O Culto Pentecostal Que Não Deu Certo 1/4

Por Caramuru A. Francisco
Texto bíblico - I Cr. 13:1-14

O presente texto bíblico é um dos trechos que mais me intrigam em todas as Escrituras Sagradas. Com efeito, ao lê-lo, temos a nítida impressão de que Deus foi em demasiado cruel para com um simples e bem-intencionado homem, chamado Uzá, sem se falar no estrago que
fez ao rei Davi precisamente quando estava ele, em total consideração e zelo para com o Senhor e, precisamente, com a mais expressiva mostra da presença de Deus no meio do povo de Israel, a saber, a arca do concerto.

Todavia, como veremos na presente meditação, tal impressão é somente uma aparência, um reflexo dos conceitos humanos e da lógica que, muitas vezes, permeia a nossa mente quando estamos a estudar as Escrituras, conduta que deve ser, ao máximo, evitada, porquanto, como afirma o profeta, " assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos" (Is.55:9).
Revela este trecho da palavra do Senhor que Davi, o grande rei de Israel, o conquistador , o vencedor de tantas batalhas, continuava a ser o mesmo homem segundo o coração de Deus que, desde sua juventude, havia agradado ao Senhor.

Mesmo diante de tamanho êxito em seu reinado, Davi não se esquecia dos seus compromissos com o Senhor e estava incomodado com a situação em que se encontrava a arca do concerto do Senhor.
Com efeito, a arca, que era o símbolo da presença de Deus no meio do povo de Israel, estava esquecida, abandonada, desprezada em Quiriate-Jearim, cidade da tribo de Judá.
Desde os tempos do juiz Eli, quando o povo havia levado, imprudentemente a arca para a guerra, pensando que ela, por si só, pudesse trazer a vitória para o povo, ocasião em que foi a arca tomada pelos filisteus e depois devolvida após imenso sofrimento que sua presença causara entre eles, tradicionais inimigos dos judeus, a arca fora deixada num segundo plano para os israelitas.

Era ela, sem dúvida, a lembrança de que o povo deveria seguir fielmente os caminhos do Senhor, que o Senhor não tinha compromisso senão com a Sua Palavra, que não era um amuleto, um ícone que tivesse força por si só, mas tão somente um símbolo do compromisso que Israel e Deus haviam feito ainda no deserto.
A arca era um incömodo para o povo. Era a demonstração clarevidente de que Deus é fiel a Sua Palavra e não ao homem, que Deus é o mesmo, não muda, nEle não há sombra nem mudança de variação e que o home deve estar sempre, persistente e perserverantemente conforme à Sua vontade para que possa ter vitória.
Um tal símbolo não teria, mesmo, a popularidade ou um lugar de proeminência no meio de um povo que vivia de aparência e que se esforçava em nela viver.

Aliás, não tinha sido este povo quem escolhera a Saul pela sua aparência, por ser um homem mais alto do que qualquer outro de Israel ?
Não era este povo quem decide se submeter a Davi somente quando verifica ser ele o que venceu o campeão Golias e, mais do que isto, depois da morte de Saul, a quem ajudaram a perseguir Davi, mesmo depois das vitórias que este trouxe a Israel ?
Sim, um povo como este não iria dar lugar algum de proeminência a um objeto tão incômodo, que relembrasse a responsabilidade e, mais, as falhas e o superficialismo de um povo obstinado como era Israel.
Daí porque, nos dias de Saul, ninguém havia se importado em buscar a arca, em buscar para um lugar devido a arca do concerto do Senhor.

A situação de desprezo era tanta que a arca nem ao menos se encontrava no tabernáculo, na tenda da congregação.
Como podemos bem verificar, neste tempo, a tenda da congregação, o tabernáculo se encontrava edificado em Nobe, conforme I Sm.21, enquanto que a arca permanecia em Quiriate-Jearim, para onde fora levada após ter sido devolvida pelos filisteus, ainda nos tempos de Eli.
Entretanto, esta situação de indiferença, de desprezo para com a aliança com Deus não iria perdurar mais.
Assim que confirmado no reino, Davi revela que continuava a ser aquele jovem segundo o coração de Deus e, como primeira medida de seu promissor reino, chama a todos os anciãos e os capitães para chamá-los à responsabilidade e os conscientizar da necessidade de se trazer a arca do concerto para Jerusalém, para a capital, ou seja, da necessidade de retomar o compromisso do povo para com Deus, de tornar a pôr a aliança com Deus como o centro das preocupações e da vida nacional.

Davi não fez uma imposição, agindo como se fosse simplesmente o rei de Israel, mas procurou demonstrar a todo o povo que lhes era necessário dar o devido lugar ao Senhor em sua vida cotidiana.
Por isso Davi era um homem segundo o coração de Deus: não tinha o propósito de fazer valer seu poder, sua posição em detrimento da vontade alheia, mas queria levar o povo a se decidir, por sua própria vontade, por seu livre-arbítrio, a render a Deus o primeiro lugar em suas vidas, a cumprir o primeiro mandamento da lei, que era precisamente o de amar a Deus sobre todas as coisas.
Daí porque Davi convocou o conselho dos capitães e anciãos, com o fim de persuadi-los da necessidade de serem cumpridores da lei do Senhor. É esta atitude de persuasão, é esta disposição de mostrar a Deus como o necessário centro de nossas vidas que Deus exige, hodiernamente, de Sua Igreja, cuja tarefa primordial é, precisamente, esta atividade.

Propôs, então, o piedoso rei que se juntassem os sacerdotes e os levitas para que, juntamente com o exército, trouxessem a arca de Quiriate-Jearim para Jerusalém, propositura que foi aceita unanimemente, de plano, pois o povo achou que o negócio era reto, ou seja, era direito.
Começa aqui a tragédia em que se converteu esta ação.

O povo aceitou a proposta do rei, mas porque lhe parecia reta, porque lhe parecia direita aos seus próprios olhos.
O povo não demonstrava arrependimento por ter deixado a arca abandonada e desprezada numa pequena cidade da tribo de Judá, longe até dos demais artefatos da tenda da congregação.
O povo também não estava lamentando a atitude de ter deixado de buscar a arca, ou seja, de não ter dado o devido valor à aliança com Deus e ao pacto estabelecido entre Deus e Israel nos dias de Saul, mas porque achou justo aos seus próprios olhos atender ao desejo do rei, decidiu iniciar esta empresa.
Quais são os motivos pelos quais estamos aparentemente servindo a Deus ?
Se estamos a executar tarefas e empresas, às vezes penosas e tão meritórias, como era o de levar a arca do concerto para Jerusalém, apenas para saciar nosso "ego", apenas para satisfazer a nossa justiça, apenas para nos fazer sentir, ainda mais esta vez a nossa auto-suficiência, saibamos que isto somente trará a um fracasso, isto apenas servirá para gasto de nossos recursos, de nosso tempo, sem que haja qualquer resultado efetivo na obra de Deus.

Davi estava imbuído de um desejo sincero e agradável a Deus, não tendo querido, ainda em conformidade com a vontade do Senhor, impô-lo ao povo, mas tendo querido repartir a consciência da importância desta medida com seus capitães e, posteriormente, com os sacerdotes e levitas, mas, lamentavelmente, obtivera um consenso que não se enquadrava nas regras e diretrizes desejadas: o povo concordara, sim, em trazer a arca para Jerusalém com toda pompa e circunstância, mas porque isto lhe parecia justo, reto, aos seus próprios olhos, porque isto lhes fazia sentir corretos, santos. Porque isto lhes agradava, não porque iria agradar a Deus.
Triste coisa é para o cristão quando seus passos passam a ser dados para seu próprio auto-agrado, para satisfação de sua auto-suficiência e não para o Senhor. Deste momento para diante, o cristão não terá outro destino senão a tragédia, a morte, o fracasso. Que Deus nos guarde de assim agirmos e que nossa prática seja conforme a oração que o Senhor nos ensinou e que pös em prática no Getsemane: " Que a Tua vontade se faça assim na terra como no céu".
Tenhamos a visão de Deus e não a nossa própria visão. É por isso que o apóstolo Paulo nos alerta para que andemos por fé e não por vista (II Co.5:7), precisamente porque a fé é dom de Deus (Ef.2:8), enquanto que os nossos olhos, estes sim, são o nosso "eu" (Mt.7:3, Lc.6:41, Mc.10:47).

Faz-se mister que não vejamos com os nossos olhos, ou seja, que não nos deixemos levar pela nossa lógica, pelos nossos preconceitos, pela nossa cultura. As coisas espirituais se discernem espiritualmente e não podemos tentar entender estas coisas pelo caminho natural, pela cultura, pelos preconceitos, pela lógica humana.
É, realmente, um dos grandes males, senao o maior mal na vida cristã do dia-a-dia o impregnar da mente natural nas coisas espirituais.
Devemos servir a Deus com a mente de Cristo, porque só ela pode fazer-nos discernir as coisas espirituais (I Co.2:12-16).
Quando passamos a nos utilizar de coisas naturais, da mente natural para falarmos das coisas espirituais, enveredamo-nos pelo mesmo caminho que o povo de Israel estava a trilhar nesta passagem bíblica.
Passamos a querer conformar a Palavra de Deus, que é a revelação de Deus aos homens, aos nossos conceitos, aos nossos parâmetros e, a partir de então, iniciamos um desvio que nos conduzirá, certamente, à morte espiritual, à separação inevitável do Senhor.
Não há outro destino para quem quiser conformar Deus a seus conceitos e a seus parâmetros. Tal atitude revela apenas uma auto-deificação, que outra conseqüência terá senão o distanciamento do Espírito Santo, cuja única função é a glorificação de Cristo e de nenhum outro ser (cf. Jo.16:14).
Este povo, entretanto, não quis reconhecer seus erros, seus pecados, sua inobservância do primeiro mandamento da Lei, mas entendeu que o gesto de trazer a arca do concerto para Jerusalém seria uma atitude simpática, demonstradora ao povo de uma profunda devoção e, sobretudo, estar-se-ia agradando o rei, que agora estava no mais completo controle da situação política do reino.
Mas o Senhor Deus de Israel conhecia o profundo dos corações, sabia das reais intenções de Seu povo e continuava a observar os seus gestos e seus preparativos, certo de que, ao contrário do rei, que não tinha tal discernimento, muito breve Deus mostraria a verdade, que era bem diferente do que as aparências indicavam.

Tomada a decisão de trazer a arca para Jerusalém, determinou Davi que todo o povo se ajuntasse em Quiriate-Jearim (cujo nome antigo era Baalá-Js.15:9), precisamente o local onde havia sido a arca deixada após a devolução dos filisteus (I Sm.7:1) e ali deixada por aproximadamente 100 anos, já que Samuel renovou o pacto com o povo quando ela ali estava já há 20 anos e Saul reinou 40 anos sobre Israel, sendo que Samuel deve ter governado por 40 anos antes de constituir a Saul.
Este gesto de Davi demonstrava bem as suas intenções : queria que o povo sentisse o drama do desprezo, do abandono, da falta de prioridade para as coisas de Deus a fim de que jamais tornasse a praticar algo semelhante.
É preciso, quando tomamos o propósito de retomar a caminhada com Deus, de irmos até o local onde caímos para dali em diante, cientes de nossos erros, verdadeiramente arrependidos, passarmos a Ter uma vida nova com o Senhor, humildes, reverentes, conscientes de nossos erros passados, para não mais repeti-los. Foi, precisamente, o que o Senhor recomendou à igreja de Éfeso, em sua carta registrada no livro de Apocalipse (Ap.2:5).
Devemos nos lembrar de onde caímos para que, levantados pelo Senhor, prossigamos, arrependidos e perdoados, a nossa caminhada com Deus.
Muitos querem se desviar do local da queda, alegam ter traumas, não ser justo retornaram ali, ser isto um constrangimento, ser esta uma exigência que busca antes humilhar e trazer vergonha ao caído, não havendo nisto qualquer edificação ou propósito, motivo pelo qual relutam em aceitar tal determinação divina.
Contudo, não é com o propósito de trazer vergonha ou constrangimento que o Senhor nos convida, mais do que nos convida, exige que nos lembremos de onde caímos. Trata-se de uma exigência que revela, precisamente, a sinceridade de nossos propósitos, de nossas intenções, de nossa conversão: se nos humilhamos, se aceitamos que erramos e em que erramos, damos a prova indelével de que estamos arrependidos, de que reconhecemos a soberania do Senhor e Sua infinita misericórdia e, portanto, que estamos realmente prontos a reiniciar a caminhada, certos de que nada podemos fazer sem o Senhor.


2 comentários:

  1. Paz a todos!

    Após sete meses, tive o privilégio de ler este maravilhoso artigo. O qual nos convida a rever nossos atos em relação a Deus e a sua palavra. Um chamamento à reflexão entre preferir a Deus ao mundo.
    Ao lê-lo, notifiquei que realmente confirma o que disse o apóstolo Pedro, que a palavra de Deus é como um organismo vivo. Este está em constante dinâmica.

    Célia Lima.

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  2. Professora Célia Lima, a Paz de Cristo. Obrigado pelo seu comentário. Um abraço.

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