Um Ponto, de Vista: Sobre o Conceito de Oração

Por Francikley Vito

Pensar oração é sem dúvida um desafio para qualquer que queira entender essa que, para mim, continua sendo um mistério prático-teológico. Começarei pelo refúgio último daqueles que não tem uma estalagem mais segura onde se abrigar, ou seja, as conceituações (não uso a palavra definição porque este texto nem de longe pretende colocar fim à discussão; como dito, ele é só um ponto, de vista).

As minhas certezas a respeito do conceito de oração ganharam nova amplitude quando fui levado a ler o livro do pensador cristão C. S. Lewis, “Oração: cartas a Malcolm”; o livro que comecei a ler sem muitas pretensões tornou-se para mim como que um candeeiro em ambiente escuro e incerto. Confesso que preferia a comodidade da prática sem a teoria, mas uma tende a fortalecer a outra, em uma dinâmica circular. Ainda prefiro a fé simples!

Quando empreendemos uma leitura sobre oração, quase sempre nos deparamos com aquelas frases que nos dá a sensação de que são como que moveis antigos que estão esperando que alguém lhes tire o pó, as chamadas frases feitas. Compreendo a sua utilidade, mas confesso que as vezes me sinto meio que desamparado, semanticamente falando. Isso, repito, não é de todo um problema, ao contrário, torna-se um estímulo.
As conceituações (fique a vontade para chamar de definições) sobre oração vão desde aquelas mais poéticas, como a que diz que “oração é a respiração da alma”, até aquelas mais teológicas, como a de Tomás de Aquino quando diz que oração é “elevação da mente a Deus para o louvor e Lhe pedir o que é bom para salvação”. Etimologicamente falando, orar e falar, seja falar a outros ou falar com Deus. Aqui, obviamente, nos ocuparemos da segunda aplicação; sob a expectativa de nos encontrarmos em nossa escuridão. Procurando luz talvez consigamos prover luz.

A preocupação e tentar conceituar oração, e isso faremos; sob a iluminação de outros que trilharam um caminho mais árduo e mais glorioso que o nosso. Caminhar ainda é o jeito mais fácil para se completar uma jornada.

Começemos pela nossa ferramenta principal, os Dicionários. Para Hans Scheller, em artigo ao Dicionário de Conceitos Fundamentais de Teologia, 1993, a oração cristã

é a afirmação articulada da possibilidade de permanecer diante de Deus em todas as situações e em todas as dimensões do ser-homem. [...] Falar perante Deus é em todo caso encorajada pela revelação da bondade de Deus e a ela se deve, e, em conseqüência, não é nem arrogância da criatura nem mendicância que ofende à dignidade.(sic)

Seguindo a dura tarefa de conceituar o que seria oração, o teólogo Thomson, em artigo publicado n’O Novo Dicionário da Bíblia, 1995, observa que na Bíblia

a oração é uma adoração que inclui todas as atitudes do espírito humano em sua aproximação de Deus. O crente cristão presta culto a Deus quando adora, confessa, louva e O suplica em oração. Essa, a mais alta atividade da qual o espírito humano é capaz, também pode ser considerada como comunhão com Deus [...].

Cabe notar a dificuldade que se tem para, de maneira pura, conceituar oração. Thomson parecem tratar o termo “oração” como uma espécie de sinônimo que só pode ser entendido a luz de outros termos práticos tais como “adoração”, que por sua vez levaria ao “culto”; num ciclo sinonímico que, segundo penso, serve para aclarar a mente do leitor. Já no caso de Scheller, a proposta é mais especificamente uma tentativa de “definir” oração como uma possibilidade afirmativa em que a pessoa que ora pode colocar-se diante de Deus com todo o seu “ser”, de acordo com a crença adquirida pela Revelação.

Se quisermos, contudo, conceituações menos teológicas, podemos nos voltar para Thomas Merton quando diz que “a oração é uma expressão de quem somos. Somos uma incompletude vivente. Somos um vão, um vazio pedindo preenchimento”; ou ainda as ponderadas palavras de um judeu, Herman Wouk, ao dizer que oração é um desejo de “enaltecer a Deus pelas maravilhas da vida”; e complementa dizendo que seu objetivo cotidiano “é a renovação das energias religiosas por meio de um ato em que o indivíduo declara sua identidade [...] sua fé e esperança no Eterno”.

Seja como for, estou inclinado a concordar com Calvino quando, acertadamente, vejo agora, diz que esse exercício da oração e sua utilidade não podem ser expressos de modo suficiente pelas palavras; pois, penso eu que, como todo exercício, a oração é ato em curso e não discurso.

Por fim, chama-me a atenção o modo enfático como Paulo, escrevendo aos Efésios (6.18), trata a oração. Escrevendo àqueles que precisavam ter “os olhos do entendimento” abertos (Ef 1.18), o apóstolo diz tão somente: “Orai em todo tempo com toda oração e suplica no Espírito”. Pelo modo verbal apresentado, sou propenso a pensar que tais palavras são muito mais um mandamento que um conselho amigável. Se assim for, a oração é aqui apresentada como uma parte essencial da vida cristã; que, em conseqüência, precisa ser arraigada, regada e contemplada em nós. Para aqueles que creem em um determinismo irracional, a oração não faz sentido algum; mas para aqueles que confiam em Deus como Senhor da vida e da História, a oração e um evento, uma prática da mais extrema importância. Pois quando não nos damos à oração somo condenados a um tatear permanente, infindável. Precisamos de heróis.

Referências: Calvino, João. O Livro de Ouro da Oração. São Paulo: Novo Século, 2003. Dicionário de Conceitos Fundamentais de Teologia. São Paulo: Paulus, 1993. Enciclopédia Católica Popular. Disponível em http://www.ecclesia.pt/catolicopedia/. Acesso em 07 de Out. de 2010. Lewis, C. S. Oração: cartas a Malcolm. São Paulo: Vida, 2009. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995. Wouk, Herman. Este é o Meu Deus: A Maneira Judaica de Viver. São Paulo: Sêfer, 2002.

2 comentários:

  1. A paz do Senhor.

    Nobre Vito

    De fato, conceituar ou definir certas ações e práticas é um tanto quanto difícil. Aliás, diga-se de passagem, a própria definição das palavras "definir" e "conceituar" é diversa, daí não podermos usá-las como sinônimos...

    De qualquer modo, sou levado a crer mais no que o caro afirma no epílogo, ao asseverar: "oração é ação".

    Um abraço,

    Artur Ribeiro, seu conservo

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  2. A Paz de Cristo, Artur.
    Obrigado por suas sempre ricas observações. Que Deus continue a te abençoar. Um abraço.

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