Os Profetas Anteriores, ou Não Escritores 1/5

Por Caramuru A. Francisco

Texto áureo:“E todos os profetas, desde Samuel, todos quantos depois falaram, também anunciaram estes dias” (At.3:24).


INTRODUÇÃO

A atividade profética, como a linguagem, desenvolveu-se oralmente, depois assumiu a forma escrita. Os “profetas anteriores” (também denominados de “profetas orais”, “profetas não-escritores” ou, ainda, “profetas não-clássicos”) são todos os profetas levantados por Deus e que não tiveram o mandado divino de reduzir a escrito as suas mensagens proféticas, o que foi feito posteriormente pelos que foram inspirados a escrever o texto sagrado.

I – OS PROFETAS ANTERIORES ATÉ SAMUEL

Quando iniciamos o estudo do ministério profético na Bíblia, vimos que os profetas costumam ser classificados em dois grupos: profetas anteriores, também chamados orais, não-escritores ou não-clássicos e os profetas posteriores, também chamados de profetas literários, escritores ou clássicos.

A diferença entre um grupo e outro é que os primeiros foram levantados como profetas pelo Senhor mas não foram incumbidos por Deus de reduzir a escrito as suas mensagens, a fim de que fossem elas conhecidas pelas gerações posteriores. Temos, assim, conhecimento do que disseram ao povo por intermédio de registros que lhes são posteriores, efetuados por outras pessoas, especialmente inspiradas pelo Espírito Santo para tal tarefa (II Pe.1:20,21).


É importante ressaltar dois fatos para que não venhamos a criar confusão. O primeiro é que o fato de Deus não ter mandado ao profeta reduzir a escrito, de imediato, a sua mensagem não significa que este profeta seja inferior aos demais. Longe disso, isto apenas reflete até o estado cultural do povo no instante mesmo dos mencionados ministérios proféticos.

Somente no final da história de ambos os reinos em que se dividiu Israel teremos uma preocupação com o registro da Palavra de Deus, como resultado até de um desenvolvimento cultural do povo e como ação da Providência Divina, ante a iminência da perda da terra de Canaã por parte dos israelitas. A destruição de ambos os reinos tornava absolutamente necessário o registro das mensagens proféticas para conhecimento das gerações vindouras, já que o contato oral ficaria sobremodo prejudicado (Sl.78:1-8).

O segundo fator é que não devemos entender que os “profetas orais” não tenham escrito coisa alguma. Muito pelo contrário, entre os “profetas orais”, temos pessoas que escreveram parte das Escrituras, às vezes mais do que muito dos chamados “profetas literários”, mas seus escritos eram históricos ou poéticos, não tinham como objetivo registrar as suas mensagens proféticas, mas foram além disso, ao contrário dos “profetas literários”, que escreveram apenas suas profecias. Assim, pessoas como Davi, Samuel, Natã e Gade, apesar de seus escritos, são postos no rol dos “profetas orais”.

Finis Jennings Dake (1903-1987) diz haver o registro, no Antigo Testamento, de 62 (sessenta e dois) profetas, sendo que 16 (dezesseis) seriam “profetas literários” e 46 (quarenta e seis), “profetas orais”, precisamente os que estamos a tratar neste pequeno estudo. Destes 46(quarenta e seis) profetas, Dake entende que 38(trinta e oito) atuaram na dispensação da lei, incluindo-se aí Balaão que, embora não fosse israelita, atuou sob a lei de Moisés.
OBS: Dake considera como profeta a Adão, com o que discordamos, pois o fato de Adão ter dado nomes aos seres vivos não o credencia como profeta como entendeu aquele comentarista. O profeta é aquele que se comunica com o homem trazendo mensagem de Deus, decorrência da entrada do pecado no mundo, algo que inocorria com Adão. Além do mais, Dake não inclui Jó como profeta, o que fazemos.

A atividade profética iniciou-se com Enoque, o primeiro profeta, o sétimo depois de Adão. Depois de Enoque, temos a figura de Noé, que a Bíblia chama de “pregoeiro da justiça” (II Pe.2:5), sinal de que também transmitiu aos homens a mensagem que recebeu de Deus a respeito da destruição do mundo pelo dilúvio, o que o faz ser um profeta.

Posteriormente ao dilúvio, temos a figura de Héber ou Éber, bisneto de Sem (Gn.10:22-25), que teria profetizado a respeito da divisão da terra, ou seja, do juízo de Babel, tanto que pôs a seu filho primogênito o nome de “Pelegue”, que significa “divisão”, a demonstrar que, a exemplo de Enoque, também recebera revelação divina concernente ao plano da salvação.

Depois de Héber, temos a sequência dos patriarcas (Abraão, seu contemporâneo Jó, Isaque, Jacó e José), cuja qualidade de profetas também já discorremos em lição deste trimestre, chegando, então, a Moisés, o profeta-modelo da dispensação da lei, período durante o qual também tivemos os ministérios de Balaão e do próprio Arão, que era “profeta” de Moisés (Ex.4:14-17).

Moisés anunciou a vinda de um outro profeta como ele (Dt.18:15) e, na própria lei, deixou consignado que o Senhor levantaria profetas no meio do povo (Dt.13:1), ainda que não como Moisés, que receberiam mensagens por meios indiretos (Nm.12:6), até a vinda daquele profeta como Moisés. É importante observar que Moisés, embora seja tido como um profeta anterior, escreveu, segundo Dake, 475 versículos de profecias e, no texto sagrado, Moisés escreveu 4.392 versículos mais do que Isaías, prova de que ser “profeta oral” não significa, em absoluto, não ser escritor.

A atividade profética não cessou, tanto que os judeus consideram que os livros do Antigo Testamento que se seguem ao Pentateuco, os livros que chamamos históricos, fazem parte do “Neviim”, ou seja, “dos profetas”, daí a expressão “a lei e os profetas”, que, inclusive, utilizada por Jesus (Mt.7:12; 22:40; Lc.16:16), que, desta forma, sancionou tal uso.

Destarte, após Moisés, como Deus havia dito, começou a levantar profetas no meio de Seu povo, a fim de manter a comunicação com Israel, sempre dentro do propósito de manter a observância da lei por parte do povo, como também de revelar progressivamente o Seu plano de salvação não só para Israel mas para toda a humanidade.

Josué foi, também, um profeta. Além de ter recebido a imposição das mãos de Moisés (Nm.27:18-20; Dt.34:9), gesto que representou a transmissão do ministério profético a ele, pois era o único ministério que Josué poderia exercer, vemos, também, Josué trazendo mensagens do Senhor ao povo (Js.3:9-12; 6:6-10,16-21,26).

Na época dos juízes, apesar da anarquia política, que também se apresentou como anarquia espiritual, Deus não deixou o povo de Israel sem profetas. Débora é a primeira profetisa mencionada nas Escrituras (Jz.4:4), a demonstrar, uma vez mais, que o ofício profético era o mais “democrático” de todos, que não fazia sequer distinção de sexos (ao contrário dos outros dois ofícios – sacerdote e rei –, circunscritos a homens).

Débora não somente trouxe a mensagem divina a Baraque relativamente à libertação do povo da opressão sob Jabim, como também foi usada pelo Espírito Santo para falar das consequências relacionadas ao envolvimento das tribos e cidades na luta pela liberdade, no famoso “cântico de Débora” (Jz.5), que nos mostra que o profeta era alguém que era cheio do Espírito Santo.

Outro profeta que temos nesse período é Gideão, que também transmitiu ao povo de Israel a mensagem divina que recebera e, deste modo, livrou Israel do domínio dos midianitas (Jz.6:34,35). Jotão, o filho menor de Gideão (Jz.9:5), também foi profeta, tendo, inclusive, revelado ao povo o desgosto divino pela escolha de Abimeleque como rei e a tragédia que se abateria sobre Siquém e sobre Abimeleque por causa daquela aliança que desagradara ao Senhor (Jz.9:7-20).

Entretanto, a anarquia sócio-político-espiritual do período dos juízes fez com que a atividade profética se tornasse rara no meio de Israel, consequência direta de sua corrupção espiritual (I Sm.3:1), tanto que, depois de Jotão, somente teremos notícia de um profeta nos dias de Eli, quando um homem de Deus é levantado pelo Senhor para proferir mensagem de desagrado com o comportamento dos filhos de Eli, Hofni e Fineias, a ponto de anunciar a mudança da linhagem sacerdotal (I Sm.2:27-36).

Este estado de torpor espiritual, que tornava a atividade profética rara e esporádica, porém, haveria de ser alterado com o levantamento de Samuel, não sendo por outro motivo que seja este o profeta primeiramente mencionado por Pedro no sermão feito após a cura do coxo da Porta Formosa, visto ter sido ele o “restaurador” da profecia em Israel.

2 comentários:

  1. Olá, graça e Paz! Passando para conhecer seu espaço e quero parabenizá-lo pelos bons conteúdos. Um restante de semana de muitas conquistas em Deus e se quiser nos visitar será uma alegria.
    blogdamulhercrist.blopgspot.com
    http://twitter.com/AnaClMoreno

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  2. A Paz!
    Agradeço sua visita e suas palavras. Que Deus a abençoe em Cristo Jesus. Um abraço.

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