A Meditação na Vida Cristã 2/4

Por Caramuru A. Francisco

Em o Novo Testamento, na Versão Almeida Revista e Corrigida, a palavra “meditar” aparece uma única vez, em I Tm.4:15, a palavra grega “meletao” (μελετάω), palavra cujo significado é “ponderar”, “imaginar”, “premeditar”, palavra que era utilizada tanto para se referir aos pensamentos dos filósofos antes de lançar seus argumentos, como para os retóricos, ou seja, aqueles que vivam de argumentar por meio de discursos.

No texto de I Tm.4:15, Paulo exorta seu filho na fé Timóteo a que “meditasse nestas coisas e se ocupasse nelas”. Que coisas? O exercício da piedade, a palavra, o trato, a caridade (i.e., o amor), o espírito, a fé, a pureza e a persistência em ler, exortar e ensinar (I Tm.4:12,13). Completando o pensamento, Paulo mostra que a meditação envolve o cuidado de si mesmo e da doutrina, a fim de que não só se alcance a própria salvação quanto a salvação dos que nos ouvem (I Tm.4:15,16).

Notamos, pois, que o apóstolo Paulo manda que Timóteo, a fim de que bem cumprisse o seu ministério, fosse cauteloso (e isto é mais um dos sentidos de “meletao”), buscando, a exemplo dos grandes oradores de seu tempo (e Timóteo era filho de grego e bem sabia do que Paulo estava a falar), fosse bem cuidadoso em suas palavras e em suas ações, sempre parando para refletir e bem ponderar como era sua conduta à luz da Palavra de Deus, da revelação do Evangelho.

Vemos, pois, que a meditação não se restringe a tão somente recitarmos, decorarmos ou ficarmos a pensar e refletir passagens bíblicas, mas também é uma atitude de interiorização, de reflexão, de autoexame que temos de fazer, desprendendo-nos de tudo quanto possa nos distrair para que, em silêncio, em reverência ao Senhor, escutamos, no fundo de nosso homem interior, a voz do Senhor, para que, deste modo, venhamos a avançar espiritualmente.

Afigura-nos, pois, exagerada a postura daqueles que, diante dos grandes equívocos que o assunto da meditação tem causado no meio cristão, buscam erradicar a meditação da vida cristã. Segundo este pensamento, “…Meditação Cristã verdadeira é um processo ativo de pensamento (pensando, resolvendo), pelo qual nos entregamos ao estudo da Palavra de Deus em oração e pedimos a Deus para nos dar entendimento através do Espírito. Ele habita no coração de todo crente e tem prometido nos guiar em ‘toda a verdade’ (João 16:13). Devemos então colocar o que aprendemos em prática, fazendo um compromisso com as Escrituras de que só elas serão a regra completa para as nossas vidas e para a prática das nossas atividades diárias. Isso causa crescimento espiritual e maturidade nas coisas de Deus à medida que somos ensinados pelo Espírito Santo.” (GOTQUESTIONS? ORG. O que é meditação cristã? Disponível em: http://www.gotquestions.org/portugues/meditacao-Crista.html Acesso em 21 out. 2010).

A meditação não se resume apenas ao estudo da Palavra de Deus e a oração para que o Espírito Santo nos esclareça o texto sagrado, embora também a envolva. A meditação vai além, na medida em que se trata de uma atitude de interiorização, de um silêncio de nosso homem interior, à luz da Palavra, para que possamos ouvir a voz do Senhor e, com isto, melhorarmos nossos caminhos.

Tanto é assim que, ao disciplinar a ceia do Senhor, o apóstolo Paulo foi claro ao dizer que, antes de participarmos do corpo e do sangue de Cristo, devemos fazer um exame introspectivo, a fim de avaliarmos se estamos, ou não, em comunhão com o Senhor e com a Sua Igreja (I Co.11:28). Este autoxame comporta uma meditação, uma ponderação, embora não seja só isto, já que o termo grego correspondente “dokimazo” (δοκιμάξω) envolve também a experiência e o julgamento.

A meditação cristã encontrou guarida nos movimentos monásticos que se iniciam no século II. O monge cartuxo Guigo II (?-1193) estabeleceu quatro estágios para a meditação, a saber:

a) a “lectio divina”, que é a leitura orante das Escrituras, a leitura devocional da Bíblia, início de toda meditação.

b) a “meditatio”, que é a reflexão, a ponderação, a análise do texto sagrado, em que se pede ao Espírito Santo a compreensão do significado e a aplicação do texto sagrado a nossas vidas.

c) a “oratio”, que é uma oração em que externamos nossos sentimentos diante da compreensão das Escrituras, pedindo ao Senhor que nos dê graças para agirmos conforme a Sua vontade, conforme o que foi ensinado na Palavra.

d) a “contemplatio”, que é a nossa entrega nas mãos do Senhor, amando-O de todo o nosso coração, nossa alma, nossa fé e nosso entendimento (Lc.10:27), instante em que, se o Senhor quiser, poderá fazer com que desfrutemos e experimentemos da Divindade de forma sobrenatural (a chamada “contemplação em sentido estrito”), o grau máximo da meditação.

A meditação cristã terá grande desenvolvimento entre os cristãos orientais, que se congregarão, após o Cisma do Oriente, na Igreja Ortodoxa. Lá, desenvolve-se toda uma prática meditativa que tem suporte num livro chamado “Filocalia” (em grego, “amor à beleza”), onde há a reunião de uma série de ensinos a respeito da meditação, baseada na chamada “oração de Jesus” ou “oração do coração”, uma frase repetida incessantemente durante a meditação: “Senhor Jesus, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador”.

Entre os judeus, a meditação iniciou sua guarida a partir da reflexão e compreensão da chamada passagem da “Merkavah” (carruagem), as visões da glória de Deus descritas pelo profeta Ezequiel, a que teriam se dedicado os grandes nomes que compilaram a “lei oral” nos séculos I e II, logo após a destruição do templo pelos romanos.

Este estudo acabou criando a meditação mística, denominada de “hitbonenut”, esta, sim, que procurava a “contemplação das questões divinas”, que se distanciavam do texto bíblico. A “Cabala”, o misticismo judaico, desenvolverá, a partir do século XVIII, toda uma “doutrina da meditação”, em que se busca meditar sobre os Nomes Sagrados de Deus, sobre o alfabeto hebraico e que tem tido grande influência no mundo judaico da atualidade, sendo, também, um elemento explorado pela Nova Era.

Entre os muçulmanos, não é diferente. O Alcorão, certamente seguindo os passos de judeus e cristãos, põe a meditação com base no livro sagrado. “…’Eis o Livro que te revelamos, para que os sensatos recordem seus versículos e neles meditem.’(38ª Surata, versículo 29) Disse mais: ‘Não meditam, acaso, no Alcorão? Se fosse de outra origem que não de Deus, haveria nele muitas discrepâncias.’(4ª Surata, versículo 82) E disse ainda: ‘Não meditam, acaso, no Alcorão, ou é que seus corações são insensíveis?’(47ª Surata, versículo 24.). Sua explicação nada mais é do que o resultado de meditação e de deliberação…” (HAYEK, Samir El. Introdução ao Alcorão Sagrado. Disponível em: http://www.islam.com.br/quoran/introducao.htm Acesso em 22 out. 2010). Entre os islâmicos, uma corrente, chamada de “sufi” ou “sufista” foi a que mais se dedicou à meditação como forma de expressão da espiritualidade, prática que é chamada de “dhikr”, reportando-se à própria vida ascética de Maomé que teria recebido a revelação do Alcorão num de seus períodos de jejum e de meditação.

Vemos, pois, claramente que, conquanto seja atitude recomendada pela Palavra de Deus e que se apresenta como importante elemento da vida espiritual, cedo a meditação foi, como tudo que diz respeito a Deus, misturada com conceitos antibíblicos, com o fim de desviar a espiritualidade do gênero humano, desvios estes que encontraram guarida dentro da Igreja e que pululam e dominam esta prática nas falsas religiões.

2 comentários:

  1. Olá, o texto nos traz uma reflexão muito enriquecedora, um abraço.

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  2. Querida, Néia.
    Obrigado por suas visitas e comentário. Um abraço, continue nos acompanhando.

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