O Reino de Deus Não é Deste Mundo 2/2

Por Caramuru A. francisco

II – A DIMENSÃO TERRENA DO REINO DE DEUS

Evidentemente que não! O reino de Deus está no mundo, embora não seja do mundo. O Senhor Jesus foi bem claro ao afirmar aos fariseus que o reino de Deus já se encontrava entre eles (Lc.17:21), ainda que não fosse um reino com aparência exterior. Para Pilatos, o Senhor repete esta mesma ideia ao afirmar que naquele momento, o Seu reino não era da terra (Jo.18:36).

Jesus disse que os Seus discípulos, assim como Ele, estavam no mundo embora não fossem do mundo (Jo.17:14,16) e, como tal, sofreriam o ódio do mundo, assim como o mundo odiou ao Senhor Jesus (Jo.15:18). Existe, pois, ao contrário do que dizem os “reinistas”, um conflito presente, na face da Terra, entre a Igreja e o mundo, como deixou claro a primeira parte do item 12 do Pacto de Lausanne, que ora reproduzimos:

“Cremos que estamos empenhados num permanente conflito espiritual com os principados e potestades do mal, que querem destruir a igreja e frustrar sua tarefa de evangelização mundial. Sabemos da necessidade de nos revestirmos da armadura de Deus e combater esta batalha com as armas espirituais da verdade e da oração. Pois percebemos a atividade no nosso inimigo, não somente nas falsas ideologias fora da igreja, mas também dentro dela em falsos evangelhos que torcem as Escrituras e colocam o homem no lugar de Deus. Precisamos tanto de vigilância como de discernimento para salvaguardar o evangelho bíblico.…”

OBS: Em seu “manifesto reinista”, a Igreja Reina do bispo Hermes Fernandes bem denota a visão distorcida que tem do “reino de Deus”, ao negar este conflito em seu itens 48 e 52, “in verbis”: 48 – Cremos na existência do diabo, tanto como entidade espiritual, quanto como um arquétipo do mal, mas que está subjugado pelo poder da cruz de Cristo, onde foi definitivamente vencido. Portanto, não há a necessidade de se “amarrar” demônios, até porque Jesus, o mais Valente, já os amarrou. Repudiamos a crença maniqueísta predominante em muitos círculos evangélicos, que encara a realidade como cenário de uma guerra entre os poderes do bem e do mal. Satanás jamais representou qualquer ameaça à soberania de Deus (1 Co. 15:57; Mt. 18:20) (…)52 - Cremos que Satanás e suas hordas encontram-se derrotados, e amarrados, no sentido de não poderem coibir o avanço do Evangelho às nações do mundo (Is.49:24-25; Mt.12:28-29; Lc.11:20-22; Cl.1:13; 2:15; Hb.2:14; 2 Pe.2:4; Jd.6; Ap.20:1-3)”. Embora esteja correto em se evitar um dualismo, o manifesto mostra que não crê no poder das trevas que levará a maior parte das pessoas a rejeitar a Cristo, como se o “reino de Deus” já fosse pleno na Terra…

Apesar deste conflito, o “reino de Deus” já está presente, e a prova disto é que Jesus expulsava demônios (Mt.12:28), a demonstrar que o mundo e o poder das trevas não poderiam resistir à Sua autoridade, autoridade que foi transmitida aos Seus discípulos (Mc.16:17).

Apesar do ódio do mundo, Jesus, como disse Pedro na casa de Cornélio, ungido pelo Espírito Santo e com virtude, “andou fazendo bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com Ele” (At.10:38) e, ante a Sua rejeição por Israel, retirou o reino de Deus e o deu “a uma nação que dê os seus frutos” (Mt.21:43).

Esta nação, que é a Igreja, tem de dar “os frutos do reino”, pois recebeu a semente da Palavra, tornando-se uma boa terra, e frutificou (Mt.13:23).

Por isso, o “reino de Deus” já se faz presente na Terra e, por causa dele, a Igreja “anda fazendo bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus é com ela”, pois ela é o corpo de Cristo (I Co.12:27), a continuidade da presença do Senhor neste mundo.

O propósito de Deus não é que simplesmente saiamos do mundo, mas que, saídos do mundo, retornemos a ele, enviados pelo Senhor, para sermos Suas testemunhas até os confins da Terra (Jo.17:18), devidamente santificados na Sua Palavra (Jo.17:17).

Para tanto, devemos, assim como Jesus, “encarnar”, ou seja, ser “homens no meio dos homens”. Jesus nos enviou assim como o Pai o havia enviado, expressão que o teólogo peruano Samuel Escobar, um dos “pais da teologia da missão integral”, diz ter o seguinte significado:” …Enviados, por Ele, somos também homens no meio dos homens. Vivemos numa sociedade determinada, submetidos às leis humanas, às contingências e vicissitudes a que estão sujeitos todos os nossos concidadãos terrenos. E a verdade a qual somos obrigados a reconhecer é que temos cedido muitas vezes à tentação de nos separarmos da nossa sociedade e não nos identificarmos com ela. Não existe ainda mosteiro protestante na América Latina, mas a mentalidade de mosteiro, essa sim, existe. Há aqueles que sonham formar ‘bairros evangélicos’, ou sistemas de educação nos quais desde o berço até o túmulo o filho de crente seja protegido do mundo. Dizia o Pastor Stott: ‘Eu pessoalmente creio que o nosso fracasso em obedecer as implicações do mandado ‘assim... eu também envio’ constitui a mais trágica fraqueza dos cristãos evangélicos no campo da evangelização hoje em dia. Nós não nos identificamos. Cremos tão fortemente na proclamação (e muito justamente), que tendemos a proclamar a nossa mensagem à distância. As vezes parecemos gente que dá conselhos sobre a segurança de praia a homens que estão se afogando. Não nos atiramos à água para salvá-los. Espanta-nos termos que nos molhar. Além do que, isso implica muitos perigos. Esquecemos que Jesus Cristo não enviou sua salvação do céu. Ele nos visitou com grande humildade’.…(AGUIRRE, Samuel Escobar. op.cit.).

Por isso, o “reino de Deus” não pode se manifestar apenas na proclamação do Evangelho e no desfrute das bênçãos, alianças e promessas, mas tem de se mostrar ao mundo através de ações concretas, efetivas, que mostrem que somos “a nação que dá os frutos do reino”. Como afirmou o Pacto de Lausanne em seu item 6, primeira parte: “…Cristo envia o seu povo redimido ao mundo assim como o Pai o enviou, e que isso requer uma penetração de igual modo profunda e sacrificial. Precisamos deixar os nossos guetos eclesiásticos e penetrar na sociedade não-cristã.…”.

OBS: “O Pacto de Lausanne foi um grande congresso mundial de evangélicos que ocorreu em 1974 em Lausana, Suíça, onde foi criado um comitê mundial das igrejas evangélicas. (…)O Pacto de Lausanne é considerado relevante instrumento para a definição permanente da identidade evangélica em um período de intensa relativização e de fluidificação das identidades institucionais e pessoais. Ser evangélico, então, não é uma questão de se aferrar intransigentemente a este ou aquele grupo de conceitos doutrinários, mas uma questão de comprometer-se com o propósito de Deus, a saber: ser servo e testemunha de Deus - ou seja, ser uma comunhão de pessoas que persegue em comum o alvo de viver à altura do Reino e da Glória de Deus, edificado-se a si mesmo como o Corpo de Cristo que anuncia a todo o mundo o reino e a glória.…” (Pacto de Lausanne. In: WIKIPÉDIA. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pacto_de_Lausanne Acesso em 11 jul. 2011).

Jesus, entre nós, andou fazendo bem e temos de fazer isto. Verdade é que a presença do “reino de Deus” entre os homens trouxe inegáveis melhoras na vida da humanidade. As universidades, a dignificação da pessoa humana, o respeito ao próximo, a filantropia social, a defesa da liberdade são conquistas inegáveis que o “reino de Deus” trouxe para a humanidade nestes dois milênios de Cristianismo. Todavia, é preciso que, a cada instante, prossigamos nesta tarefa de “fazer o bem”.

Para tanto, é imperioso que as Suas testemunhas, num momento tão difícil em que vivemos, em que as conquistas do “reino de Deus” são rapidamente neutralizadas pela ação do “mistério da injustiça”, na preparação para a ditadura mundial do Anticristo, ajam mais ativamente no sentido de impedir o aviltamento do ser humano, algo que se está intensificando grandemente.

O “reino de Deus” continua entre os homens e, por isso, devemos lutar para que os valores do reino sejam realçados. Devemos promover a “civilização do amor”, lutando contra as medidas que tentam matar e destruir os homens, tais como a destruição da família nos moldes biblicamente estabelecidos, o triunfo da morte em causas como a liberação do aborto e da eutanásia, como a própria defesa da homossexualidade e de sua imposição aos homens, sem falar nas medidas amplamente restritivas da liberdade de expressão e de manifestação do pensamento, pelo controle dos meios de comunicação de massa.

Jesus, também, veio “curar a todos os oprimidos do diabo” e o “reino de Deus” tem de trazer esta cura para a humanidade. A “cura da opressão do diabo” é a retirada do pecado da vida de cada homem, o que somente se alcança pela fé em Cristo Jesus, mas os discípulos de Jesus devem, também, esforçar-se para minorar as consequências nefastas trazidas pelo pecado, criando condições para que as pessoas saiam das armadilhas criadas pelo inimigo de nossas almas.

Neste sentido, a Igreja deve, como agência do reino de Deus, promover ações para neutralizar e reverter as estruturas injustas surgidas na sociedade por força do pecado, levando a mensagem do Evangelho mas a complementando com atitudes que façam com que se desfaçam as teias traçadas pelo maligno. Assim, é mister que se envolva na criação de redes que facilitem a retirada de pessoas de redes de prostituição, das drogas, das estruturas do crime organizado, das mais diversas situações nas quais foram inseridas pelo mal.

OBS: Como diz a primeira parte do item 5 do Pacto de Lausanne: “Afirmamos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos partilhar o seu interesse pela justiça e pela conciliação em toda a sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada…”

Esta ação da Igreja, que jamais conseguirá a conversão integral do mundo, é parte daquilo que o Senhor Jesus, pessoalmente, fará quando destruir o sistema gentílico mundial e instituir o Seu reino milenial, no “…tempo da restauração de tudo, dos quais Deus falou pela boca de Seus santos profetas, desde o princípio” (At.3:21b).

O fruto trazido pelo “reino de Deus” é permanente (Jo.15:16), ainda que não atinja a plenitude por parte da Igreja. Temos, pois, uma dimensão terrena para o reino de Deus, tanto que o Senhor Jesus disse a Pilatos que, “naquele momento” o Seu reino não era da Terra, prova de que, num momento posterior, passaria a sê-lo.

Por isso, embora não possamos ter uma visão apenas terrena do “reino de Deus”, até porque ele se consolidará em “novos céus e nova terra onde habita a justiça” (II Pe.3:13), não podemos desmerecer esta dimensão terrena do “reino de Deus”, que já melhora o mundo em que vivemos enquanto aqui está a Igreja para representá-lo, e que promoverá a “restauração de tudo” no milênio.

Temos tido esta consciência da “missão integral da Igreja”? Como diz o já tantas vezes mencionado Pacto de Lausanne, “…A evangelização mundial requer que a igreja inteira leve o evangelho integral ao mundo todo. A igreja ocupa o ponto central do propósito divino para com o mundo, e é o agente que ele promoveu para difundir o evangelho. Mas uma igreja que pregue a Cruz deve, ela própria, ser marcada pela Cruz. Ela torna-se uma pedra de tropeço para a evangelização quando trai o evangelho ou quando lhe falta uma fé viva em Deus, um amor genuíno pelas pessoas, ou uma honestidade escrupulosa em todas as coisas, inclusive em promoção e finanças…” (item 6). Temos tido uma vida que manifesta o “reino de Deus” entre os homens? Pensemos nisto!

José de Nazaré: Exemplo Bíblico de Paternidade

Por Francikley Vito

Quando fui perguntado sobre quem seria o melhor exemplo de pai na Bíblia, não precisei pensar muito para dar a minha resposta. Desde muito tempo tenho visto na pessoa de José, marido de Maria, um exemplo de paternidade aos moldes bíblicos. José filho de Jacó (Mt 1.16) é definitivamente uma das figuras mais piedosas já mostrada nas Escrituras Sagradas. Não temos muitas informações a respeito do homem que foi escolhido por Deus para ser o pai adotivo do Salvador, porém, na primeira menção que temos dele, somos informados que era um homem “justo” (Mt 1.19). Essa verdade será demonstrada em toda curta narrativa de sua vida nos Evangelhos (o evangelho Marcos não dá uma biografia de José). Embora pertencente à tribo de Judá, José não morava na região da Judéia (Lc 2.4); ao invés disso preferiu fixar residência na cidade de Nazaré, na região da Galileia. Na pequena cidade exercia a função de carpinteiro (é provável também que tenha sido pedreiro). Fiel as leis do seu povo, José aparece na narrativa Sagrada desposado de uma jovem cujo nome era Maria (Mt 1.18). Na cultura judaica o desposar de dois jovens era um compromisso que eles assumiam com suas famílias, consigo mesmos e com Deus, era tão real que o noivo já se dizia “marido” da mulher que escolhera para sua esposa; esse compromisso não poderia ser quebrado a não ser pelo repúdio, uma separação de acordo com a Lei (Dt 22.22ss). Os especialistas concordam que José era mais velho que Maria, mas não é possível precisar qual o número de anos que os separa. Por seu repentino sumiço das narrativas dos Evangelistas, entende-se que ele faleceu antes de Jesus ter começado seu ministério público. Alguns também acreditam que depois da morte de José a responsabilidade da família foi colocada a cargo de Jesus, por isso que, quando do seu batismo, com aproximadamente trinta anos, ele deixa a Galeleia e vai ter com João para se batizado por ele (Mc 1.9). A pergunta então é: o que fez de José um exemplo de paternidade bíblica?

Ele não deixou que o medo furtasse sua fé. José estava noivo com Maria, filha de Tiago; porém “antes de se ajuntarem, achou-se ter concebido” (Mt1.18). Por ter sido honesto com sua futura mulher, José não sabia explicar como aquela gravidez pôde ter acontecido. E ele temeu. Temeu por ele mesmo, temeu pela reputação de Maria, e temeu pelo que a Lei mandava fazer nesses casos (Dt 22.29). Então “intentou deixá-la secretamente”. Ele não tinha certeza de nada e por ser justo não queria acobertar um possível pecado de Maria, mas também, por compaixão, recusou a entregar sua noiva ao processo formal da Lei (Nm 5.11-31), o que para ela seria uma vergonha. Então Deus falou. Diz a narrativa que “projetando ele isto, eis que em sonho lhe apareceu um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo; e dará à luz um filho e chamarás o seu nome Jesus; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados.” (Mt 1.20-21). E José confiantemente creu. Creu que o que Deus dissera era não apenas verdade, mas o melhor para sua vida apesar do seu temor.

Não há coisa que atemorize mais os pais do que a incerteza quanto o futuro de seus filhos. Mas, como José, devemos crer que aquilo que Deus diz é a verdade. E que as promessas de que para aqueles que temem ao Senhor “os seus filhos como plantas de oliveira à roda da tua mesa” (Sl 128.3); e ainda, que “bem-aventurados serão os seus filhos depois dele” (Pv 20.7) hão de se cumprir. Não podemos deixar que o medo quanto ao futuro nos empeça de desfrutar de todas as bênçãos que Deus quer derramar sobre nós e sobre os nossos filhos hoje. Os nossos filhos são heranças do Senhor, a despeito dos nossos medos.

Ele não deixou de cuidar daquele que decidiu amar. O velho carpinteiro de Nazaré não havia planejado ter um filho tão inesperadamente com a mulher que escolhera como esposa; mas viu cumprir-se em sua trajetória o significado do seu nome (José significa ‘Deus acrescenta’). Ao “receber" Maria como sua esposa, Deus lhe fez pai terreno de Jesus. Ao obedecer ao mandato de Deus, José tomou para si a responsabilidade de amar e cuidar de uma nova família, e isso ele fez com toda perfeição. Levou o menino para ser purificado (Lc 2.22); conduzia-o às festas religiosas (Lc 2.41); fugiu com o menino para o Egito para que ele não fosse morto (Mt 2. 14) e obedeceu a Deus de maneira que a vontade d’Ele se cumprisse na vida do pequeno Jesus (Mt. 2. 23). José agiu como um pai para Jesus, mesmo sabendo que não o era de fato.

Como disse um grande teólogo, nós vivemos em um cenário inédito em nossa sociedade: temos crianças órfãs de pais vivos. Gosto das palavras dos psicólogos cristãos Gary Smalley e John Trent quando diz que o amor é uma questão de escolha, uma decisão. Segundo eles, “amor genuíno e colocar a honra [da outra pessoa] em prática, apesar de todos os custos”. José resolver honrar a Deus, sua esposa e sua família e essa honra era demonstrado pelo cuidado que ele demonstrava para com eles. O indesejado não pode ser desculpa para a ausência de amor ou de cuidado. O fato de um filho não ter sido planejado não nos isenta da responsabilidade de cuidar e amá-lo. O nosso amar é materializado no cuidar.

Ele não deixou de ser um exemplo. Em uma sociedade patriarcal, em que os homens ditavam as regras, o que muitas vezes os isentava de responsabilidades, o carpinteiro de Belém foi diferente. Resolveu seu um exemplo. Respeitou os dias de purificação de sua esposa como se o filho dela fosse também seu “até que” pudesse viver maritalmente com ela (Mt 1.25). Jesus herda de José a profissão de carpinteiro (Mc 6.13), mostrando que José se preocupou em ensinar aos seus filhos um trabalho; e um dos filhos legítimos de José e Maria leva o nome do Pai, que era conhecido como “o carpinteiro” (Mt 13.55). A paternidade de José era tão exemplar que até Maria, que sabia melhor que ninguém que Jesus não era filho legitimo dele, ao se referir à tensão de José diante do desaparecimento de Jesus diz que ele (José) era “seu pai” (Lc 2.48).

Os pais não podem esquecer que são eles os primeiros e mais forte exemplo para seus filhos. Como está escrito: “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te” (Dt 6.5-7). Assim como José e o próprio Cristo nos deixou exemplos, devemos ser nós mesmos, exemplos para nossos filhos. Exemplos de conduta, no trato, de trabalho e, principalmente, de amor a Deus e obediência a Sua voz. Isso se torna ainda mais sério para aqueles que conhecem “aquele que é desde o princípio”(I Jo 2.13).

Termino lembrando que “Se sabeis que ele [Jesus] é justo, sabeis que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele” (I Jo 2.29); portanto “irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês. Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”(Rm 12.1-2 NVI). Quando vivermos de acordo com a vontade de Deus, temos a confiança de que erraremos menos na criação de nossos filhos. Amém.

Para Bom Entendedor...(3)


Lembrete: Milagre é uma ação de Deus para glorificação do seu próprio nome.

O Reino de Deus Não é Deste Mundo 1/2

Por Caramuru A. Francisco

Texto áureo

Respondeu Jesus: O Meu Reino não é deste mundo; se o Meu Reino fosse deste mundo, lutariam os Meus servos, para que Eu não fosse entregue aos judeus; mas, agora, o Meu Reino não é daqui.” (Jo.18:36).

INTRODUÇÃO

A natureza do reino de Deus é espiritual, não podemos ter dele uma visão terrena. [Assim] faremos uma breve digressão sobre o aspecto espiritual do reino de Deus, visto que muito do caráter secundário e da resistência que se dá à “doutrina do reino de Deus” está vinculada a uma visão equivocada do “reino de Deus” como uma realidade material. Diante de Pilatos, o representante da maior autoridade política de seu tempo (César), o Senhor Jesus foi bem claro ao afirmar que o Seu reino não era deste mundo. Embora o “reino de Deus” tenha repercussões sobre a Terra, pois está entre os homens, não é algo terrenal, mas espiritual. Nunca nos esqueçamos disso!

I – A VISÃO TERRENA DO REINO DE DEUS

Temos dito que a doutrina do reino de Deus tem sido, de certo modo, negligenciada por amplos setores da Igreja, notadamente aqueles que se dizem “fundamentalistas bíblicos”, uma vez que, inadvertidamente, houve a associação entre o “liberalismo teológico” e a assunção de uma postura que põe o “reino de Deus” no núcleo da discussão teológica e da pregação do Evangelho.

OBS: “…Porém, talvez o que mais afetou nossa atitude, foi a polêmica entre fundamentalismo e modernismo, a partir dos começos deste século, bem como a rejeição do fracassado “Evangelho Social”. Chegou-se a identificar toda a preocupação com os problemas sociais e políticos como tentativa de introduzir o “evangelho social”, e ao final atingiu-se o ponto em que se desculpou a falta de compaixão e de obediência como atitude de ‘defesa da fé’.… (AGUIRRE, Samuel Escobar. A responsabilidade social da Igreja. Disponível em: http://www.projetoverdade.com.br/estudos/aprioridadedaevangelizacao.htm Acesso em 11 jul. 2011).

Em virtude de se ter dado ênfase ao “reino de Deus” como núcleo da pregação do Evangelho em meio a uma discussão de maior participação da Igreja na questão social que se aguçou com a industrialização dos países europeus e dos Estados Unidos, nos séculos XVIII e XIX, precisamente num instante em que proliferava o chamado “liberalismo teológico”, que punha em xeque a crença na Bíblia como a Palavra de Deus, houve a associação da busca de uma “restauração” do conceito de “reino de Deus” na reflexão teológica e na pregação do Evangelho com esta linha de pensamento de descrédito nas Escrituras, gerando, então, a ideia de que “a doutrina do reino de Deus” era tão somente uma linha auxiliar deste pensamento teológico liberal.

Assim, quando o pastor e teólogo batista norte-americano de origem alemã Walter Rauschenbusch (1861-1918) iniciou a pregação do seu “evangelho social”, ao mesmo tempo em que se apresentava como um “teólogo liberal”, que não cria mais na plena inspiração das Escrituras nem tampouco no sacrifício vicário de Cristo como base para a salvação da humanidade, sua pregação a respeito do “reino de Deus” como base do evangelho foi considerada apenas um aspecto deste seu “liberalismo teológico” e, por causa disso, toda a ideia do “evangelho social” foi rechaçada pelos que não abandonaram sua crença na Bíblia como a Palavra de Deus (os chamados “fundamentalistas bíblicos’).

Não resta dúvida de que Rauschenbusch, em seu discurso do “evangelho social”, deu ao “reino de Deus” uma feição materialista, incompatível com o ensino bíblico, mas não podemos deixar de realçar que tinha ele razão ao mostrar que o conceito de “reino de Deus” faz parte do âmago do Evangelho de Jesus Cristo, que, afinal de contas, é o “Evangelho do reino de Deus” (Mc.1:14).

Esta visão materialista do “reino de Deus” não foi, porém, invenção de Rauschenbusch. Na verdade, já nos dias de Jesus, era a visão vigente entre os judeus, que, como nos mostra a Bíblia, aguardavam o “reino de Deus”, mas um reino aparente, um reino político, material, a restauração do reino de Davi (Lc.17:20,21).

Israel, que era o “reino sacerdotal” de Deus (Ex.19:6), rejeitou a Deus como rei e pediu um rei humano, querendo, com isto, ser igual às demais nações (I Sm.8:4-8). Assim, neste gesto, já havia abandonado a ideia de um reino espiritual para um reino material. Aliás, como notamos das declarações do Senhor a Samuel, esta rejeição apenas se cristalizou, se consolidou com o pedido dos anciãos para constituição de um rei, mas, na verdade, era um processo que se iniciara, a bem da verdade, na quebra da lei no episódio do bezerro de ouro (Ex.32).

O Senhor, porém, na Sua infinita misericórdia, fez com que a própria casa real que estabeleceu sobre Israel após ter cessado a Sua ira (Os.13:11), ou seja, a casa de Davi, fosse uma casa eterna (II Sm.7:16), na qual haveria de nascer Aquele que redimiria não só Israel mas todas as nações, para abrir os olhos dos cegos, tirar da prisão os presos e do cárcere os que jazem em trevas (Is.42:6,7).

No entanto, o povo de Israel não entendeu este sentido do “reino de Deus”. Depois da perda da independência política com o cativeiro da Babilônia, continuou a acalentar o sonho de restauração do trono de Davi, ante a promessa divina, que, aliás, foi reforçada quando do fim do cativeiro a Zorobabel, descendente de Davi e herdeiro do trono judeu (Ag.2:21-23). Os próprios discípulos de Jesus manifestavam esta ideia pouco antes da ascensão do Senhor e apesar de Jesus lhes ter ensinado quarenta dias a respeito do “reino de Deus” (At.1:3,6).

Vemos, portanto, que a ideia materialista do “reino de Deus” é algo que tem acompanhado o povo de Deus, seja Israel, seja até mesmo a Igreja, ao longo dos séculos, de modo que não podemos censurar ou criticar a sua presença, o que, logicamente, não significa que devamos acolhê-la.

Nos tempos apostólicos, após o revestimento de poder no dia de Pentecostes, a Igreja, perseguida tanto por judeus quanto por gentios, pôde bem entender que o “reino de Deus” não era deste mundo, como havia dito o Senhor Jesus a Pilatos.

Após o revestimento de poder, que fez com que os discípulos se tornassem eficazes testemunhas de Jesus (At.1:8), compreendeu a Igreja que sua tarefa não era perquirir sobre o tempo ou as estações que o Pai havia estabelecido para o cumprimento das promessas messiânicas que falavam a respeito do “reino”, mas, sim, pregar o Evangelho, o “reino de Deus” que estava entre os homens, ainda que não de forma visível e com dimensões temporais ou sócio-políticas.

Desde os primórdios, encontramos que o Espírito Santo havia feito os discípulos superar esta “ansiedade”, mostrando aos servos do Senhor que cumpria, agora, levar a “mensagem do reino de Deus”, que, como dizia Paulo, não era nem comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo (Rm.14:17).

O “reino de Deus” foi corretamente compreendido como uma realidade espiritual, como a libertação do pecado, como o “transporte do poder das trevas para o reino do Filho do seu amor” (Cl.1:13), como a ida aos “lugares celestiais em Cristo” onde somos abençoados com todas as bênçãos espirituais (Ef.1:3).

Por isso, os apóstolos jamais defenderam qualquer insubmissão às autoridades, mas, pelo contrário, confirmavam que toda autoridade fora constituída por Deus e deveria ser honrada (Rm.13:1-7; I Pe.2:17). Isto não impediu, porém, que os cristãos cedo fossem vistos como uma ameaça ao Império Romano, a ponto de Paulo e Pedro, os mesmos que ensinaram sobre o respeito às autoridades romanas, terem sido martirizados. O “reino de Deus”, apesar de ser espiritual, trazia incômodo às estruturas dos reinos gentílicos, visto que a pregação da verdade, a justiça, paz e alegria no Espírito Santo sempre se apresentam como ameaça a uma sociedade construída pelo pecado e pela injustiça.

Os chamados “pais da Igreja”, ou seja, os grandes nomes da Igreja que surgiram depois dos apóstolos até por volta do século VI, também reafirmavam esta linha de pensamento, entendendo que o “reino de Deus” tinha natureza espiritual, conquanto tivesse vindo para melhorar o mundo de então.

No entanto, com a permissão do culto cristão, feita pelo imperador romano Constantino I (272-337), em 313, esta ideia começou a se desfazer, pois alguns viram nesta permissão, e na proximidade que Constantino I passou a ter junto aos cristãos (com o objetivo de dar sobrevida ao Império Romano…), uma ideia de instituição de um “reino de Deus” político e material.

Assim Eusébio de Cesareia (265-339), o grande historiador dos primeiros séculos da Igreja, passou a ser um entusiasta desta associação entre Império e Igreja, achando que, neste fato, estava a vitória do Evangelho de Cristo Jesus.

OBS: As últimas palavras da História Eclesiástica de Eusébio bem revelam este pensamento: “…Assim, depois que toda a tirania havia sido finalmente purgada, o império foi com justiça conservado firme e sem rival a Constantino e seus filhos. Os quais, em primeiro lugar eliminando aquela inimizade contra Deus mostrada pelos governantes anteriores, sensíveis às misericórdias a eles conferidas por Deus, também mostraram seu amor pela religião e por Deuys, comn devoção e gratidão a Ele pelas obras e operações que apresentaram à vista do mundo inteiro.” (História eclesiástica. Trad. de Lucy Iamakami e Luís Aron de Macedo, p.403).

Esta noção de que “o reino de Deus” se confundiria com uma instituição com poderes temporais, que seria a Igreja, acabou gerando a confusão entre “Igreja” (menos o conjunto dos salvos, mas a instituição erguida a partir dos salvos) e o “reino de Deus”, que deu ensejo a todas as teorias políticas que levaram a uma supremacia do Papado durante a Idade Média na Europa, com as distorções que até hoje existem.

Esta confusão da “Igreja” com o “reino de Deus” tem seu nascedouro na obra de Agostinho de Hipona (354-430), um dos “pais da Igreja”, em sua obra “A Cidade de Deus”, onde, corretamente, identificou, na história da humanidade, a presença de “duas cidades”: a “cidade de Deus”, que era composta pelos que serviam ao Senhor e a “cidade terrena”, composta pelos que eram desobedientes a Deus. Agostinho diz que estas cidades conviviam na Terra desde o início da procriação. Caim, que fundou uma cidade na Terra, representou a “cidade terrena”, enquanto que Abel, mero peregrino na Terra, foi o primeiro dos cidadãos da “cidade de Deus”, que é “celestial”, numa clara demonstração de que, embora baseado em Agostinho, não foi ele próprio quem gerou uma ideia materialista para o “reino de Deus”.

OBS: “…temos distribuído em dois gêneros: um, dos que vivem segundo o homem, e outro, segundo Deus, e a isto chamamos também misticamente duas cidades, quer dizer, duas sociedades ou congregações de homens, das quais uma está predestinada para reinar eternamente com Deus, e a outra para padecer eterno tormento com o demônio, e este é o fim principal delas, do qual trataremos depois.(…). Assim diz a Sagrada Escritura de Caim que fundou una cidade; mas Abel, como peregrino, não a fundou, porque a cidade dos santos é soberana e celestial, ainda que produza na terra os cidadãos, nos quais é peregrina até que chegue o tempo de seu reino, quando chegue a juntar a todos, ressuscitados com seus corpos, e então se lhes entregará o reino prometido, donde com seu príncipe, rei dos séculos, reinarão sem fim para sempre” (A cidade de Deus. Trad. de Libros Tauros, p.395,396) (tradução nossa de texto em espanhol).

Com a queda do Império Romano do Ocidente e o caos daí decorrente na Europa, a Igreja foi a única instituição a remanescer e logo se pretendeu dar a esta situação histórica a ideia da supremacia e vitória da “cidade de Deus” sobre a “cidade terrena”, vinculando o estabelecimento do “reino de Deus” a esta supremacia política, social e econômica da Igreja.

Esta linha de pensamento, aliás, teve grande aceitação na medida em que, também, se havia rechaçado a crença no “reino milenial de Cristo”, com o triunfo do chamado “amilenismo”, a doutrina de que o “reino milenial de Cristo” não seria literal (posição defendida por Eusébio). Assim, como não se cria num governo pessoal de Jesus sobre a Terra por mil anos, passou-se a entender que a “justiça e paz” apresentadas nas profecias se concretizariam por intermédio da evangelização do mundo por intermédio da Igreja, ou seja, o “reino de Deus” se tornaria pleno no tempo da Igreja e, quando todo o mundo se convertesse (ou tivesse a chance de fazê-lo), viria o juízo final.

O mesmo equívoco dos judeus acabou se inserindo entre os que cristãos se diziam ser e, em virtude disto, surgiu a ideia de que o “reino de Deus” se instituiria sobre a face da Terra como um triunfo da evangelização e de que a Igreja tinha, sim, um poder temporal, um poder político, precisamente para estabelecer o Evangelho entre os povos.

Com o fim da Idade Média e o desprestígio do poder político do Papado, este pensamento não foi abalado. Pelo contrário, foi o pensamento que norteou a colonização das Américas e da Oceania e, até mesmo, a ocupação pelas potências europeias de vastas áreas da África e da Ásia, o que ficou conhecido como “imperialismo”.

Para tanto, além do “amilenismo”, surgiu também uma outra corrente escatológica que deu base para um pensamento desta natureza, pensamento este que encantou, inclusive, alguns nomes da Reforma Protestante, o chamado “pós-milenismo”, que entende que o “milênio” existirá, mas será resultado da conversão do mundo ao Evangelho. Para estes, o reino milenar de Cristo virá quando a Igreja cumprir a tarefa de evangelizar todo o mundo e, neste ponto, a presença de potências cristãs no cenário político internacional é um sinal desta evangelização que trará uma era de “justiça e paz” antes do retorno de Cristo.

Esta linha de pensamento, que, inclusive, serviu de estímulo para o grande trabalho missionário que acompanhou tanto a colonização quanto o imperialismo, tem, hoje, adeptos no chamado “reinismo”, defendido principalmente, entre nós, pela igreja REINA, dirigida pelo bispo Hermes Fernandes, que entende que o “reino de Deus” deve se estabelecer na Terra mediante ações da Igreja em termos sociais, políticos e econômicos, sem o que não se terá como Jesus retornar à Terra.

OBS: “…Ser reinista não é apenas pertencer a uma agremiação eclesiástica, mas ser um agente do Reino de Deus, empenhado na transformação do Mundo por intermédio da implementação do conjunto de valores e princípios ensinados por Jesus. Neste contexto, a igreja é o farol, a humanidade é o navio, e o Reino de Deus é o Porto Seguro. Um farol não pode apontar sua luz para si mesmo. Seu papel é iluminar o caminho, possibilitando ao navio chegar seguro ao porto. Assim, a igreja tem a missão de ser paradigma civilizatório, a fim de que as nações andem à sua luz. A igreja deve ser uma espécie de microcosmos, de protótipo, de amostra grátis, de plano piloto. Ela, portanto, não é um fim em si mesma. A Igreja do Futuro deve ser proativa, em vez de reativa. Deve antecipar-se, como fez a mulher que derramou o perfume sobre Jesus. Deve ser vanguardista. O Mundo deve conformar-se aos valores por ela apregoados, e não vice-versa. Ela deve estar sempre um pé à frente, e isso com respeito a qualquer questão de interesse humano. Ela não apenas responde questões pertinentes ao seu tempo, como prevê questões que ainda surgirão, e busca respondê-las ainda antes que se tornem pertinentes.Embora sua origem seja celestial, ela emerge da realidade em que está inserida. Portanto, ela só pode ser emergente, se for antes, imergente. Ao emergir, ela atrai para si, não os holofotes, mas a responsabilidade por tudo o que diz respeito à condição humana e suas demandas. Por isso, ela é convergente. Sua cosmovisão é ampla e abarca a realidade como um todo, desde a cultura, a educação, as ciências, a justiça social e o meio-ambiente.…” (Rompendo com o igrejismo, abraçando o reinismo! Disponível em: http://vemprave.blogspot.com/2011/06/rompendo-com-o-igrejismo-abracando-o.html Acesso em 09 jul. 2011).

O “evangelho social” de Rauschenbusch não diferia muito destes pensamentos. Pelo contrário, entendia que, para que houvesse o estabelecimento do “reino de Deus” na Terra, não se deveria apoiar uma instituição como a Igreja, mas, sim, que se deveria estabelecer uma luta contra a exploração dos operários e dos injustiçados pela industrialização, com a retirada do chamado “pecado social” das estruturas sociais. Somente assim, entendia este pastor, o “reino de Deus” seria estabelecido e se poderia viver o Evangelho.

Rauschenbusch não identificava a “Igreja” com o “reino de Deus”, pois via a “Igreja” como conivente com a situação anticristã existente na sociedade, mas não deixava de entender que o “reino de Deus” tinha de se estabelecer na Terra por força humana, ainda que não pela instituição “Igreja”. Para ele, os verdadeiros integrantes do “reino de Deus” deveriam lutar para estabelecer, na Terra, a “justiça e paz” profetizadas nas Escrituras. A Igreja deve ser levada à instituição do “reino de Deus”, que, para o teólogo norte-americano, é “a humanidade organizada segundo a vontade de Deus”.

OBS: Este trecho de um dos principais livros de Rauschenbusch bem explana seu entendimento a respeito do estabelecimento do “reino de Deus”: “…(a) Desde que Cristo revelou o divino valor da vida e da pessoa e desde que Sua salvação busca a restauração e a plenitude da igualdade de qualquer forma, segue que o Reino de Deus, em todo estáfio do desenvolvimento humano, tende em direção a uma ordem social que garantirá para todas as pessoas seu desenvolvimento mais alto e mais livre. Isto envolve a redenção da vida social da influência paralítica da intolerância religiosa, da repressão da autoasserção na relação entre classes altas e baixas e de todas as formas de escravidão nas quais os seres humanos são tratados como simples meios para servir os os fins de outros; (b) Desde que o amor é a lei suprema de Cristo, o Reino de Deus implica em um reino progressivo de amor nos negócios humanos. Nós podemos ver este avanço em todo lugar onde a livre vontade do amor sobrepõe-se ao uso da força e à coerção legal como um regramento da ordem social. Isto envolve a redenção da sociedade das autocracias políticas e das oligarquias econômicas; a substituição da penologia vingativa pela redentiva; a abolição do constrangimento através da fome como parte do sistema industrial e a abolição da guerra como a expressão suprema do ódio e da mais completa cessação de liberdade, (c) A mais alta expressão de amor é a livre rendição do que é verdadeiramente de nós próprios, vida, propriedade e direitos. Uma mais baixa mas talvez mais decisiva expressão de amor é a rendição de qualquer oportunidade de explorar homens. Nenhum grupo social ou organização pode invocar que está claramente no reino de Deus se aproveita de outros para seu próprio bem-estar e resiste aos esforços para anular seu mal fundamental. Isto envolve a redenção da sociedade da propriedade privada dos recursos naturais da terra e de qualquer condição na indústria que faz o luvro do monopólio possível, (d) O reino do amor tende em direção à unidade progressia da humanidade, mas com a manutenção da liberdade individual e da oportunidade das nações de elaborar suas peculiaridades nacionais e ideais.…” (Teologia do evangelho social, p. 142-3) (tradução nossa de texto original em inglês).

“Mutatis mutandi” é o mesmo pensamento que deu nascimento à chamada “teologia da libertação” que, a partir da década de 1960, alcançou guarida não só na Igreja Romana como também entre muitos protestantes. Adotando o pensamento de Karl Marx (1818-1893), o “pai do comunismo”, estes pensadores entenderam que o “reino de Deus” exigia, antes de mais nada, a libertação das estruturas injustas da sociedade, devendo a Igreja apoiar esta luta para que, aí, sim, então, se pudesse falar no Evangelho e no estabelecimento da “justiça e paz”.

OBS: Vejamos este texto de Leonardo Boff, um dos principais nomes da “teologia da libertação”: “…A Igreja não pode ser entendida nela e por ela mesma, pois está a serviço de realidades que a transcendem, o Reino e o mundo. Mundo e Reino são as pilastras que sustentam todo o edifício da Igreja. Primeiro apresenta-se a realidade do Reino que engloba mundo e Igreja. Reino — categoria empregada por Jesus para expressar sua ipsissima intentio — constitui a utopia realizada no mundo (escatologia); é o fim bom da totalidade da criação em Deus finalmente liberta totalmente de toda imperfeição e penetrada pelo Divino que a realiza absolutamente. O Reino perfaz a salvação em seu estado terminal. O mundo é o lugar da realização histórica do Reino. Na presente situação ele se encontra decadente e marcado pelo pecado; por isso o Reino de Deus se constrói contra as forças do anti-Reino; impõe-se sempre um oneroso processo de libertação para que o mundo possa acolher em si o Reino e desembocar no termo feliz. A Igreja é aquela parte do mundo que, na força do Espírito, acolheu o Reino de forma explícita na pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado em nossa opressão, guarda a permanente memória e a consciência do Reino, celebra sua presença no mundo e em si mesma e detém a gramática de seu anúncio, a serviço do mundo. A Igreja não é o Reino mas seu sinal (concreção explícita) e instrumento (mediação) de implementação no mundo.Cumpre articular numa ordem correta estes três termos. Primeiro vem o Reino como a primeira e última realidade englobando todas as demais. Depois vem o mundo como o espaço da historificação do Reino e de realização da própria Igreja. Por fim vem a Igreja como realização antecipatória e sacramentai do Reino dentro do mundo e mediação para que o Reino se antecipe mais densamente no mundo.…” (Igreja: carisma e poder, p.20)

O que se nota, portanto, em todos estes pensamentos, seja do “evangelho social”, seja do “reinismo” é o entendimento de que, primeiramente, deve-se estabelecer uma ordem social justa na Terra, através de esforços humanos, ainda que baseados no Evangelho de Cristo e com a assistência do Espírito Santo, para, então, termos um “reino milenar de Cristo”, uma era de justiça e paz. Caberia à Igreja, pois, o estabelecimento deste “reino” em termos terrenos.

Esquecem-se, porém, os defensores desta “visão terrena do reino de Deus” que, apesar de o reino de Deus já estar entre nós, não tem ele aparência exterior, como nos ensinou o Senhor Jesus e que a Igreja não irá tomar as rédeas do ambiente político, social e econômico das nações da Terra ao pregar o Evangelho. Se fosse assim, diz-nos o Senhor, Ele não teria sido crucificado, mas Sua prisão geraria um movimento entre Seus seguidores e, certamente, haveria a Sua libertação, inclusive com a ajuda de legiões de anjos (Mt.26:53), que, afinal de contas, como já dizia Agostinho em sua “Cidade de Deus”, também fazem parte do “reino de Deus”.

À Igreja compete pregar o Evangelho do reino de Deus, trazê-lo aos homens, que, se nascerem de novo, não só o verão como, nascendo da água e do Espírito, também nele entrarão. Todavia, este “reino de Deus” está destinado, dada a imperfeição humana, tão somente a melhorar as condições de vida sobre a face da Terra, pois a instauração dos “tempos de refrigério”, da restauração seja da ordem social, seja da própria natureza, se dará por intervenção direta e pessoal do Senhor Jesus quando do estabelecimento do “reino milenial de Cristo” (At.3:21).

Sem Jesus, nada podemos fazer (Jô.15:5 “in fine”) e Ele, sim, haverá de instituir, de forma plena, o “reino de Deus” ainda neste céu e terra, quando voltar com a Igreja para livrar Israel das mãos do Anticristo (Ap.19:11-20:3) e, aí, sim, cumprir as profecias messiânicas do Antigo Testamento que ainda não se cumpriram, quando Israel, e não a Igreja, será o “reino sacerdotal”.

O “reino de Deus” pregado pela Igreja não é deste mundo. As “testemunhas de Cristo” escaparão da ira futura e desfrutarão, desde o momento do arrebatamento da Igreja, o “reino” na “cidade celeste”, na “cidade que está nos céus”, que é o nosso alvo, como nos ensina o apóstolo Paulo (Fp.3:14-21).

O alvo da Igreja é o céu, pois, como ensinou Agostinho, a “cidade de Deus” é peregrina nesta Terra, é fiel depositária da fé de Abraão (Gl.3:29) e, como tal, assim como os heróis da fé, espera “a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus (Hb.11:10)”, deseja “uma [cidade] melhor, isto é, a celestial”, preparada por Deus (Hb.11:16).

Quem pensa apenas nas coisas terrenas, quem reduz o trabalho da Igreja para as realidades desta vida, diz-nos Paulo, é o mais miserável de todos os homens (I Co.15:19) e que, nesta preocupação com uma visão terrena do “reino de Deus”, tornam-se inimigos da cruz de Cristo, destinados à perdição (Fp.3:18,.19).

Com efeito, quando a Igreja passa a querer, por ela própria, empreender o “reino de Deus” na face da Terra, sua tendência é se associar a forças políticas, sociais e econômicas com este afã e, nesta associação, acaba por sufocar a Palavra de Deus, a abrir mão do próprio Evangelho. Foi o que Jesus nos ensinou na parábola do semeador, ao mostrar que a semente que germinou entre os “espinhais”, que representam “os cuidados deste mundo e a sedução das riquezas”, foi sufocada pelos espinhos.

Quando analisamos os pensamentos que levam a uma visão terrena do “reino de Deus”, verificamos, claramente, o cumprimento do que disse o Senhor Jesus. A visão da Igreja-instituição como “reino de Deus” levou ao Papado e a todas as teorias de defesa do poder temporal da Igreja, que redundou nas graves distorções doutrinárias da Igreja Romana e na própria negação do Cristianismo durante a Idade Média.

A visão do pós-milenismo e do amilenismo mantidos após a Reforma Protestante trouxe as graves distorções que, em nome de Deus, se fizeram seja na colonização das Américas e da Oceania, seja no imperialismo europeu-norte-americano na Ásia e na África, que acabou associando, indevidamente, o cristianismo a todo este comportamento anticristão e que muito bem explica a aversão de grandes parcelas da população destes continentes ao Cristianismo na atualidade.

O “reinismo” defendido por Hermes Fernandes levou a uma associação com entidades ligadas à ONU e que estão vinculadas seja ao satanismo, seja à Nova Era, seja, ainda, ao bahaismo, uma seita oriental que também serve de sustentáculo para a Nova Era, que, como sabemos, é a preparação para o estabelecimento da religião do Anticristo.

OBS: “…O Bispo Hermes possui uma parceria com a uma entidade chamada visão mundial (ligada a worldvision, que apoia totalmente a causa criada pela comunidade Bahá’i que são as metas do milênio (veja no link abaixo com as oito metas da ONU):As metas no site reinista: http://www.worldvision.org/content.nsf/learn/g8-goals As mesmas metas no pnud-ONU: http://www.pnud.org.br/odm/ E, claro, não poderia falta o apoio total a agenda 21. A declaração de amor a "mamãe" terra pode ser vista no artigo 67 do manifesto reinista e, ainda por cima, distorceram totalmente a Bíblia para se justificarem: 67 - Que Igreja abrace a questão do meio-ambiente, entendendo que a atual criação está grávida de um novo céu e uma nova terra, e que muitos dos cataclismos naturais que acontecem, são as contrações e gemidos de uma natureza maltratada pelo homem (Rm.8:22) Bom..tudo isso tem que ser centralizado em um lugar. No artigo 144 do manifesto eles falam da criação da Grande Comissão (entenda-se Parlamento Mundial) e a conversão de todos os povos ao cristo (mal sabem eles que é o cristo cósmico): 144 – Christus Victor / Cristo Vencedor – Cremos na vitória de Cristo e de Sua Igreja durante o transcorrer da História, culminando no cumprimento da Grande Comissão, e na conversão das nações (Sl.22:27; Ap.6:2; 15:4)…” (NOTURNO, Teóphilo. As reinações de Hermeneu. Disponível em: http://teophilo.info/analises/hermeneu.htm#conclude Acesso em 11 jul. 2011).

Por fim, a visão do “evangelho social” e da “teologia da libertação” levaram a um total desvirtuamento da doutrina cristã em muitas áreas, com a identificação de muitos movimentos sociais suportados por seus defensores com movimentos revolucionários que, inexoravelmente, levaram a uma perseguição religiosa e à instauração de regimes marxistas-leninistas ou simpatizantes que só serviram para diminuir a liberdade religiosa e a levar a um descrédito em relação ao Evangelho.

Isto sem falar que uma ideia terrena do “reino de Deus” levou, inclusive, ao surgimento de heresias, como as “Testemunhas de Jeová”, cujos “salões do reino” estão a propagar que “o reino de Deus” é um “paraíso na Terra” e que não há a menor possibilidade de vivermos com Deus nos céus.

OBS: Assim ensinam as Testemunhas de Jeová: “…O Reino de Deus é um governo especial. Está estabelecido no céu e governará esta Terra.(…). Deus prometeu que Jesus se tornaria o Rei do Seu Reino. Quando Jesus esteve na Terra, provou que seria um Governante bondoso, justo e perfeito. Quando retornou ao céu, não foi logo entronizado como Rei do Reino de Deus.Em 1914, Jeová concedeu a Jesus a autoridade que lhe prometera. Desde então, Jesus está reinando no céu como Rei designado por Jeová.(…) A Terra está agora dividida em muitos países. Cada um destes tem seu próprio governo. Essas nações frequentemente lutam entre si. Mas o Reino de Deus substituirá todos os governos humanos. Regerá a Terra inteira como único governo. Então não haverá mais guerras, crimes e violência. Todos viverão juntos em paz e união.…” (O que é o Reino de Deus? Disponível em: http://www.watchtower.org/t/rq/article_06.htm Acesso em 11 jul. 2011).

A história, pois, mostra-nos, com absoluta clareza, que não se pode conceber uma visão terrena do “reino de Deus” e que isto é mais uma artimanha do maligno para inibir a real ação do Evangelho, que é a de separar um povo para morar eternamente com o Senhor, não neste mundo. Mas seria o reino de Deus totalmente dissociado da dimensão terrena?

Fé Ajuda em Recuperação Psicológica, diz Pesquisa

Quem acredita em um Deus benevolente se preocupa menos com as incertezas da vida do que aqueles que creem em uma religião cheia de punições, segundo a pesquisa do Hospital McLean, publicada no "Journal of Clinical Psychology" e que será apresentada nesta sexta-feira no encontro anual da Associação Americana de Psicologia. Os médicos responsáveis pelo estudo acreditam que a crença dos pacientes deve ser mais considerada em seus regimes de tratamento e pedem que os profissionais de saúde as integrem para acelerar a recuperação.

"Muitos não estão preparados para perceber como as crenças espirituais podem contribuir para os estados afetivos e integrar estes temas ao tratamento de forma sensível", escreve o coordenador do estudo, David H. Rosmarin.

A pesquisa tem dados de dois estudos: um deles questionou 332 indivíduos, incluindo cristãos e judeus, a partir de sites e organizações religiosas. O outro pesquisou 125 pessoas em organizações judaicas, mostrando um programa de áudio e vídeo concebido para aumentar a confiança em Deus.

No primeiro caso, os pesquisadores constataram que aqueles que acreditavam em um Deus protetor eram mais confiantes. Já o segundo grupo mostrou um aumento de confiança enquanto clínica e estatisticamente diminuíam as incertezas, preocupações e estresse. O estudo mostra ainda que 93% dos americanos acreditam em Deus ou em um poder superior e que 50% deles consideram a religião muito importante em suas vidas.

"Existem evidências que indicam que muitas áreas da espiritualidade e da religião podem prever o funcionamento psicológico, mas os profissionais de saúde sequer perguntam sobre as crenças das pessoas. É uma loucura, nem perguntamos, não somos treinados para isso. Mas é importante", destaca o pesquisador.

Fonte:http://oglobo.globo.com/vivermelhor/mat/2011/08/05/fe-em-deus-pode-melhorar-recuperacao-psicologica-diz-pesquisa-925070288.asp

Vale a Pena Voltar à Cabana?

Por Francikley Vito

“Sou um seguidor de Jesus, é certo, mas não sou uma pessoa religiosa”. São essa as palavras que o autor de A Cabana, William Paul Young, usa para descrever a si mesmo. Hoje, famoso, o autor conta que escreveu a sua história para seus seis filhos, para que eles soubessem o que o pai pensava “sobre Deus, a dor e o sofrimento, sobre a nossa grande tristeza e o processo de cura. Quis que os meus filhos se apaixonassem pelo Deus que eu encontrei; Pai, Filho e Espírito Santo”. Ainda segundo o autor, seu livro é uma “expressão de cura”.

O livro A Cabana foi publicado nos Estados Unidos sem grandes pretensões por uma pequena editora, e, por causa do entusiasmo e indicação de leitores, tornou-se um grande sucesso de vendas, um Best-seller, com mais de dose (12) milhões de exemplares vendidas pelo mundo; desses três (3) milhões só no Brasil. Embalada pelo sucesso estrondoso que o livro alcançou a editora que tem os direitos autorais do título no Brasil, anunciou que em breve lançará o “De Volta à Cabana”; que pretende ser uma espécie de “A Cabana 2”. Mas, como a própria editora informa, o livro será para aqueles que “desejam entender melhor” as lições d’A Cabana. Escrito por C. Baxter Kruger, o novo livro terá um capítulo introdutório escrito por William P. Young, uma participação diz a editora.

O livro A Cabana, desde o seu lançamento, tem suscitada acalorados debates entre teólogos e especialistas sobre as imagens que usam para descrever a Trindade e o relacionamento entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Para alguns o livro tem sido de grande ajuda e conforto; para outro tem despertado grandes controvérsias; em principalmente os teólogos que dizem que sua visão de Deus apresentada pelo autor não é ortodoxa, e sim um tipo de modalismo. Para o cantor e compositor Michael W. Smith, por exemplo, a história “deve ser lida como se fosse uma oração – a melhor forma de oração, cheia de ternura, amor, transparência e surpresas.” Já para Albert Mohler, a teologia apresentada no livro de Young é “inconvencional e indubitavelmente herética”.

E completa: A Cabana é uma obra de ficção. Mas é também um argumento teológico, e isso não pode ser negado. Um grande número de romances e obras de literatura notáveis contém aberrações teológicas e até heresias. A questão crucial é se a aberração doutrinária é apenas parte da história, ou é a mensagem da obra propriamente dita. Quando se fala em A Cabana, o fato mais perturbante é que muitos leitores são atraídos pela mensagem teológica do livro, e não enxergam como ela é conflitante com a Bíblia em tantos pontos cruciais. Tudo isso revela um fracasso desastroso do discernimento evangélico” (Ipródigo, 2010).

O livro é problemático quanto a sua narrativa e quanto a sua teologia. Em sua narrativa ele não pode ser considerado “uma grande história”; e em sua teologia é tido como “uma teodicéia pós-moderna e pós-bíblica”. Sabemos que o novo livro não é escrito pelo autor original de A Cabana, mas o autor do novo livro se propõe a fazer o leitor entender melhor aquela história que a tantos emocionou. Assim a pergunta torna-se inevitável: Vale a pena voltar à cabana?

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