deus sempre demonstrou misericórdia, na esperança de que Eli pudesse se arrepender e finalmente assumir a postura de um pai que age. Através de mensagens proféticas, Deus deixou bem claro para Eli que ele queria muito mais do que só palavras. Se os filhos teimavam em desobedecer, a obrigação de Eli era, além de repreender, tomar medidas concretas. Foi nesse ponto que Deus mandou um profeta a Eli:

"Então um profeta procurou Eli e lhe deu esta mensagem de Deus, o SENHOR: —Eu me revelei ao seu antepassado Arão quando ele e a sua família eram escravos no Egito. Você sabe que eu os escolhi, entre todas as tribos de Israel, para serem meus sacerdotes, servirem no altar, queimarem incenso e usarem o manto sacerdotal na minha presença. E dei a eles o direito de ficarem com uma parte dos sacrifícios queimados no altar. Por que é que vocês olham com tanta ganância para os sacrifícios e ofertas que eu ordenei que me fossem feitos? Eli, por que você honra os seus filhos mais do que a mim, deixando que eles engordem, comendo a melhor parte de todos os sacrifícios que o meu povo me oferece? Eu, o SENHOR, o Deus de Israel, prometi no passado que a sua família e os seus descendentes me serviriam para sempre como sacerdotes. Mas agora eu digo que isso não vai continuar. Pois respeitarei os que me respeitam, mas desprezarei os que me desprezam. Olhe! Está chegando o tempo em que eu matarei todos os moços da sua família e da família do seu pai para que nenhum homem da sua família chegue a ficar velho. Você passará dificuldades e terá inveja de todas as coisas boas que vou dar ao povo de Israel, mas ninguém da sua família chegará a ficar velho. Deixarei vivo apenas um dos seus descendentes, que será meu sacerdote. Mas ele ficará cego e perderá toda a esperança. E todos os seus outros descendentes morrerão de morte violenta. Hofni e Finéias, os seus dois filhos, morrerão no mesmo dia, e isso será uma prova para você de que o que eu disse é verdade. Escolherei para mim um sacerdote fiel, e ele fará tudo o que eu quero. Darei a ele descendentes que sempre estarão a serviço do rei que eu escolher. E todos os outros descendentes de você que, por acaso, ficarem com vida terão de se curvar diante do rei para pedir dinheiro e comida e implorarão para ajudar os sacerdotes, a fim de terem alguma coisa para comer". (1 Samuel 2:27-36 NTLH)

Deus já havia decidido que a penalidade para as ofensas que os sacerdotes Hofni e Finéias estavam cometendo era a morte. Mas como Eli não queria cumprir sua responsabilidade como pai e como supremo sacerdote de punir severamente as maldades deles, a maldição e pena de morte que estavam sobre Hofni e Finéias cairiam sobre a família inteira de Eli. Deu até usou o menino Samuel para avisar Eli:

"E o SENHOR disse: — Eu vou fazer com o povo de Israel uma coisa tão terrível, que todos os que ouvirem a respeito disso ficarão apavorados. Naquele dia farei contra Eli tudo o que disse a respeito da família dele, do começo até o fim. Eu lhe disse que ia castigar a sua família para sempre porque os seus filhos disseram coisas más contra mim. Eli sabia que eu ia fazer isso, mas não os fez parar. Por isso, juro à família de Eli que nenhum sacrifício ou oferta poderá apagar o seu terrível pecado." (1 Samuel 3:11-14 NTLH)

Depois de tal repreensão divina, um homem sábio se prostraria diante de Deus, agradeceria sua visitação sobrenatural, pediria perdão e se comprometeria diante do Senhor a agir de acordo com a Palavra de Deus, castigando quem merecia ser castigado, mesmo que envolvesse um castigo de pena capital. Mas qual foi a reação de Eli quando Samuel lhe entregou o recado profético?

"Então Samuel contou tudo, sem esconder nada. E Eli disse: — Ele é Deus, o SENHOR. Que ele faça tudo o que achar melhor!" (1 Samuel 3:18 NTLH)

Em outras palavras, Eli quis dizer: "Se Deus quiser agir e fazer o que eu mesmo não estou fazendo, ele pode fazer o que ele quiser, mas eu não vou agir. Que Deus aja sozinho". Como se diz, ele tirou o corpo fora — não aceitando a chance de colaborar com Deus na ordem da família de Deus e na própria família dele! Ele queria simplesmente continuar tratando seus filhos adultos do mesmo jeito que ele vinha tratando-os desde a infância: sem lhes ministrar castigo físico.

Fonte
www.juliosevero.com
Publicado anteriormente com o título: Quando um pai não disciplina o próprio filho.
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Davi e os Perigos da Vaidade 4/4

Por Caramuru A. Francisco

IV – A INTERCESSÃO DE DAVI PELO POVO E O SACRIFÍCIO QUE APLACA A IRA DE DEUS

Veio, pois, a peste sobre o povo, tendo morrido setenta mil homens (II Sm.24:15; I Cr.21:14). Até o tempo determinado, morreu toda esta gente e, então, o Senhor mandou que um anjo destruísse Jerusalém. Quando o ser celestial estava para realizar a operação, o Senhor não o fez, em virtude da intercessão de Davi. Quando Davi pediu a penalidade, clamou pela misericórdia do Senhor, pediu que o Senhor usasse da Sua misericórdia no tratamento com o povo. Por esta oração intercessória do rei, no momento mesmo em que escolhera a penalidade da peste como punição pelo recenseamento, o Senhor não determinou a destruição do povo.

Temos aqui uma demonstração clara de que os juízos de Deus são condicionais ao comportamento do homem, como bem explana a respeito o profeta Jeremias em Jr.18:7-10. Havendo sincero arrependimento por parte do povo, contrição e quebrantamento de coração, o Senhor não resiste a tais manifestações humanas e usa da Sua misericórdia (Sl.51:17; Is.57:15). A oração intercessória de Davi teve este efeito, porquanto Davi havia se arrependido do mal que fizera e para o for incitado em virtude do pecado do próprio povo em relação a ele mesmo.

É interessante vermos que, assim como Davi, logo pela manhã, havia recebido a visita do profeta Gade, no dia seguinte à confissão de seu pecado, também estava de manhã acordado e acompanhando o que se passava em Jerusalém. Davi não era um homem ocioso, mas alguém que, logo cedo, estava já em plena atividade e, o que se mostra mais importante, atividade relacionada com o culto a Deus, com a adoração ao Senhor. De manhã, entrevistou-se num dia com o profeta; no outro, estava em estado espiritual tão elevado que o Senhor lhe deu a visão do anjo destruidor entre a terra e o céu com a espada desembainhada na sua mão estendida contra Jerusalém (II Sm.24:16; I Cr.21:16).

Como têm sido as nossas manhãs? Como esta a nossa vida devocional com Deus? Será que temos estado com o profeta (isto é, com a Palavra de Deus, que é a maior de todas as profecias)? Será que temos estado num ambiente espiritual que possamos ter visões vindas diretamente do Senhor? Será que nossa visão deste mundo é a da ira de Deus permanecendo sobre todo aquele que não crê que Jesus é o único Senhor e Salvador do mundo e que tal visão nos impele a clamar a Deus para sermos instrumentos para o anúncio da salvação da humanidade na pessoa de Jesus Cristo?

Ao ter a visão do anjo destruidor, Davi outra reação não teve senão pedir ao Senhor que a culpa pelo recenseamento caísse sobre ele e não sobre o povo. Havia sido ele quem havia contado o povo, não a população que padecia pelo erro cometido pelo rei. Davi chama ao povo de “ovelhas” e pede que o castigo caísse sobre ele e sobre a sua casa, não mais se castigando o povo (II Sm.24:17; I Cr.21:17).

Davi chega ao ápice de sua oração intercessória. Já havia pedido a misericórdia do Senhor sobre o povo quando da escolha da punição e, não resistindo ao sofrimento do povo, tendo compaixão por ele, como verdadeiro pastor, pede para que o Senhor cessasse o castigo sobre o povo e punisse a ele e a sua casa. Repetia, assim, o mesmo gesto de Moisés que pediu que Deus riscasse seu nome do livro da vida, caso não favorecesse o povo de Israel (Ex.31:31,32).

Davi aqui prefigura o seu descendente, Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que tomou sobre si o nosso castigo e, em lugar dele, nos deu a paz (Is.53:5). O pedido de Davi não foi feito apenas em favor de Israel, mas de todo o povo de Deus, pois, efetivamente, sobre a casa de Davi, sobre o Senhor Jesus recaiu o pecado não só dos israelitas do tempo de Davi, mas os pecados do próprio Davi, enfim, os pecados de todo o mundo (I Jo.2:2). Nunca devemos nos esquecer que, se vida espiritual temos, isto se deve ao sacrifício de Jesus no Calvário, ao fato de Ele ter tomado sobre Si os nossos pecados. Como diz o pastor e poeta sacro José Teixeira de Lima: “Meus pecados levou, na cruz onde morreu, o sublime e meigo Jesus; os desprezos sofreu, a minh’alma salvou e mudou minhas trevas em luz” (refrão do hino 484 da Harpa Cristã).

- O verdadeiro líder é aquele que sente compaixão pelos seus liderados. Davi sentiu o sofrimento daqueles que morriam com a peste e pediu que a peste recaísse sobre ele e sobre sua casa, visto que ele havia numerado o povo. Sabia, pelo discernimento espiritual, que Deus não estava sendo injusto ao matar o povo, pois fora Israel quem pecara ao se rebelar contra o Senhor, quebrando o pacto com Davi e, por duas oportunidades, tendo ficado ao lado dos que queriam apeá-lo do poder, mas o próprio Davi, apesar disto tudo, não pôde suportar aquela cena de sofrimento e pediu que pagasse, em lugar do povo, pelo pecado, já que fora ele o móvel pelo qual a ira de Deus se manifestara sobre Israel.

Jesus também sentiu compaixão pelos homens e nós, como integrantes de Seu corpo, também devemos ter este mesmo sentimento. Entretanto, nos dias hodiernos, muitos cuidam tão somente dos seus interesses, não dos de Cristo Jesus (Fp.2:21), negando, assim, o ministério que receberam da parte do Senhor. Davi viu o povo não como alguém que estava sofrendo uma justa punição divina, mas como “ovelhas do pasto do Senhor” (Sl.100:3), condição que assumiram não por seus méritos, mas pela misericórdia do Senhor. Como seríamos diferentes em nossos relacionamentos com os irmãos se sempre nos lembrássemos desta verdade bíblica.

Deus ouviu o clamor de Davi e mandou que o profeta Gade levasse a ele uma mensagem: a de que ele deveria levantar um altar ao Senhor na eira de Araúna (ou Ornã), o jebuseu, precisamente onde se encontrava o anjo visto por Davi. Com este sacrifício, Deus aplacaria a Sua ira sobre o povo de Israel.

Por que o anjo do Senhor parou justamente na eira de Araúna (ou Ornã), o jebuseu? Porque era o único pedaço de Jerusalém que ainda estava nas mãos dos jebuseus, que ainda não tinha sido conquistado pelo povo de Israel. Pelo que se verifica do texto sagrado, Araúna e Ornã tinham um bom relacionamento, não se sabendo porque, mas o fato é que aquela área continuava fora do controle de Davi e de Israel. Jerusalém tinha sido escolhida pelo Senhor para ser o lugar da Sua presença e, precisamente, o local que o Senhor havia escolhido para a construção do templo continuava, imperceptível, em poder de um incircunciso, de alguém que não pertencia ao povo de Israel.

Deus permitiu que Satanás incitasse Davi e que houvesse o cometimento do pecado não só para que a justiça se fizesse sobre Israel, mas, também, para que o último resquício jebuseu fosse terminado em Jerusalém. Ainda havia uma quase que imperceptível “escória” na pureza de Jerusalém: a eira de Araúna (ou Ornã). Ao tentar destruir todo o povo, o diabo perde o obstáculo que se mantinha para que a glória do Senhor viesse a Jerusalém no templo.

Qual é a nossa eira de Araúna (ou Ornã), o jebuseu? Qual é aquele imperceptível ponto de nossa vida que ainda não se submeteu ao senhorio de Deus, que ainda resiste a uma vida espiritual abundante que tem se desenvolvido em nossa existência terrena? Retiremo-la antes que a peste venha e nos exija um sacrifício para a sua retirada.

Davi, imediatamente, vai ao encontro de Araúna (ou Ornã) e diz a ele que deveria construir um altar em sua propriedade e fazer sacrifícios para que a peste cessasse. Araúna quis dar a propriedade para Davi, mas o rei não aceitou, dizendo que deveria pagar o preço de mercado por ela, pois se tratava de um sacrifício, do pagamento de um preço de redenção do povo. Comprou Davi a área por cinquenta siclos de prata (ou seiscentos siclos de ouro), edificou ali um altar e se ofereceu sacrifício, sacrifício que foi aceito por Deus, que fez cair fogo do céu, cessando, portanto, a praga sobre Israel (II Sm.24:20-25; I Cr.21:18-26).

Deus escolheu aquele lugar como local de sacrifício, tanto que, após a compra da área, o anjo meteu a sua espada na bainha. Por isso, Davi sacrificou naquele lugar, diante da expressa ordem de Deus, confirmada por aquela visão, já que o alto de Gibeão estava distante e Davi tinha receio de ir até lá diante da espada do anjo desembainhada diante de Jerusalém.

Notamos que Davi era escrupuloso, não aceitava que os sacrifícios se fizessem em qualquer lugar, sendo prudente e observando os mandamentos do Senhor. Somente diante da ordem expressa do Senhor por meio do profeta Gade e pela confirmação da visão, aceitou oferecer sacrifício num terreno que, a princípio, era imundo, já que pertencente a um estrangeiro, não havendo tempo para que fosse devidamente santificado, santificação, aliás, que se operou com a resposta divina que fez descer fogo do céu para mostrar a aceitação do sacrifício.

Seria ali, na eira de Araúna ou Ornã, o jebuseu, agora comprada pelo rei Davi, que haveria de se construir o templo de Jerusalém. O lugar onde a misericórdia de Deus se tinha feito sentir pelo povo de Israel, o lugar onde a ira do Senhor havia sido aplacada pelo sacrifício pago por grande preço por Davi, uma figura do sacrifício do mais alto preço, aquele que tiraria o pecado do mundo, que o Filho de Davi iria efetuar muitos séculos depois, não em Jerusalém, mas fora da cidade, onde se queimavam os animais sacrificados por causa do pecado (Ex.24:14; Hb.13:11,12).

Deus, uma vez mais, perdoava não só Davi como o povo de Israel. Nesta permissão divina, caía a última cidadela jebuseia de Jerusalém e Davi ficava sabendo qual era o lugar em que deveria o templo ser erguido. Justiça e misericórdia caminhavam juntas para que o plano de Deus para a salvação do homem tivesse prosseguimento. Como diz o próprio Davi no Salmo 145: “Justo é o SENHOR em todos os Seus caminhos e santo em todas as Suas obras. Perto está o Senhor de todos os que O invocam, de todos os que O invocam em verdade. Ele cumprirá o desejo dos que O temem; ouvirá o seu clamor e os salvará. O Senhor guarda a todos os que O amam; mas todos os ímpios serão destruídos.” (Sl.145:17-20).

Não temos dúvida em afirmar que, com este episódio, Deus deu estabilidade definitiva a Davi, livrando-o não só do inimigo de todos nós, o diabo, como também daqueles que lhe eram ocultos no meio do povo e que foram punidos com a morte pela peste. E, como se isto fosse pouco, libertou Israel da última cidadela jebuseia de Jerusalém, deixando o terreno livre para a construção do templo de Jerusalém, onde faria repousar a Sua glória até a vinda do Filho. Este é o nosso Deus!

Segundo Reese, após este episódio, Davi compôs o Salmo 30, salmo composto para ser entoado quando da dedicação do templo, o que se faria apenas com Salomão. O fato de Davi compor este salmo nesta oportunidade mostra-nos, claramente, que Davi compreendeu, pelo Espírito de Deus, que tudo o que ocorrera tinha o propósito de lhe mostrar onde deveria ser construído o templo. Já resolvida a questão da localização, bastava a Davi apenas elaborar o salmo que deveria ser cantado no dia da dedicação da casa do Senhor.

Neste salmo, Davi deixa marcada a própria expressão da misericórdia divina no local escolhido para ser o templo, relembrando, assim, as circunstâncias em que se descobriu ser aquele o lugar para a edificação da casa do Senhor. Davi agradecesse a Deus por ter o responsável por sua exaltação, mostrando-se, assim, completamente arrependido do sentimento de orgulho que motivara o recenseamento. Lembra que o Senhor o havia sarado e ao povo, como também preservado os santos, reconhecendo, assim, que os mortos pela peste eram os ímpios que habitavam no meio de Israel, quase que imperceptivelmente. A ira de Deus havia durado um curto momento, mas no Seu favor estava a vida (Slo.30:1-4).

Neste salmo, Davi reconhece que o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã, como também de nada vale a vaidade humana, pois todos os homens devem descer à cova, motivo por que devemos, enquanto vivermos, louvar ao Senhor, não nos calarmos e que toda a glória humana seja tributada única e exclusivamente ao Senhor (Sl.30:5-12).

Como seria bom que todos os salvos em Cristo Jesus, notadamente aqueles que estão à frente do povo de Deus, meditassem profundamente neste salmo! Davi desdenha da sua vã ilusão de prosperidade (Sl.30:6) e sabe que de nada vale ter uma “memória”, uma “fama” para as gerações seguintes, já que na cova não pode anunciar a verdade. Preferia, antes, em vida, clamar pela misericórdia e piedade divinas e fazer com que fosse um instrumento para a glória do nome do Senhor. Muitos de nossos líderes estão se engalfinhando para passar para a posteridade, para serem reconhecidos como “grandes homens de Deus”, através dos monumentos e megatemplos que estão a construir, por intermédio de impérios empresarial-eclesiásticos que os façam ser famosos e ricos, esquecidos de que o mais importante é fazer com que o nome do Senhor seja glorificado. Davi percebeu isto a tempo, conseguindo que a peste gerada por sua soberba cessasse no meio do povo. Será que assistiremos, ainda, à morte de milhares e milhares de vítimas dizimadas por causa da soberba de alguns? Que Deus nos guarde!

- Terminava com a misericórdia divina mais um episódio lamentável da vida espiritual de Davi. O rei, porém, “dera a volta por cima”, obtendo o perdão divino e poderia, doravante, tudo organizar para que seu filho Salomão levasse a efeito a construção do templo e garantisse o culto ao Senhor em Israel. Será que podemos fazer o mesmo?

Padre Cícero Santo ?

“Agora, mais de 70 anos depois de morto, o líder religioso [Cícero Romão Batista (1844-1934) ] pode ser aceito pelo Vaticano, que graças ao papa Bento XVI tem discutido a reabilitação do padre. Seria o primeiro passo para uma canonização no futuro.”[1]

Foi considerado por muitos como santo, por causa de um suposto milagre ocorrido em 1889. Exerceu ainda o cargo de Deputado e apoiou o cangaço.
"Antes que o mal cresça, corte-se-lhe a cabeça." Com essa sentença, o bispo Dom Joaquim suspendeu os direitos religiosos do padre Cícero Romão Batista, que era então sacerdote em Juazeiro do Norte, em 1896, e acusado de heresia e mistificação.

Padre Cícero não se fez de rogado e tentou obter o perdão diretamente das autoridades do Santo Ofício, no Vaticano. Enviou-lhes uma carta de reparação e recebeu um telegrama sucinto, em latim: "Acquiescat decisis", ou seja, "aceite o que foi decidido". Padre Cícero não aceitou a reprimenda - e jamais o faria.[2]

Para a Revista ISTOÉ o interesse maior do Vaticano é “trazer à Igreja Católica os cerca de 2,5 milhões de devotos que viajam anualmente a Juazeiro do Norte em busca da graça do Padim. Como declarou ao "The New York Times" o bispo da cidade de Crato, o italiano Fernando Pânico, profundo conhecedor da história de Padre Cícero, o religioso pode ser um poderoso ‘antivírus contra o avanço das seitas evangélicas’”.[2]

Nota
[1]http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura
/2009/11/14/padre+cicero+a+um+passo+da+
absolvicao+do+vaticano+9088997. html.
Acesso em 14 nov. 2009.
[2] http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2088/
artigo156204-1.htm. Acesso em 18 nov. 2009.

Davi e os Perigos da Vaidade 3/4

Por Caramuru A. Francisco

III – DAVI ARREPENDE-SE DO PECADO COMETIDO E ESCOLHE A PUNIÇÃO

O fato é que, apesar de ter feito o recenseamento meio que à revelia do que mandou o rei, quando Joabe veio trazer o resultado e a soma para Davi, o rei mostrou, uma vez mais, que era um homem segundo o coração de Deus. Havia, sim, pecado e, ao receber o relato do recenseamento, sentiu o entristecimento divino com sua atitude. A Bíblia diz que “doeu o coração de Davi” com este gesto e confessou o seu pecado, pedindo a Deus que lhe fosse tirada esta iniquidade (II Sm.24:10; I Cr.21:7,8).

Não estamos livres de pecar, pois não há homem que não peque (I Rs.8:46; II Cr.6:36), mas, quando pecamos, precisamos ter a sensibilidade espiritual para que peçamos perdão ao Senhor Jesus, o mais rapidamente possível, pedindo-Lhe perdão (I Jo.2:1,2). O homem que é salvo em Cristo Jesus não está, ainda, livre de pecar, enquanto não passa para a dimensão eterna, mas o pecado é um acidente, visto que os filhos de Deus não vivem pecando (I Jo.3:6-9).

Davi realmente se arrependeu de seu pecado e publicamente o confessou, no instante mesmo em que lhe era passado o relatório do recenseamento mal feito por Joabe. Tanto estava arrependido que nem questionou seu comandante do exército quanto ao descumprimento de suas ordens, tendo tão somente pedido perdão a Deus pelo erro cometido. Arrependimento envolve mudança de mentalidade, mudança de vida. Temos, realmente, nos arrependido de nossos pecados e pedido perdão?

Apesar de Davi ter se arrependido do mal que cometera, como sempre, há uma consequência decorrente deste erro. No dia seguinte à confissão, por ordem do Senhor, o profeta Gade trouxe uma mensagem para o rei: o Senhor propunha três penalidades para o pecado cometido, a saber (II Sm.24:13; I Cr.21:12):
a) sete (ou três) anos de fome sobre a terra
b) três meses de perseguição de Davi por seus inimigos
c) três dias de peste sobre a terra

Muitos indagam porque Deus permitiu a Davi que escolhesse que pena sofreria por causa do pecado cometido. Por que Deus não determinou logo o que aconteceria? Por que deixar esta escolha para o próprio Davi? Precisamente para que Davi experimentasse que era, sim, o ungido do Senhor, o escolhido para reinar sobre Israel, mas que, acima de tudo dependia de Deus. Esta experiência da escolha da penalidade era apenas uma demonstração de Deus de que Davi era o escolhido mas devia obediência ao Senhor. Até hoje, quando se quer demonstrar quem é, efetivamente, o detentor do poder, utiliza-se da fórmula da “lista tríplice”, ou seja, alguém que está à testa de um determinado organismo ou repartição tem limitado o seu poder mediante a escolha de alternativas feitas por outra pessoa ou órgão. Davi tinha, assim, o aprendizado de que não poderia se ensoberbecer, mas manter-se humilde diante do Senhor.

A escolha feita por Davi parece ter sido motivada por interesses egoísticos. Em vez de escolher sofrer por três meses diante de seus inimigos, Davi preferiu que viesse uma peste sobre o povo de Israel. Apesar desta aparência de egocentrismo, na verdade, a escolha de Davi foi inspirada pelo Espírito Santo. Como tinha se arrependido de seus pecados, Davi estava na direção do Senhor e, como tal, escolheu a pena que era a mais justa, visto que teve o devido discernimento de que seu pecado tinha como causa a má conduta do próprio povo de Israel.

Davi não poderia escolher fugir da presença de seus inimigos, porque Israel já o havia feito fugir de Absalão. Com relação à fome, Israel já tinha sofrido fome por causa do que Saul havia feito sobre os gibeonitas, não querendo o rei que se tivesse um outro período de escassez. Davi pediu a pena que atingiria os culpados, no caso, o povo de Israel, no período mais breve de tempo, ou seja, apenas três dias (II Sm.24:14; I Cr.21:13).

Nesta resposta, também, Davi mostra que é muito melhor confiar na misericórdia de Deus do que nos homens. Nas mãos do Senhor, até a penalidade é mais branda, mais piedosa, enquanto que, nas mãos dos homens, até os louvores e as benesses são vis. Davi também mostrava ao povo que fora um tolo em confiar no seu próprio braço e que o povo de Israel deveria confiar única e exclusivamente em Deus.

Orando Com Lutero

Oração Para se Proteger da Tentação

Enfrentamos três tentações ou adversários: a carne, o mundo e o diabo. Portanto devemos orar assim:

Querido Pai, dá-nos graça de modo que tenhamos controle sobre a concupiscência da carne [...] ajuda-nos a levar todas as suas inclinações más e lascivas, bem como todos os seus desejos e estímulos até a cruz de Cristo e ali sacrificá-los, de modo a não dar crédito a nenhum de seus encantamentos nem tão pouco seguí-los. Ajuda-nos no momento em que virmos uma pessoa, uma criatura ou qualquer outra imagem bela, de modo que isso não se torne uma tentação, mas uma ocasião para demonstrar um amor casto e para luovar-Te pelas tuas criaturas.

Preserva-nos do pecado da avareza e do desejo pelas riquezas deste mundo. Guarda-nos, de modo a não buscarmos a honra e o poder deste mundo e nem sequer consentirmos o desejo por eles. Protege-nos de modo que a mentira, a aparência e as falsas promessas deste mundo não nos atraia para seu caminho [...].

Livra-nos das sugestões do diabo, que não demos espaço ao orgulho, que não nos tornemos egoístas e que não desprezemos os outros em nome das riquezas, da posição, do poder, do conhecimento, da beleza ou de qualquer outro dom do céu. Guarda-nos de cair no ódio ou na inveja por qualquer razão [...].

Que tenha o Teu amparo, Pai Celeste, todo aquele que se esforça e trabalha contra todas estas grandes e diversas tentações. [Que] possamos lutar com constância e com uma fé firme e destemida e, no final, ganhar a coroa que permanece para sempre. [1]

Nota
[1] Martinho Lutero. Citado por WILKINSON, Bruce H. (Ed.) Vitória Sobre a Tentação. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, pp 279-280.

Davi e os Perigos da Vaidade 2/4

Por Caramuru A. Francisco
II – DAVI CEDE À TENTAÇÃO DA VAIDADE

Davi retoma a estabilidade de seu reino, sufocando exemplarmente a revolta dos filisteus. Não há mais quaisquer adversários externos ou internos que pudessem perturbar seu reino e, deste modo, poderia se dedicar com afinco à sua tarefa de deixar tudo pronto para que o seu sucessor viesse a construir o templo ao Senhor em Jerusalém.

Entretanto, se Davi não tinha mais adversários externos ou internos a enfrentar, tinha um inimigo que não havia desistido de lutar contra ele: o diabo. A Bíblia é clara ao dizer que Davi foi incitado pelo diabo para que numerasse o povo (I Cr.21:1). É verdade que o texto de II Sm.24:1 diz que “a ira do Senhor se tornou a acender contra Israel e incitou Davi”. Então, como ficamos: foi Deus ou o diabo quem incitou Davi a numerar o povo?

Não devemos nos esquecer que os textos de Samuel e de Crônicas foram escritos com grande diferença de anos. Samuel foi escrito provavelmente durante os reinados de Saul, Davi e Salomão pelos profetas Samuel, Natã e Gade, enquanto que os livros de Crônicas foram escritos muitos séculos depois, segundo a tradição judaica, por Esdras. Tal distância de tempo leva-nos a entender dois importantes fatores:
a) um texto praticamente contemporâneo tende a não ter a mesma profundidade e análise de um texto muito mais tardio, que não se deixa influenciar pelo momento dos fatos.
b) textos muito distantes temporalmente no Antigo Testamento são textos que se encontram em estágios diferentes da revelação divina a Israel – quanto mais tardio o texto, maior a revelação recebida, pois a revelação foi progressiva até a vinda do Messias, quando chegou à Sua plenitude (Hb.1:1).

Diante destas circunstâncias, vemos, claramente, que, em II Sm.24:1, não havia condições históricas, políticas e espirituais para que se dissesse que Davi havia sido incitado pelo diabo para fazer o que havia feito. Já em Crônicas, quando não havia mais tais fatores obstativos, bem como uma revelação maior, tem-se que tal declaração não causa o mesmo choque e rejeição que haveria na oportunidade do primeiro texto.

Foi, pois, mesmo o diabo quem incitou Davi para que numerasse o povo. Deus Se mostrou irado com Israel, não explicitando o texto o porquê de tal ira. Talvez, diante da rebelião de Seba, quando Israel questionou a aliança que havia feito com Davi e, assim, a própria escolha divina para que Davi reinasse sobre Israel, o que foi expressamente reconhecido neste pacto (II Sm.5:1-3), ou, mesmo, a traição cometida pela tribo de Judá na rebelião de Absalão, quando todo o povo pendeu para o usurpador, abandonando Davi, inclusive o povo que habitava em Jerusalém (II Sm.15:13; 16:15).

Como Davi disse no Salmo 36, o melhor lugar onde devemos estar é sob a sombra das asas do Senhor, no “esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente”, como diz o salmista anônimo que compôs o Salmo 91 (Sl.91:1). Quando o Senhor nos nega a Sua misericórdia, em razão da Sua justiça, então não temos como escapar, pois estaremos debaixo da ira de Deus (Jo.3:36).

O fato é que Deus havia Se desagradado de Israel com as atitudes de rebelião que havia tomado contra o Seu ungido e, como o pecado de rebelião é como o pecado de feitiçaria (I Sm.15:23), Deus retirou a Sua mão de sobre o povo e, como resultado disto, o diabo pôde tentar a Davi num capítulo em que Davi era difícil de ser atingido: na vaidade.

O diabo veio a Davi e começou a lhe mostrar a grandeza do seu reino, a magnificência de seu governo e, diante disto, incitou Davi a que efetuasse um recenseamento, para que soubesse quantos súditos ele tinha. A princípio, tratava-se de uma medida extremamente benigna não só para o rei, mas para todo o povo, pois, sabendo qual era a população de Israel, Davi poderia melhor administrar o país, inclusive para fins de arrecadação e do que hoje se denomina de “formulação de políticas públicas”, como, aliás, vemos ocorrer decenalmente no Brasil, quando são feitos os recenseamentos pelo IBGE.

No entanto, esta medida, aparentemente salutar, afrontava diretamente a lei de Moisés. Na lei, vemos somente duas oportunidades em que o povo foi contado, as duas vezes no deserto, ambas por ordem de Deus: a primeira, no primeiro dia do mês segundo, do segundo ano da saída do Egito (Nm.1:1); a segunda, trinta e oito anos depois (Nm.26:1-4; Dt.2:14).

Ambos os recenseamentos foram determinados expressamente por Deus e tinham objetivos atinentes ao relacionamento de Deus com o Seu povo: no primeiro recenseamento, descobriu-se quem estava pronto a ir à guerra de cada tribo (só eram contados os homens de vinte anos para cima, com exceção dos levitas) bem como se tornou possível a remissão dos primogênitos, que foram substituídos pelos levitas como “a porção do Senhor” no meio do povo (motivo por que foram contados, então, todos os homens levitas, independentemente da idade). No segundo, Deus mostrou como havia cumprido a Sua palavra a respeito da morte de toda a geração do êxodo, com exceção de Josué e de Calebe (Nm.26:63-65).

Como bem notou Russel Shedd, “…o censo regia-se por cláusulas especiais da lei (Ex.30:12-15; Nm.1:2-4, 47-49). Não podiam ser contados os levitas, as mulheres e pessoas menores de vinte anos e, quando o censo era comum, orientava-se comente pelo motivo de resgate, uma espécie de imposto per capitã (religioso), para o Senhor…” (BÍBLIA SHEDD, com. I Sm.24:1, p.474) (destaque original).

Ora, a decisão tomada por Davi não provinha de qualquer ordem da parte do Senhor. Davi tomava a iniciativa de numerar o povo sem que Deus o mandasse. Era resultado de uma incitação satânica que, como afirma Matthew Henry, resultou de uma tentação de vaidade, de uma manifestação de orgulho no coração de Davi. “…O que havia de pior na numeração do povo foi que Davi fez isto na soberba de seu coração, assim como o pecado de Ezequias foi mostrar seus tesouro para os embaixadores. [O recenseamento] era resultado de seu sentimento de grandeza própria em ter o commando de um povo tão numeroso, cujo crescimento, em vez de ser considerado como uma bênção de Deus, passou a ser por ele atribuído a seu próprio esforço. [O recenseamento] era uma demonstração de orgulhosa confiança em sua própria força. Publicando entre as nações o número de seu povo, ele [Davi] pensou que pareceria o mais formidável, e ninguém duvidaria disso, e se ele tivesse que enfrentar alguma outra guerra, ele sobreporia seus inimigos com a multidão de suas forças, em vez de confiar apenas em Deus…” (Comentários de toda a Bíblia, com. a II Sm.27. Disponível em: http://www.biblestudytools.com/Commentaries/MatthewHenryComplete/mhc-com.cgi?book=2sa&chapter=024 Acesso em 30 out. 2009) (tradução nossa de texto em inglês).

A determinação de numeração do povo envolvia, pois, uma manifestação de soberba por parte de Davi, que tanto se notabilizara pela sua humildade até então. Deus retirara sua mão e Davi não soube resistir à incitação satânica e se achou poderoso e forte. Talvez sensibilizado pelo fato de não mais poder ir à guerra, tentou “compensar” a “reforma militar” com dados estatísticos que denunciassem aos inimigos a força de seu exército e o número de seu povo, a fim de “dissuadir” quaisquer inimigos. Davi esquecera-se completamente de que não dependia de cavalos, nem de cavaleiros, mas única e exclusivamente do Senhor dos Exércitos.

Quantos não procedem da mesma maneira na atualidade? Quantos que não confiam na força do seu braço, no número dos membros de sua igreja local, na sua fama, na consideração e respeito que desperta nos círculos e ambientes que frequenta? É triste quando o homem se deixa levar pela vaidade, pelo orgulho, pela soberba, pois a Bíblia é taxativa ao dizer que este comportamento não tem a aprovação divina, sendo certo que Deus humilha aqueles que se exaltam (Ez.21:26; Lc.18:14) .

Joabe, ao receber a ordem do rei para recensear o povo, ainda tentou argumentar com Davi. Apesar de toda a sua conduta malévola ao longo dos anos, Joabe sempre procurou resguardar a imagem do rei Davi. Era pessoa leal ao rei e que, sempre que podia, procurava impedir que o rei tomasse alguma deliberação que arranhasse a sua autoridade. Joabe fez ver ao rei que a numeração do povo era desnecessária e afrontaria a Deus, mas, como a ira do Senhor estava sobre o povo, como Davi sucumbira à incitação maligna, não teve força para impedir o recenseamento (II Sm.24:3,4; I Cr.21:2-4).

Diante desta circunstância, não pôde Joabe fazer outra coisa senão numerar o povo, tendo, então, andado por todo o reino a fim de contar o povo, tendo chegado à soma de um milhão e cem mil homens de Israel e quatrocentos e setenta mil homens de Judá (I Cr.21:5) ou, na numeração que consta em II Sm.24:9, oitocentos mil homens de Israel e quinhentos mil homens de Judá, não tendo, porém, sido contados por Joabe nem os levitas nem os benjaminitas, por decisão do próprio Joabe.O recenseamento durou nove meses e vinte dias (II Sm.24:8).

Notemos aqui que, embora Deus tivesse permitido que se fizesse o recenseamento, não se realizou ele como queria Davi. Joabe não contou os levitas nem os benjaminitas, o que parece que não era a ordem de Davi, que queria que todos fossem contados. Joabe assim procedeu diante das características dos recenseamentos anteriores, procurando violar o menos possível a lei do Senhor. Também não contou a Benjamim pois sabia que eventual recenseamento dessa tribo poderia trazer problemas políticos a Davi, diante da recente sedição de Seba e de todo o ressentimento existente entre a casa de Saul e a casa de Davi.

A diferença de números nos dois relatos do recenseamento também não pode ser objeto de estranheza pelo leitor da Bíblia. Aqui, mais uma vez, temos a questão da diferença de tempo entre os dois textos, sendo certo que o texto de II Sm.24, bem mais recente e sob o impacto dos acontecimentos, efetivamente não fez um relato minudente de um episódio que trouxe a ira de Deus sobre o povo.

Davi e os Perigos da Vaidade 1/4

Por Caramuru A. Francisco

Davi, apesar de ser humilde, fraquejou uma vez diante da vaidade que é própria do homem, o que causou grande prejuízo a Israel.

“Então Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar a Israel.” (I Cr.21:1)


INTRODUÇÃO

Estudaremos neste apêndice um outro pecado grave de Davi, qual seja, a numeração do povo, pecado menos conhecido mas que é o único registrado com minúcias por duas vezes no texto sagrado.

Apesar de ser um homem segundo o coração de Deus, Davi deixou-se levar pelo inimigo de nossas almas, dando ouvido aos encantos da vaidade, trazendo grande prejuízo a Israel. Devemos vigiar para que o inimigo, que anda ao nosso derredor (I Pe.5:8), não venha a nos usar para causar estrago no povo de Deus.

I – DAVI ENFRENTA SUA ÚLTIMA GUERRA CONTRA OS FILISTEUS

Davi, após as suas grandes vitórias militares, que expandiram o reino até os limites prometidos por Deus a Abraão, somente voltou a ter problemas militares quando houve a guerra contra os filhos de Amom, guerra que, depois do episódio do “negócio de Urias, o heteu”, foi vencida por Israel, tendo Davi à frente do povo na última batalha (II Sm.12:26-31; I Cr.20).

Esta vitória sobre Amom mostra bem o desgaste sofrido por Davi por causa do “negócio de Urias, o heteu”. Tendo deixado de ir à guerra como era seu dever, Davi precisou da condescendência de Joabe, que, demonstrando lealdade (mas, uma vez mais, conseguindo retirar a autoridade de Davi em relação à sua pessoa), não conquistou Rabá para que não se desse motivo algum para que alguém sombreasse o prestígio e a autoridade de Davi, aguardando que Davi, pessoalmente, viesse e comandasse as tropas na batalha final. Esta iniciativa de Joabe preveniu Davi de ter alguma força opositora no reino, num momento delicado de sua vida, em que havia se desnudado perante o povo de Israel por causa dos pecados cometidos, mas, também, teve uma consequência importante: não permitiu que Davi se ensoberbecesse depois de conquistar praticamente toda a região com a vitória sobre Amom.

Em seguida a esta vitória sobre Amom, houve paz entre Israel e as nações que estavam à sua volta, tanto que os problemas políticos que se seguem são decorrentes de intrigas da própria família real e de ressentimentos do país do que forças externas que ameaçassem os domínios de Davi que, aproveitou deste período de calma, para construir instituições sólidas para o futuro do país, dedicando-se à organização do serviço do templo que seria construído pelo seu sucessor, bem como para a organização da administração, com a instituição de oficiais e de juízes por todas as regiões do país. Davi é o primeiro rei a ter uma espécie de ministério, delegando funções que eram efetivamente exercidas por todo o país (II Sm.8:15-18; I Cr.18:14-17).

As duas rebeliões enfrentadas por Davi nestas lutas intestinas, a revolta de Absalão e a de Seba, fizeram com que o país se enfraquecesse e, como o inimigo nunca descansa, o resultado disto foi o ressurgimento das esperanças dos filisteus em se livrar do jugo dos israelitas. Seria a última guerra que Davi teria contra estes seus maiores inimigos, guerra esta descrita em II Sm.21:15-22 e I Cr.20:4-8, guerra que teve quatro batalhas, em cada uma delas morrendo um dos filhos de Golias de Gate.

Esta última guerra de Davi contra os filisteus traz-nos algumas lições de suma importância. Por primeiro, mostra que um reino dividido não pode subsistir (Mt.12:25; Lc.11:17). As lutas entre Absalão e Davi e, depois, entre Seba e Davi, enfraqueceram Israel e permitiram que os filisteus recobrassem vigor e pleiteassem se livrar do domínio israelita. Os filisteus tinham sido o primeiro povo a ser dominado por Davi e a sua libertação representaria o sinal para que todos os demais povos submetidos igualmente se rebelassem contra Davi.

Na luta contra o mal não é diferente, tanto que Jesus Se referiu à questão do reino dividido precisamente quando se dizia que Ele estaria a expulsar demônios pelo poder demoníaco, ou seja, quando a discussão se travava em termos espirituais. O principal mal ocasionado pela divisão no meio do povo de Deus é, precisamente, o enfraquecimento de todos os partidos diante do inimigo de nossas almas. Quando há espírito faccioso, tem-se caminho aberto para o fracasso espiritual. Como o diabo tem conseguido vencer muitos e muitos crentes, muitas e muitas igrejas locais, lançando mão esta arma poderosíssima: a divisão. Que Deus nos guarde de ocasionarmos ou estimularmos divisões no reino de Deus, pois os que assim procedem não têm o Espírito Santo (Jd.19).

Por segundo, vemos que os filisteus nunca desistiram de lutar contra Israel. Mesmo submetidos e sem condições de, em circunstâncias normais, enfrentar o poderoso exército de Davi, souberam aguardar o momento oportuno para se rebelar. Os filisteus tipificam aqui as hostes espirituais da maldade, que também não se cansam em seu trabalho de lutar contra o povo de Deus (Mt.16:18; Ef.6:10-13; Ap.12:10).

Assim que viram que tinham uma oportunidade para se libertar de Israel, depois que os israelitas haviam enfrentado duas rebeliões internas que os haviam enfraquecido, os filisteus tentam se livrar do domínio israelita. A narrativa, aliás, deixa-nos entrever que os filisteus prepararam durante muito tempo esta revolta. Não é à toa que quatro filhos de Golias tenham estado à frente de cada uma das batalhas desta última guerra: era toda uma geração que havia crescido tendo ódio de Davi que se preparara para desfazer todo o opróbrio que o rei de Israel havia feito contra eles.

Ao falar da batalha espiritual, o apóstolo Paulo faz questão de nos lembrar que devemos enfrentar as “astutas ciladas do diabo”. Escrevendo em outra passagem, o apóstolo diz que não ignorava os “ardis do diabo” (II Co.2:11). Jamais devemos subestimar o adversário de nossas almas, que planeja, e muito bem, tudo quanto faz para nos derrubar na vida espiritual. Nada é de improviso, nada é sem prévio preparo. Temos de nos fortalecer no Senhor e na força do Seu poder para podermos sair vitoriosos destas investidas adredemente arquitetadas pela “antiga serpente” (Ap.12:9), que prossegue sendo “a mais astuta de todas as alimárias do campo que o Senhor Deus tinha feito” (Gn.3:1).

Por terceiro, que jamais podemos nos cansar nesta luta contra o mal. As Escrituras dizem que, no meio da peleja, ainda na primeira batalha desta guerra, tanto Davi lutou que se cansou (II Sm.21;15). Este cansaço de Davi, que já tinha idade considerável, quase lhe foi fatal. Isbi-Benobe, um dos filhos do gigante, tentou ferir Davi e teria conseguido se não tivesse vindo em ajuda ao rei o “valente” Abisai, irmão de Joabe, que feriu e matou o filisteu. Diante desta circunstância, os homens de Davi não mais permitiram que Davi fosse ao campo de batalha, tendo, assim, se encerrado a carreira militar do rei (II Sm.21:16,17).

Mais uma vez, o Senhor mostrava que estava cuidando de Davi e protegendo a sua vida, mas o rei sentia, agora, o peso de sua idade e a novidade de não ter mais condições de guerrear. Tudo tem o seu tempo em nossas vidas (Ec.3:1) e Davi, ao perceber que não mais tinha como lutar, resignadamente, abandonou a vida militar, contentando-se apenas em reinar. O Senhor mostrava-lhe uma nova limitação, para que jamais se esquecesse que, apesar de todo seu poder, era apenas um homem. Temos consciência de nossas limitações?

Não podemos nos cansar na jornada espiritual. O cansaço é fatal. Se Deus não nos proteger e nos enviar um “Abisai” para ferir e matar o adversário, seremos tragados. Mantenhamo-nos em forma espiritual, para que o cansaço não tome conta de nós. O que devemos manter para manter esta “forma espiritual”? Diz o mesmo apóstolo Paulo, que nos ensinou a se revestir da armadura de Deus: “orando em todo o tempo com toda a oração e súplica no Espírito, e vigiando nisto com toda a perseverança e súplica por todos os santos” (Ef.6:18).

O cansaço, dizem os estudiosos, é um estado em que não se consegue mais energia para que se fazer um esforço, sendo decorrência da falta de alimentação ou da presença de alguma enfermidade que não permite o acúmulo de energia. Ora, para que não nos cansemos espiritualmente, torna-se mister que nos alimentemos da Palavra de Deus e busquemos “oxigênio” mediante a oração e a busca da presença de Deus. Assim fazendo, ao invés de desprezarmos as coisas de Deus e dizermos que há “canseira” em servir a Deus (Ml.1:13), teremos renovadas nossas esperanças no Senhor e não nos cansaremos, nem nos fatigaremos (Is.40:29-31).

Mesmo sendo Davi à frente das tropas, Israel foi vitorioso em mais três batalhas contra os filisteus, em cada uma delas morrendo um dos filhos de Golias. Na primeira, Sibecai feriu a Safe ou Sipai (II Sm.21:18; I Cr.20:4). Na segunda, Jônatas, sobrinho de Davi, em Gate, feriu e matou a um outro filho de Golias, cujo nome não é mencionado, mas que tinha grande estatura, tendo seis dedos em cada mão e em cada pé, que também injuriara a Israel (II Sm.22:20,21; I Cr.20:6,7). Na terceira, em Gobe, El-Hanã feriu e matou “Golias Júnior” (II Sm.21:19; I Cr.20:5).

Os filisteus foram derrotados e a descendência de Golias, extirpada da face da Terra. Davi percebia, assim, que Deus continuava a lhe guardar e proteger, como a Israel, como também que não nos deixa, jamais, com uma vitória incompleta diante do inimigo. Deus honrava, assim, a fé de Davi manifestada no início de sua carreira militar, encerrando-a com a total destruição daquele que insultara o povo de Israel. Uma linda figura da vitória final que o Senhor Jesus dará à Igreja, quando lançar o diabo e seus anjos no lago de fogo e enxofre, que já está preparado para eles (Mt.25:41).

Assim como Davi havia profetizado anos antes, quando enfrentou Golias, o Senhor entregou nas mãos de Israel os filisteus, derrotando-os de modo completo. Tanto assim é que, após esta guerra, não há mais relato bíblico de guerra entre israelitas e filisteus, pois os filisteus nunca mais recobraram força diante de Israel. Davi aqui prefigura o Cristo, diante do qual podemos cantar a vitória sobre o diabo e seus anjos, visto que o príncipe deste mundo já está julgado (Jo.16:11). No entanto, não esqueçamos: ainda não se encerraram as quatro últimas batalhas entre Israel e os filisteus. Precisamos continuar a lutar, sem descanso, até o instante em que atingiremos a glorificação.

Terminada esta guerra contra os filisteus, segundo Reese, Davi compôs o Salmo 36, onde Davi nos mostra a maldade que há nos ímpios, que maquinam o mal na sua cama e sempre fazem o que não é bom (Sl.36:1-3). Davi mostra ter bem aprendido uma lição a respeito desta guerra: a de que o inimigo, além de não descansar de lutar contra o povo de Deus, nunca quer nada bom. Seu desígnio sempre é mau e, por isso, jamais podemos achar que alguma coisa que o inimigo ofereça tenha “seu lado bom”. Deus até pode trazer algo de bom naquilo que é perpetrado pelo inimigo, mas este “bem” virá da parte de Deus, jamais da parte do inimigo, cujo fim único e exclusivo é matar, roubar e destruir (Jo.10:10). Não nos iludamos: o diabo não é bom.

Mas, enquanto o ímpio é mau e sua malícia imensa, Davi reconhece que Deus é misericordioso, justo e fiel, o responsável pela conservação de todas as criaturas na face da Terra. Não há, portanto, melhor lugar para se estar senão à sombra das asas do Senhor, ou seja, debaixo da Sua proteção, pois só em Deus encontramos o manancial da vida e a luz. Devemos pedir, pois, que venha esta misericórdia divina sobre nós e não aquilo que planejam e arquitetam os ímpios (Sl.36:5-12).

A Exelência na Pedagogia Cristã

Por Francikley Vito
Será que é possível alcançar a excelência na pedagogia cristã? Responder a esta pergunta tem sido uma tarefa cada vez mais difícil. Temos nos esforçado para ensinar aos outros aquilo que é possível saber a respeito de Deus, e fazemos isso por meio de argumentos cada vez mais lógicos e melhores fundamentados, e isso é louvável.

Exercitamos assim a chamada pedagogia cristã, isto é, ensinar aos outros as verdades da fé de maneira simples e eficaz. É este o papel primordial do educador cristão. Educar, no sentido mais amplo, é usado aqui como sinônimo de guiar, conduzir a determinado alvo ou fim.

Contudo, não devemos nos esquecer, como cristãos que somos, que existe “um caminho mais excelente” – o amor [1]. Pois “o amor é a força de Deus e a força de todas as pessoas aliadas a Deus”[2]. É esse o caminho que devemos trilhar.
De maneira mais eloquente, poderíamos usar as palavras do teólogo F.F. Bruce quando declara que

“O amor é um incentivo para fazer a vontade de Deus mais forte do que regulamentos legais e medo da condenação jamais poderiam ser [...] onde o amor é a força propulsora, não há nenhuma sensação de pressão, conflito ou imposição para fazer o que é certo; a pessoa que é impelida pelo amor de Jesus, e capacitado pelo Espírito, faz a vontade de Deus, de coração.”[3]

O ensino cristão não deve ser apenas um exercício de retórica, mas, antes e acima de tudo, um exercício de amor a Deus, a sua Palavra e a sua Igreja. Lembremo-nos de que “as armas da nossa milícia não são carnais, mais poderosas em Deus” [4].
Devemos, portanto, usar a técnica e amar as pessoas, e não o contrário!

Notas
[1] I Co 12.31; cap.13.
[2] BÍBLIA Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990, p. 1474 (nota).
[3] BRUCE, F.F. Paulo, o apóstolo da graça: sua vida cartas e teologia. São Paulo: Shedd Publicações, 2ª ed. 2003, pp.15,16.
[4] II Co 10.4; cf. Ef 6. 10-18.
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