O Reino de Deus Não é Deste Mundo 1/2

Por Caramuru A. Francisco

Texto áureo

Respondeu Jesus: O Meu Reino não é deste mundo; se o Meu Reino fosse deste mundo, lutariam os Meus servos, para que Eu não fosse entregue aos judeus; mas, agora, o Meu Reino não é daqui.” (Jo.18:36).

INTRODUÇÃO

A natureza do reino de Deus é espiritual, não podemos ter dele uma visão terrena. [Assim] faremos uma breve digressão sobre o aspecto espiritual do reino de Deus, visto que muito do caráter secundário e da resistência que se dá à “doutrina do reino de Deus” está vinculada a uma visão equivocada do “reino de Deus” como uma realidade material. Diante de Pilatos, o representante da maior autoridade política de seu tempo (César), o Senhor Jesus foi bem claro ao afirmar que o Seu reino não era deste mundo. Embora o “reino de Deus” tenha repercussões sobre a Terra, pois está entre os homens, não é algo terrenal, mas espiritual. Nunca nos esqueçamos disso!

I – A VISÃO TERRENA DO REINO DE DEUS

Temos dito que a doutrina do reino de Deus tem sido, de certo modo, negligenciada por amplos setores da Igreja, notadamente aqueles que se dizem “fundamentalistas bíblicos”, uma vez que, inadvertidamente, houve a associação entre o “liberalismo teológico” e a assunção de uma postura que põe o “reino de Deus” no núcleo da discussão teológica e da pregação do Evangelho.

OBS: “…Porém, talvez o que mais afetou nossa atitude, foi a polêmica entre fundamentalismo e modernismo, a partir dos começos deste século, bem como a rejeição do fracassado “Evangelho Social”. Chegou-se a identificar toda a preocupação com os problemas sociais e políticos como tentativa de introduzir o “evangelho social”, e ao final atingiu-se o ponto em que se desculpou a falta de compaixão e de obediência como atitude de ‘defesa da fé’.… (AGUIRRE, Samuel Escobar. A responsabilidade social da Igreja. Disponível em: http://www.projetoverdade.com.br/estudos/aprioridadedaevangelizacao.htm Acesso em 11 jul. 2011).

Em virtude de se ter dado ênfase ao “reino de Deus” como núcleo da pregação do Evangelho em meio a uma discussão de maior participação da Igreja na questão social que se aguçou com a industrialização dos países europeus e dos Estados Unidos, nos séculos XVIII e XIX, precisamente num instante em que proliferava o chamado “liberalismo teológico”, que punha em xeque a crença na Bíblia como a Palavra de Deus, houve a associação da busca de uma “restauração” do conceito de “reino de Deus” na reflexão teológica e na pregação do Evangelho com esta linha de pensamento de descrédito nas Escrituras, gerando, então, a ideia de que “a doutrina do reino de Deus” era tão somente uma linha auxiliar deste pensamento teológico liberal.

Assim, quando o pastor e teólogo batista norte-americano de origem alemã Walter Rauschenbusch (1861-1918) iniciou a pregação do seu “evangelho social”, ao mesmo tempo em que se apresentava como um “teólogo liberal”, que não cria mais na plena inspiração das Escrituras nem tampouco no sacrifício vicário de Cristo como base para a salvação da humanidade, sua pregação a respeito do “reino de Deus” como base do evangelho foi considerada apenas um aspecto deste seu “liberalismo teológico” e, por causa disso, toda a ideia do “evangelho social” foi rechaçada pelos que não abandonaram sua crença na Bíblia como a Palavra de Deus (os chamados “fundamentalistas bíblicos’).

Não resta dúvida de que Rauschenbusch, em seu discurso do “evangelho social”, deu ao “reino de Deus” uma feição materialista, incompatível com o ensino bíblico, mas não podemos deixar de realçar que tinha ele razão ao mostrar que o conceito de “reino de Deus” faz parte do âmago do Evangelho de Jesus Cristo, que, afinal de contas, é o “Evangelho do reino de Deus” (Mc.1:14).

Esta visão materialista do “reino de Deus” não foi, porém, invenção de Rauschenbusch. Na verdade, já nos dias de Jesus, era a visão vigente entre os judeus, que, como nos mostra a Bíblia, aguardavam o “reino de Deus”, mas um reino aparente, um reino político, material, a restauração do reino de Davi (Lc.17:20,21).

Israel, que era o “reino sacerdotal” de Deus (Ex.19:6), rejeitou a Deus como rei e pediu um rei humano, querendo, com isto, ser igual às demais nações (I Sm.8:4-8). Assim, neste gesto, já havia abandonado a ideia de um reino espiritual para um reino material. Aliás, como notamos das declarações do Senhor a Samuel, esta rejeição apenas se cristalizou, se consolidou com o pedido dos anciãos para constituição de um rei, mas, na verdade, era um processo que se iniciara, a bem da verdade, na quebra da lei no episódio do bezerro de ouro (Ex.32).

O Senhor, porém, na Sua infinita misericórdia, fez com que a própria casa real que estabeleceu sobre Israel após ter cessado a Sua ira (Os.13:11), ou seja, a casa de Davi, fosse uma casa eterna (II Sm.7:16), na qual haveria de nascer Aquele que redimiria não só Israel mas todas as nações, para abrir os olhos dos cegos, tirar da prisão os presos e do cárcere os que jazem em trevas (Is.42:6,7).

No entanto, o povo de Israel não entendeu este sentido do “reino de Deus”. Depois da perda da independência política com o cativeiro da Babilônia, continuou a acalentar o sonho de restauração do trono de Davi, ante a promessa divina, que, aliás, foi reforçada quando do fim do cativeiro a Zorobabel, descendente de Davi e herdeiro do trono judeu (Ag.2:21-23). Os próprios discípulos de Jesus manifestavam esta ideia pouco antes da ascensão do Senhor e apesar de Jesus lhes ter ensinado quarenta dias a respeito do “reino de Deus” (At.1:3,6).

Vemos, portanto, que a ideia materialista do “reino de Deus” é algo que tem acompanhado o povo de Deus, seja Israel, seja até mesmo a Igreja, ao longo dos séculos, de modo que não podemos censurar ou criticar a sua presença, o que, logicamente, não significa que devamos acolhê-la.

Nos tempos apostólicos, após o revestimento de poder no dia de Pentecostes, a Igreja, perseguida tanto por judeus quanto por gentios, pôde bem entender que o “reino de Deus” não era deste mundo, como havia dito o Senhor Jesus a Pilatos.

Após o revestimento de poder, que fez com que os discípulos se tornassem eficazes testemunhas de Jesus (At.1:8), compreendeu a Igreja que sua tarefa não era perquirir sobre o tempo ou as estações que o Pai havia estabelecido para o cumprimento das promessas messiânicas que falavam a respeito do “reino”, mas, sim, pregar o Evangelho, o “reino de Deus” que estava entre os homens, ainda que não de forma visível e com dimensões temporais ou sócio-políticas.

Desde os primórdios, encontramos que o Espírito Santo havia feito os discípulos superar esta “ansiedade”, mostrando aos servos do Senhor que cumpria, agora, levar a “mensagem do reino de Deus”, que, como dizia Paulo, não era nem comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo (Rm.14:17).

O “reino de Deus” foi corretamente compreendido como uma realidade espiritual, como a libertação do pecado, como o “transporte do poder das trevas para o reino do Filho do seu amor” (Cl.1:13), como a ida aos “lugares celestiais em Cristo” onde somos abençoados com todas as bênçãos espirituais (Ef.1:3).

Por isso, os apóstolos jamais defenderam qualquer insubmissão às autoridades, mas, pelo contrário, confirmavam que toda autoridade fora constituída por Deus e deveria ser honrada (Rm.13:1-7; I Pe.2:17). Isto não impediu, porém, que os cristãos cedo fossem vistos como uma ameaça ao Império Romano, a ponto de Paulo e Pedro, os mesmos que ensinaram sobre o respeito às autoridades romanas, terem sido martirizados. O “reino de Deus”, apesar de ser espiritual, trazia incômodo às estruturas dos reinos gentílicos, visto que a pregação da verdade, a justiça, paz e alegria no Espírito Santo sempre se apresentam como ameaça a uma sociedade construída pelo pecado e pela injustiça.

Os chamados “pais da Igreja”, ou seja, os grandes nomes da Igreja que surgiram depois dos apóstolos até por volta do século VI, também reafirmavam esta linha de pensamento, entendendo que o “reino de Deus” tinha natureza espiritual, conquanto tivesse vindo para melhorar o mundo de então.

No entanto, com a permissão do culto cristão, feita pelo imperador romano Constantino I (272-337), em 313, esta ideia começou a se desfazer, pois alguns viram nesta permissão, e na proximidade que Constantino I passou a ter junto aos cristãos (com o objetivo de dar sobrevida ao Império Romano…), uma ideia de instituição de um “reino de Deus” político e material.

Assim Eusébio de Cesareia (265-339), o grande historiador dos primeiros séculos da Igreja, passou a ser um entusiasta desta associação entre Império e Igreja, achando que, neste fato, estava a vitória do Evangelho de Cristo Jesus.

OBS: As últimas palavras da História Eclesiástica de Eusébio bem revelam este pensamento: “…Assim, depois que toda a tirania havia sido finalmente purgada, o império foi com justiça conservado firme e sem rival a Constantino e seus filhos. Os quais, em primeiro lugar eliminando aquela inimizade contra Deus mostrada pelos governantes anteriores, sensíveis às misericórdias a eles conferidas por Deus, também mostraram seu amor pela religião e por Deuys, comn devoção e gratidão a Ele pelas obras e operações que apresentaram à vista do mundo inteiro.” (História eclesiástica. Trad. de Lucy Iamakami e Luís Aron de Macedo, p.403).

Esta noção de que “o reino de Deus” se confundiria com uma instituição com poderes temporais, que seria a Igreja, acabou gerando a confusão entre “Igreja” (menos o conjunto dos salvos, mas a instituição erguida a partir dos salvos) e o “reino de Deus”, que deu ensejo a todas as teorias políticas que levaram a uma supremacia do Papado durante a Idade Média na Europa, com as distorções que até hoje existem.

Esta confusão da “Igreja” com o “reino de Deus” tem seu nascedouro na obra de Agostinho de Hipona (354-430), um dos “pais da Igreja”, em sua obra “A Cidade de Deus”, onde, corretamente, identificou, na história da humanidade, a presença de “duas cidades”: a “cidade de Deus”, que era composta pelos que serviam ao Senhor e a “cidade terrena”, composta pelos que eram desobedientes a Deus. Agostinho diz que estas cidades conviviam na Terra desde o início da procriação. Caim, que fundou uma cidade na Terra, representou a “cidade terrena”, enquanto que Abel, mero peregrino na Terra, foi o primeiro dos cidadãos da “cidade de Deus”, que é “celestial”, numa clara demonstração de que, embora baseado em Agostinho, não foi ele próprio quem gerou uma ideia materialista para o “reino de Deus”.

OBS: “…temos distribuído em dois gêneros: um, dos que vivem segundo o homem, e outro, segundo Deus, e a isto chamamos também misticamente duas cidades, quer dizer, duas sociedades ou congregações de homens, das quais uma está predestinada para reinar eternamente com Deus, e a outra para padecer eterno tormento com o demônio, e este é o fim principal delas, do qual trataremos depois.(…). Assim diz a Sagrada Escritura de Caim que fundou una cidade; mas Abel, como peregrino, não a fundou, porque a cidade dos santos é soberana e celestial, ainda que produza na terra os cidadãos, nos quais é peregrina até que chegue o tempo de seu reino, quando chegue a juntar a todos, ressuscitados com seus corpos, e então se lhes entregará o reino prometido, donde com seu príncipe, rei dos séculos, reinarão sem fim para sempre” (A cidade de Deus. Trad. de Libros Tauros, p.395,396) (tradução nossa de texto em espanhol).

Com a queda do Império Romano do Ocidente e o caos daí decorrente na Europa, a Igreja foi a única instituição a remanescer e logo se pretendeu dar a esta situação histórica a ideia da supremacia e vitória da “cidade de Deus” sobre a “cidade terrena”, vinculando o estabelecimento do “reino de Deus” a esta supremacia política, social e econômica da Igreja.

Esta linha de pensamento, aliás, teve grande aceitação na medida em que, também, se havia rechaçado a crença no “reino milenial de Cristo”, com o triunfo do chamado “amilenismo”, a doutrina de que o “reino milenial de Cristo” não seria literal (posição defendida por Eusébio). Assim, como não se cria num governo pessoal de Jesus sobre a Terra por mil anos, passou-se a entender que a “justiça e paz” apresentadas nas profecias se concretizariam por intermédio da evangelização do mundo por intermédio da Igreja, ou seja, o “reino de Deus” se tornaria pleno no tempo da Igreja e, quando todo o mundo se convertesse (ou tivesse a chance de fazê-lo), viria o juízo final.

O mesmo equívoco dos judeus acabou se inserindo entre os que cristãos se diziam ser e, em virtude disto, surgiu a ideia de que o “reino de Deus” se instituiria sobre a face da Terra como um triunfo da evangelização e de que a Igreja tinha, sim, um poder temporal, um poder político, precisamente para estabelecer o Evangelho entre os povos.

Com o fim da Idade Média e o desprestígio do poder político do Papado, este pensamento não foi abalado. Pelo contrário, foi o pensamento que norteou a colonização das Américas e da Oceania e, até mesmo, a ocupação pelas potências europeias de vastas áreas da África e da Ásia, o que ficou conhecido como “imperialismo”.

Para tanto, além do “amilenismo”, surgiu também uma outra corrente escatológica que deu base para um pensamento desta natureza, pensamento este que encantou, inclusive, alguns nomes da Reforma Protestante, o chamado “pós-milenismo”, que entende que o “milênio” existirá, mas será resultado da conversão do mundo ao Evangelho. Para estes, o reino milenar de Cristo virá quando a Igreja cumprir a tarefa de evangelizar todo o mundo e, neste ponto, a presença de potências cristãs no cenário político internacional é um sinal desta evangelização que trará uma era de “justiça e paz” antes do retorno de Cristo.

Esta linha de pensamento, que, inclusive, serviu de estímulo para o grande trabalho missionário que acompanhou tanto a colonização quanto o imperialismo, tem, hoje, adeptos no chamado “reinismo”, defendido principalmente, entre nós, pela igreja REINA, dirigida pelo bispo Hermes Fernandes, que entende que o “reino de Deus” deve se estabelecer na Terra mediante ações da Igreja em termos sociais, políticos e econômicos, sem o que não se terá como Jesus retornar à Terra.

OBS: “…Ser reinista não é apenas pertencer a uma agremiação eclesiástica, mas ser um agente do Reino de Deus, empenhado na transformação do Mundo por intermédio da implementação do conjunto de valores e princípios ensinados por Jesus. Neste contexto, a igreja é o farol, a humanidade é o navio, e o Reino de Deus é o Porto Seguro. Um farol não pode apontar sua luz para si mesmo. Seu papel é iluminar o caminho, possibilitando ao navio chegar seguro ao porto. Assim, a igreja tem a missão de ser paradigma civilizatório, a fim de que as nações andem à sua luz. A igreja deve ser uma espécie de microcosmos, de protótipo, de amostra grátis, de plano piloto. Ela, portanto, não é um fim em si mesma. A Igreja do Futuro deve ser proativa, em vez de reativa. Deve antecipar-se, como fez a mulher que derramou o perfume sobre Jesus. Deve ser vanguardista. O Mundo deve conformar-se aos valores por ela apregoados, e não vice-versa. Ela deve estar sempre um pé à frente, e isso com respeito a qualquer questão de interesse humano. Ela não apenas responde questões pertinentes ao seu tempo, como prevê questões que ainda surgirão, e busca respondê-las ainda antes que se tornem pertinentes.Embora sua origem seja celestial, ela emerge da realidade em que está inserida. Portanto, ela só pode ser emergente, se for antes, imergente. Ao emergir, ela atrai para si, não os holofotes, mas a responsabilidade por tudo o que diz respeito à condição humana e suas demandas. Por isso, ela é convergente. Sua cosmovisão é ampla e abarca a realidade como um todo, desde a cultura, a educação, as ciências, a justiça social e o meio-ambiente.…” (Rompendo com o igrejismo, abraçando o reinismo! Disponível em: http://vemprave.blogspot.com/2011/06/rompendo-com-o-igrejismo-abracando-o.html Acesso em 09 jul. 2011).

O “evangelho social” de Rauschenbusch não diferia muito destes pensamentos. Pelo contrário, entendia que, para que houvesse o estabelecimento do “reino de Deus” na Terra, não se deveria apoiar uma instituição como a Igreja, mas, sim, que se deveria estabelecer uma luta contra a exploração dos operários e dos injustiçados pela industrialização, com a retirada do chamado “pecado social” das estruturas sociais. Somente assim, entendia este pastor, o “reino de Deus” seria estabelecido e se poderia viver o Evangelho.

Rauschenbusch não identificava a “Igreja” com o “reino de Deus”, pois via a “Igreja” como conivente com a situação anticristã existente na sociedade, mas não deixava de entender que o “reino de Deus” tinha de se estabelecer na Terra por força humana, ainda que não pela instituição “Igreja”. Para ele, os verdadeiros integrantes do “reino de Deus” deveriam lutar para estabelecer, na Terra, a “justiça e paz” profetizadas nas Escrituras. A Igreja deve ser levada à instituição do “reino de Deus”, que, para o teólogo norte-americano, é “a humanidade organizada segundo a vontade de Deus”.

OBS: Este trecho de um dos principais livros de Rauschenbusch bem explana seu entendimento a respeito do estabelecimento do “reino de Deus”: “…(a) Desde que Cristo revelou o divino valor da vida e da pessoa e desde que Sua salvação busca a restauração e a plenitude da igualdade de qualquer forma, segue que o Reino de Deus, em todo estáfio do desenvolvimento humano, tende em direção a uma ordem social que garantirá para todas as pessoas seu desenvolvimento mais alto e mais livre. Isto envolve a redenção da vida social da influência paralítica da intolerância religiosa, da repressão da autoasserção na relação entre classes altas e baixas e de todas as formas de escravidão nas quais os seres humanos são tratados como simples meios para servir os os fins de outros; (b) Desde que o amor é a lei suprema de Cristo, o Reino de Deus implica em um reino progressivo de amor nos negócios humanos. Nós podemos ver este avanço em todo lugar onde a livre vontade do amor sobrepõe-se ao uso da força e à coerção legal como um regramento da ordem social. Isto envolve a redenção da sociedade das autocracias políticas e das oligarquias econômicas; a substituição da penologia vingativa pela redentiva; a abolição do constrangimento através da fome como parte do sistema industrial e a abolição da guerra como a expressão suprema do ódio e da mais completa cessação de liberdade, (c) A mais alta expressão de amor é a livre rendição do que é verdadeiramente de nós próprios, vida, propriedade e direitos. Uma mais baixa mas talvez mais decisiva expressão de amor é a rendição de qualquer oportunidade de explorar homens. Nenhum grupo social ou organização pode invocar que está claramente no reino de Deus se aproveita de outros para seu próprio bem-estar e resiste aos esforços para anular seu mal fundamental. Isto envolve a redenção da sociedade da propriedade privada dos recursos naturais da terra e de qualquer condição na indústria que faz o luvro do monopólio possível, (d) O reino do amor tende em direção à unidade progressia da humanidade, mas com a manutenção da liberdade individual e da oportunidade das nações de elaborar suas peculiaridades nacionais e ideais.…” (Teologia do evangelho social, p. 142-3) (tradução nossa de texto original em inglês).

“Mutatis mutandi” é o mesmo pensamento que deu nascimento à chamada “teologia da libertação” que, a partir da década de 1960, alcançou guarida não só na Igreja Romana como também entre muitos protestantes. Adotando o pensamento de Karl Marx (1818-1893), o “pai do comunismo”, estes pensadores entenderam que o “reino de Deus” exigia, antes de mais nada, a libertação das estruturas injustas da sociedade, devendo a Igreja apoiar esta luta para que, aí, sim, então, se pudesse falar no Evangelho e no estabelecimento da “justiça e paz”.

OBS: Vejamos este texto de Leonardo Boff, um dos principais nomes da “teologia da libertação”: “…A Igreja não pode ser entendida nela e por ela mesma, pois está a serviço de realidades que a transcendem, o Reino e o mundo. Mundo e Reino são as pilastras que sustentam todo o edifício da Igreja. Primeiro apresenta-se a realidade do Reino que engloba mundo e Igreja. Reino — categoria empregada por Jesus para expressar sua ipsissima intentio — constitui a utopia realizada no mundo (escatologia); é o fim bom da totalidade da criação em Deus finalmente liberta totalmente de toda imperfeição e penetrada pelo Divino que a realiza absolutamente. O Reino perfaz a salvação em seu estado terminal. O mundo é o lugar da realização histórica do Reino. Na presente situação ele se encontra decadente e marcado pelo pecado; por isso o Reino de Deus se constrói contra as forças do anti-Reino; impõe-se sempre um oneroso processo de libertação para que o mundo possa acolher em si o Reino e desembocar no termo feliz. A Igreja é aquela parte do mundo que, na força do Espírito, acolheu o Reino de forma explícita na pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado em nossa opressão, guarda a permanente memória e a consciência do Reino, celebra sua presença no mundo e em si mesma e detém a gramática de seu anúncio, a serviço do mundo. A Igreja não é o Reino mas seu sinal (concreção explícita) e instrumento (mediação) de implementação no mundo.Cumpre articular numa ordem correta estes três termos. Primeiro vem o Reino como a primeira e última realidade englobando todas as demais. Depois vem o mundo como o espaço da historificação do Reino e de realização da própria Igreja. Por fim vem a Igreja como realização antecipatória e sacramentai do Reino dentro do mundo e mediação para que o Reino se antecipe mais densamente no mundo.…” (Igreja: carisma e poder, p.20)

O que se nota, portanto, em todos estes pensamentos, seja do “evangelho social”, seja do “reinismo” é o entendimento de que, primeiramente, deve-se estabelecer uma ordem social justa na Terra, através de esforços humanos, ainda que baseados no Evangelho de Cristo e com a assistência do Espírito Santo, para, então, termos um “reino milenar de Cristo”, uma era de justiça e paz. Caberia à Igreja, pois, o estabelecimento deste “reino” em termos terrenos.

Esquecem-se, porém, os defensores desta “visão terrena do reino de Deus” que, apesar de o reino de Deus já estar entre nós, não tem ele aparência exterior, como nos ensinou o Senhor Jesus e que a Igreja não irá tomar as rédeas do ambiente político, social e econômico das nações da Terra ao pregar o Evangelho. Se fosse assim, diz-nos o Senhor, Ele não teria sido crucificado, mas Sua prisão geraria um movimento entre Seus seguidores e, certamente, haveria a Sua libertação, inclusive com a ajuda de legiões de anjos (Mt.26:53), que, afinal de contas, como já dizia Agostinho em sua “Cidade de Deus”, também fazem parte do “reino de Deus”.

À Igreja compete pregar o Evangelho do reino de Deus, trazê-lo aos homens, que, se nascerem de novo, não só o verão como, nascendo da água e do Espírito, também nele entrarão. Todavia, este “reino de Deus” está destinado, dada a imperfeição humana, tão somente a melhorar as condições de vida sobre a face da Terra, pois a instauração dos “tempos de refrigério”, da restauração seja da ordem social, seja da própria natureza, se dará por intervenção direta e pessoal do Senhor Jesus quando do estabelecimento do “reino milenial de Cristo” (At.3:21).

Sem Jesus, nada podemos fazer (Jô.15:5 “in fine”) e Ele, sim, haverá de instituir, de forma plena, o “reino de Deus” ainda neste céu e terra, quando voltar com a Igreja para livrar Israel das mãos do Anticristo (Ap.19:11-20:3) e, aí, sim, cumprir as profecias messiânicas do Antigo Testamento que ainda não se cumpriram, quando Israel, e não a Igreja, será o “reino sacerdotal”.

O “reino de Deus” pregado pela Igreja não é deste mundo. As “testemunhas de Cristo” escaparão da ira futura e desfrutarão, desde o momento do arrebatamento da Igreja, o “reino” na “cidade celeste”, na “cidade que está nos céus”, que é o nosso alvo, como nos ensina o apóstolo Paulo (Fp.3:14-21).

O alvo da Igreja é o céu, pois, como ensinou Agostinho, a “cidade de Deus” é peregrina nesta Terra, é fiel depositária da fé de Abraão (Gl.3:29) e, como tal, assim como os heróis da fé, espera “a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus (Hb.11:10)”, deseja “uma [cidade] melhor, isto é, a celestial”, preparada por Deus (Hb.11:16).

Quem pensa apenas nas coisas terrenas, quem reduz o trabalho da Igreja para as realidades desta vida, diz-nos Paulo, é o mais miserável de todos os homens (I Co.15:19) e que, nesta preocupação com uma visão terrena do “reino de Deus”, tornam-se inimigos da cruz de Cristo, destinados à perdição (Fp.3:18,.19).

Com efeito, quando a Igreja passa a querer, por ela própria, empreender o “reino de Deus” na face da Terra, sua tendência é se associar a forças políticas, sociais e econômicas com este afã e, nesta associação, acaba por sufocar a Palavra de Deus, a abrir mão do próprio Evangelho. Foi o que Jesus nos ensinou na parábola do semeador, ao mostrar que a semente que germinou entre os “espinhais”, que representam “os cuidados deste mundo e a sedução das riquezas”, foi sufocada pelos espinhos.

Quando analisamos os pensamentos que levam a uma visão terrena do “reino de Deus”, verificamos, claramente, o cumprimento do que disse o Senhor Jesus. A visão da Igreja-instituição como “reino de Deus” levou ao Papado e a todas as teorias de defesa do poder temporal da Igreja, que redundou nas graves distorções doutrinárias da Igreja Romana e na própria negação do Cristianismo durante a Idade Média.

A visão do pós-milenismo e do amilenismo mantidos após a Reforma Protestante trouxe as graves distorções que, em nome de Deus, se fizeram seja na colonização das Américas e da Oceania, seja no imperialismo europeu-norte-americano na Ásia e na África, que acabou associando, indevidamente, o cristianismo a todo este comportamento anticristão e que muito bem explica a aversão de grandes parcelas da população destes continentes ao Cristianismo na atualidade.

O “reinismo” defendido por Hermes Fernandes levou a uma associação com entidades ligadas à ONU e que estão vinculadas seja ao satanismo, seja à Nova Era, seja, ainda, ao bahaismo, uma seita oriental que também serve de sustentáculo para a Nova Era, que, como sabemos, é a preparação para o estabelecimento da religião do Anticristo.

OBS: “…O Bispo Hermes possui uma parceria com a uma entidade chamada visão mundial (ligada a worldvision, que apoia totalmente a causa criada pela comunidade Bahá’i que são as metas do milênio (veja no link abaixo com as oito metas da ONU):As metas no site reinista: http://www.worldvision.org/content.nsf/learn/g8-goals As mesmas metas no pnud-ONU: http://www.pnud.org.br/odm/ E, claro, não poderia falta o apoio total a agenda 21. A declaração de amor a "mamãe" terra pode ser vista no artigo 67 do manifesto reinista e, ainda por cima, distorceram totalmente a Bíblia para se justificarem: 67 - Que Igreja abrace a questão do meio-ambiente, entendendo que a atual criação está grávida de um novo céu e uma nova terra, e que muitos dos cataclismos naturais que acontecem, são as contrações e gemidos de uma natureza maltratada pelo homem (Rm.8:22) Bom..tudo isso tem que ser centralizado em um lugar. No artigo 144 do manifesto eles falam da criação da Grande Comissão (entenda-se Parlamento Mundial) e a conversão de todos os povos ao cristo (mal sabem eles que é o cristo cósmico): 144 – Christus Victor / Cristo Vencedor – Cremos na vitória de Cristo e de Sua Igreja durante o transcorrer da História, culminando no cumprimento da Grande Comissão, e na conversão das nações (Sl.22:27; Ap.6:2; 15:4)…” (NOTURNO, Teóphilo. As reinações de Hermeneu. Disponível em: http://teophilo.info/analises/hermeneu.htm#conclude Acesso em 11 jul. 2011).

Por fim, a visão do “evangelho social” e da “teologia da libertação” levaram a um total desvirtuamento da doutrina cristã em muitas áreas, com a identificação de muitos movimentos sociais suportados por seus defensores com movimentos revolucionários que, inexoravelmente, levaram a uma perseguição religiosa e à instauração de regimes marxistas-leninistas ou simpatizantes que só serviram para diminuir a liberdade religiosa e a levar a um descrédito em relação ao Evangelho.

Isto sem falar que uma ideia terrena do “reino de Deus” levou, inclusive, ao surgimento de heresias, como as “Testemunhas de Jeová”, cujos “salões do reino” estão a propagar que “o reino de Deus” é um “paraíso na Terra” e que não há a menor possibilidade de vivermos com Deus nos céus.

OBS: Assim ensinam as Testemunhas de Jeová: “…O Reino de Deus é um governo especial. Está estabelecido no céu e governará esta Terra.(…). Deus prometeu que Jesus se tornaria o Rei do Seu Reino. Quando Jesus esteve na Terra, provou que seria um Governante bondoso, justo e perfeito. Quando retornou ao céu, não foi logo entronizado como Rei do Reino de Deus.Em 1914, Jeová concedeu a Jesus a autoridade que lhe prometera. Desde então, Jesus está reinando no céu como Rei designado por Jeová.(…) A Terra está agora dividida em muitos países. Cada um destes tem seu próprio governo. Essas nações frequentemente lutam entre si. Mas o Reino de Deus substituirá todos os governos humanos. Regerá a Terra inteira como único governo. Então não haverá mais guerras, crimes e violência. Todos viverão juntos em paz e união.…” (O que é o Reino de Deus? Disponível em: http://www.watchtower.org/t/rq/article_06.htm Acesso em 11 jul. 2011).

A história, pois, mostra-nos, com absoluta clareza, que não se pode conceber uma visão terrena do “reino de Deus” e que isto é mais uma artimanha do maligno para inibir a real ação do Evangelho, que é a de separar um povo para morar eternamente com o Senhor, não neste mundo. Mas seria o reino de Deus totalmente dissociado da dimensão terrena?

Um comentário:

  1. D I V I N A C O N V O C A Ç Ã O
    (MC.12.10) AINDA NAO LESTES ESTA ESCRITURA:(SL.108.7) DISSE DEUS NA SUA SANTIDADE: (ÊX.4.22) ISRAEL É MEU FILHO, MEU PRIMOGÊNITO; (IS.49.3) POR QUEM HEI DE SER GLORIFICADO: (IS.30.12) PELO QUE ASSIM DIZ O SANTO DE ISRAEL:
    Todo Cristão desperto deve ingressar no ciclo da Nova Ordem Mundial, que chega com a criação do Reino de Deus na terra:
    (MT.25.34) VINDE, BENDITOS DE MEU PAI! ENTRAI NA POSSE DO REINO QUE VOS ESTÁ PREPARADO DESDE A FUNDAÇÃO DO MUNDO: (JB.6.27) TRABALHAI, NÃO PELA COMIDA QUE PERECE, MAS PELA QUE SUBSISTE PARA A VIDA ETERNA, A QUAL O FILHO DO HOMEM VOS DARÁ; PORQUE DEUS, O PAI, O CONFIRMOU COM O SEU AMOR: (IS.42.21) FOI DO AGRADO DO SENHOR, POR AMOR DA SUA PRÓPRIA JUSTIÇA, ENGRANDECER A LEI E FAZE-LA GLORIOSA; (LC.12.32) PORQUE O VOSSO PAI SE AGRADOU EM DAR-VOS O SEU REINO; (1CO.15.45) POIS ASSIM ESTÁ ESCRITO: (JB.14.17) O ESPIRITO DA VERDADE, QUE O MUNDO NÃO PODE RECEBER, PORQUE NAO NO VÊ, NEM O CONHECE; VÓS O CONHECEIS, PORQUE ELE HABITA CONVOSVO E ESTARÁ EM VÓS; (PV.1.4) PARA DAR AOS SIMPLES PRUDÊNCIA, E AOS JOVENS CONHECIMENTO E BOM SISO; (1PE.4.17) PORQUE A OCASIÃO DE COMEÇAR O JUIZO PELA CASA DE DEUS É CHEGADA:
    (RM.13.11) E DIGO ISTO A Vós OUTROS QUE CONHECEIS O TEMPO, QUE JÁ É HORA DE VOS DESPERTARDES DO SONO; (2PE.3.4) PORQUE, DESDE QUE OS PAIS DORMIRAM, TODAS AS COUSAS PERMANECIAM COMO DESDE O PRINCIPIO DA CRIAÇÃO: (HB.5.11) A ESSE RESPEITO TEMOS MUITAS COUSAS QUE DIZER E DIFICIL DE EXPLICAR; PORQUANTO VÓS TENDES TORNADO TARDIOS EM OUVIR: (LC.16.9) E EU VOS RECOMENDO: Estudai e praticai os fundamentos cristãos, que temos divulgado através da internet, em particular no blog de Arnaldo Ribeiro ou Israel e no Site: arnaldoouisrael: (TB.5.21) FAZEI BOA JORNADA, E DEUS SEJA CONVOSCO NO VOSSO CAMINHO, E O SEU ANJO VÁ EM VOSSA COMPANHIA:

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