O Jejum Como Reforço à Oração 4/4

Por Caramuru A. Francisco

III – O ASPECTO ESPIRITUAL DO JEJUM

O mais importante aspecto do jejum é o seu lado espiritual, ou seja, somente pode jejuar quem estiver em comunhão com o Senhor, ou seja, a privação de alimento somente tem validade quando a pessoa, antes de se abster da comida e da bebida, já se absteve da prática do mal. Este ensinamento encontra-se no livro do profeta Isaías, no seu capítulo 58.

Sendo uma forma de sacrifício em que o jejuador pretende se aproximar mais de Deus, é importante que tenhamos em mente que o nosso Deus é um Deus que se preocupa muito mais em obediência do que em sacrifícios (I Sm.15:22; Ec.5:1; Os.6:6; Mt.9:13; Mc.12:33). Assim, de nada adianta jejuarmos intensamente se não nos abstivermos, em primeiro lugar, da prática do mal e do pecado. Não existe vida cristã sem renúncia ao mal, sem rompimento com o pecado. A graça de Deus, diz-nos a Palavra, ensina-nos que devemos viver neste mundo de forma sóbria, justa e pia, após renunciar às concupiscências mundanas e à impiedade (Tt.2:11,12). Ser cristão é estar separado do pecado, é ser santo (I Pe.1:15,16).

Não adianta querermos jejuar se não tivermos uma vida de santidade. A santidade não vem pela prática do jejum, pois a santificação não é resultado de uma vida de sacrifícios, mas de uma vida sem pecado, de desvio do pecado e do embaraço que pode nos levar ao pecado (Hb.12:1), uma vida de constante vigilância (Mc.13:37; Ef.6:18).

No entanto, o fato de termos de ter uma vida de santidade e de verdadeira demonstração de amor ao próximo não exclui a necessidade de praticarmos o jejum. Deus não prefere os sacrifícios à obediência, mas o fato de termos de ter uma estrutura espiritual que faça com que nosso jejum seja aceito não quer, em absoluto, dizer que estamos dispensados da prática do jejum. Muitos têm se utilizado do texto do profeta Isaías para justificar a ausência do jejum na sua vida devocional. Dizem que são caridosos, que têm se dedicado à oração e à leitura da Palavra do Senhor e que, por isso, não precisam jejuar. Não é isto que se infere do texto bíblico. O profeta diz que não aceita o jejum de quem não tem compromisso com a Palavra de Deus, de quem não Lhe obedece, mas também não diz que o jejum é substituído pela prática da virtude, que é uma obrigação, uma consequência da real conversão.

O profeta afirma que Deus não deseja que haja um jejum de pessoas que vivam contendendo, debatendo e que buscam a autoglorificação (Is.58:3,4). Deus só aceita o jejum daqueles que soltarem as ligaduras da impiedade, que desfizerem as ataduras do jugo, ou seja, do pecado, o jejum de quem receba o verdadeiro amor divino em sua vida e, assim, ame a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. É o jejum de alguém assim que Deus recebe.

Lembremo-nos de que, muitas vezes na Bíblia, o jejum está relacionado com uma atitude prévia de arrependimento dos pecados e de busca intensa da presença do Senhor. Mesmo quando estamos diante de uma circunstância bíblica de jejum agradável a Deus em que não se está diante de arrependimento, mas de busca de orientação divina, temos a verificação de que o povo está em comunhão com o Senhor, como se vê nos casos de Ester, Neemias, de Esdras ou dos crentes na igreja de Antioquia. É importantíssimo que o jejum tenha, em primeiro lugar, este caráter espiritual e que, em seguida, tenha um determinado propósito, para que, aí sim, a privação alimentar tenha eficácia como reforço à oração.

Este sentido espiritual não deve existir apenas antes do jejum, mas deve perdurar durante todo o jejum. Há evidente quebra de jejum se a pessoa, embora tenha mantido a abstinência alimentar, pratique alguma transgressão durante o período de abstinência. Um jejum desta natureza não é aceito pelo Senhor. Há quem confunda a lição de Jesus a respeito do segredo do jejum com a possibilidade de um jejum com total descuido, em que a pessoa até se esqueça que está diante de Deus ofertando um sacrifício. Devemos viver normalmente, não deixar transparecer que estamos jejuando, mas esta discrição e segredo não devem permitir que tenhamos um cotidiano totalmente despreocupado, desatento, a ponto de permitirmos nos envolver com a prática de ações que desagradem a Deus. Devemos nos manter em espírito de oração durante o período da abstinência, exercendo as tarefas do dia-a-dia, mas com o nosso homem interior na presença de Deus a cada momento do período de abstinência.
OBS: “…O jejum nos ajuda a aprender a renunciar a alguma coisa. Ele nos faz capazes de dizer ‘não’ a nós mesmos, e nos abre aos valores mais nobres de nossa alma: a espiritualidade, a reflexão, a vontade consciente. O jejum nos coloca de pé e de cabeça para cima. Há muitos que caminham de cabeça para baixo; isso acontece quando o corpo comando o espírito e o esmaga. É o prazer do corpo que o comanda e não a vontade do espírito. É preciso entender que a renúncia às sensações, aos estímulos, aos prazeres e ainda ao alimento ou às bebidas, não é um fim em si mesmo, mas apenas um “meio”, deve apenas preparar o caminho para conquistas mais profundas. A renúncia do alimento deve servir para criar em nós condições para poder viver os valores superiores. Por isso o jejum não pode ser algo triste, enfadonho, mas uma atividade feliz que nos liberta.…” (AQUINO, Felipe de. end.cit.)

Outro ponto importante que devemos salientar no que respeita ao jejum é o cuidado que devemos ter no momento da entrega do jejum. O jejum é como um presente que se está oferecendo ao Senhor e, portanto, não podemos ser descuidados e negligentes no instante da entrega do jejum. Findo o período da abstinência, é importante que nos dediquemos alguns instantes em oração, agradecendo a Deus pela oportunidade que tivemos de lhe oferecer este sacrifício, por ter nos guardado de ter quebrado o propósito, por termos podido resistir às necessidades físicas em prol da adoração e do louvor ao Senhor. Ninguém jamais se preocupa em dar um presente a alguém e, depois de todo o cuidado e esforço para a escolha, para a compra e para a preparação do presente, entrega-o de forma abrupta e descortês à pessoa que vai ganhar o presente, mas há alguns que, no instante da entrega do jejum, são extremamente displicentes e chegam, mesmo, a tomar a refeição sem os mínimos cuidados. Não estamos falando de ostentação ou de formalismo, mas devemos dedicar alguns instantes de oração ao término do jejum para coroarmos de êxito todo o propósito que nos trouxe mais para perto do Senhor, pois o jejum é uma atitude de reforço à oração, dela jamais pode se desvincular.

Neste sentido, as pessoas que não têm condições de jejuar, seja pela sua saúde física, seja pela sua idade, seja pela natureza de suas atividades que impedem tal prática, não devem se martirizar ou achar que serão menos crentes porque não podem jejuar, mas devem compensar esta impossibilidade por outras práticas igualmente relevantes e edificadoras, como a oração e a prática do amor cristão.
OBS: A prática de judeus, muçulmanos e de católicos romanos de substituírem o jejum pela filantropia, como se observa, portanto, não é algo desarrazoado e é algo que tem respaldo bíblico. Se a pessoa não pode jejuar, pode substituir esta prática por outras que têm, igualmente, o agrado do Senhor. Neste sentido, aliás, é interessante o que consta no Alcorão: "…Jejuareis determinados dias; porém, quem de vós não cumprir jejum, por achar-se enfermo ou em viagem, jejuará, depois, o mesmo número de dias. Mas quem, só à custa de muito sacrifício, consegue cumpri-lo, vier a quebrá-lo, redimir-se-á, alimentando um necessitado; porém, quem se empenhar em fazer além do que for obrigatório, será melhor. Mas, se jejuardes, será preferível para vós, se quereis sabê-lo. O mês de Ramadan foi o mês em que foi revelado o Alcorão, orientação para a humanidade e vidência de orientação e Discernimento. Por conseguinte, quem de vós presenciar o novilúnio deste mês deverá jejuar; porém, quem se achar enfermo ou em viagem jejuará, depois, o mesmo número de dias. Deus vos deseja a comodidade e não a dificuldade, mas cumpri o número (de dias), e glorificai a Deus por ter-vos orientado, a fim de que (Lhe) agradeçais. " (2:184,185). Como diz a nota explicativa destes versículos corânicos, "…o jejum muçulmano não é uma auto-tortura…" e deve ser considerado como um desvio de atenção da comida, da bebida e do sexo para algo mais elevado.

Terminamos ainda citando o professor Felipe de Aquino: “…O jejum confere à oração maior eficácia. Por ele o homem descobre, de fato, que é mais ‘senhor de si mesmo’ e que se tornou interiormente livre. Se dá conta de que a conversão e o encontro com Deus, por meio da oração, frutificam nele. Assim, o jejum não é algo que sobrou de uma prática religiosa dos séculos passados, mas é também indispensável ao homem de hoje, aos cristãos do nosso tempo. …” (end.cit.).

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