O que Interessa: Dinheiro e Saúde

Por Luiz Sayão

Quase todo o mundo conhece a famosa canção popular de final de ano. No desejo de alcançar prosperidade e recursos materiais, repete-se o refrão popularesco: “Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”.

A velha e tradicional canção traz à tona o desafio que o cristianismo tem em sua jornada histórica. A fé cristã arquiteta-se numa tensão dialética entre a contextualização e pureza doutrinária. Embora o cristianismo ajuste-se a qualquer contexto com facilidade, sua doutrina foge do sincretismo que ameaça sua identidade. Esta tensão é um desafio permanente na história da igreja e, devido ao crescimento extraordinário da fé nas últimas décadas, torna-se um desafio contemporâneo expoente.

O triunfo do capitalismo e do neoliberalismo como filosofia econômica, aliado à perspectiva pós-moderna e ao misticismo histórico do povo brasileiro, construiu um cenário que favoreceu o surgimento de uma teologia popular marcada pela prosperidade. A nova onda triunfalista abraçou a chamada teologia da prosperidade, que enfatiza que estar bem com Deus é ter “muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”. Numa inversão da teologia da libertação, seus propagadores afirmam que Deus está do lado de quem tem recursos financeiros. A bênção divina não é apenas a salvação, mas também, e principalmente, riquezas terrestres.

O fato é que a Bíblia toda nos ensina que Deus permite que enfrentemos situações difíceis para o nosso próprio bem. Nem sempre riqueza é “bênção”. É verdade que um bom cristão, profissionalmente competente, tende a prosperar na vida, mas isso não quer dizer que quem está com problemas financeiros necessariamente está em pecado ou longe de Deus, e muito menos podemos acreditar no contrário, ou seja, que todos os ricos estão espiritualmente bem. O importante é saber enfrentar toda e qualquer situação, como Paulo, que aprendeu a estar contente na fartura e na dificuldade (Fp 4.12,13).

Além disso, sabemos que a obra da redenção efetuada por Cristo ainda não está plenamente concluída. Cristo, sem dúvida alguma, venceu a morte; mas qual cristão pode crer que jamais morrerá? Cristo venceu o pecado; mas todos sofremos tentações e lutamos contra a carne. De igual modo, Cristo levou nossas doenças e enfermidades, mas isso não significa que jamais adoeceremos. O pleno usufruir de todas as bênçãos da redenção só será possível depois da ressurreição, na vida eternal! Quem pretende antecipar tal realidade está equivocado. Podemos pedir que Deus nos cure e nos restaure a saúde, pois Ele é poderoso para fazê-lo, mas não podemos exigir isso!

Finalizando, gostaríamos apenas de enfatizar que nossa maior necessidade nesse contexto complexo e, por vezes, sem nexo, é “muito bom senso pro povo, e Bíblia pra estudar e entender”.


Fonte
http://www.revistaenfoque.com.br/index.php?edicao=68&materia=700

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