A Oração de Neemias

Por Caramuru A. Francisco

Antes de analisarmos [sua] oração, observemos que Neemias fez contínua oração, que durou, como já dissemos, cerca de quatro meses. Muitos se confundem e dizem que a “oração de Neemias” é uma oração rápida, instantânea, porque se lembram de citar tão somente Ne.2:4, quando Neemias é interpelado pelo rei, mas isto se deu em Nisã, depois que, em privado, Neemias já havia orado quatro meses. Não há dúvida de que Deus responde a orações emergenciais, mas Neemias não é exemplo disso e, sim, deve ser um exemplo de que precisamos manter uma vida de contínua oração.

A oração de Neemias começa com uma invocação de Neemias a Deus, reconhecido como “Senhor, Deus dos céus, Deus grande e terrível”. Foi, de igual modo, que Jesus nos ensinou a orar, pois Sua oração-modelo começa com a invocação “Pai nosso, que está nos céus”. Na oração, devemos, antes de tudo, lembrar quem é Deus e quem somos nós. Não podemos orar corretamente senão nos apercebemos de que estamos entrando diante da presença do Senhor, d’Aquele que é o dono de todas as coisas, a quem não temos o direito de nos dirigir, mas que, pelo Seu infinito amor, quer manter um relacionamento conosco. Neemias, ao contrário dos falsos arautos da teologia da confissão positiva, não se apresentou diante de Deus para Lhe “cobrar” a fidelidade a Suas promessas, muito menos para dizer que o Senhor era “obrigado” a trazer prosperidade a Jerusalém e ao povo de Judá, diante de Suas promessas. Bem ao contrário, identificou a Deus como o Senhor, o Deus dos céus, o Deus grande e terrível. Precisamos reconhecer a nossa pequenez e nos humilharmos diante do Senhor quando a Ele nos dirigimos. Como ensinava Charles Spurgeon (1834-1892), príncipe dos pregadores britânicos, “…a humildade é a atitude apropriada de um orante…” (SPURGEON, Charles Haddon. Humildade: a amiga do orante. Disponível em:http://bible.org/seriespage/humility-friend-prayer-no-1787 Acesso em 11 set. 2010) (texto em inglês). Temos feito isto?

Neemias, ainda na invocação ao Senhor, reconheceu a fidelidade divina, ao dizer que o Senhor “guardava o concerto e a benignidade para com aqueles que Lhe amavam e guardavam os Seus mandamentos” (Ne.1:5). Aqui temos mais uma indicação de que Deus não ouve a pecadores (Jo.9:31) e que, portanto, a primeira coisa que temos de fazer para entrarmos na presença do Senhor é pedir perdão dos nossos pecados, pois eles nos impedem de sermos ouvidos por Deus (Is.59:2). Deus está pronto a ouvir, diz-nos Neemias, aqueles que “amam e guardam Seus mandamentos”. Neemias, ao se dirigir a Deus, confessou não só os seus pecados, mas também os pecados dos filhos de Israel (Ne.1:6,7), pois sabia que, sem a confissão e o consequente perdão, jamais poderia entrar na presença de Deus e pedir-Lhe algo. Temos também esta consciência? Sendo um cumpridor da vontade do Senhor, Neemias pôde, então, dirigir-se a Deus e pedir que os Seus ouvidos fossem atentos e os olhos, abertos, para ouvir a oração do Seu servo, oração que fazia de dia e de noite não só por si mas também pelos filhos de Israel (Ne.1:6). Vemos, assim, claramente que Neemias era um adepto da oração contínua e que não tem qualquer cabimento denominar de “oração de Neemias” a oração instantânea, emergencial, muito menos assim denominar a oração daquele que só lembrar de orar no momento decisivo de uma adversidade. Nosso papel, amados irmãos, é orar sem cessar (I Ts.5:17)!

Neemias demonstrou, também, em sua oração, que era alguém possuído de fé em Deus. Mesmo sabendo da sua situação pecaminosa e da de seu povo, Neemias reconhecia que os ouvidos de Deus eram atentos e Seus olhos estavam abertos para o orante. Quando nos dirigimos a Deus, precisamos entender que, tendo havido a confissão e perdão dos nossos pecados, Deus não só nos ouve como também está a nos ver e, assim, pronto a nos atender, a nos consolar, a conceder o desejo dos nossos corações. Quantos que oram e não têm esta consciência e acabam não orando, pois não confiam que estão sendo ouvidos por Deus. Sem fé é impossível agradar a Deus (Hb.11:6) e Neemias agradou ao Senhor porque confiava que Deus o estava vendo e o estava ouvindo. Tenhamos fé, amados irmãos! Neemias reconheceu que a situação do povo de Judá era consequência de seus próprios pecados. O copeiro lembrou que o povo havia perdido a Terra Prometida porque havia transgredido os mandamentos do Senhor e Deus, então, havia cumprido o que dissera, através de Moisés, ou seja, de que a pena máxima pela desobediência seria o exílio (Dt.28:63-65).

Em nossas orações, também, devemos reconhecer os nossos erros, assumir as nossas culpas, pedindo perdão e misericórdia ao Senhor para sairmos da situação aflitiva em que nos encontramos. Nem toda situação difícil por que passamos é consequência de nossos pecados, pois também pode haver a provação da parte do Senhor (como é o caso de Jó), mas, quando nos dirigimos a Deus em oração, precisamos fazer um autoexame e, se necessário for, assumirmos nossas culpas e pedirmos perdão não só a Deus mas a quem também tenhamos ofendido com nossos erros. Não há caminho para a bênção senão a do arrependimento e confissão de nossos pecados.

Ao mesmo tempo em que Neemias fazia memória de seus pecados e dos pecados de seu povo, também fazia memória das promessas divinas. Sua confiança em Deus lhe permitia não só assumir suas culpas e as dos filhos de Israel, pois sabia que Deus era misericordioso e grandioso para perdoar (Is.55:7), como também de trazer à memória as promessas de restauração, que também estavam presentes na lei de Moisés (Dt.30:1-10). Se isto se deu com um homem que viveu na dispensação da lei, com muito maior razão deve ser uma tônica para os que, como nós, vivem debaixo da graça. Não podemos nos deixar esmorecer com nossos fracassos e percalços, mas, se sinceramente pedirmos perdão pelos nossos pecados e não os confessarmos, mas deixá-los, igualmente alcançaremos a misericórdia divina (Pv.28:13).

Muitos em nossos dias estão caminhamos celeremente para a perdição porque não querem confessar nem deixar os seus pecados, preferindo encobrir as suas transgressões. Não façamos isto, amados irmãos! Temos um Deus grandioso em perdoar e que está disposto a nos dar o Seu perdão e nos ser alvo de Sua misericórdia. Pecado é um assunto entre Deus e o homem e jamais podemos permitir que nossas transgressões permaneçam encobertas por causa de outros homens, por causa de nosso relacionamentos, inclusive com os domésticos da fé. Confessemos e deixemos o pecado e teremos, novamente, como Neemias teve, pleno acesso ao trono da graça. Neemias não fez qualquer “cobrança” a Deus, mas, assim como confiava no Senhor e sabia do Seu acerto em ter retirado Judá da sua terra, agora pedia ao Senhor a mesma fidelidade no tocante à restauração, uma vez existindo a conversão do povo. Neemias punha-se à disposição do Senhor para efetuar esta conversão e, assim, obter a restauração completa de Judá, como havia sido prometido, mostrando sua fé em Deus. Deus não estava “obrigado” a coisa alguma, mas, sim, ele, Neemias, juntamente com o povo, estava pronto a se converter e, assim, ser alvo da benignidade do Senhor.

OBS: “…Irmãos, fará mal qualquer um de nós que usar a linguagem do mérito diante de Deus, pois mérito algum temos e, se tivéssemos algum, não precisaríamos orar. Foi bem observado por um antigo teólogo, que o homem que pleiteia seu próprio mérito não ora, mas cobra o seu crédito. Se eu peço a alguém que me pague sua dívida, eu não sou alguém que pede, mas alguém que está a exigir os seus direitos. A oração de um homem que pensa que tem méritos é como se estivesse a entregar uma letra ao Senhor: ele não está apresentando um pedido, mas emitindo uma cobrança. O mérito, com efeito, diz: “Pague-me o que você deve”. Pouco um homem deste obterá de Deus, pois se o Senhor apenas pagar para nós o que Ele nos deve, o lugar além de tormento será nossa rápida herança. Se durante a vida aqui nós recebermos não mais do que nós merecemos, nós seremos rejeitados e abandonados. O mais vil dos mendicantes obterá mais do que estes banidos. Até mesmo a vida, ela própria, é um presente do Criador, ‘De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um da punição dos seus pecados’. Vamos nos manter numa posição de inferioridade tanto quanto podemos, pois nós ainda temos de reconhecer que ‘As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos; porque as Suas misericórdias não têm fim’. Qualquer outra atitude que não a de humildade seria muito mal-vinda e presunçosa na presença do Altíssimo.…” (SPURGEON, Charles Haddon. Humildade: a amiga do orante. Disponível em: http://bible.org/seriespage/humility-friend-prayer-no-1787Acesso em 11 set. 2010) (tradução nossa de texto original em inglês) (destaque original).

Ao longo dos meses de oração, Neemias recebeu da parte do Senhor uma convicção: a solução estava nele próprio. Era ele quem Deus havia escolhido para mudar aquela situação em Judá e em Jerusalém. Por isso, sua oração já finalizava com o pedido de bom êxito diante do rei da Pérsia: “Ah! Senhor, estejam, pois, atentos os Teus ouvidos à oração do Teu servo e à oração dos Teus servos que desejam temer o Teu nome; e faze prosperar hoje o Teu servo e dá-lhe graça perante este homem” (Ne.1:11). Neemias chegou à conclusão, certamente pelo Espírito de Deus, de que era ele quem deveria levar o caso até o rei Artaxerxes e pedia que Deus moldasse o coração do monarca para que fosse obtido o bem-estar de Judá.

Somente através de uma vida de oração contínua e de intimidade com Deus poderemos saber qual é a Sua vontade a fim de podermos cumpri-la. Muitos, na atualidade, permanecem desorientados e sem saber o que fazer simplesmente porque não têm uma vida de íntima comunhão com o Senhor. Esta íntima comunhão somente se dará mediante a meditação nas Escrituras e uma vida de contínua oração. Estabelecendo-se um diálogo com o Senhor por meio da oração (acompanhada, por vezes, do jejum) e da meditação nas Escrituras, poderemos nos transformar a nós mesmos, termos a renovação do nosso entendimento e, desta maneira, experimentar qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus em nossas vidas (Rm.12:1,2). Neemias tinha amplo conhecimento das Escrituras, tanto que, em sua oração, mostra como tinha consciência do que Deus havia falado ao Seu povo por intermédio da lei de Moisés. Vivia, também, em contínua oração, intensificada que foi após ter sabido da triste notícia da miséria e do desprezo dos judeus em Jerusalém. Por isso, em resposta a esta íntima comunhão com o Senhor, teve condições de identificar que era vontade do Senhor que deixasse aquela posição confortável no palácio de Artaxerxes para ir enfrentar os desafios nos muros fendidos e portas queimadas a fogo de Jerusalém. Precisava, porém, de uma oportunidade para obter a autorização do rei para tal obra [E Deus providenciou Ne cap. 2].

Fonte: http://www.portalebd.org.br/classes/jovens-e-adultos/item/608-4%C2%BA-trim-2011-li%C3%A7%C3%A3o1quando-a-crise-mostra-sua-face

3 comentários:

  1. É interessante a maneira que nos dirigimos a Deus, por vezes é próprio do ser humano pensar que Ele é obrigado a nos abençoar. Até porque são inúmeras as promessas que Deus tem feito ao seu povo, em especial a revelada mediante a Palavra e a que Ele nos faz coletiva ou individualmente. Daí não ser novidade que Deus se “obriga” a cumprir o que prometeu. Vejamos o significado da palavra PROMESSA, o dicionário Houaiss, 2004, define promessa como: compromisso oral ou escrito de realizar um ato ou assumir uma obrigação, p. extensão o que se promete. Talvez isso decorra do significado da palavra ou por conta de ensinamentos desprovidos de base bíblica. Tudo isso desperta no homem o direito de reivindicar a Deus aquilo que nos prometeu. Em outras palavras: Cumpra o que você me prometeu! Às vezes, sem inconscientemente queremos mandar em Deus. E toda essa demanda pode causar angústia, tristeza e até decepção, pressupondo que Ele tem OBRIGAÇÃO de conceder o que Lhe pedimos. Se não concedido, já sabe... Mas que nos coloquemos em nossa real posição, a de servos humildes, e reconheçamos sua soberania ao nos apresentarmos perante Ele.
    Célia Lima.

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  2. Obrigado pelo seu comentário, Célia. Abraço.

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