O Culto Pentecostal Que não Deu Certo 4/4

Por Caramuru A. Francisco

Parar o ajuntamento e avisar a Davi que se deveriam trazer os varais, cobrir-se a arca e chamar levitas para o transporte ?
De modo algum! Como retirar o brilho e o sucesso do carro novo, obra-prima de suas mãos ? Afinal de contas, a culpa não é do carro, mas, sim, dos bois que não têm capacidade para bem caminhar e do irmão Aiô que não tem competência para guiá-los!
Ajudar a Aiô na direção dos bois, para que consigam um caminho melhor nesta eira, cujo grau de dificuldade é mínimo ?
De jeito nenhum! Uzá já havia feito a sua parte, que era ter fabricado o carro novo e agora, enquanto acompanhava a arca, enquanto se notabilizava como a pessoa mais próxima de Deus em todo o ajuntamento, que Aiô faça a sua parte e bem conduza os bois que estão a tropeçar.
Mas a arca vai cair, Aiô não está bem conduzindo os bois, o escândalo pode ocorrer, o ajuntamento pode se tornar em tragédia, o carro novo pode não dar conta da sua tarefa, a comodidade e a solução obtidas podem fracassar?

Surge, então, a resposta que solucionaria o dilema e manteria as aparências? Basta que Uzá dê uma pequena ajuda, que segue a arca, que a não deixe tombar, demonstrando toda a sua pureza, todo o seu zelo, toda a sua espiritualidade, todo o seu cuidado.
Mas a arca não pode ser tocada ? Bobagem, pois nem mesmo poderia ter sido colocada a descoberto em um carro novo e o foi, com total aprovação de Deus, tanto que o ajuntamento está alegre, os hinos são entoados com perfeição e a emoção a todos contagia... e a arca foi tocada por Uzá e a verdade se revelou!
Tragédia! Ao tocar a arca, Uzá cai fulminado ao chão. O ajuntamento pára de caminhar. Apesar de toda a confusão que, naturalmente, seguiu-se a este desastre, não fez com que a arca caísse nem que os bois, antes trôpegos, assustassem-se a ponto de causarem estrago à arca do concerto.

O problema não eram os bois, não era a posição da arca, nem mesmo o carro novo. O problema era o homem, o povo de Israel que insistia em servir a Deus de qualquer maneira, segundo a sua própria vontade e desejo.
Deus não se deixou escarnecer e fulminou a Uzá, não um inocente que pagaria pelos erros de todos, mas, indubitavelmente, a pessoa que mais representava o espírito que estava dirigindo aquela festividade.

Certo pastor disse, em uma ocasião, para susto de muitos, que uma das mais extremas formas de Deus falar é através da morte. Quando tudo está a falhar, quando Deus já se utilizou de todos os modos para alertar a Seu povo e não é ouvido, lança mão deste recurso extremo, em que alguém perece para que muitos possam alcançar a vida eternal.
Embora seja palavra dura e, até certo ponto, aterrorizadora, temos de concordar com aquele homem de Deus e a passagem sobre a qual estamos a refletir é um caso concreto desta ação extrema do Senhor.
De nada havia adiantado todo o sofrimento passado por Israel desde a derrota para os filisteus nos tempos de Eli. Cem anos aproximadamente decorreram e o povo permanecia indiferente à presença de Deus em seu meio e até proporcionava uma festividade, que seria para arrependimento e mudança de atitude a este respeito, para reafirmar sua vida desregrada e seu desprezo para com a soberania divina.

Mas Deus não se comove com barulho, com cânticos, com instrumentos, com quantidade de pessoas, não se deixa impressionar por aparências.
Muito pelo contrário, o Senhor é a Verdade e não permite que ela fique oculta por muito tempo nem que o engano prevaleça indefinidamente.
Em especial, na atual dispensação, foi incisivo ao afirmar para a Igreja de que "as portas do inferno não prevalecerão contra ela" o que significa afirmar que a mentira nunca terá guarida nem sucesso no meio do povo de Deus, já que a mentira é algo muito próprio daquele que é mentiroso desde o princípio e que luta contra essa Igreja(Jo.8:44).
Assim, ainda que muitos estejam preocupados em criar carros novos para atrair multidões, saiba que a alegria, os cânticos e a demonstração de espiritualidade poderão, sim, trazer a atenção da mídia, o prestígio entre as autoridades e os políticos, mas nada disso comoverá o coração do Senhor mas, bem ao contrário, fará com que Ele se incumba de trazer à tona a verdade, nada mais do que a verdade.
Toda a alegria, toda a emoção, todos os cânticos, todos os instrumentos, toda a espiritualidade se foi após a manifestação do poder de Deus.

Eis o "culto pentecostal" que não dá certo: aquele em que a Palavra do Senhor é deixada de lado, é substituída pela inovação, pelo barulho, pela emoção carnal. Seu fim não será outro senão o da morte e da tragédia.
Li num comentário deste trecho que a morte de Uzá se deveu tão somente à circunstância de que não havia sacerdócio regular em Israel naqueles dias, que Deus estaria apenas atestando tal circunstância.
É um grande simplismo assim raciocinar-se, sendo este um entendimento bem apropriado para os inovadores, para os auto-suficientes que, ao lerem esta passagem, sintam calafrios em suas veias pelo fato de estarem, assim como Uzá, buscando carros novos que venham a substituir as suas responsabilidades na vida cristã.
Havia, sim, um sacerdócio regular em Israel, instituído que fora por Moisés ainda no deserto, como haviam regras clarevidentes a respeito de como se deveria conduzir a arca. Verdade é que Davi estava a iniciar o processo de alteração do local de culto, empresa que não pôde levar avante e que ficou ao cargo de seu sucessor, seu filho Salomão. Todavia, não há como deixar de ver, neste trecho, a falta de vontade do povo em seguir a lei do Senhor, a insistência em se manter rebelde aos mandamentos de Deus, a razão primeira para que tenha ocorrido a morte de Uzá.
As Escrituras são claras: Uzá morreu ali perante Deus. Era diante de Deus que Uzá estava em falta. Era diante de Deus que aquele ajuntamento se constituía em reunião abominável e desagradável .
Diante do rei e de todos os que ali estavam, Israel estava vivendo um dos seus principais e mais emocionantes instantes de devoção a Deus mas, para o Senhor, nada disso era o que se via, mas uma voluntária, unânime e decidida manifestação de rebeldia, de contrariedade aos mandamentos que deveriam reger o povo de Israel.

O episódio nos evoca a torre de Babel, onde também o povo em unanimidade se dispôs a desafiar a Deus e, tal como no texto que estamos meditando, Deus desceu com providência de juízo, sempre visando manter a humanidade em condições de poder chegar a aceitar o Seu amor.
De imediato, o coração de Davi se encheu de tristeza, pois era um coração conforme o coração de Deus. Davi caiu em si e percebeu que a Deus era desagradável aquele ajuntamento e que, embora suas intenções fossem as melhores possíveis, não se estava na direção de Deus.
Diz o texto sagrado que Davi temeu e se perguntou como deveria levar a arca de Deus para Jerusalém.
Esta é uma atitude de um verdadeiro servo de Deus, que se conscientiza da necessidade de ser guiado pelo Senhor em todos os seus desejos e propósitos.
Davi logo entendeu que aquele ajuntamento não estava de acordo com a vontade do Senhor, embora, para tanto, Deus tivesse de Ter falado pela dura forma da morte.
No entanto, Davi, ainda que de modo tão duro, sensibilizou-se e percebeu que toda aquela parafernália, toda aquela festividade desagradara ao Senhor e que seria necessário que se perquirisse qual o modo do Senhor.
Davi inicia um auto-exame, a fim de que pudesse fazer uma análise introspectiva, uma auto-avaliação, a fim de perceber onde havia errado. ""Lrembra-te de onde caíste", diz o Senhor à igreja de Éfeso, e, então, será possível um real arrependimento e o reinício de uma caminhada na vontade do Senhor.
Esta deve ser, sempre, a conduta do cristão. Pedro, em sua primeira epístola, claramente a isto aduz quando afirma que o crente deve deixar toda a malícia, todo o engano, todos os fingimentos, toda a inveja e todas as murumurações e, aí então, desejar afetuosamente o leite racional, não falsificado, para que possa haver o crescimento espiritual (I Pe.2:1,2).
Para que o crente possa crescer espiritualmente, para se chegar a Deus, mister se faz que nós deixemos o engano, a hipocrisia, o fingimento, que abandonemos o "fermento dos fariseus"e nos apropriemos dos "asmos da sinceridade", reconhecendo nossos erros, nossos percalços e, assim, aceitemos a doutrina sá, o verdadeiro ensinamento do Senhor, para que possamos tornar a ter Cristo formado em nós.
Somente desta forma, afirma Pedro, poderemos oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo (I Pe.2:6).

Não se pode querer agradar a Deus guiando-nos pelos nossos próprios conceitos, pelos nossos próprios parâmetros, pela nossa própria vontade. Enquanto assim agirmos, seremos rebeldes e desobedientes à Palavra do Senhor e nada obteremos do Senhor Jesus senão sua reprovação: "mas, para os rebeldes, a pedra que os edificadores reprovaram, essa foi a principal da esquina, e uma pedra de tropeço e rocha de escândalo para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que foram destinados." (I Pe.2:7b,8).
Pelo que se pode observar, não havia outro caminho para Uzá, que havia desobedecido deliberadamente à Palavra do Senhor e que tropeçara na sua doutrina.
Ao invés do rapaz bem-intencionado, inocente e que foi abruptamente alvo da ira de Deus, como se pode até achar numa primeira leitura apressada do texto, o que vemos é a justa retribuição a um homem que, conhecedor que era da doutrina, deliberadamente dela se aparta e se constitui num dos principais personagens que transtornaram todo o intento do ajuntamento, que era o de trazer de volta ao coração dos israelitas a primazia e soberania de Deus e que o transformara, bem ao contrário, na máxima exaltação da rebeldia e da desobediência.

Há, ainda, muitos Uzás no meio do povo de Deus, homens inescrupulosos, que, com suas inovações, com seu comodismo e pensamentos, altamente atraentes e aparentemente espirituais, transtornam o espírito das reuniões do povo de Deus, desviam totalmente a sua intenção, tornando-os em ajuntamentos altamente desagradáveis ao Senhor.
Entretanto, não nos iludamos, o Senhor é o mesmo e, ainda que estejamos na dispensação da graça, Deus não se deixa escarnecer e, a seu tempo, abrirá a brecha em Uzá, transformando o palco da alegria fácil e carnal em lugar de tristeza e de conscientização de alguns.
Deus não abre roturas em meio ao Seu povo porque tenha prazer na morte do ímpio, ainda que seja ele agente deliberado do inimigo para transtornar a Sua obra e seja da natureza de Deus desfazer as obras do diabo, mas pelo Seu grande amor para com o homem, pois, através desta brecha, que aniquila as astutas ciladas do inimigo, também abre a oportunidade para o arrependimento de todo o povo.

Deus, se de um lado não preserva os lobos vorazes que se infiltram no rebanho, aqueles que deliberadamente passam a seguir o caminho de Caim, que se deixam enganar pelo prêmio de Balaão e, por isso, perecem na contradição de Coré (Jd.11); de outro, abre uma real oportunidade para que muitos temam ao Senhor e, como Davi, perguntem-se como poderão agradar a Deus e, por meio deste gesto de sincero e real arrependimento, alcancem a vida eterna.
Ao entender que não estava agradando a Deus, Davi suspendeu o ajuntamento, desistiu de levar a arca do concerto para Jerusalém e determinou que a arca ficasse na casa de um estrangeiro, o giteu Obede-Edom, numa clara demonstração de que entendera que o povo de Israel não estava em condições de ter a presença de Deus.
Era uma atitude difícil e que poderia gerar inúmeros problemas para Davi: rei recém-confirmado por todas as tribos, seu gesto poderia ser mal interpretado pelos capitães e anciãos, que poderiam se rebelar e até mesmo contestar a autoridade do novo rei.
Entretanto, Davi tinha decidido servir primeiramente a Deus e a ele somente obedecer, custasse o que custasse a sua opção.
Conscientizado pela abertura da brecha em Uzá, imediatamente reconheceu que não estava em condições de ter ao seu lado a presença do Senhor, simbolizada pela arca, nem o povo que ele esta a governar. Colocou a arca na casa de um estrangeiro e passou a procurar como poderia agradar ao Senhor.
O povo, atemorizado que estava com a morte de Uzá, também não se rebelou e aceitou a determinação do rei, aceitando, pela vez primeira, em quase cem anos, que não era um povo santo nem privilegiado, reconhecendo que não era digno da presença do Senhor.
O resultado deste ato de arrependimento, deste gesto de humilhação e reconhecimento de indignidade por Israel e pelo seu rei se fez sentir na casa de Obede-Edom.
O texto sagrado nos diz que Deus abençoou grandemente a Obede-Edom durante os três meses em que a arca esteve em sua casa.

A bênção na casa de Obede-Edom não é explicitada pelas Escrituras Sagradas, mas, certamente, alcançou todos os aspectos de sua vida e de forma bem visível e palpável, para que Israel não tivesse qualquer dúvida de que Deus, ao contrário do que acontecera no trágico ajuntamento, agora, sim, estava a aprovar a conduta e as atitudes tomadas pelo Seu povo.
Veja que paradoxo: num ajuntamento solene, formado só de israelitas, com cantores e instrumentistas, em meio a tanto barulho e pseudo-alegria, Deus não se fez presente senão para causar a morte de Uzá; agora, sem qualquer festa, em meio a temor, na casa de um estrangeiro, Deus demonstra todo Seu agrado, abençoando aquele que hospedava a arca do concerto.
As coisas de Deus são assim mesmo, fogem completamente à lógica humana, como já dissemos há pouco.
` Quando há sinceridade de propósitos, reconhecimento das próprias faltas e desejo ardente de reconciliação, Deus abençoa, nem que seja o gentio, nem que seja o estrangeiro, o alheio aos compromissos com Sua Palavra, se o objetivo [e mostrar ao Seu servo o Seu agrado] e a conformidade com a Sua vontade.

Deus não é um ser que se ausente de nós ou que venha apenas no ferir ou nos trazer juízos, ainda que com propósito de correção e cura, mas um ser que está sempre disposto a dialogar conosco, a nos mostrar o caminho direito que devemos andar, a nos incentivar e estimular a termos uma vida de comunhão com Ele e vida de comunhão é tornar comum tudo aquilo que não só acontece em nossa vida, como também aquilo que Ele tem nos destinado a fazer.
Como temos comunhão com Deus, já não somos alguém, mas somos um com o Senhor e tudo que Ele quer de nós , ele nos faz saber, pois somos um com Ele, assim como tudo que queremos, a ele participamos, vivendo sempre segundo a Sua vontade. Este é o mistério que Jesus revelou em Sua oração sacerdotal: "Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim , e eu em ti/ que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste" (Jo.17:21).
É esta a unidade proposta por Jesus a cada um de nós, uma unidade de propósitos, de desejos, que nós renunciemos a uma vida própria, a uma vontade própria e passemos a desfrutar da vontade de Deus, de um querer único e comum.
Davi percebeu que, daquele modo, não poderia servir a Deus e foi buscar a presença do Senhor, buscar a Sua vontade e, aí, então, descobriu que deveria seguir a Lei, trazer levitas, sacerdotes que, com os varais em seus ombros, conduzissem a arca, assumindo a sua responsabilidade, o esforço que o Senhor requer de cada um que quer segui-lo.
E, ao perceber isto, pôde trazer, com festa realmente espiritual, a arca para Jerusalém.
Que assim também procedamos, que deixemos nossos conceitos, nossas facilidades, nossos parâmetros, que busquemos somente agradar ao Senhor e não às circunstâncias que o mundo nos oferece e, assim, certamente, poderemos fazer um " culto pentecostal" que, ao contrário do de Uzá, dê certo. Amém.

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