De Olho no Voto: A Ação Política do Cristão

Por Caramuru A. Francisco

O cristão, ao aceitar a Cristo, torna-se cidadão dos céus (Ef.3:20; Hb.11:14-16), com direito a morar na santa cidade, na Jerusalém celestial (Ap.21:2). Entretanto, enquanto Jesus não vem, continua vivendo no mundo (Jo.17:11) e, enquanto aqui está, é um cidadão da terra e, como tal, inevitavelmente, acaba se inserindo no contexto político.

Muito se tem falado sobre o crente e a política, havendo desde posições que consideram o envolvimento do cristão com a política como o próprio desvio espiritual até posições que imiscuem, sem qualquer cerimônia, as igrejas locais em embates político-partidários. Nem uma nem outra posição encontram qualquer respaldo bíblico e busquemos ver qual o posicionamento bíblico a respeito do assunto.


A política é algo que está presente em qualquer grupo humano. O próprio Deus, quando criou o homem, afirmou que ele deveria dominar sobre o restante da criação (Gn.1:26), bem como, no jardim onde o colocou, disse que ele deveria guardá-lo (Gn.2:15), numa clara demonstração que a natureza humana envolvia o exercício do poder, consequência do próprio livre-arbítrio de que ele era dotado. Ora, toda relação de poder é uma relação política e, neste sentido, certíssimo estava Aristóteles, o grande filósofo grego, ao afirmar que o homem é um animal político.

Após o dilúvio, Deus renovou o pacto com o gênero humano e nele foi mantido o papel de domínio e de poder sobre o restante da criação (Gn.9:2), ainda que bem demonstrada a limitação da autoridade humana (Gn.9:5,6). Não tardou muito e surgiu o primeiro grande dominador do povo (Ninrode - Gn.10:8,9) e o governo humano apresentou-se desafiador contra Deus, a ponto de o Senhor ter destruído aquela comunidade política única por meio do juízo de Babel (Gn.11:7-9). Bem se vê, portanto, que a existência de governo, de poder, de domínio, de política não é algo contrário à ordenação divina, mas, sim, seu mau exercício.

Deus, então, diante do fracasso da comunidade política única, resolve formar uma nação e Seu projeto inicia-se com a chamada de Abrão (Gn.12:2). Esta nação, que seria Israel, não deixou de ser uma nação em que existiram governo e relações de poder. Ainda que o projeto primitivo de Deus tenha sido o de, pessoalmente, reinar sobre os israelitas (Ex.19:5,6; I Sm.8:7), jamais deixou de existir um governo que fizesse cumprir as leis (Ex.18:14-26; 22:9; Nm.1:4-16; Jz.2:16-19).

Quando o povo de Israel quis ter uma estrutura política semelhante aos dos demais povos, Deus lho concedeu, tendo, então sido criada a monarquia, com o governo sendo dirigido por um rei, segundo regras que já haviam sido estabelecidas por Moisés (Dt.17:14-20), renovadas por Samuel (I Sm.8:9-22). Até o cativeiro da Babilônia, no reino do sul, os israelitas foram governados por reis e, depois, estiveram sob domínio estrangeiro até a destruição de Jerusalém no ano 70, salvo o pequeno intervalo, no período intertestamentário, em que tiveram independência e foram governados pela dinastia dos asmoneus.

Jesus jamais se indispôs contra a instituição do governo e, observemos, nos seus dias, os judeus estavam sob o impiedoso governo romano. Instigado pelos fariseus, afirmou que devemos dar a Deus o que é de Deus e a César (que nada mais é que o Estado, que o governo humano), o que é de César (Mt.22:21), uma afirmação que o historiador francês Fustel de Coulanges que, em seu livro A Cidade Antiga, entende ser o término da Antiguidade, onde, sempre, o poder humano fora considerado indissoluvelmente ligado à religião e à divindade. Por causa disto, os cristãos seriam perseguidos pelo Império Romano, pois, embora reconhecendo a autoridade das instituições romanas (Rm.13:1-7; I Pe.2:13-17), jamais admitiram que ela fosse divinizada.

Na própria Igreja, foi instituído o governo humano (Rm.12:4-8; Ef.4:11-16; I Pe.5:1-4), governo, igualmente, necessário mas limitado, inteiramente submisso à vontade de Deus.Por isso, manifestações como as do anarquismo (doutrina que é contrária a qualquer espécie de governo ou de poder) são inteiramente contrárias à vontade de Deus e devem ser evitadas e combatidas pelos sinceros servos do Senhor.

Pelo que se verifica, portanto, a política, o poder, as relações de domínio estão presentes em qualquer grupo social, pois se trata de uma característica do ser humano, que foi criado para dominar e para estabelecer relações deste tipo pelo próprio Deus. Assim sendo, não se pode dizer que a atividade política é algo contrário à vontade de Deus, mas, antes, é uma demonstração de que o que Bíblia diz a respeito do homem e da forma como foi criado é uma realidade cristalina.

Ora, se o homem é um ser político, todas as ações do homem que envolvam relações de poder e de domínio são políticas. Política é, portanto, qualquer ação social que envolva poder e domínio.
Jesus, embora fosse o Filho de Deus, não deixou de cumprir com Seus deveres cívicos, seja como israelita (Mt.5:17), seja como indivíduo sob o jugo romano (Jo.18:38). No episódio do pagamento do tributo que cobraram de Jesus mediante questionamento a Pedro, isto ficou bem claro (Mt.17:24-27).

Neste sentido, pois, todo cristão, como imitador de Cristo (I Co.11:1; I Pe.2:21), deve também ser um cidadão exemplar, cumprindo as leis (Rm.13:1-7), logicamente as que não ofenderem a cidadania celestial e, entre as leis, está a que impõe como dever o de participar da condução da própria sociedade.

Independentemente de se ter uma legislação que obrigue uma certa participação política do cidadão, como é o caso do Brasil, o cristão tem o dever moral e espiritual de participar ativamente dos negócios concernentes ao exercício do poder, da direção da sociedade.

Com efeito, como podemos ser “sal da terra” e “luz do mundo” (Mt.5:13,14) se não agirmos politicamente, se não participarmos da tomada de decisões da sociedade, que sofre com as estruturas advindas da natureza pecaminosa do homem?

Como poderemos influenciar uma sociedade, no sentido de encaminhá-la a decisões que sejam agradáveis a Deus, se não procurarmos participar da tomada de decisões, mostrando aos homens o que agrada a Deus na discussão de cada tema, de cada posição, de cada proposta?

A vida espiritual não retira o cristão do mundo (Jo.17:11) e a ação política, i.e., toda atitude visando a levar a sociedade a determinadas posturas, dentro de um exercício de poder e dominação, faz parte desta realidade do cristão, enquanto o Senhor Jesus não vier estabelecer o Seu governo pessoal sobre a face da Terra.

Na oração dominical, o Senhor nos ensinou a pedir ao Senhor que o Seu reino viesse para que a Sua vontade se fizesse assim na terra como no céu (Mt.6:10) e devemos lutar para que este reino, que está entre nós (Lc.17:21), chegue até as instâncias decisórias da sociedade onde vivemos e isto depende da nossa ação política, pois só os salvos podem ver o reino de Deus (Jo.3:3).

Esta ação política nada mais é que a proclamação da verdade aplicada a temas e posições que a sociedade tenha de tomar em suas instâncias decisórias, sejam governamentais ou não, a fim de que se tenha, na vida em sociedade, apesar do pecado, justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm.14:17).

Cada cristão deve, pois, usar os direitos políticos que possui para denunciar o pecado e conclamar os dirigentes a fazer o que é reto aos olhos do Senhor, até porque a Bíblia Sagrada nos mostra que, quando o governante é rebelde aos ditames do Senhor, toda a sociedade sofre (Pv.25:5; 28:15,16; 29:2).

A ação política do cristão não envolve, em absoluto, a busca do poder político ou a crença de que o poder político poderá, uma vez conquistado, mudar ou transformar a sociedade, pois sabemos que a sociedade somente será transformada depois que o homem se converter ao Senhor Jesus.

Devemos persuadir os homens a fazer a vontade do Senhor em cada tema, em cada aspecto da vida em sociedade, a fim de que possamos trazer sobre a nossa Pátria a bênção divina (Sl.33:12). Estamos prontos a exercer este ministério, sendo astros no meio de uma geração corrompida e perversa (Fp.2:15)? Eis o grande desafio que se põe diante de cada cidadão dos céus sobre a face da Terra.

Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco é Bacharel em Direito e Filosofia pela Universidade de São Paulo – USP, onde obteve o seu Doutorado em Direito. Evangelista da Igreja Evangélica Assembleia de Deus – Ministério do Belém – sede e colaborador do Portal Escola Dominical.

2 comentários:

  1. A paz do Senhor.

    Amado Vito

    Graças a Deus por mais este texto! Ficamos felizes por esta orientação trazida aos nossos olhos.

    Desejamos que os crentes em Jesus discirnam bem qual deve ser sua ação política, a fim de que nossa nação respire.

    Um abraço,

    Artur Ribeiro

    ps.: vamos recomendar esta publicação!

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  2. É isso, querido Artur. Que o Senhor nos ajude a ser aquilo que devemos ser, mesmo em ano de eleições. Um abraço.

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