Gritos de Esperança em Terra de Mudos

Por Francikley Vito
Definitivamente, nós precisamos de heróis. Durante os meus primeiros anos de Evangelho fui terminantemente proibido de ler “livros não espirituais”; tais livros, segundo me disseram, não ajudava no meu crescimento espiritual, pelo contrário, eles atrapalhavam o processo de santificação de todo aquele que quisesse viver para Deus. Isto para mim se tornou como que um mandamento de vida, uma espécie de voto, de promessa: não podia, sobre qualquer hipótese, ler aqueles livros espúrios.

Ao entrar na Faculdade de Teologia tive uma desagradável surpresa: os professore faziam menção não apenas dos livros proibidos, mais citavam muitos outros que eu nunca havia pensado existir. Um dos meus professores chegou ao ponto de dizer que se nós quiséssemos dominar a Língua Portuguesa era aconselhável ler os livros de um tal Machado de Assis. Machado de Assis? Indaguei-me sem voz, e sem certeza do que tinha ouvido. O meu castelo de livros santos estava desmoronando (ouvi o barulho da primeira pedra ao chão!). Entrei na Faculdade de Letras, e o barulho dos pedregulhos se tornavam mais freqüentes, mais intensos e mais assustadores. O meu castelo desmoronou, foi esfacelado completamente.

Em minhas leituras, naquele momento obrigatórias, fui apresentado a grandes expoentes da Literatura mundial; foi durante esse período que me pus a ler os autores cristãos de uma “outra categoria”, e me chamou a atenção o fato deles citarem, com uma freqüência maior do que eu gostaria, autores que iam se tornando, pouco a pouco, agradáveis companhias em minha caminhada rumo a santificação. Algumas frases daqueles “descrentes” acabaram por despertar em mim um interesse por aquilo que eu chamava de beleza literária; e que depois descobrir se tratar de verdades, gélidas e ensurdecedoras verdades. Que, confesso, não queria e não pensei encontrar ali. Veja exemplos do que estou tentando dizer (leia, ouça com muito cuidado essas vozes):

George Eliot (Mary Ann Evans): "Não existe desespero tão absoluto quanto aquele que surge nos primeiros momentos de nosso primeiro grande sofrimento, quando não conhecemos ainda o que é ter sofrido e ser curado, ter se desesperado e recuperado a esperança."

William Shakespeare: “O amor só é amor, se não se dobra a obstáculos e não se curva à vicissitudes... é uma marca eterna... que sofre tempestades sem nunca se abalar.”

Madre Teresa de Calcutá: “O senhor não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho a um leproso.”

Mahatman Gandhi: “Apedrejar profetas e, mais tarde, levantar igrejas em sua memória tem sido a prática do mundo durante eras. Hoje, adoramos Cristo, mas o Cristo encarnado nós o crucificamos.”

Dentre as pessoas aqui citadas, duas são escritores que, a priori, não tinham nenhuma ligação com a religião; e os outros dois eram de religiões consideradas outras, em relação ao cristianismo. Mas será que o que eles escreveram pode ser considerado uma afronta a fé cristã? Não é mina intenção aqui defender a fé dessas pessoas, porém, basta uma simples olhada para saber que todas as citações aqui apresentadas podem ser apoiadas em princípios bíblicos.

Mas a questão aqui não é esta. A questão é que por puro e total preconceito eu havia me recusado a ouvir as vozes de pessoas que certamente tinham muita coisa a dizer sobre o homem e, talvez, sobre fé, amor e misericórdia.

Enquanto as vozes da terra dos mudos vão se multiplicando, aqui, na terra dos que tem a palavra como seu esteio de crença, e que um dia já foram chamados de “os servos da Palavra”; estamos como “pássaros pequenos e desamparados, famintos por palavras de conforto e esperança”. E, para desespero nosso, em muitos casos (mais do que eu gostaria de contar), os únicos sons que ouvimos é de uma cantiga proverbial veterotestamentária frouxa e desprezível: “Dá, dá” (Pv 30.15). Tenho prá mim que precisamos trocar urgentemente a melodia que estamos ouvindo na “terra dos profetas”.

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