A Lei da Palmada: Uma Lei que Desautoriza os Pais

Por Eliane Brum

Tento me mover pela vida a partir das dúvidas. Mesmo quando acho que tenho uma razoável certeza sobre algum tema, me pergunto várias vezes: “será?”. E guardo uma parte de mim sempre aberta para mudar de ideia diante de algum fato novo ou argumento bem fundamentado. É o caso da lei da palmada, que me parece desde sempre um total disparate. Ao constatar que o projeto de lei enviado pelo presidente Lula ao Congresso em 14 de julho é apoiado e defendido em entrevistas e artigos por pessoas cuja inteligência e atuação pública tenho grande respeito, me forcei a um questionamento ainda maior. Será que palmada é crime e eu não estou percebendo algo importante?
Antes de seguir, quero deixar muito claro que, obviamente, espancamento é crime. Seja dos pais ou de quem for. Palmada não. E nada me convence de que precisamos de mais uma lei, já que a legislação existente pune o espancamento e demais agressões físicas. Nada tampouco me convence de que o Estado deve interferir neste nível na vida privada, na maneira como cada um educa seus filhos. Não por uma postura liberal, mas por algo bem mais sério que vou abordar mais adiante.
Um dos argumentos em defesa da nova lei é de que as pessoas não saberiam a diferença entre uma palmada e um espancamento. Acredito que a maioria das pessoas sabe muito bem a diferença entre dar um tapa na bunda de uma criança e espancar uma criança. Não vale como estatística, mas nunca conheci ninguém que não soubesse, exceto pessoas com distúrbios muito graves, que também não sabiam a diferença entre quase tudo. Quem espanca não acha que está dando uma palmada. Tem certeza de que espanca e quer espancar.
Outro argumento é de que a suposta violência começaria com uma palmada e evoluiria para um espancamento. Não me parece que temos provas de que isso seja um fato verídico. É verdade que temos, infelizmente, um número elevado de crianças espancadas no país – no caso de crianças espancadas, queimadas e agredidas de todas as formas qualquer número acima de zero é elevado e vergonhoso e seus autores devem ser punidos com as penas previstas nas leis que já existem. Mas não é a maioria nem é uma regra evolutiva. Não vejo pais dando palmadas nos primeiros dois anos de vida e no terceiro e no quarto espancando. E no quinto e sexto matando? O espancamento de uma criança quebra tanto o consenso social que provoca horror e espanto.
Me parece muito perigoso tachar de criminosos pais que dão palmadas. Por vários motivos. O primeiro deles é a injustiça da afirmação. Crime é algo muito sério e algo com que o Estado e todos nós precisamos nos preocupar porque rompe e ameaça o tecido social, portanto a sobrevivência de todos. Não pode e não deve ser banalizado. Chamar de criminoso um pai ou uma mãe que dá uma palmada na criança na tentativa de educar é, além de um equívoco, um flagrante abuso.
Me preocupa muito, por exemplo, o fato de demorarmos a agir no caso das denúncias de espancamentos e de agressão sexual. Assim como me preocupa a falta de instrumentos de proteção efetivos para amparar as crianças violadas de todas as formas. Quem trabalha com a prevenção da violência contra crianças sabe que há escassez de assistência. Isso resulta em traumas físicos e psicológicos para as vítimas e impunidade para os agressores. Quando o Estado coloca a palmada e o espancamento no mesmo nível, como se fosse a mesma coisa, todas as lacunas de prevenção, assistência e repressão podem se tornar ainda mais largas.
Se o Estado se propõe a entrar na casa das pessoas e fiscalizar se todos os pais do Brasil estão dando ou não palmadas em seus filhos, em vez de concentrar seus recursos e esforços naquilo que é importante – a prevenção do espancamento e a punição dos espancadores, assim como dos abusadores de todo tipo – temo que o tiro possa sair pela culatra, com o perdão do clichê. Acho que na vida, seja para um governante, um legislador ou um cidadão comum, é importante ter foco.
Este tipo de debate é rico porque todos têm suas próprias experiências. E eu acredito muito na experiência. Vivemos numa época em que a tradição foi desmoralizada e a maioria corre para especialistas de todo o tipo para saber como deve agir ou pensar. Não confia nem na soma de experiências próprias e dos que acertaram e erraram antes – nem em seus próprios instintos. Uma pena, porque perdemos muito. Todos nós perdemos muito. E, talvez, mais que todos, nossas crianças.
Espancamento, ouso dizer que a maioria de nós não experimentou. Mas palmadas quase todos conhecem na pele. Eu nunca fui espancada pelos meus pais, mas recebi várias palmadas. E todas elas, na minha percepção, foram atos de amor e de educação. Eu nunca espanquei minha filha, mas dei várias palmadas nela. E também foram atos de amor e de educação.
Outro argumento que aparece neste debate é o da desproporção. Não há comparação entre a força de um adulto e a capacidade de se defender de uma criança, entre o tamanho da mão que aplica a palmada e a mão de quem a recebe. É verdade. E não vejo como poderia ser diferente. Não compreendo como poderia existir um processo educativo que não parta de uma desproporção. Se eu tenho condições de ser mãe é justamente porque assumo a desproporção. Para me tornar mãe ou pai, eu preciso antes acreditar que tenho o que transmitir ao meu filho e tenho meios para educar. É minha esta responsabilidade. E dá um trabalho enorme – muito maior do que deixar para lá e não colocar limites, como se vê cada vez mais por aí.
É a consciência da desproporção que faz com que eu controle minha força se for dar uma palmada. E controle minha “força” também para não impor as minhas respostas e, assim, impedir meu filho de fazer sua própria busca pelo conhecimento. Com a minha orientação, sim, mas não com os meus dogmas. Ser pai ou mãe é se responsabilizar pelo seu poder, em todos os sentidos. Quando a gente se responsabiliza fica muito mais difícil se exceder em qualquer aspecto – seja físico ou psicológico.
Mas o aspecto que mais me preocupa se este projeto de lei for aprovado é o de reforçar aquele que me parece ser – este sim – um dos grandes problemas atuais: a dificuldade dos pais de educar seus filhos. Não me parece que o problema da maioria das crianças hoje seja a palmada que eventualmente recebe dos pais. Mas o fato de não receber limites de seus pais, de não ser efetivamente educada.
Boa parte dos pais me parece completamente perdida. As crianças gritam, as crianças querem porque querem, as crianças interrompem às vezes aos berros quando o pai conversa com outra pessoa, as crianças não cumprimentam ninguém nem na chegada nem na saída, fazem exigências como se o mundo e todos os adultos dentro dele existissem para servi-las, testam e testam para ver se alguém vai fazê-las parar, botar algum limite, e nada. Basta sair na rua para testemunhar cenas lamentáveis em restaurantes, shoppings, cinemas e lugares públicos protagonizadas por pequenos déspotas diante de pais infantilizados. Pais esvaziados, inseguros sobre sua capacidade de educar o filho que botaram no mundo e que parecem duvidar que têm algo a ensinar àquelas crianças. Pais sem nenhuma autoridade.
O que uma parte destes pais faz quando se torna insuportável viver com estes filhos? Leva para um especialista que diagnostica a criança como a mais nova portadora da epidemia da moda: a tal da TDAH – Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. E dá-lhe medicamento cada vez mais cedo. Como boa parte das crianças ao redor já foi diagnosticada com a “doença” esta, ninguém acha suspeito. Imagino que, quando parte desta geração crescer, o rito de passagem vai ser apenas mudar o medicamento: aos 18 anos ganha um carro e sua primeira caixa de antidepressivos.
Pobres pais? Não! Pobres crianças que visivelmente estão cada vez mais infelizes porque ninguém nasce sabendo sobre seus limites e todo o resto. Um filho precisa que os pais sejam pais. Diante deste quadro, o que o Estado faz? Infantiliza e esvazia de autoridade ainda mais estes pais ao se meter na vida privada e dizer como eles devem educar. Ou que eles não podem tocar nos seus filhos para educar sob pena de serem tratados como criminosos ou párias. Ou, talvez o pior: tratados como maus pais.
Na escola, os professores já choram diante de crianças e adolescentes que desafiam sua combalida autoridade dizendo: “Você não pode me mandar fazer nada porque quem paga o seu salário é o meu pai”. A tradução é: portanto, eu mando em você e, portanto, não há educação possível a partir desta premissa. Se a lei da palmada for aprovada, é possível imaginar as variações dentro de casa: “Se me bater eu te denuncio para o conselho tutelar”.
Não tenho dúvida de que os autores e apoiadores da lei são bem intencionados. Mas acho que se equivocaram e erraram o alvo. Uma lei como esta desautoriza os pais – e o faz numa época em que eles mesmos, por diversas razões, já desautorizam a si mesmos. Ao exercer sua autoridade de forma abusiva, o Estado esvazia de autoridade e infantiliza seus cidadãos. Isto é grave. Embora eu tenha poucos motivos para confiar neste Congresso que aí está, espero que vozes com bom senso se ergam para impedir este projeto de virar lei. Se virar, como todas as leis sem lastro na realidade, não será cumprida. E isto desmoraliza a democracia.

Nota/Fonte
O Texto completo foi publicada sob o Título : “Palmada na Lei” http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI157752-15230,00PALMADA+NA+LEI.html

Sobre a Importância da Linguagem para a Teologia

Por Iuri Andréas Reblin

A linguagem constrói mundos. Estes se constituem de uma rede de significados que dão sentido a existência humana. Essa rede de significados é linguagem. Ela é inerente ao ser humano. Seu segredo é a relação do ser humano com o meio e com os outros num espaço e num tempo. Linguagem é relação, vida é relação, relação é valor, valor é o que dá sentido à vida. A verdade é uma propriedade da linguagem. Sua sentença não é eterna, imutável, porque a linguagem é uma ação humana. Toda a ação humana acontece dentro de um mundo criado pela linguagem. A linguagem muda o mundo, o mundo muda a linguagem. Linguagens diferentes refletem mundos diferentes e vice-versa. A linguagem e a realidade são inseparáveis. A linguagem é uma ação e, como tal, ela lembra o início do livro de gênesis.

Ao falar, Deus age e o mundo acontece. Depois de pronto, Deus fala de novo e o mundo muda, numa circularidade contínua entre linguagem e realidade até que chega o ser humano. Deus se silencia. O ser humano distingue bem e mal. Um horizonte novo se abre e o ser humano cria seu mundo simbólico, a partir de palavras, de experiências, de entendimento... Num crescente sem fim... Deus é palavra. Encarnou-se. Tornou-se onipresente. Surgiu a teologia. No entanto, de um mundo de significado, ela se tornou uma ciência que queria pegar Deus em suas redes. Afastou-se. Ela quis estudar e afirmar cientificamente como Deus é. Não percebeu que “Deus não é peixe, mas Vento que não se pode segurar”

A teologia precisa de uma virada pragmática e linguística para que possa retornar ao mundo da vida, local onde ela está acontecendo continuamente sob outros nomes – magia, benzedura, misticismo – e para fugir do ceticismo no qual está mergulhada. Enquanto que a teologia procura justificar discursivamente para si suas asseverações, ela não vai conseguir um agir comunicativo. Se ela não participar do cotidiano, ela não terá valor para as pessoas. Sem valor não há significado, sem significado não há existência. “Não é correto separar o conhecimento objetivo das emoções e dos valores. Ao contrário. A relação entre eles é dialética. É porque certo objeto ou situação se relaciona com meu ultimate concern que eu me debruço sobre ele para conhecê-lo”.

Não adianta ter um discurso, se ele não está alicerçado no mundo da vida. Não é engraçado que nos sermões da igreja as pessoas se lembram freqüentemente mais das metáforas ao invés da “mensagem”, exceto quando esta remete à moral, que é senso comum, e, portanto, participa do mundo da vida? Teologia é linguagem. Com a teologia se constrói mundos, mas os mundos também mudam e assim também muda a teologia. É o mundo da vida que fornecerá aos participantes de uma discussão “uma consciência da falibilidade de suas interpretações. Inversamente, essa consciência falibilista reage também de volta sobre as práticas cotidianas, sem por isso destruir o dogmatismo do mundo vivido”. E somente nessa dialética entre linguagem e realidade que a teologia poderá redescobrir novamente seu lugar no mundo.

Nota/Fonte
Extraído do Texto “LINGUAGEM E VERDADE: Brincando com as contas de vidro de Rubem Alves e Jürgen Habermas”. Disponível em http://ead2.est.edu.br/reacao/index.php/reacao/article/view/13/7

Líder do Movimento Homossexual Confessa Existência de Ex-gays

Luiz Mott, o incontestável líder do movimento homossexual do Brasil, confessou na televisão nacional que ninguém nasce homossexual, e que as pessoas podem mudar sua orientação sexual. Numa participação recente no “Programa do Jô”, um programa de entrevista tarde da noite e muito popular transmitido pela Rede Globo, Mott disse ao apresentador que ele é um “ex-heterossexual”.

“Eu sou um heterossexual como existem ex-gays, pessoas que não eram 100% homossexuais”, disse Mott. “Eles tiveram algumas experiências, não gostaram e daí passaram para o outro lado”.
Embora Mott tenha atribuído mudança às pessoas que não eram “100% homossexuais”, ele deixou claro para o apresentador Jô Soares que ele crê que “todos os seres humanos têm, como Freud diz, um desejo bissexual”, e que a preferência sexual é algo flexível e mutável.
“Felizmente, a sexualidade humana é cultural e construída e pode mudar. Eu acho que não vou mudar mais porque já tô muito acostumado e feliz”, ele disse para Soares.
“Eu costumo falar: Nós precisamos de vocês, heterossexuais. Amamos vocês para que reproduzam filhos que se tornem homossexuais… novos gays e novas lésbicas”, acrescentou Mott durante a entrevista, que foi transmitida em 24 de abril.

Conforme LifeSiteNews comentou em artigos passados, Mott é também conhecido por sua aberta atração para com adolescentes e considera restrições ao sexo com menores como baseadas em “preconceitos”.

Nota
Traduzido por Julio Severo em :http://noticiasprofamilia.blogspot.com

A Cruz

Por Luiz Felipe Pondé

Anos atrás, em Paris, o historiador Jacques Le Goff me falava da sua preocupação com o destino da cultura ocidental. Para ele, o Ocidente poderia perder sua identidade como resultado de sua própria produção cultural. Outros intelectuais também partilhariam de suas inquietações. Entre eles, o antropólogo Lévi-Strauss [...]. Le Goff se inquietava porque parte das agonias da cultura ocidental teria sido fruto dos "achados" da história e da antropologia e seus frutos, as filosofias e políticas relativistas do século 20.

O relativismo existe desde os sofistas gregos e tem em Protágoras seu ícone máximo de então. Mas o que é "relativismo"? Em Protágoras é: "O homem é a medida de todas as coisas" (versão curta). Isto quer dizer que tudo é criação humana: a moral, a religião, enfim, as verdades de cada cultura. Sentados num bar, diríamos: "Cada um é cada um".

A história contemporânea acentuou essa versão das coisas quando afirmou que as épocas têm suas concepções de mundo específicas e que não podemos dizer que uma época seja melhor do que a outra. A antropologia, por sua vez (e aqui entra Lévi-Strauss), afirmou que as culturas não podem ser comparadas umas com as outras sem cometermos o pecado de não percebermos que cada cultura seria um sistema fechado em si mesmo, onde um comportamento só poderia ser julgado pelos valores morais da própria cultura.
Por exemplo, matar bebês pode ser um horror moral acima do equador e uma obrigação sublime abaixo do equador. É comum remeter a Lévi-Strauss a descoberta da "dignidade intrínseca" de cada cultura, e que não se deve julgar uma cultura usando valores de outras.

Não há dúvida que essa atitude é essencial para a antropologia. O problema começaria quando pensamos no impacto do relativismo no próprio Ocidente que o inventou. Dito de outra forma: o relativismo se transformou numa militância política e moral apenas no Ocidente. Enquanto os ocidentais estariam sofrendo de uma "indigestão" devido à assimilação do relativismo, as "outras" culturas, estudadas pelos próprios ocidentais, permaneceriam no seu repouso não contaminado pelo relativismo. Trocando em miúdos: muçulmanos podem permanecer acreditando em seu paraíso com virgens, índios em seus espíritos da floresta, enfim, apenas os ocidentais deveriam "relativizar" seu Deus e suas "verdades".

Sendo os cientistas sociais, os filósofos, os professores e os jornalistas maciçamente ocidentais, seriam as crianças deles que deveriam ser educadas duvidando da validade universal de seu mundo. Aí entra a inquietação de Le Goff: o Ocidente poderia se dissolver como identidade à medida que relativizaria a si mesmo, enquanto as "outras" culturas seriam poupadas da crítica relativista, porque indiferentes à angústia relativista ocidental e, também, porque contam com a simpatia do Ocidente nessa indiferença e na defesa de sua "dignidade intrínseca".

A verdade é que os homens são sempre contraditórios e, ainda que eu não saiba se Lévi-Strauss de fato partilhava da mesma angustia de Le Goff, algumas pessoas afirmam que ele admirava seu avô Rabino e que julgava os racionalistas ateus uns chatos e preferiria aqueles que acreditam em Deus. Pode ser boato, mas isso faria dele um homem mais interessante do que alguns que engoliram o relativismo assim como quem come pão e vai ao circo.
Um exemplo da "indigestão" causada pelo relativismo no Ocidente é o recente caso dos crucifixos nas escolas italianas. Aparentemente uma mãe se queixou de que o filho se sentia "desrespeitado" porque, não sendo cristão, tinha que freqüentar uma sala de aula com uma cruz na parede. A partir daí, teriam decidido pela proibição do crucifixo nas escolas.
Essa decisão é ridícula porque a cruz é um símbolo, seja eu cristão ou não, das raízes do próprio Ocidente, naquilo que ele mais preza: amor ao próximo, generosidade e justiça, enfim, um Deus que morre de amor. Nós contemporâneos somos ignorantes de um modo gritante acerca do cristianismo, confundindo-o com alguns de seus momentos mais infelizes e cruéis (toda cultura é infeliz e cruel de alguma forma). Essa proibição cospe na cara de 2.000 anos de história de uma grande parte da humanidade, e os ignorantes que a realizaram deveriam ser obrigados a pedir desculpa aos cristãos.

Nota/Fonte
Luiz Felipe Pondé é filósofo e psicanalista, doutorado em Filosofia pela USP/Universidade de Paris e pós-doutorado em Epistemologia pela Universidade de Tel Aviv. É professor do programa de pós-graduação em Ciências da Religião e do Departamento de Teologia da PUC-SP. Texto em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0911200920.htm

Luiz Sayão Fala da Importância da Arte Para o Cristianismo

A fé cristã teve uma trajetória traumática com as manifestações artísticas. Desde o início do cristianismo a relação entre fé e arte sempre foi de suspeita. Por que será que isso aconteceu? De onde veio essa ruptura? Tem explicação? Como ela nos afeta? Os judeus e os primeiros cristãos sempre contemplaram as manifestações artísticas dos pagãos e dificilmente dissociavam uma coisa da outra. A arte dos egípcios, babilônios, filisteus, gregos e romanos estava repleta de idolatria e de imoralidade. Não é difícil entender a repulsa de judeus e cristãos fiéis a tais manifestações.

A questão é muito séria porque a arte tornou-se fundamental para a sociedade contemporânea. É o principal meio de veiculação de conteúdo. O pensador Francis Schaeffer criticou a atitude de afastar-se da arte comum do evangelicalismo americano no início do século 20. Isso foi mortal para a igreja, pois a música e o cinema tornaram-se monopólio do pensamento secular. O conservadorismo entregou as novas formas de expressão ao mundo não cristão, facilitando a formação de uma geração secular e pagã! Por isso, a igreja precisa redescobrir o valor e o poder da arte. Mesmo que seu início na história bíblica seja maculado, e de fato seu transcurso histórico esteja muito marcado pelo pecado (por causa do homem), na Bíblia, Deus redime a arte, para a sua honra e sua glória. Hoje, vemos ritmos como rock e samba, que surgiram longe dos arraiais da fé, serem usados por Deus para o benefício do reino. O que era para o mal, tornou-se bem! Deus dá um nó nas intenções do Maligno!`
A vitória de Deus é extraordinária. O Apocalipse termina a Bíblia, cheio de arte e cheio de muita música. Até a Cidade, símbolo da arte e do progresso do mal, é transformada em bênção (Ap 21.1-4). Que Deus use cada Bezalel e Aoliabe de hoje que o Espírito de Deus tocar. Nunca a relevância do artista cristão foi tão importante na história!

Fonte
http://www.revistaenfoque.com.br/index.php?edicao=56&materia=355

Igreja: Hospital de Deus

Por Nildo Ribeiro

Mateus 11.28-30 “Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei, tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas. Pois o meu jugo é suave e meu fardo é leve”.

Há alguns dias, deparei-me em crise quanto ao meu modo de cultuar a Deus. Cheguei ao ponto de pensar: “o que é que estou vindo fazer na igreja? Poderia estar em casa sentado no sofá ou fazendo qualquer outra coisa”. Em meu modo de pensar, eu estaria melhor em casa do que na igreja, não aguentava mais a mesmice de sempre. Os mesmos pregadores, palavras semelhantes que me doía o coração. Eu disse a mim mesmo: “não dá mais, tenho que mudar meus pensamentos, minhas atitudes como cristão”. Graças a Deus minha vida mudou.

Alguns meses atrás fui a um hospital e fiquei analisando algumas coisas. Um hospital, como sabido, é um lugar onde se trata de pessoas doentes. Fiz na minha mente uma comparação com a igreja, que também é um hospital, mas, um hospital diferente, que cuida de almas enfermas. Talvez por isso o texto acima diz: encontrareis descanso para as vossas almas. Jesus não está falando de um hospital comum, Ele está atraindo-nos para si, ele diz “encontrareis”, isso diz de que quem procura. Jesus também nos diz: “vinde a mim”, é convite, ele nos chama a tomarmos seu fardo, que é leve.
Imaginei comigo: quem vem a um hospital vem porque precisa, ou porque está doente; é óbvio, ninguém vai a um hospital somente para conhecer, porque alguém disse que o atendimento é bom ou porque servem um café delicioso, ou mesmo para saber se os médicos são dignos de confiança...

As pessoas que vão a um hospital têm que se submeter a exigências e seguir aos regulamentos do mesmo. Se o médico do hospital, no qual me consultei, da o diagnóstico do meu problema, tenho que seguir as orientações se eu quiser sarar da enfermidade, ou se ele disser que tenho que me submeter a uma cirurgia, seja lá para o que quer que seja, e eu não seguir as orientações a mim impostas, por medo ou por ignorância minha, posso até morrer. Se for procurar um médico em um hospital tenho que ter confiança nele para continuar vivendo.
Na igreja não é muito diferente. Muitas vezes nós agimos da mesma forma. Como já mencionei acima, a igreja também é um hospital, só que de alma, nós chegamos à igreja com nossas enfermidades e dores na alma, nos apresentamos a Deus e expomos nossos problemas (Tg. 4:8), Deus vem a nós com o diagnóstico e nos diz o que temos que fazer para que sejamos sarados, se seguir suas orientações, e nos diz: se você quer ficar bom, você tem que fazer uma dieta (abster-se das ofertas do mundo), e tomar estes remédios (bíblia e oração), em pouco tempo você vai sarar.

Às vezes Deus nos diz que temos de fazer uma cirurgia, é ter que tirar de nós tudo aquilo que nos afasta Dele e, nós, com medo pensando que vamos sentir falta, porque já estamos acostumados, nós nos recusamos a seguir as recomendações do médico dos médicos e preferimos ficar da mesma forma.
É por isso que muitas pessoas estão na igreja há muito tempo, mas nunca experimentaram algo que Deus quer nos dar. Muitos vão à igreja para se apresentar, para rever amigos, ou para observar como as coisas estão. Essas pessoas estão cansadas e suas vidas acabam sendo monótona, sempre a mesma coisa, mas Deus não quer isso, Ele quer que encontremos descanso para nossas almas, Ele nos convida para que andemos em novidade de vida.
O Senhor nos chama, “Vinde a Mim”, é um convite, para nos despojar de toda carga, Deus quer nos aliviar. Saia da mesmice e tome o jugo de Jesus, pois é leve, aceite as recomendações do médico dos médicos, Ele quer aliviar o teu fardo, Ele quer transformar a tua vida, fazer de você um verdadeiro cristão, deixe que Deus extraia de você todo o fruto da carne (Gl. 5:19-21). Permita que Deus faça isso na tua vida e você não será mais o mesmo, se sentirá aliviado, sentira Deus na tua vida e então divulgue o trabalho do Senhor.

D. L. Moody conta uma história de dois bêbados que, a noite, caminhavam para o local onde tinham amarrado o barco. Embarcaram e começaram a remar. Remaram a noite inteira, sempre abismados porque não chegavam ao outro lado da baía. Ao surgir à manhã, é que descobriram que não tinha desamarrado o barco. É o que anda fazendo muita gente, se esforçando para entrar no reino dos céus, não conseguem ver que ainda estão amarrados no mundo. Que cortem a corda! Que se livrem do peso embaraçador das coisas mundanas, e verão com que rapidez avançam para o céu.

Repensando o Já Pensado

Por Francikley Vito

Uma das coisas mais difíceis da vida é pensar o já pensado. Eu explico. A maioria de nós tem a tendência de quando achamos um pensamento ou conceito já pronto, seguirmos aquele princípio sem ter o trabalho de pensar ao menos se ele é correto; ou no caso dos cristãos, sem pensarmos se ele é bíblico ou não. O problema é que tais atitudes, apesar de parecer confortáveis, são, em última análise, prejudiciais. Pensemos da seguinte forma: mesmo as Escrituras são passíveis de análise, de exame (Jo 5.39); por qual motivo não podemos analisar os pensamentos ou “doutrinas” ditas inspiradas? Veja por outro prisma. Até as profecias, que são as “palavras” de Deus reveladas aos homens, é examinável (I Co 14. 3, 29-30), quem dirá outras quaisquer coisas! Uma estória servirá de ilustração para o que estou tentando dizer.

Era uma vez uma tribo pré-histórica que se alimentava de carne de tigres de dentes de sabre. A educação nesta tribo baseava-se em ensinar a caçar tigres de dentes de sabre, porque disto dependia a sobrevivência de todos. Os mais velhos eram os responsáveis pela tarefa educativa. Passado algum tempo os tigres de dentes de sabre extinguiram-se. Criou-se um impasse: o apego à tradição dos mais velhos exigia que se continuasse a ensinar a caçar tigres de dentes de sabre; os mais jovens clamavam por uma reforma no ensino. O impasse perdurou por muito tempo. Mais precisamente até um dia que, por falta de alimento, a tribo extinguiu-se também.[1]

A chamada pós-modernidade, movimento teológica-filosofico-cultural, exige de nós, os que amamos e servimos a Deus, uma resposta que não seja decorada, impensada, mas bíblica e contundente para responder às pessoas que estão carentes não de religião e costumes ocos, mas do Deus vivo (mesmo que não saibam disso). Ao repensarmos a nossa fé, e ao manifestá-la de maneira clara, damos às pessoas a oportunidade de conhecerem e seguirem a esse Deus a quem elas buscam inconscientemente; pois como já disseram “há no homem um vazio que só pode ser preenchido por Deus”. Assim, ou repensamos a nossa prática de fé, ou corremos o risco de não conseguirmos responder qual a razão da fé que há em nós (IPe 3.15), nem ao mundo, nem a nós mesmos. Repensar o já pensado é um desafio para hoje que precisa ser enfrentado sem medos ou desculpas. Disso depende a credibilidade do Evangelho anunciado por nós.

Nota
[1]BELLO, José Luiz de Paiva. Didática, Professor! Didática!. Pedagogia em Foco, Vitória, 1993.

Ministério Público Eleitoral Pede Multa a Serra e aos “Gideões” por Propaganda Eleitoral Antecipada

O Ministério Público Eleitoral (MPE) ajuizou representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em que pede a aplicação de multa de R$ 25 mil ao candidato à Presidência da República José Serra e aos religiosos Cesino Bernardino, Reuel Bernardino e José Lima Damasceno por suposta propaganda antecipada em favor de Serra no “28º Congresso Internacional de Missões dos Gideões Missionários". O evento foi realizado no último 1º de maio, em Camboriú (SC).Para o MPE, a propaganda antecipada teria sido configurada por meio de declarações em que os pastores se referiram a Serra como o próximo presidente da República. Além disso, os religiosos teriam exaltado a biografia do candidato. Já José Serra teria exposto a ação política que pretende desenvolver e tentado aproximar-se do público, identificando sua linha de atuação com a da organizadora do evento, vinculada à entidade religiosa Assembléia de Deus.

O MPE afirma ainda que o Congresso não foi um evento fechado, pois foram espalhados vários telões pela cidade, o que possibilitou que cerca de 180 mil pessoas assistissem ao evento.Com esses argumentos, o MPE afirma que estão nitidamente presentes os requisitos do TSE para se configurar propaganda antecipada, qual sejam: a induvidosa intenção de revelar ao eleitorado o cargo político que se almeja; a ação que pretende o beneficiário desenvolver e os méritos que o habilitam para o exercício da função.
Fonte
Centro de Divulgação da Justiça Eleitoralem http://agencia.tse.gov.br/sadAdmAgencia/noticiaSearch.do?acao=get&id=1315453#arquivos

Um Apelo Pela Educação Cristã

Por Gustavo Corção

A vida cristã consistindo essencialmente na graça santificante e no conjunto de dons sobrenaturais que a acompanham - virtudes teologais, dons do Espírito Santo e caráter batismal - é dádiva gratuita do Pai àquele que escolheu para configurar ao seu Filho Unigênito, e exige, para o pleno desenvolvimento, correspondência por parte do homem, isto é, que seja recebida inteligente e livremente. Se assim não o fosse, os atos salvíficos não seriam atos humanos, pois estariam destituídos de valor pessoal, sem a resposta conveniente do homem a Deus, sem consciência e sem responsabili- dade. A salvação de cada pessoa realiza-se pela escolha de Deus e pela recepção dócil, mas livre, do dom do amor. Deus nos salva respeitando a nossa natureza.

O homem a Ele responde como homem. Para que haja o pleno desenvolvimento da vida cristã, para que ela seja realmente humana, há necessidade de que as verdades da fé e os princípios da moral divina sejam conhecidos e cada vez mais aprofundados pelo cristão.

O esclarecimento devido da fé e a transfiguração da vida natural são realizados pela educação cristã. Esta supõe a educação simplesmente humana que desenvolve as virtualidades naturais da pessoa, mas diferencia-se dela pela origem, pelos métodos e pela finalidade. Se o termo educação é aplicado à educação exclusivamente humana e à educação cristã, tal aplicação tem um sentido analógico. A não consideração dessa analogia dos termos e dos conceitos a eles correspondentes, univocando-os, além de levar as inteligências a confusões que as cegam, tem consequências práticas muito prejudiciais para a vida cristã.
Mas, acima de tudo, devem os pais aprofundar os seus conhecimentos religiosos para poderem, na medida do possível, transmiti-los aos filhos. Diante da irresponsabilidade dos que deveriam ser os mestres da vida cristã, cresce imensamente a responsabilidade dos pais.
Poderão estar certos de que o auxílio de Deus não lhes faltará para tal mister. A graça de estado não lhes será tirada, já que possuem o sagrado vínculo do matrimônio, título legítimo e eficaz para recorrerem ao Pai e humildemente pedirem a Ele a proteção para os seus filhos abandonados ou pervertidos por aqueles que deveriam ampará-los na fé e salvar-lhes a alma.

Fonte
http://literatura.uol.com.br/literatura/figuras-linguagem/30/artigo178245-2.asp http://literatura.uol.com.br/literatura/figuras-linguagem/30/artigo178245-3.asp

Já Nasci com o Meu Destino Traçado?

Por Luiz da Rosa
Na visão cristã [de alguns grupos] não existe predestinação. Você não nasceu predestinado a ir para o inferno ou para o céu; você não nasceu para ser fatalmente pobre ou rico. À base desta posição está a doutrina teológica do livre arbítrio. Esse dom de Deus permite que as escolhas humanas conduzam a conseqüências que determinam a nossa situação.

Portanto as nossas decisões fazem com que as nossas vidas tomam esse ou aquele rumo. É verdade que a Bíblia diz que somos povo eleito, povo predestinado. Calvino, dando peso a este pensamento bíblico, fez com que crescesse a idéia segundo a qual algumas pessoas, sem que fizessem nada, eram destinadas ao céu e outras ao inferno. Na Bíblia, invés, não encontramos fundamentos para tal afirmação. O lado oposto dessa visão de Calvino é a idéia que pensa que tudo é mérito da pessoa, sem ter em conta o fato da eleição.Como dissemos, a Bíblia sublinha o fato que somos povo eleito. No Antigo Testamento Israel era o povo eleito.

No Novo Testamento, invés, toda a Igreja se torna a raçã eleita (veja 1Pedro 2,9). Poderíamos dizer que se somos raça eleita somos, de qualquer forma, predestinados, escolhidos, especiais. Isso é confirmado pela teologia de Paulo, sobretudo em Romanos e na carta aos efésios. No primeiro capítulo de Efésios lemos: Nele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e rrepreensíveis diante dele no amor. Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo, conforme o beneplácito da sua vontade (Efésios 1,4-5). E em Romanos 8,28-30: E nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio. Porque os que de antemão ele conheceu, esses também predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho, a fim de ser ele o primogênito entre muitos irmãos. E os que predestinou, também os chamou; e os que chamou, também os justificou, e os que justificou, também os glorificou.

Usemos, portanto, uma imagem para transmitir o nosso conceito teológico. Quando você pega um ônibus em Cajazeiras para João Pessoa, o seu destino é João Pessoa. Você está destinado a ir a João Pessoa. De qualquer forma, esse destino final não é irrevocável, não é fatal. De fato, durante a viagem, você pode mudar de idéia, pode receber uma notícia e decidir voltar; pode ser que aconteça um acidente, uma ponte pode ter caído e a estrada encontrar-se interrompida. São inúmeras as possibilidades que podem afastar você do seu destino. Inclusive pode ser que você adia a viagem, que não chegue no Rio hoje, mas daqui a um mês.Com a nossa vida de cristãos acontece mais ou menos assim.

Temos, é verdade, um destino (talvez seria correto dizer “destinação”), bem sintetizado por Agostinho: o nosso coração não repousa enquanto não encontrar o Senhor. Mas não é absolutamente seguro que todos chegaremos a esta meta. Tudo dependerá das escolhas que fizermos. A graça de Deus nos acompanha sempre e ilumina nossa mente para optar pela reta direção, mas nem todos seguem o Espírito.Portanto, se você pensa que destino é qualquer situação que já está previamente estabelecida (por Deus ou pelos astros), independente da sua vontade, ele não existe. Existe, invés, o destino, entendido como meta, ao qual somos chamados, que é a vida em Cristo.

Fonte
http://www.abiblia.org/perguntasView.asp?id=830

“A Copa do Mundo é Nossa”! E Qual é o Preço?

Por Eugênio Bucci

A Copa do Mundo, com todo o respeito, tem um pouco disso aí. Sem querer irritar os ânimos futebolísticos da Pátria de chuteiras - ou daqueles que na chuteira imaginam ter sua Pátria -, sem reclamar de vuvuzelas, que rimam com camisetas amarelas, a Copa do Mundo apresenta-se, cada vez mais, como um reality show. Foi-se o tempo em que o espetáculo ocorria no gramado. Foi-se o tempo de Fiori Gigliotti. Agora, o espetáculo envolve os que estão ali dentro, abocanha as torcidas multicoloridas e os que giram em volta da lâmpada, como os jornalistas das emissoras de TV. Além de outros.

Mais algum tempo e veremos a generalização dos torcedores profissionais, mais ou menos como aquelas mulheres que antigamente, em troca de um sanduíche de mortadela, batiam palmas no programa de auditório de Silvio Santos. Com justiça, ele as chamava de "colegas de trabalho". Agora, na Copa, todos são atores - e todos têm consciência de que estão em cena. O torcedor maquiado tem essa consciência. O jogador atingido pela botina adversária também tem: e então rola na grama enquanto faz sua melhor expressão de dor explícita - no que é mais eficiente que atores de novela. Ele se sabe em close.

Como os competidores do BBB (o programa Big Brother Brasil, da Rede Globo), os integrantes da seleção brasileira ficaram isolados até outro dia, em "concentração" - triste palavra. Com uma diferença, no entanto, uma diferença crucial. Na "concentração", a intimidade dos futebolistas profissionais não foi (ainda não desta vez) captada por dezenas de câmeras durante 24 horas por dia. Bem ao contrário: foi difícil, para os repórteres, ter acesso a eles. Tão difícil que repórteres, veículos impressos e emissoras protestaram, dizendo que povo tem fome de gol, mas também tem fome de notícia, e esse técnico do escrete nacional, cujo apelido é Dunga, não estava ajudando. Tinham sua dose de razão. Mas também o técnico tinha razão. Se seus atletas ficassem o tempo todo dando entrevistas com fundo musical, ele não conseguiria treiná-los e muito menos concentrá-los.

Humores e rabugices à parte, parece que fizeram as pazes. O que pouca gente comentou, contudo, é que, como pano de fundo desses atritos, se vai dando uma sutil reacomodação do modelo de negócio da Copa do Mundo. Dentro desse modelo, o papel que se espera daquilo a que temos chamado de imprensa - especialmente das equipes de TV - é menos o da reportagem crítica, investigativa, e mais o papel de animador de auditório. Eles são intimados a ser "colegas de trabalho" dos beques, goleiros e atacantes, dos torcedores e dos cartolas da Fifa. Não que não sejam, individualmente, bons profissionais. Isso não está em questão. Acontece que o circo que os interpela e tenta cooptá-los não deixa muita margem para a abordagem crítica.

Incrível como às vezes nos esquecemos de que a Copa é um negócio - o que não a torna pior ou melhor, por favor. Antes de serem fato jornalístico, aqueles jogos todos são espetáculo comercial, cujos direitos custam caro. Diferentemente das passeatas, dos comícios ou das guerras, eles não se dão a ver de graça. Isso significa que, para as emissoras de TV que compram esses direitos, a Copa é um programa de entretenimento, como a Fórmula 1, a Fórmula Indy ou o Domingão do Faustão. É por isso que o telejornalismo não cobre esses eventos como se eles fossem fatos de interesse público. A emissora não informa, por exemplo, quanto pagou pelos direitos de retransmissão. Isso escapa à sua pauta. Em vez disso, interessa mais a gritaria da torcedora pulando em cima do sofá na casa da avó do centroavante.

Na Copa deste ano, alguns padrões de exclusividade - inclusive a exclusividade de acesso aos desportistas - sofreram adaptações. Isso é que pegou. Alguns jornalistas protestaram, sentindo-se desconvidados. O céu artificial do espetáculo que vai engolfando o telejornalismo (pelo menos esse) ameaça deixá-los de fora. O que, convenhamos, faz a alegria da chamada "galera". Ela não quer ser aborrecida com reportagens investigativas no intervalo das partidas. Vade retro. É ela que paga o circo todo e agora, quando se abrem as cortinas, cobra a sua parte em vibração, em vitória, em divertimento.

Nota/Fonte
Artigo Original sob o título de “Animadores da Copa do Mundo”http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100701/not_imp574582,0.php

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