Davi e os Perigos da Vaidade 1/4

Por Caramuru A. Francisco

Davi, apesar de ser humilde, fraquejou uma vez diante da vaidade que é própria do homem, o que causou grande prejuízo a Israel.

“Então Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar a Israel.” (I Cr.21:1)


INTRODUÇÃO

Estudaremos neste apêndice um outro pecado grave de Davi, qual seja, a numeração do povo, pecado menos conhecido mas que é o único registrado com minúcias por duas vezes no texto sagrado.

Apesar de ser um homem segundo o coração de Deus, Davi deixou-se levar pelo inimigo de nossas almas, dando ouvido aos encantos da vaidade, trazendo grande prejuízo a Israel. Devemos vigiar para que o inimigo, que anda ao nosso derredor (I Pe.5:8), não venha a nos usar para causar estrago no povo de Deus.

I – DAVI ENFRENTA SUA ÚLTIMA GUERRA CONTRA OS FILISTEUS

Davi, após as suas grandes vitórias militares, que expandiram o reino até os limites prometidos por Deus a Abraão, somente voltou a ter problemas militares quando houve a guerra contra os filhos de Amom, guerra que, depois do episódio do “negócio de Urias, o heteu”, foi vencida por Israel, tendo Davi à frente do povo na última batalha (II Sm.12:26-31; I Cr.20).

Esta vitória sobre Amom mostra bem o desgaste sofrido por Davi por causa do “negócio de Urias, o heteu”. Tendo deixado de ir à guerra como era seu dever, Davi precisou da condescendência de Joabe, que, demonstrando lealdade (mas, uma vez mais, conseguindo retirar a autoridade de Davi em relação à sua pessoa), não conquistou Rabá para que não se desse motivo algum para que alguém sombreasse o prestígio e a autoridade de Davi, aguardando que Davi, pessoalmente, viesse e comandasse as tropas na batalha final. Esta iniciativa de Joabe preveniu Davi de ter alguma força opositora no reino, num momento delicado de sua vida, em que havia se desnudado perante o povo de Israel por causa dos pecados cometidos, mas, também, teve uma consequência importante: não permitiu que Davi se ensoberbecesse depois de conquistar praticamente toda a região com a vitória sobre Amom.

Em seguida a esta vitória sobre Amom, houve paz entre Israel e as nações que estavam à sua volta, tanto que os problemas políticos que se seguem são decorrentes de intrigas da própria família real e de ressentimentos do país do que forças externas que ameaçassem os domínios de Davi que, aproveitou deste período de calma, para construir instituições sólidas para o futuro do país, dedicando-se à organização do serviço do templo que seria construído pelo seu sucessor, bem como para a organização da administração, com a instituição de oficiais e de juízes por todas as regiões do país. Davi é o primeiro rei a ter uma espécie de ministério, delegando funções que eram efetivamente exercidas por todo o país (II Sm.8:15-18; I Cr.18:14-17).

As duas rebeliões enfrentadas por Davi nestas lutas intestinas, a revolta de Absalão e a de Seba, fizeram com que o país se enfraquecesse e, como o inimigo nunca descansa, o resultado disto foi o ressurgimento das esperanças dos filisteus em se livrar do jugo dos israelitas. Seria a última guerra que Davi teria contra estes seus maiores inimigos, guerra esta descrita em II Sm.21:15-22 e I Cr.20:4-8, guerra que teve quatro batalhas, em cada uma delas morrendo um dos filhos de Golias de Gate.

Esta última guerra de Davi contra os filisteus traz-nos algumas lições de suma importância. Por primeiro, mostra que um reino dividido não pode subsistir (Mt.12:25; Lc.11:17). As lutas entre Absalão e Davi e, depois, entre Seba e Davi, enfraqueceram Israel e permitiram que os filisteus recobrassem vigor e pleiteassem se livrar do domínio israelita. Os filisteus tinham sido o primeiro povo a ser dominado por Davi e a sua libertação representaria o sinal para que todos os demais povos submetidos igualmente se rebelassem contra Davi.

Na luta contra o mal não é diferente, tanto que Jesus Se referiu à questão do reino dividido precisamente quando se dizia que Ele estaria a expulsar demônios pelo poder demoníaco, ou seja, quando a discussão se travava em termos espirituais. O principal mal ocasionado pela divisão no meio do povo de Deus é, precisamente, o enfraquecimento de todos os partidos diante do inimigo de nossas almas. Quando há espírito faccioso, tem-se caminho aberto para o fracasso espiritual. Como o diabo tem conseguido vencer muitos e muitos crentes, muitas e muitas igrejas locais, lançando mão esta arma poderosíssima: a divisão. Que Deus nos guarde de ocasionarmos ou estimularmos divisões no reino de Deus, pois os que assim procedem não têm o Espírito Santo (Jd.19).

Por segundo, vemos que os filisteus nunca desistiram de lutar contra Israel. Mesmo submetidos e sem condições de, em circunstâncias normais, enfrentar o poderoso exército de Davi, souberam aguardar o momento oportuno para se rebelar. Os filisteus tipificam aqui as hostes espirituais da maldade, que também não se cansam em seu trabalho de lutar contra o povo de Deus (Mt.16:18; Ef.6:10-13; Ap.12:10).

Assim que viram que tinham uma oportunidade para se libertar de Israel, depois que os israelitas haviam enfrentado duas rebeliões internas que os haviam enfraquecido, os filisteus tentam se livrar do domínio israelita. A narrativa, aliás, deixa-nos entrever que os filisteus prepararam durante muito tempo esta revolta. Não é à toa que quatro filhos de Golias tenham estado à frente de cada uma das batalhas desta última guerra: era toda uma geração que havia crescido tendo ódio de Davi que se preparara para desfazer todo o opróbrio que o rei de Israel havia feito contra eles.

Ao falar da batalha espiritual, o apóstolo Paulo faz questão de nos lembrar que devemos enfrentar as “astutas ciladas do diabo”. Escrevendo em outra passagem, o apóstolo diz que não ignorava os “ardis do diabo” (II Co.2:11). Jamais devemos subestimar o adversário de nossas almas, que planeja, e muito bem, tudo quanto faz para nos derrubar na vida espiritual. Nada é de improviso, nada é sem prévio preparo. Temos de nos fortalecer no Senhor e na força do Seu poder para podermos sair vitoriosos destas investidas adredemente arquitetadas pela “antiga serpente” (Ap.12:9), que prossegue sendo “a mais astuta de todas as alimárias do campo que o Senhor Deus tinha feito” (Gn.3:1).

Por terceiro, que jamais podemos nos cansar nesta luta contra o mal. As Escrituras dizem que, no meio da peleja, ainda na primeira batalha desta guerra, tanto Davi lutou que se cansou (II Sm.21;15). Este cansaço de Davi, que já tinha idade considerável, quase lhe foi fatal. Isbi-Benobe, um dos filhos do gigante, tentou ferir Davi e teria conseguido se não tivesse vindo em ajuda ao rei o “valente” Abisai, irmão de Joabe, que feriu e matou o filisteu. Diante desta circunstância, os homens de Davi não mais permitiram que Davi fosse ao campo de batalha, tendo, assim, se encerrado a carreira militar do rei (II Sm.21:16,17).

Mais uma vez, o Senhor mostrava que estava cuidando de Davi e protegendo a sua vida, mas o rei sentia, agora, o peso de sua idade e a novidade de não ter mais condições de guerrear. Tudo tem o seu tempo em nossas vidas (Ec.3:1) e Davi, ao perceber que não mais tinha como lutar, resignadamente, abandonou a vida militar, contentando-se apenas em reinar. O Senhor mostrava-lhe uma nova limitação, para que jamais se esquecesse que, apesar de todo seu poder, era apenas um homem. Temos consciência de nossas limitações?

Não podemos nos cansar na jornada espiritual. O cansaço é fatal. Se Deus não nos proteger e nos enviar um “Abisai” para ferir e matar o adversário, seremos tragados. Mantenhamo-nos em forma espiritual, para que o cansaço não tome conta de nós. O que devemos manter para manter esta “forma espiritual”? Diz o mesmo apóstolo Paulo, que nos ensinou a se revestir da armadura de Deus: “orando em todo o tempo com toda a oração e súplica no Espírito, e vigiando nisto com toda a perseverança e súplica por todos os santos” (Ef.6:18).

O cansaço, dizem os estudiosos, é um estado em que não se consegue mais energia para que se fazer um esforço, sendo decorrência da falta de alimentação ou da presença de alguma enfermidade que não permite o acúmulo de energia. Ora, para que não nos cansemos espiritualmente, torna-se mister que nos alimentemos da Palavra de Deus e busquemos “oxigênio” mediante a oração e a busca da presença de Deus. Assim fazendo, ao invés de desprezarmos as coisas de Deus e dizermos que há “canseira” em servir a Deus (Ml.1:13), teremos renovadas nossas esperanças no Senhor e não nos cansaremos, nem nos fatigaremos (Is.40:29-31).

Mesmo sendo Davi à frente das tropas, Israel foi vitorioso em mais três batalhas contra os filisteus, em cada uma delas morrendo um dos filhos de Golias. Na primeira, Sibecai feriu a Safe ou Sipai (II Sm.21:18; I Cr.20:4). Na segunda, Jônatas, sobrinho de Davi, em Gate, feriu e matou a um outro filho de Golias, cujo nome não é mencionado, mas que tinha grande estatura, tendo seis dedos em cada mão e em cada pé, que também injuriara a Israel (II Sm.22:20,21; I Cr.20:6,7). Na terceira, em Gobe, El-Hanã feriu e matou “Golias Júnior” (II Sm.21:19; I Cr.20:5).

Os filisteus foram derrotados e a descendência de Golias, extirpada da face da Terra. Davi percebia, assim, que Deus continuava a lhe guardar e proteger, como a Israel, como também que não nos deixa, jamais, com uma vitória incompleta diante do inimigo. Deus honrava, assim, a fé de Davi manifestada no início de sua carreira militar, encerrando-a com a total destruição daquele que insultara o povo de Israel. Uma linda figura da vitória final que o Senhor Jesus dará à Igreja, quando lançar o diabo e seus anjos no lago de fogo e enxofre, que já está preparado para eles (Mt.25:41).

Assim como Davi havia profetizado anos antes, quando enfrentou Golias, o Senhor entregou nas mãos de Israel os filisteus, derrotando-os de modo completo. Tanto assim é que, após esta guerra, não há mais relato bíblico de guerra entre israelitas e filisteus, pois os filisteus nunca mais recobraram força diante de Israel. Davi aqui prefigura o Cristo, diante do qual podemos cantar a vitória sobre o diabo e seus anjos, visto que o príncipe deste mundo já está julgado (Jo.16:11). No entanto, não esqueçamos: ainda não se encerraram as quatro últimas batalhas entre Israel e os filisteus. Precisamos continuar a lutar, sem descanso, até o instante em que atingiremos a glorificação.

Terminada esta guerra contra os filisteus, segundo Reese, Davi compôs o Salmo 36, onde Davi nos mostra a maldade que há nos ímpios, que maquinam o mal na sua cama e sempre fazem o que não é bom (Sl.36:1-3). Davi mostra ter bem aprendido uma lição a respeito desta guerra: a de que o inimigo, além de não descansar de lutar contra o povo de Deus, nunca quer nada bom. Seu desígnio sempre é mau e, por isso, jamais podemos achar que alguma coisa que o inimigo ofereça tenha “seu lado bom”. Deus até pode trazer algo de bom naquilo que é perpetrado pelo inimigo, mas este “bem” virá da parte de Deus, jamais da parte do inimigo, cujo fim único e exclusivo é matar, roubar e destruir (Jo.10:10). Não nos iludamos: o diabo não é bom.

Mas, enquanto o ímpio é mau e sua malícia imensa, Davi reconhece que Deus é misericordioso, justo e fiel, o responsável pela conservação de todas as criaturas na face da Terra. Não há, portanto, melhor lugar para se estar senão à sombra das asas do Senhor, ou seja, debaixo da Sua proteção, pois só em Deus encontramos o manancial da vida e a luz. Devemos pedir, pois, que venha esta misericórdia divina sobre nós e não aquilo que planejam e arquitetam os ímpios (Sl.36:5-12).

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