Sobre a Importância da Linguagem para a Teologia

Por Iuri Andréas Reblin

A linguagem constrói mundos. Estes se constituem de uma rede de significados que dão sentido a existência humana. Essa rede de significados é linguagem. Ela é inerente ao ser humano. Seu segredo é a relação do ser humano com o meio e com os outros num espaço e num tempo. Linguagem é relação, vida é relação, relação é valor, valor é o que dá sentido à vida. A verdade é uma propriedade da linguagem. Sua sentença não é eterna, imutável, porque a linguagem é uma ação humana. Toda a ação humana acontece dentro de um mundo criado pela linguagem. A linguagem muda o mundo, o mundo muda a linguagem. Linguagens diferentes refletem mundos diferentes e vice-versa. A linguagem e a realidade são inseparáveis. A linguagem é uma ação e, como tal, ela lembra o início do livro de gênesis.

Ao falar, Deus age e o mundo acontece. Depois de pronto, Deus fala de novo e o mundo muda, numa circularidade contínua entre linguagem e realidade até que chega o ser humano. Deus se silencia. O ser humano distingue bem e mal. Um horizonte novo se abre e o ser humano cria seu mundo simbólico, a partir de palavras, de experiências, de entendimento... Num crescente sem fim... Deus é palavra. Encarnou-se. Tornou-se onipresente. Surgiu a teologia. No entanto, de um mundo de significado, ela se tornou uma ciência que queria pegar Deus em suas redes. Afastou-se. Ela quis estudar e afirmar cientificamente como Deus é. Não percebeu que “Deus não é peixe, mas Vento que não se pode segurar”

A teologia precisa de uma virada pragmática e linguística para que possa retornar ao mundo da vida, local onde ela está acontecendo continuamente sob outros nomes – magia, benzedura, misticismo – e para fugir do ceticismo no qual está mergulhada. Enquanto que a teologia procura justificar discursivamente para si suas asseverações, ela não vai conseguir um agir comunicativo. Se ela não participar do cotidiano, ela não terá valor para as pessoas. Sem valor não há significado, sem significado não há existência. “Não é correto separar o conhecimento objetivo das emoções e dos valores. Ao contrário. A relação entre eles é dialética. É porque certo objeto ou situação se relaciona com meu ultimate concern que eu me debruço sobre ele para conhecê-lo”.

Não adianta ter um discurso, se ele não está alicerçado no mundo da vida. Não é engraçado que nos sermões da igreja as pessoas se lembram freqüentemente mais das metáforas ao invés da “mensagem”, exceto quando esta remete à moral, que é senso comum, e, portanto, participa do mundo da vida? Teologia é linguagem. Com a teologia se constrói mundos, mas os mundos também mudam e assim também muda a teologia. É o mundo da vida que fornecerá aos participantes de uma discussão “uma consciência da falibilidade de suas interpretações. Inversamente, essa consciência falibilista reage também de volta sobre as práticas cotidianas, sem por isso destruir o dogmatismo do mundo vivido”. E somente nessa dialética entre linguagem e realidade que a teologia poderá redescobrir novamente seu lugar no mundo.

Nota/Fonte
Extraído do Texto “LINGUAGEM E VERDADE: Brincando com as contas de vidro de Rubem Alves e Jürgen Habermas”. Disponível em http://ead2.est.edu.br/reacao/index.php/reacao/article/view/13/7

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