Mídia, Religião e Eleições: Uma Reflexão

Por Magali do Nascimento Cunha

As igrejas se tornaram protagonistas na mídia em duas situações claras: o destaque dado à candidata Marina Silva, evangélica, que teria captado bom número de votos entre os evangélicos por conta desta condição; e a inserção de valores religiosos na discussão sobre descriminalização do aborto e concessão de direitos às pessoas homossexuais – aqui católicos e evangélicos foram apresentados na grande mídia como protagonistas de uma "guerra" contra a candidata Dilma Rousseff. Este destaque às igrejas e líderes religiosos restringiu-se às posições tidas como mais conservadoras, pois não houve espaço de expressão para os setores católicos e evangélicos cujas posições são opostas às que eram expostas.

[A mídia] é um poder significativo, haja vista que temas como descriminalização do aborto e direitos homossexuais foram pautados pela repercussão da grande mídia com o reforço das mídias alternativas com circulação ampla de mensagens e de vídeos de campanha, no caso, contra a candidata

Desde o Congresso Constituinte de 1996 e a formação da primeira Bancada Evangélica e seus desdobramentos, a afirmação "crente não se mete em política" é algo sepultado. Na verdade, já não valia antes, pois omissão e indiferença já eram uma forma de fazer política. Entretanto, desde 1996, a política partidária transformou-se em pauta na vida de muitos "crentes" e igrejas evangélicas. O ano de 2010 tornou-se um ano emblemático: pela primeira vez uma candidatura evangélica à presidência foi apaixonadamente pronunciada e defendida. A assembleiana Marina Silva foi assumida e propagada, das mais distintas formas, como "a" candidata de grupos evangélicos contra mais um mandato para um governo petista, com base, fundamentalmente, em bandeiras relacionadas à moral sexual. Evangélicos contra o PT e contra Luiz Inácio da Silva também não são novidade, desde o primeiro pleito para a presidência em 1989. A “demonização” da candidatura Lula já acontecia, com argumentos que expunham desde “Lula é comunista e ateu. Não podemos ter um presidente ateu” até “Se Lula ganhar vai mandar fechar as igrejas”. Tais posturas reacionárias evangélicas, somadas à triste (para não dizer vergonhosa) atuação da Bancada Evangélica no Congresso Constituinte 1986-1989, levaram à criação, em 1990, do Movimento Evangélico Progressista. Em 1989 já havia sido criado o Comitê Evangélico Pró-Lula com o objetivo de mostrar que era possível ser evangélico e ser de esquerda. Portanto, esse fenômeno é bem novo e ainda vai trazer muita coisa para ser refletida. O Congresso Constituinte de 1996 é uma virada de página nesta história muito em função de projetos de igrejas e lideranças religiosas interessadas numa midiatização da religião. As concessões de rádio e TV foram o grande objeto de barganha naquele momento e em momentos seguintes e que resultou em maior presença das igrejas na mídia.

Quando pensamos nos evangélicos, temos que levar em conta vários fatores pastorais: em primeiro lugar, o clericalismo que marca a realidade das igrejas e que tornam as pessoas comuns, o chamado “povo das igrejas” algo como “massa de manobra”. Sobre isto me refiro ao fato de que muitos evangélicos votam em certos candidatos porque “o pastor mandou”. Isto é realidade. Pastores são formadores de opinião e assumem este papel em boa parte das vezes não para orientar mas para “ditar” mesmo a partir dos seus valores, dentro da lógica “ouvir o pastor é ouvir a voz de Deus”. E não estou falando de pentecostais tão só, mas também das igrejas históricas, e nem só de pobres, como também da classe média. Matéria que o Wall Street Journal publicou tem um depoimento que reflete isto.Nas igrejas históricas, isto tem acontecido bastante, ainda mais em tempos de força dos chamados movimentos celulares, em que a relação líder-discípulo é baseada no clericalismo e em autoritarismo. Fato é que boa parte destes líderes tem uma herança que está no DNA da formação evangélica no Brasil, que é o fechamento ao novo, à mudança, e a postura interesseira e corporativa, isto é, bom para o país é o que é bom para a religião. Daí a máxima “evangélico vota em evangélico”, na certeza de que estes políticos vão defender causas próprias do segmento evangélico que raramente interferem na ordem social e se revertem em “praças da Bíblia”, criação de feriados para concorrer com os católicos, benefícios para templos. Basta conferir os partidos aos quais estes evangélicos estão afiliados. Além disso, ainda tem o fator “demonização”. Isto é forte na cultura evangélica. Daí o valor que é dado à chamada “boataria”. O pessoal acredita em tudo isto porque quer acreditar e, nesse caso, o demônio faz a escolha, interessante, sempre pela esquerda. Isto é um fenômeno cultural relacionado ao imaginário religioso e político. Não foi à toa que a revista Veja publicou uma capa sobre o MST e o Stedile, cujo retrato era o próprio diabo. A mídia sabe mexer com este imaginário. É fato que desde os anos 1990, este quadro tem mudado com o surgimento de políticos evangélicos “de esquerda” e o Movimento Evangélico Progressista é parte desta história. Mas tem o DNA...

[O aparecimento de candidatos em eventos religiosos] é uma prática bastante comum entre os políticos. Já vimos este tipo de atitude antes em diferentes eventos religiosos. Certamente, não agrada aos evangélicos, mas acaba por ser assimilado como prática comum dos políticos. O que surpreendeu na última semana foi o candidato Serra produzir um folheto religioso, semelhante a um cartão de crédito, que, traz a frase "Jesus é a verdade e a justiça", seguida da assinatura dele. Esta ação parece ter ultrapassado os limites do bom senso do marketing político e deve levar a uma reflexão sobre o uso da religião como estratégia política.

Nota/Fonte
Magali do Nascimento Cunha é graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense. É mestre em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo. Atualmente, é professora na Universidade Metodista de São Paulo. É autora de A explosão gospel. Um olhar das ciências humanas sobre o cenário evangélico no Brasil (Rio de Janeiro: Mauad, 2007).
http://www.ihu.unisinos.br/index.phpoption=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=37451

2 comentários:

  1. Texto bacana!!!Puro e idealizador

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  2. Obrigado. Continue seguindo o nosso blog, será um prazer receber você neste espaço.

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