A Meditação na Vida Cristã 4/4

Por Caramuru A. Francisco

Não resta dúvida de que Deus está acima do homem e que um contato com o Senhor nunca poderá passar pelo entendimento humano, ultrapassa-o. O apóstolo Paulo, mesmo, disse que, num contato extraordinário tido com o Senhor, em sua experiência do arrebatamento ao terceiro céu, teve experiências que são inefáveis, ou seja, não há como exprimi-las na pobre linguagem humana (II Co.12:4).

Os chamados “padres do deserto”, como João Cassiano (370-485) e o autor da obra “A nuvem do não saber” (anônimo, provavelmente no século XIV) apenas reforçaram o caráter sobrenatural do contato entre Deus e o homem, que vai além do nosso entendimento, algo, aliás, que o apóstolo Paulo registra num instante de grande espiritualidade ao término do capítulo 11 da epístola aos romanos. Isto não autoriza, em absoluto, defendermos que a meditação é prática que deve nos fazer inconscientes ou de “mente vazia”. Fujamos destes ensinos, que nada tem de bíblicos e nada mais são que aplicação dos falsos ensinamentos da Nova Era a uma prática das mais sublimes e profundas da espiritualidade cristã.

“…O vazio de que Deus precisa é o da renúncia ao próprio egoísmo, não necessariamente o da renúncia às coisas criadas que Ele nos deu e no meio das quais nos colocou. Não há dúvida que na oração nos devemos concentrar inteiramente em Deus e afastar o mais possível aquelas coisas deste mundo que nos prendem ao nosso egoísmo.…” (SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. op.cit., n.19). A contemplação de Deus exige de cada um de nós a prévia limpeza de coração (Mt.5:8), o que, aliás, também é uma exigência feita ao orante (Jo.9:31). Por isso, em vez de nos desprendermos, devemos, na meditação, começar refletindo sobre nossos pecados e pedindo perdão por eles a Deus. É o chamado primeiro estágio da meditação, a “purificação”.

OBS: Tomás de Kempis (1379 ou 1380-1471), em sua obra A imitação de Cristo, que teve grande influência entre os líderes da Reforma Protestante, afirmava o seguinte: “…Por que muitos santos foram tão perfeitos e contemplativos? É que eles procuraram mortificar-se inteiramente em todos os desejos terrenos, e assim puderam, no íntimo de seu coração, unir-se a Deus e atender livremente a si mesmos. Nós, porém, nos ocupamos demasiadamente das próprias paixões e cuidados com excesso das coisas transitórias. Raro é vencermos sequer um vício perfeitamente; não nos inflamamos no desejo de progredir cada dia; daí a frieza e tibieza em que ficamos. Se estivéssemos perfeitamente mortos a nós mesmos e interiormente desimpedidos, poderíamos criar gosto pelas coisas divinas e algo experimentar das doçuras da celeste contemplação. O que principalmente e mais nos impede é o não estarmos ainda livres das nossas paixões e concupiscências, nem nos esforçamos por trilhar o caminho perfeito dos santos. Basta pequeno contratempo para desalentarmos completamente e voltarmos a procurar consolações humanas. Se nos esforçássemos por ficar firmes no combate, como soldados valentes, por certo veríamos descer sobre nós o socorro de Deus. Pois ele está sempre pronto a auxiliar os combatentes confiados em sua graça: Aquele que nos proporciona ocasiões de peleja para que logremos a vitória. Se fizermos consistir nosso aproveitamento espiritual tão somente nas observâncias exteriores, nossa devoção será de curta duração. Metamos, pois, o machado à raiz, para que, livre das paixões, goze paz nossa alma. Se cada ano extirpássemos um só vício em breve seríamos perfeitos. Mas agora, pelo contrário, muitas vezes experimentamos que éramos melhores, e nossa vida mais pura, no princípio da nossa conversão que depois de muitos anos de profissão. O nosso fervor e aproveitamento deveriam crescer, cada dia; mas, agora, considera-se grande coisa poder alguém conservar parte do primitivo fervor. Se no princípio fizéramos algum esforço, tudo poderíamos, em seguida, fazer com facilidade e gosto. Custoso é deixar nossos costumes; mais custoso, porém, contrariar a própria vontade. Mas, se não vences obstáculos pequenos e leves, como triunfarás dos maiores? Resiste no princípio à tua inclinação e rompe com o mau costume, para que te não metas pouco a pouco em maiores dificuldades. Oh! Se bem considerasses quanta paz gozarias e quanto prazer darias aos outros, se vivesses bem, de certo cuidarias mais do teu adiantamento espiritual. …” (A imitação de Cristo, I, 11. Disponível em: http://www.culturabrasil.org/imitacao.htm Acesso em 23 out. 2010). E há ainda hoje quem ache que os maus costumes não inibem o avanço espiritual dos crentes…

Também aqui devemos tomar cuidado com a obsessão que estes “arautos da meditação” estão a fazer com relação à postura física para a meditação, algo que é essencial na “meditação esotérica”, já que deve haver um “desprendimento do corpo”, sua “aniquilação” e a postura física traz, inegavelmente, uma influência na criação deste estado psicológico de desprendimento. Assim como não há uma postura física que se impõe à oração, não pode haver, também, posturas físicas impostas para a meditação.

Não se nega que a meditação exige uma certa postura física, um ambiente em que não haja distração, mas a obsessão que se tem com relação a este aspecto é mais um indicador da influência alheia à Palavra de Deus que possuem tais técnicas de meditação. Ademais, como bem ponderou o já mencionado documento romanista, “…Viver no âmbito da oração toda a realidade do próprio corpo como símbolo, é ainda mais difícil: pode degenerar em culto do corpo e levar a identificar subrepticiamente todas as suas sensações com experiências espirituais. Alguns exercícios físicos produzem automaticamente sensações de repouso e de distensão, que são sentimentos gratificantes; podem talvez até produzir fenômenos de luz e de calor, que se assemelham a um bem-estar espiritual. Trocá-los, porém, por autênticas consolações do Espírito Santo, seria um modo totalmente errôneo de conceber o caminho espiritual. Atribuir-lhes significados simbólicos típicos da experiência mística, quando o comportamento moral do praticante não está à sua altura, representaria uma espécie de esquizofrenia mental, o que pode conduzir até a perturbações psíquicas e, em certos casos, a aberrações morais.…( SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. op.cit., nn.27 e 28).

OBS: Elucidativas são as palavras do monge beneditino D. Estevão Bittencourt (1919-2008) a respeito: “…Os hinduístas, especialmente os budistas, é que cultivam exercícios corporais para praticar a meditação. Nisto são inspirados por sua mentalidade panteísta, que identifica entre si a Divindade e o homem; este seria uma centelha da Divindade apoucada ou encarcerada pela matéria. Os exercícios físicos ttêm a função de fazer que a centelha divina (existente no íntimo do homem) se emancipe das limitações da matéria e entre em sintonia com a divindade existente fora do homem; as posturas físicas, o ritmo respiratório, a dieta alimentícia desempenham assim papel Importante, porque, segundo esta concepção, contribuem para libertar o núcleo central do homem.(…) Nos últimos anos alguns autores católicos têm procurado adaptar a metodologia hinduísta à prática cristã da oração, recomendando exercícios físicos diversos para se conseguir chegar à mais profunda união com Deus.(…) É possível, sim, que os exercícios corporais proporcionem certo bem-estar físico, facilitando a respiração e o metabolismo; todavia esse bem-estar ou essas condições higiênicas não é oração, nem são necessariamente a melhor preparação ou o melhor o concomitante da oração .(…) Quem muito valoriza os exercícios corporais para rezar, corre o risco de identificar oração e bem-estar higiêniCO, ou também o risco de identificar gestos corpóreos e valores éticos espirituais(…) (O mantra na espiritualidade cristã. Pergunte e responderemos, n. 408, ano 1996, p.209. Disponível em: http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:WzfR5pSNdFwJ:www.cleofas.com.br/virtual/texto.php%3Fdoc%3DESTEVAO%26id%3Ddeb0115+medita%C3%A7%C3%A3o,+felipe+de+aquino,+estev%C3%A2o+bettencourt&cd=6&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br Acesso em 21 out. 2010)

Depois de termos sido lavados e purificados no sangue de Cristo (I Jo.1:7), temos condição de prosseguir na meditação, fazendo lembrança de Suas obras (Sl.63:6), refletindo e meditando em Sua Palavra (Sl.119:148), aguardando, em silêncio, a presença do Senhor. Este processo é chamado pelos estudiosos de “iluminação”, porque é nesta reflexão a respeito do Senhor que o Espírito Santo nos faz conhecer a Sua Palavra, abre nossas mentes para as realidades espirituais, o que já é o início do diálogo com o Senhor, que, pela Sua Palavra ou por Suas obras, começa a falar com o nosso homem interior. O Espírito Santo nos guia em toda a verdade neste instante da meditação.

Por fim, temos o terceiro estágio da meditação, conhecido como “união”, uma experiência particular que depende da vontade de Deus. Esta união é um “mistério”, algo que é de impossível descrição, em que desfrutamos de um compartilhamento todo especial com Deus, de uma intimidade, de uma manifestação da Sua glória. Por isso mesmo, como bem afirma o documento católico romano a que nos referimos já algumas vezes, não é possível criar-se uma “técnica” para se chegar à “união mística”, pois isto independe do homem, mas única e exclusivamente de Deus. “…A mística cristã autêntica não tem nada a ver com a técnica: é sempre um dom de Deus, do qual se sente indigno quem dele se beneficia…” (SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. op.cit., n.23).

Esta experiência, ademais, é particular, relacionada com a intimidade entre aquele que medita e o Senhor, algo que não poderá ser, por isso, pretendido nem copiado por outra pessoa. Tem-se aqui uma manifestação espiritual peculiar, que jamais poderá se tornar em uma doutrina, aplicável a todos os servos de Deus. Devemos nunca nos esquecer disto, para que não busquemos o que não nos é oferecido, como também não julguemos os outros pelo que tenhamos nós experimentado com o Senhor em nossa intimidade espiritual.

“… A meditação é um dever que precisamos praticar, se desejamos o nosso próprio bem-estar espiritual. A meditação deveria ser deliberada, intensa e contínua (ver Sl.1:2; 119:97). Os assuntos em torno dos quais a mente do crente mais deveria ocupar-se são as seguintes: as obras da criação (Sl.19); as perfeições de Deus (Dt.32:4); o ofício e as operações do Espírito Santo (Jo. 15 e 16); a dispensação da providência divina (Sl.97:1,2); os preceitos e promessas existentes na Palavra de Deus (Sl.119); o valor dos poderes da alma e sua imortalidade (Mc.8:36) e, finalmente, a depravação de nossa própria natureza, e a graça de Deus, em nossa salvação etc.” (CHAMPLIN, Russell Norman. Meditação. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. v.4, p.200) (destaques originais).

“…Meditação na Palavra dirigirá nossos pensamentos ao Senhor Jesus, e na mais doce comunhão com o Senhor nós pensaremos em Sua Pessoa, caráter, obra, glórias e muito mais, até que as nossas almas estejam ocupadas com Ele Mesmo e nossos corações se derramem em adoração a Ele. Lembre-se de meditar nas obras de Deus (leia Salmo 143:5- 6). Talvez Davi pensasse acerca de Deus preservando-o quando ele matou o leão e o urso, ou quando ele matou Golias. Não pensava ele das grandezas da Criação e dos maravilhosos feitos de Deus em relação a Israel? Meditar nas obras de Deus fazia-lhe ter sede de Deus e orar a Ele. Assim, quanto a nós mesmos, ao invés de nos afligirmos acerca dos nossos problemas, deveríamos pensar nas grandes coisas que Deus tem feito por nós, como Deus tem nos salvado, disciplinado, guiado e preservado. Eu tenho temido coisas que nunca aconteceram e tenho frequentemente esquecido de agradecer a Deus pelas bênçãos recebidas. Não se esqueça de meditar (‘pensar’, King James Version) nos lindos assuntos de Filipenses 4:8. Fazer isso nos fará perceber quão longe nós podemos chegar em pouco tempo. Nós deveríamos ver neste verso um retrato do Senhor Jesus. Se nossas mentes estão cheias destas coisas, não haverá lugar para pensamentos que desagradam ao Senhor.” ((NORRIS, John. A importância da meditação na vida do crente. Truth and tidigns, maio 1995, Trad. e adapt. por Claudinei Benedito. Disponível em: http://www.exame.diario.nom.br/a-import.pdf Acesso em 21 out. 2010).

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