Os Profetas Anteriores, ou Não Escritores 4/5

Por Caramuru A. Francisco


IV – ELIAS, ELISEU E OUTROS PROFETAS A ELES CONTEMPORÂNEOS

Este mal-estar entre reis e profetas fez com que passassem a surgir “falsos profetas”, profetas “fabricados” pelos próprios reis e sacerdotes, a fim de trazerem mensagem aduladoras aos monarcas e de levar o povo a seguir os governantes por conta destas “profetadas”. A casa de Onri, a terceira dinastia real de Israel (I Rs.17:21,22), permitiu a proliferação desta gente, que andava “pari passu” com os profetas de Baal e de Asera, que haviam sido trazidos por Jezabel, mulher de Acabe, filho de Onri e segundo rei daquela dinastia (I Rs.16:29-31).

Nesta situação de grande calamidade espiritual, Deus levantou um grande profeta, Elias, o tisbita, dos moradores de Gileade (I Rs.17:1), que surge do “nada”, sem qualquer procedência conhecida, mas que veio ser o “perturbador de Israel”, a voz de Deus para denunciar e exigir do povo uma postura diante da apostasia e da idolatria reinantes no governo de Acabe e de Jezabel.

Elias notabiliza-se pela ação do poder de Deus em seu ministério. Embora não fosse o profeta “como Moisés”, já que Deus lhe falava por meios indiretos, Elias surge como um profeta de sinais e prodígios, o que não ocorria desde os dias de Josué.

Surgido do “nada”, Elias afronta toda a estrutura idolátrica instituída por Acabe e por Jezabel, iniciando seu ministério com o anúncio de que não haveria mais chuva sobre a terra de Israel ( I Rs.17:1), a mostrar que seu ministério era voltado a desafiar e afrontar o culto a Baal, tido como o deus da fertilidade e, como tal, o controlador das colheitas e, por conseguinte, o responsável pela concessão de chuvas. Não é desarrazoado, porém, entender que Elias pertenceu a alguma “escola de profetas”, diante do seu relacionamento com elas (II Rs.2:2, 4)

Durante três anos e seis meses (Tg.5:17), não choveu sobre Israel, conforme havia dito o profeta, tendo voltado a chover só depois de o mesmo profeta ter pedido a Deus que chovesse, o que se deu somente após o desafio lançado por ele contra os profetas de Baal e Asera, que ele próprio matou ao fio da espada, depois de Deus ter respondido com fogo do céu à sua oração no monte Carmelo.

Elias realizou sete milagres, a saber:
a) três anos e seis meses de seca por causa de sua palavra (I Rs.17:1)
b) multiplicação do azeite e da farinha na panela da viúva de Zarefate (I Rs.17:18-16)
c) ressurreição do filho da viúva de Zarefate (I Rs.17:17-24)
d) descida de fogo do céu em resposta à sua oração (I Rs.18:30-40)
e) chuva depois de três anos e seis meses de seca por causa de sua oração (I Rs.18:41-45)
f) descida de fogo do céu para matar os soldados que vinham lhe prender (II Rs.1:9-12)
g) travessia a seco pelo rio Jordão (II Rs.2:7,8).

Além de ter feito milagres, Elias, ainda, presenciou e vivenciou fatos sobrenaturais em sua vida, como ser alimentado por corvos (I Rs.17:3-6), por um anjo, adquirindo força sobrenatural por 40 dias (I Rs.19:5-8), sem se falar na manifestação divina para ele quando estava na caverna (I Rs.19:9-18) e, por fim, a sua trasladação ao céu sem experimentar a morte física (II Rs.2:11).

Elias apresenta-se, assim, como um profeta modelar, tanto que para representar os profetas foi o escolhido para, ao lado de Moisés (que representava a lei), surgir no monte da Transfiguração (Mt.17:1-9; Mc.9:1-9; Lc.9:28-36).

Durante o ministério de Elias, surgiram outros profetas no reino do norte, pois, como o Senhor disse a Elias, ao contrário do que ele pensava, não era ele o único a servir a Deus naqueles dias tão difíceis. Micaías, que também profetizava contra Acabe, era um deles (I Rs.18:7-27), que, inclusive, profetizou a morte de Acabe e a derrota de Israel diante dos siros.

Como já dissemos, nos dias de Elias ainda existiam as “escolas de profetas” criadas por Samuel, instituição que demonstrou todo seu vigor neste período tão difícil da história israelita, tanto que é dito que Jezabel matou profetas do Senhor, mas Obadias conseguiu preservar 100 (cem) deles, que por ele foram sustentados durante o período da seca (I Rs.18:13).

As Escrituras relatam que um profeta, nesses dias, foi até Acabe e profetizou a vitória do rei sobre os siros por meio dos moços das províncias (I Rs.20:13,14), que também disse ao rei Acabe que os siros voltariam um ano depois (I Rs.20:22), profetizando, inclusive, nova vitória de Acabe (I Rs.20:28).

Outro profeta é mencionado que pediu para que um companheiro seu o ferisse e, diante da recusa deste seu companheiro, profetizou que um leão o mataria, o que efetivamente ocorreu (I Rs.20:35,36). Este profeta, então, pediu que outrem o ferisse, o que foi feito e foi até Acabe, repreendendo-o por ter deixado o rei da Síria voltar em paz para sua terra após a vitória militar que havia sido profetizada (I Rs.20:38-43).

Elias, também, foi usado por Deus para desvendar a trama que envolveu a ilícita conquista da vinha de Nabote por Acabe, como também profetizou o terrível fim que Deus daria tanto a Acabe, quanto a Jezabel e a sua descendência (I Rs.21:17-26), como também a mensagem divina a Acabe de que tudo se sucederia depois de sua morte, ante o seu arrependimento diante da mensagem precedente do profeta (I Rs.21:29). Isto nos mostra, claramente, que os profetas não eram inimigos dos governantes, mas, apenas, mensageiros de Deus.

Numa verdadeira antecipação do que estava para vir no ministério profético em Israel, Elias foi um “precursor dos profetas escritores”, pois deixou escrita uma profecia a respeito do rei Jeorão, filho de Josafá, que foi tornada conhecida depois da trasladação de Elias ao céu, onde o profeta anuncia o trágico fim daquele rei de Judá, que se dedicara à idolatria, seguindo o exemplo de sua mãe Atalia e de sua avó Jezabel (II Cr.21:12-15).

Eliseu, o sucessor de Elias, é outro grande nome entre os “profetas orais”. Escolhido por Deus, tudo deixou para seguir Elias e, com ele, iniciar o necessário e indispensável aprendizado para substituí-lo. Seu pedido, antes de o seu antecessor ser tomado de diante dele, foi que tivesse “porção dobrada” do espírito de Elias, o que lhe foi concedido porque viu o instante em que Elias foi arrebatado ao céu (II Rs.2:9-12). Notemos que o que se concedeu a Eliseu foi o dobro de operações divinas por seu intermédio.

Efetivamente, se Elias fez sete milagres, Eliseu realizou quatorze milagres, um dos quais depois de sua morte, a fim de se cumprir o que lhe havia sido prometido, em mais uma demonstração de que as promessas de Deus independem da nossa sobrevivência sobre a face da Terra.

Eis os quatorze milagres de Eliseu:
a) a travessia a seco pelo rio Jordão (II RS.2:13-15)
b) a purificação das águas (II Rs.2:19-22)
c) a morte dos que o insultavam diante de sua maldição (II Rs.2:23-25)
d) a cheia das cisternas no deserto sem que houvesse chuva (II Rs.2:17-20)
e) a multiplicação do azeite na botija na casa da viúva de um dos filhos dos profetas (II Rs.4:2-7)
f) a abertura da madre sunamita (II Rs.4:14-17)
g) a ressurreição do filho da sunamita (II Rs.4:23-37)
h) a retirada da morte que havia na panela (II Rs.4:28-41)
i) a multiplicação dos pães para alimentar cem homens (II Rs.4:42-44)
j) a cura da lepra de Naamã (II Rs.5:1-14)
k) a imposição da lepra de Naamã a Geazi (II Rs.5:25-27)
l) a flutuação do machado que caíra n a água (II Rs.6:1-7)
m) a imposição de cegueira ao exército da Síria, levando-os até Samaria (II Rs.6:18,19)
n) a ressurreição de um homem jogado no sepulcro de Eliseu e que tocou seus ossos (II Rs.13:21).

Um dos filhos dos profetas, chamado de jovem profeta, foi incumbido por Eliseu de ungir a Jeú como rei de Israel e, ao ungi-lo, repetiu a profecia de Elias a respeito da casa de Acabe e de Jezabel (II Rs.9:1-10), motivo pelo qual é dito nas Escrituras que Elias ungiria a Jeú (I Rs.19:15,16), pois, na verdade, não o fez fisicamente, mas, no ato da unção, foi reafirmada a mensagem que Elias havia proferido a respeito da casa de Acabe. Aliás, o próprio Eliseu havia anunciado que Hazael reinaria sobre a Síria, mensagem que deu também em cumprimento ao que Deus havia dito por intermédio de Elias (II Rs.8:7-13).

Em Judá, nos dias de Elias e de Eliseu, a atividade profética prosseguiu, máxime no reinado de Josafá, um rei fiel ao Senhor. Deus usou Jaaziel para profetizar e dar a estratégia para a vitória sobre os inimigos que haviam ameaçado invadir o país (II Cr.20:14-17), mas também Eliezer para repreender Josafá por causa da sua aliança com Acazias, rei de Israel, inclusive profetizando o naufrágio dos navios construídos para ir a Társis (II Rs.20:37)

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