Davi e os Perigos da Vaidade 4/4

Por Caramuru A. Francisco

IV – A INTERCESSÃO DE DAVI PELO POVO E O SACRIFÍCIO QUE APLACA A IRA DE DEUS

Veio, pois, a peste sobre o povo, tendo morrido setenta mil homens (II Sm.24:15; I Cr.21:14). Até o tempo determinado, morreu toda esta gente e, então, o Senhor mandou que um anjo destruísse Jerusalém. Quando o ser celestial estava para realizar a operação, o Senhor não o fez, em virtude da intercessão de Davi. Quando Davi pediu a penalidade, clamou pela misericórdia do Senhor, pediu que o Senhor usasse da Sua misericórdia no tratamento com o povo. Por esta oração intercessória do rei, no momento mesmo em que escolhera a penalidade da peste como punição pelo recenseamento, o Senhor não determinou a destruição do povo.

Temos aqui uma demonstração clara de que os juízos de Deus são condicionais ao comportamento do homem, como bem explana a respeito o profeta Jeremias em Jr.18:7-10. Havendo sincero arrependimento por parte do povo, contrição e quebrantamento de coração, o Senhor não resiste a tais manifestações humanas e usa da Sua misericórdia (Sl.51:17; Is.57:15). A oração intercessória de Davi teve este efeito, porquanto Davi havia se arrependido do mal que fizera e para o for incitado em virtude do pecado do próprio povo em relação a ele mesmo.

É interessante vermos que, assim como Davi, logo pela manhã, havia recebido a visita do profeta Gade, no dia seguinte à confissão de seu pecado, também estava de manhã acordado e acompanhando o que se passava em Jerusalém. Davi não era um homem ocioso, mas alguém que, logo cedo, estava já em plena atividade e, o que se mostra mais importante, atividade relacionada com o culto a Deus, com a adoração ao Senhor. De manhã, entrevistou-se num dia com o profeta; no outro, estava em estado espiritual tão elevado que o Senhor lhe deu a visão do anjo destruidor entre a terra e o céu com a espada desembainhada na sua mão estendida contra Jerusalém (II Sm.24:16; I Cr.21:16).

Como têm sido as nossas manhãs? Como esta a nossa vida devocional com Deus? Será que temos estado com o profeta (isto é, com a Palavra de Deus, que é a maior de todas as profecias)? Será que temos estado num ambiente espiritual que possamos ter visões vindas diretamente do Senhor? Será que nossa visão deste mundo é a da ira de Deus permanecendo sobre todo aquele que não crê que Jesus é o único Senhor e Salvador do mundo e que tal visão nos impele a clamar a Deus para sermos instrumentos para o anúncio da salvação da humanidade na pessoa de Jesus Cristo?

Ao ter a visão do anjo destruidor, Davi outra reação não teve senão pedir ao Senhor que a culpa pelo recenseamento caísse sobre ele e não sobre o povo. Havia sido ele quem havia contado o povo, não a população que padecia pelo erro cometido pelo rei. Davi chama ao povo de “ovelhas” e pede que o castigo caísse sobre ele e sobre a sua casa, não mais se castigando o povo (II Sm.24:17; I Cr.21:17).

Davi chega ao ápice de sua oração intercessória. Já havia pedido a misericórdia do Senhor sobre o povo quando da escolha da punição e, não resistindo ao sofrimento do povo, tendo compaixão por ele, como verdadeiro pastor, pede para que o Senhor cessasse o castigo sobre o povo e punisse a ele e a sua casa. Repetia, assim, o mesmo gesto de Moisés que pediu que Deus riscasse seu nome do livro da vida, caso não favorecesse o povo de Israel (Ex.31:31,32).

Davi aqui prefigura o seu descendente, Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que tomou sobre si o nosso castigo e, em lugar dele, nos deu a paz (Is.53:5). O pedido de Davi não foi feito apenas em favor de Israel, mas de todo o povo de Deus, pois, efetivamente, sobre a casa de Davi, sobre o Senhor Jesus recaiu o pecado não só dos israelitas do tempo de Davi, mas os pecados do próprio Davi, enfim, os pecados de todo o mundo (I Jo.2:2). Nunca devemos nos esquecer que, se vida espiritual temos, isto se deve ao sacrifício de Jesus no Calvário, ao fato de Ele ter tomado sobre Si os nossos pecados. Como diz o pastor e poeta sacro José Teixeira de Lima: “Meus pecados levou, na cruz onde morreu, o sublime e meigo Jesus; os desprezos sofreu, a minh’alma salvou e mudou minhas trevas em luz” (refrão do hino 484 da Harpa Cristã).

- O verdadeiro líder é aquele que sente compaixão pelos seus liderados. Davi sentiu o sofrimento daqueles que morriam com a peste e pediu que a peste recaísse sobre ele e sobre sua casa, visto que ele havia numerado o povo. Sabia, pelo discernimento espiritual, que Deus não estava sendo injusto ao matar o povo, pois fora Israel quem pecara ao se rebelar contra o Senhor, quebrando o pacto com Davi e, por duas oportunidades, tendo ficado ao lado dos que queriam apeá-lo do poder, mas o próprio Davi, apesar disto tudo, não pôde suportar aquela cena de sofrimento e pediu que pagasse, em lugar do povo, pelo pecado, já que fora ele o móvel pelo qual a ira de Deus se manifestara sobre Israel.

Jesus também sentiu compaixão pelos homens e nós, como integrantes de Seu corpo, também devemos ter este mesmo sentimento. Entretanto, nos dias hodiernos, muitos cuidam tão somente dos seus interesses, não dos de Cristo Jesus (Fp.2:21), negando, assim, o ministério que receberam da parte do Senhor. Davi viu o povo não como alguém que estava sofrendo uma justa punição divina, mas como “ovelhas do pasto do Senhor” (Sl.100:3), condição que assumiram não por seus méritos, mas pela misericórdia do Senhor. Como seríamos diferentes em nossos relacionamentos com os irmãos se sempre nos lembrássemos desta verdade bíblica.

Deus ouviu o clamor de Davi e mandou que o profeta Gade levasse a ele uma mensagem: a de que ele deveria levantar um altar ao Senhor na eira de Araúna (ou Ornã), o jebuseu, precisamente onde se encontrava o anjo visto por Davi. Com este sacrifício, Deus aplacaria a Sua ira sobre o povo de Israel.

Por que o anjo do Senhor parou justamente na eira de Araúna (ou Ornã), o jebuseu? Porque era o único pedaço de Jerusalém que ainda estava nas mãos dos jebuseus, que ainda não tinha sido conquistado pelo povo de Israel. Pelo que se verifica do texto sagrado, Araúna e Ornã tinham um bom relacionamento, não se sabendo porque, mas o fato é que aquela área continuava fora do controle de Davi e de Israel. Jerusalém tinha sido escolhida pelo Senhor para ser o lugar da Sua presença e, precisamente, o local que o Senhor havia escolhido para a construção do templo continuava, imperceptível, em poder de um incircunciso, de alguém que não pertencia ao povo de Israel.

Deus permitiu que Satanás incitasse Davi e que houvesse o cometimento do pecado não só para que a justiça se fizesse sobre Israel, mas, também, para que o último resquício jebuseu fosse terminado em Jerusalém. Ainda havia uma quase que imperceptível “escória” na pureza de Jerusalém: a eira de Araúna (ou Ornã). Ao tentar destruir todo o povo, o diabo perde o obstáculo que se mantinha para que a glória do Senhor viesse a Jerusalém no templo.

Qual é a nossa eira de Araúna (ou Ornã), o jebuseu? Qual é aquele imperceptível ponto de nossa vida que ainda não se submeteu ao senhorio de Deus, que ainda resiste a uma vida espiritual abundante que tem se desenvolvido em nossa existência terrena? Retiremo-la antes que a peste venha e nos exija um sacrifício para a sua retirada.

Davi, imediatamente, vai ao encontro de Araúna (ou Ornã) e diz a ele que deveria construir um altar em sua propriedade e fazer sacrifícios para que a peste cessasse. Araúna quis dar a propriedade para Davi, mas o rei não aceitou, dizendo que deveria pagar o preço de mercado por ela, pois se tratava de um sacrifício, do pagamento de um preço de redenção do povo. Comprou Davi a área por cinquenta siclos de prata (ou seiscentos siclos de ouro), edificou ali um altar e se ofereceu sacrifício, sacrifício que foi aceito por Deus, que fez cair fogo do céu, cessando, portanto, a praga sobre Israel (II Sm.24:20-25; I Cr.21:18-26).

Deus escolheu aquele lugar como local de sacrifício, tanto que, após a compra da área, o anjo meteu a sua espada na bainha. Por isso, Davi sacrificou naquele lugar, diante da expressa ordem de Deus, confirmada por aquela visão, já que o alto de Gibeão estava distante e Davi tinha receio de ir até lá diante da espada do anjo desembainhada diante de Jerusalém.

Notamos que Davi era escrupuloso, não aceitava que os sacrifícios se fizessem em qualquer lugar, sendo prudente e observando os mandamentos do Senhor. Somente diante da ordem expressa do Senhor por meio do profeta Gade e pela confirmação da visão, aceitou oferecer sacrifício num terreno que, a princípio, era imundo, já que pertencente a um estrangeiro, não havendo tempo para que fosse devidamente santificado, santificação, aliás, que se operou com a resposta divina que fez descer fogo do céu para mostrar a aceitação do sacrifício.

Seria ali, na eira de Araúna ou Ornã, o jebuseu, agora comprada pelo rei Davi, que haveria de se construir o templo de Jerusalém. O lugar onde a misericórdia de Deus se tinha feito sentir pelo povo de Israel, o lugar onde a ira do Senhor havia sido aplacada pelo sacrifício pago por grande preço por Davi, uma figura do sacrifício do mais alto preço, aquele que tiraria o pecado do mundo, que o Filho de Davi iria efetuar muitos séculos depois, não em Jerusalém, mas fora da cidade, onde se queimavam os animais sacrificados por causa do pecado (Ex.24:14; Hb.13:11,12).

Deus, uma vez mais, perdoava não só Davi como o povo de Israel. Nesta permissão divina, caía a última cidadela jebuseia de Jerusalém e Davi ficava sabendo qual era o lugar em que deveria o templo ser erguido. Justiça e misericórdia caminhavam juntas para que o plano de Deus para a salvação do homem tivesse prosseguimento. Como diz o próprio Davi no Salmo 145: “Justo é o SENHOR em todos os Seus caminhos e santo em todas as Suas obras. Perto está o Senhor de todos os que O invocam, de todos os que O invocam em verdade. Ele cumprirá o desejo dos que O temem; ouvirá o seu clamor e os salvará. O Senhor guarda a todos os que O amam; mas todos os ímpios serão destruídos.” (Sl.145:17-20).

Não temos dúvida em afirmar que, com este episódio, Deus deu estabilidade definitiva a Davi, livrando-o não só do inimigo de todos nós, o diabo, como também daqueles que lhe eram ocultos no meio do povo e que foram punidos com a morte pela peste. E, como se isto fosse pouco, libertou Israel da última cidadela jebuseia de Jerusalém, deixando o terreno livre para a construção do templo de Jerusalém, onde faria repousar a Sua glória até a vinda do Filho. Este é o nosso Deus!

Segundo Reese, após este episódio, Davi compôs o Salmo 30, salmo composto para ser entoado quando da dedicação do templo, o que se faria apenas com Salomão. O fato de Davi compor este salmo nesta oportunidade mostra-nos, claramente, que Davi compreendeu, pelo Espírito de Deus, que tudo o que ocorrera tinha o propósito de lhe mostrar onde deveria ser construído o templo. Já resolvida a questão da localização, bastava a Davi apenas elaborar o salmo que deveria ser cantado no dia da dedicação da casa do Senhor.

Neste salmo, Davi deixa marcada a própria expressão da misericórdia divina no local escolhido para ser o templo, relembrando, assim, as circunstâncias em que se descobriu ser aquele o lugar para a edificação da casa do Senhor. Davi agradecesse a Deus por ter o responsável por sua exaltação, mostrando-se, assim, completamente arrependido do sentimento de orgulho que motivara o recenseamento. Lembra que o Senhor o havia sarado e ao povo, como também preservado os santos, reconhecendo, assim, que os mortos pela peste eram os ímpios que habitavam no meio de Israel, quase que imperceptivelmente. A ira de Deus havia durado um curto momento, mas no Seu favor estava a vida (Slo.30:1-4).

Neste salmo, Davi reconhece que o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã, como também de nada vale a vaidade humana, pois todos os homens devem descer à cova, motivo por que devemos, enquanto vivermos, louvar ao Senhor, não nos calarmos e que toda a glória humana seja tributada única e exclusivamente ao Senhor (Sl.30:5-12).

Como seria bom que todos os salvos em Cristo Jesus, notadamente aqueles que estão à frente do povo de Deus, meditassem profundamente neste salmo! Davi desdenha da sua vã ilusão de prosperidade (Sl.30:6) e sabe que de nada vale ter uma “memória”, uma “fama” para as gerações seguintes, já que na cova não pode anunciar a verdade. Preferia, antes, em vida, clamar pela misericórdia e piedade divinas e fazer com que fosse um instrumento para a glória do nome do Senhor. Muitos de nossos líderes estão se engalfinhando para passar para a posteridade, para serem reconhecidos como “grandes homens de Deus”, através dos monumentos e megatemplos que estão a construir, por intermédio de impérios empresarial-eclesiásticos que os façam ser famosos e ricos, esquecidos de que o mais importante é fazer com que o nome do Senhor seja glorificado. Davi percebeu isto a tempo, conseguindo que a peste gerada por sua soberba cessasse no meio do povo. Será que assistiremos, ainda, à morte de milhares e milhares de vítimas dizimadas por causa da soberba de alguns? Que Deus nos guarde!

- Terminava com a misericórdia divina mais um episódio lamentável da vida espiritual de Davi. O rei, porém, “dera a volta por cima”, obtendo o perdão divino e poderia, doravante, tudo organizar para que seu filho Salomão levasse a efeito a construção do templo e garantisse o culto ao Senhor em Israel. Será que podemos fazer o mesmo?

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