Os Profetas Anteriores, ou Não Escritores 3/5

Por Caramuru A. Francisco



III – OS PROFETAS ORAIS DE SAMUEL A ELIAS

Com Samuel, a atividade profética passa a ter continuidade e estabilidade. O próprio Saul, escolhido para ser o primeiro rei de Israel, também teve a presença do Espírito Santo e profetizou, a fim de que fosse reconhecido como alguém escolhido efetivamente pelo Senhor para o exercício da função real (I Sm.10:10,11).

A necessidade de Saul também profetizar para que fosse reconhecido como ungido de Deus mostra-nos como, a partir de Samuel, houve uma renovação da atividade profética e como o povo havia se despertado para a operação do Senhor no meio de Israel (I Sm.3:20,21). Vemos, assim, que a profecia é indispensável para que o povo tenha discernimento espiritual e não seja levado pela corrupção do mundo.

Quando Davi surge no cenário histórico, já era a condição existente no meio do povo, apesar do desvio espiritual de Saul. Não só Davi logo passou a ser conhecido como profeta do Senhor (cheio do Espírito de Deus, Davi logo começou a profetizar, mesmo antes de subir ao trono, como testemunham diversos salmos por ele proferidos bem antes de sua ascensão ao reinado), como também é mostrado que, mesmo durante o reinado de Saul, funcionava em Ramá, a todo vapor, a “escola de profetas” (I Sm.19:20). Não se deve esquecer que, quando Davi se encontrava na caverna de Adulão, a ele se uniu o profeta Gade (I Sm.22:5).

No reinado de Davi, além do próprio rei, temos profetas que exerceram grande influência no governo, pois agiam como conselheiros do próprio Davi, a saber, o próprio Gade, que já acompanhava Davi desde os tempos cruéis da perseguição de Saul, mas que, nem por isso, deixou de trazer dura mensagem ao rei por causa do episódio da numeração indevida do povo como também Natã, que, inclusive, trouxe a dura mensagem contra o próprio Davi por causa do caso da mulher de Urias, tendo, sido, também, o portador da revelação de que o Messias seria da casa de Davi. Gade e Natã, aliás, assim como Samuel, também redigiram textos das Escrituras, que contam precisamente o período dos reinados de Saul e de Davi (I Cr.29:29).

Ainda nos dias de Davi, Deus levantou outros profetas, que tiveram grande participação na organização do culto ao Senhor no templo que seria erguido por Salomão, a saber: o sumo sacerdote Zadoque (II Sm.15:27) — o primeiro da nova linhagem sacerdotal que substituiu a que pertencia Eli (I Rs.1:26,27); Hemã (I Cr.25:5; II Cr.35:15) e seus filhos (I Cr.25:1); Asafe (I Cr.25:2; II Cr.29:30) e seus filhos (I Cr.25:1); Jedutum (I Cr.25:3; II Cr.35:15) e seus filhos (I Cr.25:1).

Estes profetas músicos e instrumentistas também redigiram salmos. Asafe foi o autor de 12 salmos (Sl.50, 73-83), Hemã de um (Sl.88) e Jedutum, também de um(é apontado como co-autor do Sl.77) . A presença destes profetas, exatamente no instante em que se construía o serviço de louvor no templo, é um indicador de que não há possibilidade alguma de um real louvor a Deus sem a presença do Espírito Santo entre os que louvam, sejam com suas vozes, seja com seus instrumentos.
No reinado de Salomão, também os profetas estiveram presentes. O próprio Salomão é, também, um profeta, já que o Senhor lhe transmitiu mensagens por intermédio de sonhos (I Rs.3:5-14; 9:3-8; II Cr.1:7-12; 7:12-22), como a própria perda do reino por conta de sua desobediência (I Rs.11:11-13).

Como consequência até da infidelidade de Salomão, o Senhor levantou outro profeta no meio do povo durante o reinado deste, a saber, Aías ( I Rs.11:29-39), que foi o profeta escolhido pelo Senhor para dar conhecimento a Jeroboão da sua escolha como rei de Israel. Aías, aliás, seria o mesmo instrumento divino para anunciar a Jeroboão a ruína de sua casa por conta de seu pecado de idolatria (I Rs.14:5-16).

Havia outros profetas nos dias de Salomão, como é o caso do “profeta velho”, que, certamente, iniciou seu ministério ainda nos dias da monarquia unida mas que, a exemplo tanto de Salomão e de Jeroboão, desviou-se dos caminhos do Senhor. Este “profeta velho” acabou por levar à desobediência o “homem de Deus”, um profeta levantado pelo Senhor precisamente para trazer a Jeroboão a mensagem de desagrado com a fabricação dos bezerros de ouro e a instituição do seu culto em substituição ao culto ao Senhor nas dez tribos de Israel, bem como que tal culto haveria de ser destruído por um descendente da casa de Davi que se chamaria Josias (I Rs.13).

Também desta época é o profeta Semaías, que foi usado por Deus para repreender a Roboão e impedir que este tentasse, pela força militar, subjugar as dez tribos que haviam escolhido Jeroboão como rei (I Rs.12:22-24; II Cr.11:1-4).

Percebemos, pois, que, já neste momento histórico de Israel, os profetas surgiam para repreender tanto o rei como o povo pelos seus desvios espirituais. A partir da idolatria de Salomão, não temos mais a presença de profetas palacianos, amigos dos reis, mas, bem ao contrário, pessoas levantadas para apontar os erros e desatinos do governo e da sociedade.

Por isso mesmo, os sociólogos da religião desenvolveram teorias e teses a respeito do profetismo, considerando-o como uma “força moralizadora”, um instrumento de renovação e de questionamento das injustiças e das mazelas da sociedade, não raro um “fator revolucionário”. O “profeta”, segundo este ponto de vista, é diferente seja do “mago”, que tenta tão somente canalizar as forças sobrenaturais em favor dos indivíduos, sem qualquer noção de mudança ou transformação social, como do “sacerdote”, este sempre comprometido com a ordem vigente e que não tem outro papel senão a defesa e perpetuação do “statu quo ante”.
OBS: “…O profeta não foi um descendente ou um representante das classes mais baixas. O contrário, como temos visto, foi quase sempre a regra. Também o contexto da doutrina do profeta não se derivou preponderantemente do horizonte intelectual das classes mais baixas. Entretanto, como uma regra, os oprimidos ou, pelo menos, aqueles ameaçados pela aflição, tinham a necessidade de um redentor e profeta; os afortunados, os que tinham posses, a classe dominante não tinha tal necessidade. Consequentemente, na grande maioria dos casos, a religião da salvação anunciada profeticamente tinha seu local permanente wentre os menos favorecidos. Entre eles, esta religiosidade era o substituto, ou um suplemento racional, para a magia.…” (WEBER, Max. Sociologia das religiões mundiais. Disponível em: http://www.ne.jp/asahi/moriyuki/abukuma/weber/world/intro/world_intro_frame.html Acesso em 17 jul. 2010) (tradução nossa de texto em inglês).
“…O profeta é o intermediário e o anunciador das mudanças sociais (Bourdieu). O papel do profeta é atrair e mobilizar pelo poder do seu discurso um grupo de pessoas, para assim, canalizar a força deste grupo na estrutura social nova que ele deseja fornecer. O profeta traz o gênese de uma nova ética e uns profundos sensos cosmológicos decorrente da sua visão, que pretende sistematizar em regras de estrutura os seus interesses. O profeta na sua relação com os leigos é compreendida na força política que ele possui para satisfazer as necessidades dos grupos sociais de quem ele é o seu representante. Sendo ele um homem com a mensagem-salvação (Alexandre Carneiro), pode dispensar o aparato ritualístico do sacerdote e apenas pela sua palavra ser um construtor e portador dos bens de salvação. Todavia, é bom lembrar que para Weber, o profeta se envolver na política, mas apenas como um meio para se atingir um fim, isto é, o fundamento do poder do profeta reside em seu carisma não em uma delegação de interesses do grupo que ele representa. O profeta constitui o exemplo típico-ideal de um agente social de inovação e mudança. O papel principal do profeta é sistematizar e ordenar todas as manifestações da vida, de coordenar todas as ações humanas através de um estilo de vida, no qual ele mesmo, é seu modelo ideal. Uma vez tendo o profeta, estruturado doutrinamento seus pensamentos, aqueles grupos de adeptos leigos podem vir a se transformar em uma congregação, e devido às exigências cotidianas do grupo, o profeta acaba tendo que preparar um corpo de auxiliares seus, do seu círculo mais íntimo, para poder assim atender as demandas desta incorporação. A congregação formada pelo profeta que agora corre o risco de se transformar em sacerdote, lhe assiste com dinheiro, serviços, alimentação e etc... Em troca da esperança de salvação e de ter sempre ao seu dispor uma mensagem de revelação, proteção e garantias que sua conduta, segundo o profeta, esta em consonância com a vontade divina.…” (EMANUEL, George. O profeta e o sacerdote em termos sociológicos. Disponível em : http://www.webartigos.com/articles/13131/1/O-Profeta-e-o-Sacerdote-em-Termos-Sociologicos/pagina1.html#ixzz0twykrtNT Acesso em 17 jul,. 2010).

Esta situação perdurou na sequência dos reinos tanto de Israel quanto de Judá. Deus levanta, em Israel, ao profeta Jeú (não confundir com o rei de mesmo nome, que é posterior), o qual também mostra o desagrado divino com o rei Baasa, que manteve o pecado de Jeroboão, anunciando a derrocada de sua dinastia à frente das dez tribos (I Rs.16:1-4,12). Aliás, este mesmo profeta também profetizou contra Josafá, repreendendo-o por causa de sua aliança com Acabe (II Cr.19:1-3).

Em Judá, não foi diferente, pois, se no reinado de Asa, o terceiro rei de Judá, Deus levantara a Azarias, com uma mensagem de exortação, que foi prontamente seguida pelo rei e pelo povo, com grandes benefícios aos judaítas (II Cr.15:1-7), posteriormente o mesmo Asa foi repreendido pelo profeta Hanani por causa de sua aliança com o rei da Síria (II Cr.16:7-9), tendo o rei, desta feita, recusado a mensagem e, inclusive, mandado prender e maltratar o profeta, que foi a razão da enfermidade e morte do rei (II Cr.16:10-13).

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