A Meditação na Vida Cristã 3/4

Por Caramuru A. Francisco

II – A PRÁTICA DA MEDITAÇÃO E EQUÍVOCOS QUE SE DEVEM EVITAR

Nos dias atribulados em que vivemos, onde já é difícil orar, que dirá meditar. A meditação envolve um total desprendimento de nossos pensamentos, sentimentos e vontade, um “esvaziamento completo”, para que venhamos a ouvir a voz do Senhor. Na meditação, este “esvaziamento” se deve dar mediante a concentração da mente nas obras do Senhor, na exaltação do Seu nome, a exemplo do que fez o salmista no Salmo 104, que é um modelo de como se meditar.

OBS: “…A atitude contemplativa é oposta àquela que adotamos diante dos meios, pelos quais só nos interessamos na medida em que servem para alcançar nossos objetivos. Pela contemplação, nos aplicamos a um objeto como tal, penetramos em sua essência. O objeto tem um valor intrínseco, e atrai nosso coração com seu conteúdo. Não vivemos aquela tensão para o futuro, à qual nos referíamos, típica da ação, mas nos demoramos no presente. Somos receptivos ao objeto e nos aplicamos a ele plenamente sem divisão; repousamos no objeto.…” (BELLO, Joathas. O lugar da contemplação na vida cristã. 14. out. 2006. Disponível em: http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:HbsK1UYg6h8J:www.veritatis.com.br/article/3935+medita%C3%A7%C3%A3o+crist%C3%A3&cd=96&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br Acesso em 21 out. 2010)

Quem ora corretamente, não terá dificuldade em meditar. A meditação seguir-se-á à oração, visto que este silêncio exigido para a meditação nada mais é que um preâmbulo para que Deus venha conosco dialogar. A meditação não ser praticada desprendida da oração e é mais um reforço à oração que uma atividade que se deva praticar separadamente.

OBS: Para o Catecismo da Igreja Romana, aliás, a meditação nada mais é que uma das expressões da oração. A oração comportaria três expressões: a oração vocal, que é a oração propriamente dita; a meditação e a oração mental (que é a contemplação, o estágio final da meditação). “… 2721. A tradição cristã compreende três expressões maiores da vida de oração: a oração vocal, a meditação e a oração mental. Estas têm em comum o recolhimento do coração. 2722 A oração vocal, fundada na união do corpo e do espírito na natureza humana, associa o corpo à oração interior do coração, a exemplo de Cristo, que reza a seu Pai e ensina o "Pai-Nosso" a seus discípulos. 2723 A meditação é uma busca orante que põe em ação o pensamento, a imaginação, a emoção, o desejo. Tem por finalidade a apropriação crente do assunto meditado, confrontado com a realidade de nossa vida. 2724 A oração mental é a expressão simples do mistério da oração. E um olhar de fé fito em Jesus, uma escuta da Palavra de Deus, um silencioso amor. Realiza a união à oração de Cristo na medida em que nos faz participar de seu Mistério.”

Já temos dito, no estudo sobre a oração, que os que cristãos se dizem ser têm, lamentavelmente, distorcido o conceito de oração, deixando de fazê-la um diálogo com Deus, para ser tão somente um monólogo a Deus. A meditação tem, entre suas principais, senão a principal tarefa, fazer-nos aprender a ouvir a voz do Senhor, fazendo com que nossa oração se torne um diálogo verdadeiro.

Esta circunstância é importante, porque a correta meditação depende de uma correta oração. A influência que a prática da meditação entre os cristãos tem recebido de falsas religiões na atualidade, religiões estas que têm sido propagandeadas e disseminadas pela Nova Era (movimento que congrega diversos segmentos que têm defendido a mistura de todas as religiões com raízes de ensinamento de religiões orientais, em especial o hinduísmo, o budismo e o taoísmo e que se apresenta como o verdadeiro movimento espiritual preparatório do Anticristo), resulta de erros no entendimento do que seja a oração, erros estes que, como tudo que é trazido pelo mundo, não é novo.

O primeiro equívoco a respeito do conceito de oração é o que se denomina de “pseudo-gnose”, entendimento de que a meditação é uma forma de aumento do conhecimento, uma demonstração da evolução espiritual porque se trata de um “desprendimento da matéria”. A prática da meditação no hinduísmo, como no ioga, parte desta pressuposição, qual seja, a de que a meditação nos faz libertar do corpo e, por isso, nos aproximamos de Deus. Este pensamento cedo tumultuou a Igreja, pois já os apóstolos atacam o “gnosticismo”, que é precisamente este pensamento, como se vê no escrito de Paulo aos colossenses ou nas epístolas de João.

Tal pensamento é completamente equivocado, pois o corpo não é um mal em si, pois é obra de Deus e, como tal, algo que não só é bom, mas muito bom (Gn.1:31). Ademais, o corpo do salvo é templo do Espírito Santo e pertence a Deus (I Co.6:19,20).

Como se não bastasse isso, não se pode pensar que este “desprendimento da matéria” possa nos levar a um “conhecimento superior”. “…a meditação oriental (esotérica) tem dois passos: o primeiro é esvaziar a mente da pessoa, e o segundo é direcionar essa mente vazia e desprotegida para uma busca de um suposto ‘Eu Superior’ introvertido. Trata-se da busca de uma suposta deidade interior. É o ser humano supostamente sentindo-se ‘um com deus’.…” (COSTA, Samuel. Seduzidos pela meditação. Disponível em: http://www.chamada.com.br/mensagens/meditacao.html Acesso em 21 out. 2010).

Um dos princípios da Nova Era é, precisamente, o fazer crer que cada ser humano é um “deus”. É a divinização do homem, a mais antiga das mentiras de Satanás, já anunciada ao primeiro casal no Éden (Gn.3:4,5). A meditação, feita nestes termos, portanto, é um dos instrumentos para esta suposta divinização.

Outro equívoco do conceito de oração que faz com que se tenha um conceito errôneo da meditação é o que se denomina de “messalianismo”, doutrina surgida entre alguns monges orientais por volta do século IV segundo a qual a graça do Espírito Santo se confundia com a experiência psicológica da Sua presença na alma, ou seja, somente a oração incessante poderia exorcizar o demônio que se mantinha na vida daquele que se convertia a Cristo.

A oração é um meio de santificação e a santificação deve ser seguida até o fim para que se complete o processo da salvação, mas não afugentamos o inimigo tão somente enquanto estamos orando. Considerar a oração como um meio de salvação é um erro e a meditação como uma forma de libertação do mal, que é a consequência deste pensamento, também um equívoco, que não deve ser adotado.

Considerar que a oração ou a meditação é um meio de salvação é diminuir o poder da salvação pela fé em Cristo Jesus e entender que as obras humanas podem salvar, o que é um absurdo do ponto-de-vista bíblico. Tem-se aqui, uma vez mais, a influência dos pensamentos orientais a respeito da meditação, que é uma das formas pelas quais entendem eles, o homem obtém o seu desenvolvimento espiritual, ou seja, a sua salvação.

OBS: Por sua biblicidade, reproduzimos aqui trecho de documento da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé da Igreja Romana, a antiga Inquisição, quando discorreu sobre o tema da meditação, no tempo em que era dirigida pelo cardeal Joseph Ratzinger, que veio a ser o Papa Bento XVI: “…Ambas estas formas de erros [pseudo-gnose e messalianismo, observação nossa] continuam a constituir uma tentação para o homem pecador. Instigam-no, de facto, a procurar ultrapassar a distância que separa a criatura do Criador, como coisa que não deveria existir; levam-no a considerar o caminho de Cristo na terra, mediante o qual Ele quer conduzir-nos ao Pai, como realidade « superada »; induzem também a rebaixar o que é concedido como pura graça, ao nível de psicologia natural, como « conhecimento superior » ou como « experiência ». Reaparecidas de vez em quando na história à margem da oração da Igreja, tais formas erróneas parecem impressionar hoje novamente muitos cristãos, apresentando-se-lhes como remédio quer psicológico quer espiritual, e como processo rápido para encontrar a Deus.…” (Carta aos bispos da Igreja Católica acerca de alguns aspectos da meditação cristã, n.10. Disponível em: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19891015_meditazione-cristiana_po.html Acesso em 21 out. 2010)

A meditação nada mais é que um momento de silêncio em que, refletindo sobre a Palavra de Deus ou outros meios de revelação divina, esperamos “escutar a voz do Senhor”. Assim, bem ao contrário de nos anularmos e cairmos no “nada”, como dizem os budistas, ou chegarmos ao “Eu-divino”, como afirmam os hinduístas, temos a certeza de que encontraremos o Senhor de todas as coisas, o nosso Pai, cujas obras contemplamos em nossas mentes, em nosso homem interior no momento da meditação.

OBS: “…« Deus é amor » (1 Jo. 4, 8): esta afirmação profundamente cristã pode conciliar a união perfeita com a alteridade entre o amante e o amado, em eterna « quase-troca » e eterno diálogo. Deus mesmo constitui este eterno diálogo, e nós podemos, com plena verdade, tornar-nos participantes de Cristo, como « filhos adoptivos », e gritar com o Filho no Espírito Santo: « Abbá, Pai ». Neste sentido, os Padres têm totalmente razão quando falam da divinização do homem, o qual, incorporado em Cristo, Filho de Deus por natureza, se torna participante, pela sua graça, da natureza divina, « filho no Filho ». O cristão, recebendo o Espírito Santo, glorifica o Pai e participa realmente da Vida Trinitária de Deus.…” (Carta aos bispos da Igreja Católica acerca de alguns aspectos da meditação cristã, n.15. Disponível em: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19891015_meditazione-cristiana_po.html Acesso em 21 out. 2010) (destaques originais)

Por isso mesmo, ao meditarmos e centrarmos nossa atenção em Deus e em Suas obras, não temos como deixar de refletir sobre o amor de Deus, pois Deus é amor (I Jo.4:8). Neste sentido é dito que o amor de Deus é o único objeto da contemplação cristã. À medida que meditamos, não teremos senão que reconhecer que sempre seremos inferiores ao amor de Deus, amor este que se evidencia na própria vinda de Deus para nos falar em nosso silêncio, “…pela misericórdia de Deus Pai, mediante o Espírito Santo enviado aos nossos corações, nos é dado em Cristo, gratuitamente, um reflexo sensível deste amor divino, e nos sentimos como atraídos pela verdade e pela beleza do Senhor.…” (SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. op.cit., n.31).

“…A meditação esotérica, motivada por Satanás, é passiva. A meditação cristã é ativa.

Na meditação bíblica, o indivíduo deve não apenas ler a Bíblia, mas principalmente decorá-la e aplicá-la à sua vida, além de falar com Deus através da oração e do louvor. O reverendo Bob Larson, em seu livro Larson’s New Book of Cults, afirma: ‘A raiz da palavra meditação implica um processo ruminativo de uma digestão vagarosa das verdades de Deus. Isso envolve um pensamento concentrativo, dirigido, que medita nas leis, obras, preceitos, palavra e pessoa de Deus. ‘Medite n’Ele’, é a mensagem da Escritura. [...] A meditação mística cultua o próprio ser como uma manifestação interior de Deus. A meditação bíblica estende-se ao exterior para um Deus transcendental que nos levanta acima da nossa natureza interna pecaminosa para comungar com Ele através do sangue do Seu Filho’.[ Larson’s New Book of Cults. Tyndale House Publishers Inc., Wheaton, Illinois, USA, 1994, páginas 55-56] …”(COSTA, Samuel. end. cit.).

Por isso, não se podem adotar, como muitos têm feito, conceitos advindos do budismo ou do hinduísmo para a prática de uma suposta “meditação cristã”. Técnicas como a da “comunidade mundial da meditação cristã”, criada pelo monge beneditino John Main (1926-1982), onde, dizendo ter base nos chamados “padres do deserto” (os primeiros monges cristãos), desenvolveu toda uma técnica com base no “mantra”, que é uma concentração mental em torno de uma palavra para completo esvaziamento da mente, exatamente o que fazem os budistas e hinduístas, praticamente a mesma técnica conhecida como “oração centrante”, esta desenvolvida pelo monge trapista Thomas Keating (1923- ), devem ser repudiadas, pois não é este o pressuposto de uma meditação cristã.

OBS: “…Como podem ver, a Oração Centrante e a Meditação Cristã sao ‘meio-irmãs’. A diferença básica é que na Oração Centrante o ‘Mantra’ chama-se ‘Palavra Sagrada’ ou ‘Palavra de Amor’ e NÃO é repetida incessantemente, como na Meditação Cristã. Repetimos a Palavra Sagrada quando nos percebemos com nossa atenção em alguma coisa, que não seja a Presença de Deus. Então voltamos a ela para reafirmar nossa INTENÇÃO de permanecer diante do Senhor. Ela também representa nosso CONSENTIMENTO à SUA ação em nós. Enquanto a Oração Centrante é receptiva, a Meditação Cristã é uma forma ativa de meditar.…” (Oração centrante e lectio divina. Disponível em: http://www.oracaocentrante.org/meditcrista.htm Acesso em 21 out. 2010). Percebe-se, pelas próprias palavras de seus praticantes, como há nítida influência hinduísta-budista nestas práticas meditativas.

Também merece referência aqui os escritos de Richard Foster, um ministro quaker, que tem encontrado grande aceitação no meio evangélico, cujos métodos de meditação estão presentes na obra “Celebração da disciplina”, que acolhe os discutíveis ensinos da completa passividade na meditação (SCHULTZE, Mary. O perigo da meditação e da oração comtemplativa. 28 dez. 2006. Disponível em: http://www.cpr.org.br/O-Perigo-da-meditacao.htm Acesso em 21 out. 2010)

Este “esvaziamento da mente” defendido pelos cultores deste tipo de meditação leva, inevitavelmente, a um controle da pessoa por forças espirituais ocultas, que não são o Espírito Santo. Como afirma Samuel Costa, …o objetivo final da meditação esotérica é o controle total das mentes dos praticantes por forças ocultas anticristãs. Do outro lado, o alvo da meditação cristã é o cultivo constante de um relacionamento de amor e dependência do homem limitado com o seu único Deus – Maravilhoso, Criador, Onipresente, Onipotente, Onisciente e Ilimitado.…” (end.cit.).

OBS: “…Meditação, para o hinduísta, não é o mesmo que para nós, cristãos; não significa reflexão, aprofundamento de um tema que leve à oração. Meditação, para o hinduísta, é o esvaziamento da mente; é fazer da mente uma folha branca ou uma tábua rasa. Assim pensa o yógui se libertar do reboliço do mundo sensível e entrar em repouso, identificando-se mais e mais com a divindade.…” (BETTENCOURT, Estêvão. : Yoga, o que é? Pergunte e responderemos, .459, ano 2000, p.459. Disponível em: http://www.cleofas.com.br/ver_conteudo.aspx?m=doc&cat=119&scat=182&id=454 Acesso em 21 out. 2010).

Este relacionamento amoroso com o Senhor, pois a consequência da meditação cristã é a abertura de um diálogo com Deus, que é amor, jamais passará pela nossa inconsciência, pela nossa anulação. Deus não age desta maneira, mas respeita a dignidade do homem que criou.

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