As Bem-Aventuranças no Novo Testamento 2/2

Por Caramuru A. Francisco 


II – AS BEM-AVENTURANÇAS EM ATOS E NAS EPÍSTOLAS

Em Atos dos Apóstolos, só temos uma ocorrência de “bem-aventurança”, a saber, em At.20:35, quando em seu discurso aos crentes de Éfeso, o apóstolo Paulo recorda palavras do Senhor Jesus que não foram registrados em qualquer dos evangelhos, onde o Senhor ensinou que mais bem-aventurada coisa é dar do que receber”.

Nesta bem-aventurança mencionada pelo Senhor Jesus e que o Espírito Santo mandou que Lucas registrasse neste ensino de Paulo aos efésios em Mileto, temos a negação de tudo quanto se vê na “teologia da prosperidade”. O importante não é “receber”, mas, sim, “dar”. Quem dá é bem-aventurado. Quem dá e não retém mostra sua semelhança com o Senhor, que Se deu a si mesmo por nós. Por que, então, diante de tão belo ensino do próprio Cristo, aceitarmos a mentira do “receba, receba” destes falsos ensinadores? Na epístola aos Romanos, o apóstolo Paulo fala de “bem-aventuranças” quando trata da justificação pela fé de Abraão, fazendo alusão às bem-aventuranças do Sl.32:1,2 (mencionadas em Rm.4:7,8), que explica dizendo que “bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça sem as obras” (Rm.4:6), lembrando, ainda, que esta bem-aventurança se deu na incircuncisão (Rm.4:9).

Esta bem-aventurança do Antigo Testamento que é repetida e explicada pelo apóstolo é, também, uma contundente refutação da “teologia da prosperidade”. Com efeito, os “teólogos da prosperidade” com sua falsa “lei da reciprocidade”, fazem a justiça e a salvação depender das obras, o que é totalmente negado pelo texto bíblico em análise. Não podemos prevalecer espiritualmente pelas nossas obras, precisamente para que não nos gloriemos (Ef.2:9).

Lamentavelmente, como foi muito bem afirmado pelo padre católico romano Paulo Ricardo de Azevedo Júnior (Teologia da prosperidade? Disponível em: http://padrepauloricardo.org/audio/49-a-resposta-catolica-teologia-da-prosperidade/ Acesso em 22 dez. 2011), os “teólogos da prosperidade”, estes falsos ensinadores conseguiram perverter a própria razão de ser da Reforma Protestante, pois, assim como os pregadores de indulgência nos dias de Lutero, defendem que se pode “comprar Deus com dinheiro”. O ensino de Paulo em Romanos mostra que a bem-aventurança está na “justiça sem as obras”, que é imputada pelo Senhor a todos quantos creem em Cristo Jesus.

Ainda em Romanos, o apóstolo Paulo nos indica uma outra bem-aventurança, em Rm.14:22, quando afirma que é “bem-aventurado aquele que não condena a si mesmo naquilo que aprova”.

Esta bem-aventurança está vinculada com a questão da liberdade e da caridade, quando o apóstolo nos ensina que não podemos escandalizar os outros irmãos, que não podemos fazer com que os irmãos venham a cair da fé por causa da nossa conduta, ainda que ela seja conforme a Palavra de Deus.

Paulo diz que o crente que se privar de fazer coisas que não são condenadas pela Palavra de Deus apenas com o propósito de não fazer o seu irmão, mais fraco na fé, se escandalizar e cair da fé, é bem-aventurado, pois, embora tenha fé e saiba que o que fizesse não seria pecado, tem o amor suficiente para manter a sua fé intimamente e não dar motivo para levar um irmão à perdição e, por causa disso, condenar a si mesmo naquilo que aprova.

Nesta bem-aventurança notamos, claramente, que temos, uma vez mais, algo diametralmente oposto ao que é ensinado pelos “teólogos da prosperidade”, que não pensam no próximo, nem tampouco no “fraco na fé”, mas que defendem um evangelho egoístico e individualista. Aliás, quantos exemplos temos de pessoas que, após não receberem as “bênçãos” depois de terem feito seus “sacrifícios”, são lançados em rosto por estes falsos ensinadores como “pessoas de pouca fé”, numa insensibilidade que somente perde para a ganância destes ditos cujos. Fujamos disto, amados irmãos!

Em I Co.7:40, o apóstolo Paulo, quando trata da questão dos casamentos, diz que “mais bem-aventurado é o viúvo que não se casa novamente”, conceito que o apóstolo diz ser seu, embora dissesse que tinha o Espírito de Deus. Neste pensamento de Paulo está o fato de ser uma bem-aventurança servir a Deus integralmente, o que não se pode fazer quando se é casado, visto que é preciso servir ao cônjuge, o que diminui o tempo do serviço a Deus.

Apesar de ser um conceito pessoal do apóstolo, o fato é que está registrado nas Escrituras, motivo por que temos de reconhecer que se trata de um texto que tem  autoridade de Palavra de Deus. O apóstolo, porém, não disse que era proibido casar, nem que o serviço a Deus exige o celibato, mas apenas disse que a dedicação integral ao serviço do Senhor após a ocorrência de uma viuvez é uma bem-aventurança.

Em Gl.4:15, o apóstolo Paulo diz aos gálatas que o fato de o terem recebido como um anjo de Deus, como Jesus Cristo mesmo, era uma bem-aventurança, pois aqueles crentes estavam dispostos a arrancar os seus olhos e lhos darem. Vemos, pois, que se trata de uma bem-aventurança o acolhimento dos servos do Senhor, o seu amparo e sustento quando estão a realizar a obra de Deus.

Mais uma vez temos a presença de uma bem-aventurança vinculada ao serviço ao próximo, à dedicação ao próximo, algo bem diverso, contrário mesmo à ganância individualista propalada pela “teologia da prosperidade”.

Em I Tm.1:11, a expressão “bem-aventurado” é aplicada ao próprio Deus, a indicar que as “bem-aventuranças” são atitudes que nos fazem expressar “a imagem e semelhança de Deus”, a corroborar o ensino de Jesus no sermão das bem-aventuranças (veja lição 6), ao mostrar que “bem-aventurados” são os Seus discípulos, aqueles que são filhos de Deus.

Em I Tm.6:15, o apóstolo, novamente, chama de “bem-aventurado” ao Senhor Jesus, “o bem-aventurado e único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores”, a reafirmar que a “bem-aventurança” nos torna “cristãos”, ou seja, “pequenos Cristos”, “parecidos com Cristo”. Deste modo, quando vemos que os “teólogos da prosperidade” nos afugentam destas bem-aventuranças, entendemos que eles querem impedir que nos tornemos cristãos.

Em Tt.2:13, o apóstolo Paulo chama de “bem-aventurada” a esperança que tem o salvo da volta de Jesus, texto que corrobora o ensino do próprio Jesus que disse que aguardar a Sua vinda, ser vigilante é ser bem-aventurado. Ao revés, em I Co.15:19, o apóstolo chama de “os mais miseráveis de todos os homens” os que esperam Jesus somente nesta vida, que é, precisamente, a situação dos que adotam a “teologia da prosperidade”. Qual é a sua situação, amado(a) irmão(ã)?

A epístola de Tiago, apesar de breve, tem três referências sobre bem-aventuranças. A primeira delas, em Tg.1:12, diz que “bem-aventurado o varão que sofre a tentação; porque, quando provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que O amam”.

Esta bem-aventurança mostra, claramente, que, ao invés do “pare de sofrer” dos “teólogos da prosperidade”, o Senhor não só diz que os crentes sofrerão nesta vida, como também que, se suportarem as provas, receberão a coroa da vida como recompensa, galardão este que não é desta vida, mas na vida do além. Como isto é totalmente diferente do que falam estes falsos ensinadores…

Em Tg.1:25, temos a segunda bem-aventurança desta epístola, qual seja, a “bem-aventurança do cumpridor da Palavra de Deus”. O irmão do Senhor diz que quem atenta bem para a lei perfeita da liberdade e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecido mas fazedor da obra, é bem-aventurado no seu feito.

Tiago, ao aludir a esta bem-aventurança, faz coro a textos do Antigo Testamento que confirmam que quem guarda e pratica as Escrituras é bem-aventurado. Não podemos, para alcançar a felicidade eterna, fugir do que estatui a Bíblia Sagrada, nossa única regra de fé e prática.

Os “teólogos da prosperidade”, contudo, arvoram-se em “visões”, “revelações” e “deduções” completamente alheias às Escrituras, com as quais Deus não tem qualquer compromisso e, por causa disso, desencaminham milhões de vida. Não os ouçamos, mas demos ouvidos ao Senhor e, em fazendo o que Ele manda, seremos bem-aventurados!

A terceira bem-aventurança de Tiago está em Tg.5:11, onde, praticamente, temos uma repetição da primeira bem-aventurança, pois o irmão do Senhor diz que “eis que temos por bem-aventurados os que sofreram”. Mais uma vez, é mostrado que o sofrimento é uma bem-aventurança. Se, na primeira bem-aventurança, está enfatizado o fato de que suportar a prova é fonte de felicidade, aqui se tem que o sofrimento em si mesmo já é uma bem-aventurança.

Para confirmar isto, Tiago traz o exemplo de Jó e confirma que a paciência deste patriarca foi fundamental para que a misericórdia e piedade divinas mudasse a situação daquele homem. Esta bem-aventurança é outra refutação dos falsos ensinos da “teologia da prosperidade”, visto que Jó sofreu sem ter pecado e aceitou o sofrimento humildemente e reside aí a sua bem-aventurança, diz-nos o irmão do Senhor. Enquanto isso, os “teólogos da prosperidade” ficam a ensinar o povo a “não aceitar” as provações, as dificuldades…

O apóstolo Pedro corrobora este pensamento pois, em sua primeira carta, traz-nos bem-aventurança bem similar. Diz o apóstolo que “se padecerdes por amor da justiça, sois bem-aventurados” (I Pe.3:14a). O apóstolo aqui nada mais, nada menos que repete uma das bem-aventuranças do sermão de Cristo, ao dizer que são bem-aventurados aqueles que forem ofendidos por causa da justiça, por causa do Senhor Jesus.

Ainda se referindo a este ponto, o apóstolo, em I Pe.4:14, diz mais, a saber: “Se, pelo nome de Cristo, sois vituperados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória de Deus”. Ser vituperado, i.e., desprezado, insultado, aviltado por causa do nome de Cristo é uma bem-aventurança, como o apóstolo uma vez mais lembra, repetindo as palavras do Senhor Jesus seja no sermão do monte (Mt.5:11,12), seja no sermão da planície (Lc.6:22).

Como, pois, insistem os “teólogos da prosperidade” numa falsa ideia de que o evangelho nos leva a um mundo de “sombra e água fresca”, de uma suposta “imunidade contra doenças, problemas e sofrimentos”?

Ao propagandear este “mar de rosas”, os “teólogos da prosperidade” estão a querer transformar seus seguidores em “falsos profetas”, pois é àqueles que o mundo aplaude e diz bem, como nos ensina o próprio Jesus em Lc.6:26.

Como podemos observar, pois, em momento algum, ao longo desta análise, temos qualquer bem-aventurança vinculada à posse de bens materiais ou a uma vida regalada nesta Terra. Por isso, em toda a Bíblia, vemos que não tem respaldo algum este ensino falso e que tanto mal tem causado aos crentes. Fiquemos com a Palavra de Deus, amados irmãos!

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