Cracolândias e Cristolândias


Por Caramuru A. Francisco

Muito destaque teve na mídia a operação iniciada em São Paulo com relação a mais famosa das “cracolândias” do país, situada na região central de São Paulo, no bairro da Luz, onde se buscou retirar as centenas de pessoas que se aglomeram há alguns anos naquela região, consumindo “crack” à luz do dia, num espetáculo deprimente e que revela quanto há de decadência e desintegração em nossa sociedade pós-moderna.

A ação policial ali desencadeada foi aplaudida por alguns, que entendiam que a mesma já deveria ter sido tomada há muito tempo, pois se estava diante de um território livre do tráfico e consumo de drogas que estava destruindo aquela região da capital paulista, que, inclusive, é alvo de ambicioso plano que pretende tornar aquela área como uma nova frente para instalação de centro empresarial.

Já por outros, esta ação foi duramente criticada, por entender que a ação acabou por desarticular as iniciativas que se estavam desenvolvendo na área por organizações não governamentais e segmentos da sociedade, além de não trazer qualquer resultado prático senão a “limpeza” da área para que se executem os planos já mencionados de recuperação da área. Teria sido apenas uma forma de se “resolver” a questão para o início de uma especulação imobiliária.

Não resta dúvida de que a simples operação policial, que se fazia necessária ante a dimensão que havia alcançado o problema, não resolve a questão, até porque, segundo nos informa a mídia, o que se fez foi apenas dispersar as centenas de viciados pela cidade, em novas “cracolândias”, que rapidamente chegarão à mesma dimensão da “cracolândia-mãe” se o Estado voltar a ser inerte e omisso como foi na região da Luz.

No entanto, é também forçoso reconhecer que o Estado, por si só, não tem condições de resolver a questão, ainda que tivesse empenho em internar todos os viciados e submetê-los a tratamento, algo que não ocorre, não passando de mirabolantes e eleitoreiras boas intenções os planos apresentados nos últimos anos pelos governos, em especial o Governo Federal.

Em meio àquela operação, no entanto, sobressaiu uma notícia, mantida à margem pela mídia, a respeito de uma iniciativa bem-sucedida, ainda que modesta, da Primeira Igreja Batista de São Paulo, situada precisamente naquela região, chamada “Cristolândia”, uma iniciativa de evangelização dos “habitantes” da “Cracolândia”, que, inclusive, foi o refúgio encontrado por muitos dos viciados durante as primeiras operações policiais, que foram caracterizadas pelo confronto e uso de violência.

A Folha de São Paulo estampou notícia em que afirmou que “…Usuários de drogas, desgarrados da multidão maltrapilha da cracolândia, fazem filas diariamente em busca de abrigo na porta da Cristolândia, um misto de igreja e centro comunitário, que funciona na região central de São Paulo há quase dois anos. O local virou refúgio após início da operação policial no local.…” (Cristolândia vira refúgio de dependentes após operação da PM. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1033831-cristolandia-vira-refugio-de-dependentes-apos-operacao-da-pm.shtml Acesso em 20 jan. 2012).

Ainda nesta reportagem, foi dito que, em 22 meses, a missão encaminhou para internação cerca de mil usuários.

Em meio a uma indefinição e impotência do Governo, vê-se que o Evangelho continua sendo “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm.1:16). Se o Estado tem sido omisso, o que é condenável, vê-se, claramente que, sozinho, nada também poderá fazer.

É imperioso que a Igreja se conscientize de que é sua a tarefa de arrebatar estas vidas do fogo (Jd.23), levando a Palavra de Deus, a Jesus Cristo a estas pessoas que estão se destruindo com as drogas.

O quadro é ainda mais urgente quando vemos que, segundo a revista Veja, “…um levantamento realizado no ano passado [2011, observação nossa] pela Confederação Nacional dos Municípios em 4.430 das 5.565 cidades brasileiras revelou que o crack é consumido em 91% delas. Cortadores de cana do interior de São Paulo adotaram a droga como ‘energético’. No Vale do Jequitinhonha e no norte de Minas Gerais, ela avança em ritmo de epidemia. Em Brasilândia de Minas, por exemplo, com 14000 habitantes, a prefeitura já mapeou oito minicracolândias. Em Teresina, capital do Piauí, 8000 viciados perambulam pelas ruas. Numa aldeia indígena de Dourados, em Mato Grosso do Sul, 10% das 2000 famílias têm ao menos um viciado em casa. A disseminação do crack não poupou nem a remota Amazônia, onde 86% dos municípios registram o consumo da droga…” (É pior do que parece. Veja, edição 2252, ano 45, n.3, p.67).

Se temos de reclamar da omissão do Estado quanto a este estado, também temos de repensar o que estamos a fazer enquanto Igreja, sabendo, ademais, que o Estado não tem como resolver o problema, mas a Igreja, sim, tem a solução, que é a pregação do Evangelho que liberta estas vidas do vício e do pecado pela fé em Cristo Jesus.

Que temos feito para mudar esta situação? É tempo de abandonarmos o comodismo da religiosidade de entretenimento e voltarmos a evangelizar as vidas que estão perecendo. É tempo de, nas cracolândias que proliferam, abrirmos cristolândias, resgatando vidas não só do vício das drogas, mas também do vício do pecado, encaminhando-as para a Jerusalém celestial.

* Evangelista da Igreja Evangélica Assembleia de Deus – Ministério do Belém – sede e colaborador do Portal Escola Dominical (www.portalebd.org.br).

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